• Nenhum resultado encontrado

Os limites do autorregramento da vontade no processo e o formalismo processual

processo. Aqui não buscaremos discutir como a doutrina no direito privado vem encarando a problemática das limitações ao exercício da autonomia privada640. Interessa-nos a análise limitada ao direito processual.

O espaço para o exercício do autorregramento da vontade é aquele deixado pelas normas cogentes641. No plano processual, os limites dessa autonomia são demarcados pelas normas processuais cuja aplicação seja inafastável pelos interessados.

É tradicional a contraposição entre normas cogentes e normas dispositivas. As normas do primeiro tipo são as que impõem ou proíbem comportamentos, determinando que se faça ou não faça, sem deixar margem à vontade dos destinatários. As do segundo tipo são as que determinam algo quando os interessados não se autorregraram; o direito deixa certa margem de atuação para que os destinatários livremente estipulem o vínculo que os irá reger. Quando falta essa estipulação, vem a regra dispositiva, entendida como a regra que incide se o suporte fático não se compôs com vontade dos destinatários642.

Os negócios processuais esbarram nas regras cogentes processuais. Por conseguinte, o espaço de autonomia para o autorregramento da vontade nesse setor do

640 Para uma resenha sobre as principais vertentes em torno dos limites da autonomia privada no direito civil, com amplas referências da doutirna germânica, portuguesa e italiana, conferir: ALMEIDA, Carlos Ferreira de. Texto e Enunciado na Teoria do Negócio Jurídico. Coimbra: Almedina, 1992, p. 25 e segs. , v. I.

641 MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico (Plano da Existência). 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 162.

642

MIRANDA, Pontes de. Comentários à Constituição de 1967 com a emenda n. 1, de 1969, I. 2. ed. São Paulo: RT, 1973, p. 124.

ordenamento jurídico acaba sendo significativamente reduzido, embora, ao menos no direito brasileiro, exista.

LEONARDO GRECO, examinando a autonomia da vontade no tocante aos atos processuais dispositivos, apresenta três limites: i) a disponibilidade do próprio direito material posto em juízo; ii) o respeito ao equilíbrio das partes e na paridade de armas; iii) a observância das normas fundamentais do processo643.

Quanto à questão da disponibilidade do direito material posto em juízo, é preciso ponderar ser, ao menos em tese, possível cogitar de negócios processuais mesmo quando o litígio verse sobre direitos indisponíveis, pois à base do negócio estão situações jurídicas processuais. A disposição de um poder processual não resulta automaticamente a disposição da situação jurídica substancial posta em litígio.

Como o nosso propósito é examinar quais seriam os limites para os negócios processuais como gênero (LEONARDO GRECO cogitou dos limites em relação aos atos

dispositivos das partes), preferimos considerar ser indiferente ao autorregramento da vontade no processo a disponibilidade ou não do direito subjetivo substancial objeto do litígio.

O segundo limite seria a observância do princípio da paridade de armas. Isto significa que as partes não poderiam praticar atos de disposição (negócios processuais, diríamos aqui) que gerassem uma situação concreta de inferioridade de uma parte em relação a outra, cabendo, nesse caso, a intervenção judicial para limitar o poder de disposição de modo a estabelecer ou restabelecer a igualdade concreta e não apenas formal644.

Já o terceiro limite significaria a observância dos princípios e garantias fundamentais do processo, por LEONARDO GRECO denominada de “ordem pública processual”, a abarcar o respeito aos direitos fundamentais e os princípios do devido processo legal, quando indisponíveis pelas partes, abrangendo-se aí diversos subprincípios como, mas não só, procedimento previsível eqüitativo, contraditório e público, iniciativa das partes, congruência etc.645

A rigor, a observância da paridade de armas, embora nos pareça ser um autêntico limite ao autorregramento da vontade processual, é perfeitamente compatível com o terceiro

643 GRECO, Leonardo. Os atos de disposição processual – Primeiras reflexões. In: MEDINA, José Miguel Garcia et al. (coords.). Os Poderes do Juiz e o Controle das Decisões Judiciais – Estudos em Homenagem à Professora Teresa Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2008, p. 290-292.

644

GRECO, Leonardo. Os atos de disposição processual – Primeiras reflexões. In: MEDINA, José Miguel Garcia et al. (coords.). Os Poderes do Juiz e o Controle das Decisões Judiciais – Estudos em Homenagem à Professora Teresa Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2008, p. 293.

645 GRECO, Leonardo. Os atos de disposição processual – Primeiras reflexões. In: MEDINA, José Miguel Garcia et al. (coords.). Os Poderes do Juiz e o Controle das Decisões Judiciais – Estudos em Homenagem à Professora Teresa Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2008, p. 293.

limite proposto por GRECO (observância das garantias processuais em sentido amplo), já que se trata de um corolário do devido processo legal.

Por razões de sistematização, preferimos considerar aqui que os limites para o exercício do autorregramento da vontade se encontram no respeito ao formalismo processual. Trata-se de noção ampla, a abranger a “totalidade formal” do processo, no que se inserem não somente as formalidades, mas a delimitação dos poderes, faculdades e deveres dos sujeitos processuais, a organização do procedimento a fim de que suas finalidades essenciais sejam alcançadas646.

A vantagem de sintetizar os limites ao autorregramento da vontade na categoria ampla e abrangente do “formalismo processual” está em que, a partir dela, se torna facilmente destacável a série de normas (lato sensu), a abranger não só os princípios (v.g. princípio dispositivo e subprincípios, direito de defesa, juiz natural, publicidade, submissão do juiz à lei, livre convencimento etc.) formadores do chamado “estatuto básico processual”647, mas também as regras, ordenadoras da atividade processual648.

Através do formalismo processual, como demonstram DANIEL MITIDIERO e

CARLOS ALBERTO ALVARO DE OLIVEIRA, busca-se

[...] estabelecer o âmbito da atividade do órgão judicial e das partes, tanto no terreno dos fatos quanto do direito, regulando poderes, deveres, faculdades e ônus das partes, bem como os poderes e deveres do órgão judicial, e ordenar a seqüência dos atos do procedimento, com observância dos valores e princípios fundamentais do processo civil, especialmente de origem constitucional.649

De acordo com CARLOS ALBERTO ALVARO DE OLIVEIRA, o formalismo tem dupla faceta: no plano normativo, impõe uma equilibrada distribuição de poderes entre as partes; no plano do fato, isto é, do desenvolvimento do procedimento, reclama o exercício de poderes pelo sujeito, de modo a que sempre fique garantido o exercício dos poderes do outro650-651.

646

OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Do Formalismo no Processo Civil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 6-7. Adotando também essa noção de formalismo processual: MITIDIERO, Daniel. Colaboração no Processo Civil – Pressupostos sociais, lógicos e éticos. São Paulo: RT, 2009, p. 24, nota 9; DIDIER JR., Fredie. Pressupostos Processuais e Condições da Ação – o juízo de admissibilidade do processo. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 165.

647 OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Do Formalismo no Processo Civil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 77.

648 F

REDIE DIDIER JR. coloca o respeito ao formalismo processual, no sentido aqui exposto, como um requisito objetivo intrínseco de validade do procedimento (DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil. 12. ed. Salvador: Juspodivm, 2010, p. 241, v. 1.).

649 MITIDIERO, Daniel; OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Curso de Processo Civil. São Paulo: Atlas, 2010, p. 18, v. 1.

650

OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Do Formalismo no Processo Civil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 9.

Assim, pode-se compreender que o formalismo processual constitui o limite para o exercício da autonomia ou do autorregramento da vontade, quer o exercício se dê durante o procedimento, quer se dê antes de seu surgimento, mas que nele produza consequências.