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1406.2 Impressões Gerais

6.3 O ofício do pintor de letras em Pernambuco

6.3.1 O processo de formação

Ao observar a amostragem de pintores entrevistados ao longo do projeto, notamos que se trata de profissionais bastante experientes, que trabalham há bastante tempo no ramo. No entanto, percebemos que, em geral, o processo de aprendizado destes artífices foi construído de forma bastante intuitiva, pois em sua maioria adquiriram conhecimento na área pelo sis- tema de autodidatismo ou mestre-aprendiz.

O pintor Laércio, por exemplo, ressalta esse aspecto em sua fala:

Eu aprendi a fazer cartazes na época que eu trabalhava no Bompreço. Eu comecei a treinar lá. Eu trabalhava em outra área, em outra função, mas na loja eu comecei a aprimorar. Eu aprendi só olhando assim, e fui pegando... ele (o cartazista) saía para o horário de almoço e aí eu pegava o material lá…

Laércio | Recife

Assim, notamos que a figura do mestre é bastante forte no processo de aprendizado deste ofício: seja de forma passiva, como uma figura inspiradora e referência cujo trabalho é obser- vado - como detalhado acima, no caso do pintor Laércio —, seja de forma ativa, no papel de formador de novos profissionais — como no caso do mestre Freq, de Caruaru, que iniciou o pintor Marcos na carreira como seu auxiliar-aprendiz.

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A formação inicial ou especialização complementar por meio de cursos específicos na área é bastante rara entre aqueles que compõem esta classe, fazendo um contraponto de certa forma, com a prática da profissão nos Estados Unidos, onde existem cursos especializados em “sign painting” (LEVINE & MACON, 2013).

No grupo de pintores entrevistados, apenas três passaram por formação técnica em algum curso da área ou de áreas afins. O pintor Carioca, por exemplo, teve oportunidade de se espe- cializar na área de artes plásticas. Na Escola Panamericana de Artes, em São Paulo, foi con- templado com uma bolsa ainda jovem e, no Rio de Janeiro, formou-se em Artes Plásticas na Escola de Belas Artes. Mais adiante, Carioca também atuou na área de ensino como instrutor do curso de Desenho e Serigrafia do Senac - Recife. Seu Zé Moura, de Petrolina, também fez um curso de aperfeiçoamento no Senai em uma área correlata, a Pintura de Automóveis. Por fim, Ely Natividade fez o curso de Desenho Artístico e Publicitário por correspondência no Ins- tituto Universal Brasileiro - IUB. Durante sua entrevista, ele nos contou um pouco mais sobre seu processo de formação:

Passei seis anos nas Casas Pernambucanas fazendo cartaz; então daí foi um pulo, um salto que eu dei para entrar na área de vitrine e pintar para-brisa de carro. (...) Na época em que as Casas Pernambucanas faliu então eu fiquei desempregado, aí eu fazia uns cartazes ali para a rodoviária, aquelas tabelas de preço. Aí eu fiquei curioso e procurei pintar, fazer um teste numa loja de carro na Caxangá. O primeiro carro que eu pintei foi uma Kombi 95. Ele gostou e disse ‘faça os outros carros, e tem mais duas lojas para você pintar. Aí eu comecei a pegar o gosto para pintar para-brisas de carro. (...)

Eu fui aprendendo (os estilos de letras) com o curso que eu fiz de Desenho Artístico e Publi- citário do Instituto Universal Brasileiro; e também quem tem assim o dom, quem tem condi- ções, talento para fazer esse tipo de coisa, na verdade não precisa estudar, na minha opinião, porque isso aí são pinturas artesanais. Não precisa de régua. (...) Tem que ter prática.

Ely Natividade | Recife

A questão do “dom” natural, citada acima na fala de Ely, também é outro ponto bastante in- teressante. Ao conversar com os artífices, muitos deles mencionam que, desde pequenos ou jovens, já tinham o “dom” para as artes. O pintor Carioca, por exemplo, observa que nasceu com facilidade para pintar letras e reforça que não existem métodos específicos para apren- der artes, ou a pessoa “nasce sabendo” ou não. Essa vocação natural para a pintura como um presente de nascença é uma crença comum entre os profissionais do ramo.

Quanto ao segmento de atuação, observamos que a grande maioria dos pintores é bastante versátil e trabalha com gêneros e suportes diversos. Em geral, o artífice que pinta faixas, também elabora banners, placas e fachadas. Por outro lado, há alguns casos de “superes-

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pecialistas”, como os pintores que trabalham exclusivamente com cartazes (cartazistas) ou com vitrines e para-brisas de carros. Podemos observar alguns gêneros de artefatos comuns registrados durante a pesquisa de campo na Figura 106.

Figura 106. Alguns gêneros comuns de artefatos (da esquerda para a direita, de cima para baixo): placa, fachada, mural, carrinho, cavalete, cartaz/cartazete. (Fonte: acervo pesquisa)

Por fim, ao questionarmos os artífices acerca do nome de seu ofício, os nomes mais popula- res empregados por eles foram: artista plástico, pintor, pintor artístico e publicitário, letrista, pintor letrista, cartazista. Na tabela da página seguinte, resumimos as informações gerais sobre cada pintor entrevistado (Figura107).

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Figura 107. Informações gerais sobre os pintores entrevistados. (Fonte: autora)

6.3.2 O processo criativo

Para entender o processo criativo dos pintores de letras de Pernambuco observamos alguns aspectos ao longo das entrevistas e visitas ao seu local de trabalho: o processo de concepção de um layout, suas referências criativas e seus estilos tipográficos preferenciais.

Finizola et al. (2013) observam que as referências visuais utilizadas pelos pintores de letras são bastante diversas. Cabe destacar, no entanto, dois parâmetros principais que norteiam o processo de concepção de um layout: a cópia e a livre criação. No primeiro caso, o cliente solicita o serviço ao pintor de letras munido de um layout impresso já preestabelecido e solicita a sua

INFORMAÇÕES GERAIS · pintores de letras

Autodidata

Pintor Experiência Formação

Cartazes

Especialidade atual

Aprendiz / Curso IUB Vitrines e para-brisas Placas, faixas, banners, murais

Placas, faixas, cartazes, displays

Placas, faixas Placas, faixas, murais

Placas, faixas, murais, fachadas, objetos em geral

Placas, faixas, murais, fachadas, cartazes

Placas, faixas e fachadas Lameiras Placas Murais Autodidata Aprendiz Autodidata Autodidata Aprendiz Aprendiz Autodidata Autodidata / Curso pintura automotiva Autodidata

Autodidata / Curso Belas Artes Laércio Ely Natividade Carlinhos Pintor Marcos Carlos Freq Sebastião Java Genivaldo Zé Moura Moisés Carioca

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reprodução. O processo de cópia pode ser total ou parcial, como, por exemplo, no caso da re- produção apenas do logotipo de uma empresa e o restante do layout ser elaborado pelo pintor. Na segunda situação, o cliente discute com o pintor apenas o conteúdo de texto que deve figurar na peça e, em alguns casos, faz um pequeno esboço esquemático do layout a ser de- senvolvido. No entanto, como observam Finizola et al. (2013), a visualização final do produto se dá na imaginação do artífice e vai tomando forma ou se adaptando durante a elaboração do próprio artefato (FINIZOLA et al. 2013).

Em entrevista, o pintor Genivaldo de Petrolina, reforça em sua fala essa ideia da criação como um ato “de momento”:

As criações é tudo do momento. Você cria tudo em cima do que você está fazendo. A técnica é essa. Você improvisa de acordo com o que você vai achando. Você vai olhando se o cartaz está bonito ou não e você vai embelezando o cartaz, até que realmente fique um cartaz dinâmico, bonito, bem apresentado. Esse é o lance.

Genivaldo Bispo | Petrolina

Quanto às referências visuais utilizadas como inspiração para o trabalho diário, Finizola et al (2013) também apontam dois caminhos principais: as referências remotas e as referências imediatas. As referências remotas se tratam do background visual que o pintor vai acumu- lando na memória ao longo da sua prática profissional, como o trabalho de outros pintores de letras com quem aprendeu o ofício. Já as referências imediatas são aquelas que o pintor têm à mão no momento da elaboração do seu layout.

Entre as referências imediatas, destacamos, por exemplo, o layout apresentado pelo cliente, recortes de revistas, catálogos com estilos de letras e em casos mais raros referências da In- ternet (Figura 108). No atelier de Seu Sebastião, encontramos inúmeras pastas onde o pintor arquiva recortes de tipografias interessantes que encontra em revistas. Já na oficina do pintor Carlinhos de Gravatá, localizamos alguns manuais de Desenho de Letras da Editora Ediouro. Java, o pintor mais jovem do grupo, já acessa a Internet para pesquisar referências visuais interessantes.

É importante notar, no entanto, que, com a prática, alguns pintores internalizam muitos des- tes modelos tipográficos, e aos poucos algumas referências imediatas podem se tornar re- motas, como destaca o pintor Carlinhos em sua fala:

Eu tenho livros de letras há mais de dez anos, mas normalmente eu não uso. (...) Eu peço que as pessoas me digam a letra que ela quer; se for fazer pelo nome da letra, eu só conheço a “gótica”, foi quando eu comecei a fazer diplomas de professor e vereador.

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Figura 108. Algumas referências visuais utilizadas pelos pintores: manuais de desenho de letras, recortes de revista e o próprio esboço que elaboram. (Fonte: acervo da pesquisa)

Questionados acerca de suas preferências tipográficas para a elaboração dos letreiramen- tos, descobrimos uma nomenclatura peculiar empregada por cada pintor para descrevê-las. A “letra de fôrma”, por exemplo, é uma das preferidas do pintor Carioca. Ela pode ser elaborada na sua versão quadrada, quando possui terminais retos, ou na versão boleada, quando seus terminais são arredondados (Figura 109). Ao fazer uma análise comparativa com as classes definidas por Finizola (2010), as duas variações seriam equivalentes à grotesca e à gorda, respectivamente.

O pintor Carlinhos de Gravatá também prefere utilizar letras destas famílias, por conta de fatores de legibilidade:

Eu uso mais a letra comum, sem sofisticação. Porque é um conceito, eu acho que você deve ter aprendido na faculdade, que quanto mais fácil a letra para o povo ler, melhor, principal- mente em interior (do estado).

Carlinhos | Gravatá

Já em Caruaru, o pintor Marcos utiliza um estilo tipográfico peculiar para escrever a maioria das mensagens nas lameiras de caminhão, denominado de “degradê”. Segundo Finizola et al. (2013), poderíamos considerá-lo como uma derivação do estilo das quadradas, pois a base

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das letras é retangular, com as suas extremidades seccionadas à 45⁰ (FINIZOLA et al. 2013). O nome degradê deriva não da sua forma, mas da pintura tradicional em degradê que preenche as letras. Já o pintor Genivaldo, de Petrolina, observa que as letras “bastão reto” e “manuscrita” são as que mais utiliza no dia a dia. Pelo nome “bastão reto” define a tradicional letra de forma ou Grotesca (FINIZOLA, 2010); e pelo termo “manuscrita” ou “letra solta”, a sua grafia peculiar em um estilo mais livre, ou seja, um estilo Caligráfico (FINIZOLA, 2010). Enumeramos no quadro abaixo os principais estilos de letras citados pelos pintores durante as entrevistas (Figura 109).

Figura 109. Estilos tipográficos segundo os pintores de letras. (Fonte: autora)

6.3.3 Métodos e ferramentas

Para melhor compreender os métodos e ferramentas utilizados pelos pintores em sua prática cotidiana, é importante, antes de tudo, conhecermos o seu local de trabalho. Em linhas gerais, podemos distinguir os pintores em dois grupos principais.

Há aqueles pintores de rua, que não possuem um atelier organizado para receber os clientes e trabalham a caminhar pelas ruas, ou fazem ponto em algum local específico da cidade. Nestes casos, o pintor vai até o cliente e executa boa parte de seu trabalho in loco. O pintor Carlos de Caruaru, por exemplo, especializado em murais, não possui um local de trabalho fixo, sempre

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