5. Negócio jurídico processual Primeira aproximação
5.3. A aceitação doutrinária
5.3.2. O negócio processual na doutrina brasileira
No Brasil, curiosamente, o entusiasmo na aceitação dogmática da figura do negócio jurídico processual acabou chegando de onde pouco se poderia esperar. Foi justamente no seio da ciência do Direito Processual Penal que TORNAGHI593 buscou difundir, com vigor, a
categoria que chegou ao ponto de ser expressamente consagrada no texto do anteprojeto de Código de Processo Penal por ele elaborado, como também ali mesmo definido594.
A doutrina brasileira, no âmbito do Direito Processual Civil, ou da Teoria Geral do Processo, quando não recusou valor à figura (já se fez referência aos autores brasileiros que recusaram valor ao conceito de negócio processual), simplesmente silenciou sobre o problema, salvo algumas exceções.
589 SILVA, Paula Costa e. Acto e Processo – o dogma da irrelevância da vontade na interpretação e nos vícios do acto postulativo. Coimbra: Coimbra, 2003, p. 172-173.
590 ALSINA, Hugo. Tratado Teorico Pratico de Derecho Procesal Civil, I. 2. ed. Buenos Aires: Ediar, 1956, p. 608.
591 ECHANDÍA, Devis. Teoría General del Proceso. 3. ed. Buenos Aires: Universidad, 2004, p. 379. 592
VÉSCOVI, Enrique. Teoría General del Proceso. 2. ed. Bogotá: Temis, 2006, p. 217.
593 Segundo ele, “São negócios processuais as manifestações de vontade de que a lei faz depender a eficácia técnica ou o valor jurídico do processo, ex: o perdão, a retratação.” (TORNAGHI, Hélio. Comentários ao Código de Processo Penal. Rio de Janeiro: Revista Forense, 1956, p. 16, v. I, t. 1º.).
594
Constava do texto do Anteprojeto de Código de Processo Penal elaborado por TORNAGHI: “Art. 180. Negócio jurídico processual é toda manifestação de vontade de que resulta conseqüência relevante para o processo.”
PONTES DE MIRAMDA595,ainda sob a vigência do Código de Processo Civil de 1939, via a desistência da ação como um negócio jurídico, mas não houve preocupação de sua parte em sistematizar o estudo dos negócios jurídicos processuais. Já MACHADO GUIMARÃES596, também sob a égide do Código revogado, via como negócios as declarações de vontade emitidas pelas partes que produzissem efeitos processuais por elas visados. LOPES DA
COSTA597 dividia os fatos do processo em fatos, atos e negócios processuais, os últimos entendidos como aqueles pelos quais as partes alcançam direta e imediatamente os efeitos visados. GABRIEL REZENDE FILHO598 considerou negócios processuais as manifeatações de
vontade, formuladas dentro do processo, visando modificar, dilatar ou extinguir a relação processual.
Com o advento do Código de 1973, apesar de a redação do art. 158 favorecer amplamente a discussão, a matéria parece não ter sido suficientemente debatida. As referências à categoria do negócio processual muitas vezes são feitas de forma tópica e ocasional, sem maiores justificativas. MOACYR AMARAL SANTOS599-600, v.g., considerava a
suspensão convencional do processo (CPC-1973, art. 265, II) um ato com natureza de negócio jurídico processual. NELSON NERY JUNIOR601 considera a desistência do recurso como um
negócio jurídico de disponibilidade do poder de recorrer. ARAKEN DE ASSIS602, por seu turno, vê na adjudicação do procedimento executivo um negócio jurídico. CARREIRA ALVIM603, por
sua vez, aceita a noção geral de negócio jurídico processual, seguindo a definição de LOPES DA COSTA.
595 MIRANDA, Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, III. 2. ed. Rio de Janeiro: Revista Forense, 1958, p. 261. Posteriormente, agora sob a vigência do CPC-1973, PONTES DE MIRANDA não se ocupou de elaborar uma sistematização do negócio processual, embora admitisse, topicamente, a existência de negócios jurídicos na desistência do recurso (MIRANDA, Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, VII. Rio de Janeiro: Forense, 1975, p. 103) e na arrematação do processo de execução (MIRANDA, Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, X. Rio de Janeiro: Forense, 1976, p. 348-360).
596 GUIMARÃES, Luiz Machado. Ato Processual (verbete). In: SANTOS, J. M. de Carvalho; DIAS, José de Aguiar. Repositório Enciclopédico do Direito Brasileiro. Rio de Janeiro: Borsoi, s/a, p. 87, v. V.
597 COSTA, A. Lopes da. Manual Elementar de Direito Processual Civil. Atualizado por Sálvio de Figueiredo Teixeira. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1982, p. 126.
598 REZENDE FILHO, Gabriel. Curso de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva, 1963, p. 7, v. II. No mesmo sentido: MARQUES, José Frederico. Instituições de Direito Processual Civil, II. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1971, p. 259
599
SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 477, v. 3.
600 No mesmo sentido: FUX, Luiz. Curso de Direito Processual Civil. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 419, v. I; MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART; Sérgio Cruz. Manual do Processo de Conhecimento. 4. ed. São Paulo: RT, 2005, p.193.
601 NERY JUNIOR, Nelson. Princípios Fundamentais – Teoria Geral dos Recursos. 4. ed. São Paulo: RT, 1997, p. 329. No mesmo sentido, falando da renúncia ao recurso: JORGE, Flávio Cheim. Teoria Geral dos Recursos Cíveis. 3. ed. São Paulo: RT, 2007, p. 114.
602
ASSIS, Araken de. Manual da Execução. 11. ed. São Paulo: RT, 2007, p. 720.
LAURIA TUCCI604examinou o tema, afirmando que o conceito de negócio jurídico processual, no direito brasileiro, estaria expresso no art. 158 do CPC-1973. Para ele, a transação e o reconhecimento do pedido não seriam negócios processuais, por estarem ligados à relação litigiosa e não ao processo. Já a desistência da ação seria típico negócio processual, unilateral ou bilateral, conforme dependesse ou não da manifestação do réu (CPC-1973, art. 267, § 4º), hipótese em que o consentimento do demandado também poderia se dar por omissão.
Mais recentemente, VECHIATO JUNIOR afirmou que os atos bilaterais praticados no
processo, como a transação, são negócios processuais, assim como o são os atos unilaterias como a desistência da ação, embora dependente de homologação605.
Entre os poucos que examinaram o problema de forma sistemática, está VITIRITTO.
Para ele, negócio jurídico processual é o resultante de declaração dispositiva de vontade da parte, ou das partes, com o fim de constituir, modificar ou extinguir a relação processual606.
BARBOSA MOREIRA607 examinou, com minúcias, o problema dos negócios
processuais celebrados pelas partes, em matéria processual, embora preferisse adotar outra nomenclatura (“convenções processuais”), fornecendo conclusões interessantes a respeito do regime jurídico aplicável às convenções realizadas fora do procedimento (v.g. pacto sobre distribuição do ônus da prova).
Já LEONARDO GRECO cuidou do tema, em importante estudo, apesar de preferir a
locução “atos de disposição processual”, que são entendidos como os atos praticados no curso do processo ou para nele produzirem efeitos, a dispor sobre questões processuais, subtraindo- as da apreciação judicial ou condicionando o conteúdo de decisões judiciais subsequentes. Os atos de disposição representariam um espaço de autonomia da vontade das partes, que encontrariam limites (a) na disponibilidade do próprio direito material posto em juízo, (b) no respeito ao equilíbrio das partes e na paridade de armas e (c) na observância dos princípios e garantias fundamentais do processo608.
604 TUCCI, Rogério Lauria. Negócio jurídico processual. In: Enciclopédia Saraiva do Direito. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 191, v. 54.
605 VECHIATO JUNIOR, Walter. Direito Processual Civil – Atos Processuais. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, p. 41.
606 VITIRITTO, Benedito Mário. Reflexões sobre o Negócio Jurídico Processual. In: O Julgamento Antecipado da Lide e Outros Estudos. Belo Horizonte: Lemi, s/a, p. 112.
607 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Convenções das Partes sobre Matéria Processual. In: Temas de Direito Processual, terceira série. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 89 e segs.
608 GRECO, Leonardo. Os atos de disposição processual – Primeiras reflexões. In: MEDINA, José Miguel Garcia et al. (coords.). Os Poderes do Juiz e Controle das Decisões Judiciais – Estudos em Homenagem à Professora Teresa Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2008, p. 290-292.
Ultimamente, quem se ocupou com mais detença do problema do conceito e da admissão da figura do negócio processual no direito brasileiro foram: OTÁVIO LUIZ
RODRIGUES JUNIOR609, PAULA SARNO BRAGA610, BERNARDO LIMA611 e FREDIE DIDIER JR.612.