Parte II: Família, violência e justiça no centro-sul da América portuguesa
2.4. Exércitos de pretos, mulatos e carijós
2.4.3. Sangue e política
Em seu estudo clássico sobre a sociedade açucareira da Bahia, Stuart Schwartz faz observações interessantes sobre o comportamento dos grandes senhores do recôncavo. Segundo o historiador americano foram comuns embates violentos entre os senhores
Célia Nonata. Territórios de mando: banditismo em Minas Gerais, século XVIII. Belo Horizonte: Crisálida, 2007; GIL, Tiago Luís. Infiéis transgressores: elites e contrabandistas na fronteira do Rio Grande e do
Rio Pardo (1760-1810). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007; GOMES, José Eudes. Um escandaloso theatro de horrores: a capitania do Ceará sob o espectro da violência. Fortaleza: Impressa Universitária,
2010 e COSTA, Ana Paula Pereira. Armar escravos em Minas colonial: potentados locais e suas práticas
de reprodução social na primeira metade do século XVIII. Vila Rica, 1711-1750. Tese de Doutorado, Rio
de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010. Apesar de todas as obras referidas trabalharem exclusivamente com o século XVIII, acreditamos que a premissa subjacente a todos de que os potentados eram articulados politicamente aos centros urbanos também é válida para o seiscentos.
225 MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. São Paulo: Editora 34, 2007, p. 193.
226 Ibidem, pp. 199-200. Com a expulsão dos neerlandeses lideranças negras e indígenas que destacaram- se nas guerras buscaram mercês e honras que deram origem a polêmicos processos de nobilitação. Cf. RAMINELLI, Ronald. Nobrezas do Novo Mundo: Brasil e ultramar hispânico, séculos XVII e XVIII. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015, pp.133-206.
baianos, e mais raros com funcionários do governo metropolitano. Disputas pessoais, pela posse de terras, acesso a água, sucessão de bens, cargos administrativos e militares frequentemente resultavam em emboscadas e assassinatos que ele caracteriza como “endêmicos e sistemáticos” em Salvador e suas redondezas.227
Em Pernambuco ocorreu um cenário crítico na segunda metade do XVII sem precedentes até então. Com o fim do domínio da WIC, a capitania viveu um período de desorganização social, política e econômica agravado com as guerras em Palmares e contra índios bravios no sertão (conhecida como Guerra dos Bárbaros). Nesse ambiente, espancamentos e assassinatos encomendados pelos poderosos locais foram frequentes, Evaldo Cabral de Mello, considera que nesse período o uso de formas violentas de coação de rivais foram “práticas ampla e tacitamente aceitas”.228
A maior parte desses crimes eram obviamente cometidos por capangas mestiços e escravos. No Rio de Janeiro, no mesmo período, escravos de Martim Correia Vasques, primo de Salvador de Sá, atacavam currais pertencentes à Companhia de Jesus. Mais ao norte da capitania, o visconde de Asseca, reprimia violentamente moradores e pequenos proprietários de terra em São Salvador dos Campos dos Goytacazes após o recebimento da vasta sesmaria que deu origem à capitania donatária da Paraíba do Sul em 1674.229
Espalhado por todo o espaço da conquista, o uso da coação física como elemento de intervenção na política foi comum às diferentes elites radicadas no Brasil. Schwartz reconhece que os poderosos baianos preferiam a ação direta do que recorrer aos tribunais coloniais por três motivos diferentes. O alto custo dos processos, a morosidade da justiça e possíveis parcialidades dos magistrados, por vezes influenciados e pressionados por interesses particulares.230 Assim, os confrontos diretos surgiam como um meio mais
rápido e barato de desmontar clientelas rivais e eliminar inimigos igualmente poderosos que eventualmente obstruíssem seus projetos de poder.
227 SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos..., p. 235.
228 MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos: nobres contra mascates, Pernambuco, 1666-1715. São Paulo: Editora 34, 2003, p. 101.
229 FRAGOSO, João. À espera das frotas..., p. 105. Sobre o segundo assunto ver também: cf. MOTTA, Márcia Maria. “Justice and violence in the lands of the Assecas (Rio de Janeiro, 1729-1745)”. In: Historia
Agraria. Murcia, n. 58, 2012, pp. 13-37.
230 SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos..., p. 236. A mesma conclusão está em: cf. Idem. Burocracia e
Podemos depreender que o uso da violência, principalmente por meio de agregados e escravos, foi parte constituinte do jogo político praticado pelas elites brasílicas. Nisso o assassinato do provedor e o assalto aos engenhos do recôncavo da Guanabara com índios flecheiros são indícios reveladores da práticas utilizadas pelos Amaral Gurgel num momento de acirramento das lutas políticas no interior da sociedade fluminense.231
Não pretendemos porém, generalizar essa observação para níveis extremos de fraqueza da Coroa em combater essas práticas. Os ouvidores e governadores que atuaram no Rio de Janeiro depois de 1687, tentaram de maneiras distintas esquadrinhar os motivos e os envolvidos no assassinato, bem como prender e enviar os culpados para julgamento. Ainda seguindo as interpretações de Stuart Schwartz, apesar de certas vezes engalfinhados em questões locais, os juízes mantinham a convicção de sua posição de defensores dos interesses régios, de onde em última instância, era legitimado e viabilizado o seu poder.232
Conjunturas de desorganização administrativa como o início da ocupação do território de Minas Gerais são momentos privilegiados para a análise de relações de violência interpessoal, como mostram os trabalhos pioneiros de Carla Maria Junho Anastasia. Rivalidades entre grupos com origens e interesses distintos também deflagram conflitos que passam do campo institucional para emboscadas e até motins. O casos mais notáveis ocorrem logo no início do século XVIII, com a Guerra dos Emboabas e a Guerra dos Mascates.
De toda forma, como procuramos demonstrar, o homicídio contra Pedro de Sousa Pereira, do qual a parentela Amaral Gurgel foi responsável, foi o resultado da conjunção de fatores políticos e econômicos relacionados diretamente ao exercício do poder no Rio de Janeiro por facções rivais na concorrência pela governança local. Sublinhar a violência em uma sociedade escravista como afirma Evaldo Cabral de Mello é “tautológico”,233
mas permanece interessante pensar como tais elementos deram forma a uma cultura política em que a força será utilizada em situações onde formas de negociação ou embates dentro das instituições coloniais falham.
231 FRAGOSO, João. À espera das frotas..., p. 106.
232 SCHWARTZ, Stuart. Burocracia e sociedade no Brasil colonial..., pp. 134. 233 MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos..., p. 101.
Esse será um ponto que perpassará os próximos capítulos. A morte de Pedro de Sousa Pereira, não vai encerrar os conflitos violentos nos quais os Amaral Gurgel envolveram-se com outras famílias senhoriais. De maneira intercalada com valiosos serviços prestados à monarquia; Francisco do Amaral, Bento do Amaral e Cláudio do Amaral serão acusados de crimes de diversas origens e mortes de outros cidadãos ilustres. Por traz de todos os exemplos, tensões inerentes ao desenvolvimento econômico do centro-sul e clivagens entre facções que rivalizam a política local serão as forças explicativas que tentaremos recuperar nas ações do potentado.
Capítulo 3
Rebeldes do sertão, defensores da costa: os Amaral Gurgel na conjuntura crítica centro-sul do Estado do Brasil
Que maravilha pois, que sendo o ouro tão formoso, e tão precioso metal, tão útil para o comércio humano, e tão digno de se empregar nos vasos e ornamentos dos templos para o culto divino; seja pela insaciável cobiça dos homens, contínuo instrumento, e causa de muitos danos?
André João Antonil1
Este capítulo tem como objetivo examinar a inserção dos Amaral Gurgel nas minas dos Cataguases logo após o início da extração do ouro e nas invasões de Duclerc e Duguay- Trouin na cidade do Rio de Janeiro. Esse novo cenário da América portuguesa inaugurou um momento delicado para a Coroa portuguesa na organização e manutenção do Estado do Brasil e em especial do centro-sul.