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Parte I: Atrás das Telas de Computador

5. O Ogro Filantropo

O nome do EZLN é uma referência a Emiliano Zapata, o herói derrotado da Revolução Mexicana de 1910 que liderou os camponeses do estado de Morelos sob o lema “terra e liberdade”, tomando terras e promovendo a autonomia dos pueblos48, em resposta ao processo de centralização política e expansão das grandes propriedades que devorava os poblados camponeses durante a ditadura de Porfirio Díaz, governante desde 1876. A Revolução Mexicana foi uma somatória de revoltas regionais e disputas nacionais, populares e oligárquicas (Knight, 1996), que em sete anos levou a dois milhões de mortos (Gurza, 2000). E dela emergiu um regime peculiar no cenário latino americano, cujas características gerais vale retomar para que se compreenda o contexto no qual se desenvolveu o “neozapatismo” e algumas das suas principais características.

A referência constante do EZLN aos símbolos e lemas da Revolução Mexicana, em particular à luta de Emiliano Zapata, não é uma novidade. É uma prática recorrente dos movimentos sociais mexicanos a invocação dos heróis e simbologias revolucionárias que, além disso, foram incorporados ao discurso oficial. Trata-se portanto de uma memória viva, de uma linguagem da qual o novo regime buscou retirar a sua legitimidade, e da qual os novos movimentos foram inspirando as suas identidades e renovando as suas demandas. Como veremos a seguir, a despeito do grande vulto da reforma agrária mexicana realizada pelo regime pós- revolucionário, esta teve resultados variados para cada região do país, gerando mudanças estruturais apenas naqueles lugares onde houve fortes movimentos agrários e um difícil processo de pacificação. Como, além disso, o novo regime deu continuidade ao processo de centralização política iniciado no século XIX, explica-se a atualidade das demandas mais gerais identificadas pelo lema “terra e liberdade”. Por outro lado, a incorporação de grande parte dos movimentos camponeses nas estruturas corporativas do Estado, como forma de atenção às demandas sociais combinada com controle político, dava um caráter ambíguo ao uso da linguagem revolucionária. Isso começou a mudar em 1982, quando o governo de Miguel de La

Madrid iniciou as reformas neoliberais, começando a se afastar dos ideais revolucionários. Qual foi o legado da Revolução?

Gurza (2000: 7-9) afirma que nos anos posteriores à Revolução, e para fazer frente à necessidade de “institucionalização do poder e da política”, a facção vencedora promulgou a Constituição de 1917, exterminou as grandes lideranças, redefiniu a composição e o papel do Exército, e implantou o Partido Revolucionário Institucional (PRI), inicialmente com os nomes Partido Nacional Revolucionário (PNR) e Partido da Revolução Mexicana (PRM). A Constituição de 1917 representou um pacto entre as principais forças da Revolução, cujos interesses foram reconhecidos para se dar início a uma “nova ordem social respeitada por todos”. Para tanto foram assumidas obrigações sociais por parte do Estado, e criou-se um marco de legitimidade para a reivindicação de direitos por parte dos movimentos sociais. Teve uma particular importância a promulgação do direito à terra, ou seja, “o camponês foi definido como sujeito econômico do novo projeto nacional – não apenas como representante de uma camada residual externa à modernização econômica” (Gurza, 2000: 9) 49. Apesar desse amplo acordo, os principais líderes populares da Revolução, Emiliano Zapata e Francisco Villa, foram assassinados em 1919 e 1923, mesmo destino reservado ao presidente Venustiano Carranza em 1920, que tinha sido o responsável pela morte do primeiro. Enquanto isso, o caráter de casta das forças militares foi substituído pelo sistema meritocrático. O Exército de Porfirio

48 Pueblos guarda tanto o sentido de povoados ou localidades quanto de povos, incluídas suas tradições. 49 A Constituição mexicana de 1917 teve como fonte ideológica a doutrina anarco-sindicalista em sua versão

mexicana liderada por Ricardo Flores Magón e foi a primeira Carta Política a “atribuir aos direitos trabalhistas a qualidade de direitos fundamentais, juntamente com as liberdades individuais e os direitos políticos (arts5 e 123) (...) O que importa, na verdade, é o fato de que a Constituição mexicana foi a primeira a estabelecer a desmercantilização do trabalho, própria do sistema capitalista, ou seja, a proibição de equipará- lo a uma mercadoria qualquer, sujeita à lei da oferta e da procura no mercado. A Constituição mexicana estabeleceu, firmemente, o princípio da igualdade substancial de posição jurídica entre trabalhadores e empresários na relação contratual de trabalho, criou a responsabilidade dos empregadores por acidentes do trabalho e lançou, de modo geral, as bases para a construção do moderno Estado Social de Direito. Deslegitimou, com isso, as práticas de exploração mercantil do trabalho, e portanto da pessoa humana, cuja justificação se procurava fazer, abusivamente, sob a invocação da liberdade de contratar. O mesmo avanço no sentido da proteção da pessoa humana ocorreu com o estatuto da propriedade privada (art.27). No tocante às ‘terras e águas compreendidas dentro dos limites do território nacional’, a Constituição estabeleceu a distinção entre propriedade originária, que pertence à nação, e a propriedade derivada, que pode ser atribuída aos particulares. Aboliu-se, com isso, o caráter absoluto e ‘sagrado’ da propriedade privada, submetendo-se o seu uso, incondicionalmente, ao bem público, isto é, ao interesse de todo o povo. A nova Constituição criou,

Díaz foi substituído por parte das milícias insurgentes e, como a Revolução tinha operado uma militarização de setores civis, não houve “sobressaltos” na passagem para governos civis em 1946, após cerca de 30 anos em que quase todos os presidentes foram generais.

O PRI foi idealizado para congregar em um só partido todas as forças políticas que, na promoção dos seus interesses, reivindicavam as causas da Revolução. Implantado a partir do Estado em 1928, passou a ter o papel de arena para a disputa dos vários setores segundo regras estáveis, ao mesmo tempo em que visava preservar o poder da facção dominante, “fazendo que manifestações de posições conflitantes encontrassem canais institucionais para o acordo ou a imposição hierárquica de soluções” (Gurza, 2000: 10). Com relação à ideologia, todos os setores incorporados no PRI adaptavam os seus discursos em torno dos argumentos da “paz social”, dos benefícios para as camadas populares, do progresso material promovido pelo Estado e do nacionalismo. A principal “linha divisória” da política não estava na dicotomia entre esquerda e direita, e sim na organização de interesses no interior ou exterior do Estado. As organizações que tentavam escapar à tutela das instituições oficiais eram sistematicamente reprimidas (Gurza, 2000: 10-11). Ou seja, havia canais para a representação de interesses econômicos e a promoção de objetivos pessoais mas,

grosso modo, não era permitido o questionamento da ordem política.

Na década de 1930, o presidente Lázaro Cárdenas consolidou o regime pós- revolucionário através da corporativização de quase todos os segmentos relevantes da sociedade, “transformados em braços organizativos do partido” (Gurza, 2000: 12). Para tanto foram criadas a Confederação Nacional Camponesa (CNC), a Confederação dos Trabalhadores Mexicanos (CTM) e, em meados dos anos 40, quando as camadas médias urbanas começaram a adquirir maior importância, a Confederação Nacional de Organizações Populares (CNPO). Apenas os empresários, cujos interesses foram largamente contemplados pelos sucessivos governos do PRI50,

assim, o fundamento jurídico para a importante transformação sócio política provocada pela reforma agrária, a primeira a se realizar no continente latino-americano” (Comparato: 1999: 169-173).

50 “A despeito de conflitos mais ou menos conjunturais até finais dos anos 60 e das crescentes discrepâncias

surgidas diante da maior intervenção do Estado e da nacionalização dos bancos entre 1970 e 1982 (...)” (Gurza, 2000: 12).

puderam manter a autonomia das suas organizações representativas. Isso lhes permitiu dar apoio ao Partido da Ação Nacional (PAN), “quer como medida de inconformidade temporária, quer como adesão a uma opção programática mais próxima de seus interesses” (Gurza, 2000: 12), partido fundado em 1939 e vencedor das eleições presidencial de 2000 que marcou o fim do regime. Para as classes populares, a tentativa de formar movimentos independentes resultava na dura reação do Estado e na total falta de proteção nos muitas vezes sangrentos conflitos com as classes mais abastadas. Além disso, o atendimento de demandas locais e setoriais, as oportunidades de ascensão social através de postos no Estado e mesmo através da corrupção que o sistema corporativo propiciava, dividiam ainda mais as classes baixas (Benjamin, 1995; Collier, 1994).

Gurza (2000: 13-19) destaca ainda a centralização do poder no executivo e a ausência de competitividade eleitoral. As eleições eram organizadas pela Comissão Federal Eleitoral (CFE), órgão do Ministério do Interior, e o presidente acumulava o comando supremo do Exército, a chefia máxima do PRI e indicava os juizes do Judiciário, os altos postos da administração pública, parte dos candidatos do Senado e dos governos estaduais (estendendo aos outros o poder de veto e de ratificação), os principais cargos do partido e o seu sucessor na presidência. Nos períodos eleitorais, a máquina estatal era mobilizada em favor do PRI, ao passo que durante os mandatos o partido auxiliava na implementação das diretrizes governamentais. Para os partidos de oposição, por sua vez, era reservado um magro espaço de atuação. O Partido Comunista Mexicano (PCM), por exemplo, não exigia uma repressão sistemática, pois não chegava a colocar em cheque o poder do Estado, e recebia o “tratamento ambíguo de banimento, tolerância e castigo dosado” (Gurza, 2000: 14), servindo também de bode expiatório de problemas que ameaçassem a legitimidade das instituições revolucionárias. O Partido Autêntico da Revolução Mexicana (PARM – criado pela velha guarda dos generais revolucionários por ocasião da transição para governos civis), o PAN e o Partido Popular Socialista (PPS) eram legais e com prerrogativas para receber financiamento público e competir pelos cargos eletivos, mas funcionavam mais como grupos de pressão junto aos executivos federal e estaduais do que como os partidos das teorias liberais de democracia. Apenas o PAN,

ligado ao empresariado, era realmente autônomo, chegando a recusar o financiamento estatal, mas não tinha condições de ameaçar a hegemonia do PRI. Por outro lado, o regime pós-revolucionário não tinha apenas leis e um discurso que contemplavam direitos sociais: investimentos sociais efetivos foram outro lastro que garantiu a sua estabilidade. Assim, não era necessário que fossem utilizadas de maneira significativa as técnicas de fraude, embora o emprego desses recursos tenha aumentado na medida em que começou a se incrementar a competitividade eleitoral depois dos anos 60.

Collier (1994: 52-58) chama a atenção para a reforma agrária formalizada na Constituição de 1917 e impulsionada por Cárdenas na década de 30, que foi vital para a incorporação de significativos setores camponeses (entre os quais se incluíam os indígenas) ao PRI. Tratava-se de uma ‘estratégia’ política combinada com uma ‘estratégia’ econômica. A depressão mundial que se deu após o colapso da bolsa de valores norte-americana de 1929 derrubou a demanda internacional por produtos mexicanos e levou à perda de capitais estrangeiros que o governo necessitava para promover o desenvolvimento interno. Através da redistribuição de terras improdutivas convertidas em ejidos, ampliou-se a escala da produção de alimentos que assim eram ofertados a preços baixos, ancorando os preços dos salários pagos pela indústria e ampliando a demanda rural por produtos manufaturados51. Para implementar a distribuição de terras, o governo tolerava em certa medida as ocupações de propriedades privadas realizadas pelos camponeses, que então apresentavam petições para a regularização legal da posse. Assim o governo se abstinha de ter que tomar a ofensiva contra os latifundiários, e podia também manter o compromisso dos camponeses com o PRI sem ter necessariamente que acatar as suas petições, que muitas vezes passavam anos e até décadas tramitando sem se chegar a uma resolução oficial. A reforma beneficiou milhares de camponeses, mas não chegou a mudar radicalmente a estrutura agrária do país. Os latifundiários distribuíam suas terras entre parentes para camuflar as suas reais dimensões, e podiam também requerer certificados de inafetabilidade para tornar suas terras imunes às expropriações.

51 “Este enfoque prefigurou a estratégia de industrialização de substituição de importações, que seguiram a

Quando no final dos anos 30 o México teve novamente que fazer frente à demanda norte americana por frutas, verduras, fibras e produção têxtil, o governo voltou a favorecer a agricultura comercial em grande escala, retardando o processo de reforma agrária. O novo fluxo de capital externo ajudou a financiar projetos de infra- estrutura para este tipo de agricultura, especialmente no norte do país. Enquanto isso o governo continuou a apoiar a industrialização mantendo baixos os preços dos alimentos e, em conseqüência, os dos salários pagos pela indústria. Como durante o governo de Cárdenas muitos camponeses tinham trocado os seus artesanatos tradicionais por artigos manufaturados, quando a política fiscal permitiu a alta dos preços desses bens, os camponeses tiveram que intensificar a sua produção e trabalhar no emergente setor da agricultura comercial. E como os seus cultivos garantiam a sua subsistência, podiam trabalhar também por salários mais baixos, mantendo-se baixos os salários em todos os setores (Collier, 1994: 56-57).

Líder do período de consolidação do regime pós-revolucionário, do corporativismo mexicano, realizador da reforma agrária e da nacionalização do petróleo, o presidente Lázaro Cárdenas tornou-se um mito que paira sobre o México contemporâneo. Carlos Fuentes (1994: 263), num capítulo chamado “cem anos de Cárdenas”, se refere a ele como o único presidente, desde 1934, de “autêntica grandeza”, que “nunca pensou pequeno e nunca diminuiu o México e os mexicanos”. Cárdenas se fortaleceu com alianças entre empresários, operários, camponeses e intelectuais para “aplicar uma política que revolucionou o México em todas as suas dimensões, revitalizando a Revolução Mexicana”52 (Fuentes, 1994: 264). O México

52 “Um aspecto fundamental da política cardenista foi a independência da política exterior. A nacionalização

do petróleo levantou em armas as democracias industrializadas contra o México. O boicote subsequente abrigou Cárdenas a vender petróleo aos seus inimigos ideológicos, as potências nazi-fascistas. Mas transcendendo os obstáculos, o presidente do México se propôs a conduzir uma política de negociação, negociação e mais negociação. Decidiu – certamente, em um entorno econômico muito menos interdependente que o atual – suspender os pagamentos internacionais argumentando que não ia sacrificar os programas internos de desenvolvimento e benefício popular. Mas junto com a moratória, Cárdenas iniciou a negociação. Inglaterra e Holanda romperam suas relações diplomáticas com o México. Estados Unidos, por outro lado, aproveitou a disposição negociadora do nosso país.

A negociação da dívida do petróleo, encabeçada por dois iminentes estadistas mexicanos – o secretário da fazenda Eduardo Suárez e o embaixador do México em Washington, Francisco Castillo Nájera -, foi o momento decisivo para a política de boa vizinhança do presidente Franklin D. Roosevelt. Acossado pelos grupos de interesse que desde 1821 pediam a guerra contra o México, a invasão do México, o desmembramento do México, Roosevelt resistiu com coragem e jogou a carta negociadora. Ganharam o México e Estados Unidos. Este pôde, ao cabo, contar com um aliado durante a iminente Segunda Guerra

não deixou de ser um país de desigualdades, mas nunca houve neste país um desenvolvimento tão eqüitativo, “em que todas as classes, todos os setores, cresceram juntos, lançando as bases para um desenvolvimento sustentável de 6% ao ano que só desabou com a crise da dívida externa em 1982” (Fuentes, 1994: 265).

Reyes (1994) afirma que a reforma agrária respondeu de maneira diferenciada às realidades regionais. Enquanto em alguns lugares a presença de novas forças sociais tornou possível a implementação de medidas radicais, transformando a estrutura agrária, modificando as relações de poder e as normas institucionais que as sustentam, em outros houve um processo de negociação em torno da modificação da estrutura latifundiária, mas sem alterar as normais institucionais da sociedade tradicional, e em outros ainda houve apenas reformas marginais que não apontavam para a modificação estrutural, mas visavam preservar a sociedade tradicional, desviando a pressão camponesa para a ocupação de terras baldias, de propriedade fiscal e em regiões periféricas. Este último caso é o que corresponde ao estado de Chiapas, onde não houve revolta agrária durante a Revolução53.

Em 1940, o México realizou o Primeiro Congresso Indígena Interamericano, para o qual foram convidados indígenas de todo o país. Um dos resultados foi a fundação no México, e em outros países, de institutos nacionais indigenistas. O Instituto Nacional Indigenista (INI) do México passou a ser a instituição que administrava a maior parte do financiamento do desenvolvimento rural, “elevando o

status dos indígenas ao de clientes especiais do estado” (Collier, 1994: 57). Se a

atenção estatal aos indígenas havia diminuído durante a década de 40, nos anos 50 ela voltou crescer, através de projetos de desenvolvimento que visavam reforçar os benefícios concedidos com a reforma agrária. As metas do INI eram as mesmas do

mundial, e o México pôde continuar com suas políticas de desenvolvimento popular” (Fuentes, 1994: 264- 265)

53 “Ainda que de nenhuma maneira se tratou de uma reorganização a fundo, já que muitas grandes

propriedades continuaram intactas, foram outorgadas terras próprias a dúzias de comunidades indígenas [em Chiapas]” (Collier, 1994: 52). “Dentro do setor privado [de Chiapas], duas classes subsistiam, uma muito pobre e outra muito rica. Em 1960, os minifundistas, aqueles proprietários com menos de 10 hectares e que constituíam quase a metade dos proprietários de terras, ocupavam menos de 1% de toda a terra. Os latifundiários, grandes proprietários com mais de mil hectares e que constituíam apenas 2,4% de todos os proprietários, possuíam cerca de 60% da terra. Apenas 44 fazendas monopolizavam 25% da terra” (Benjamin, 1987: 252).

Estado para os camponeses em geral, mas “requeriam esforços distintos para integrar as comunidades indígenas ao setor agrário nacional” (Collier, 1994: 57-58).

Se as políticas populares, sobretudo a reforma agrária, haviam contribuído para a pacificação do país e a consolidação do regime, estas haviam sido as condições para que nas décadas seguintes as políticas se voltassem novamente às elites, iniciando uma lenta corrosão na hegemonia do Estado. Segundo Gurza (2000: 18-19), a explicação sociológica corrente para a crise do regime remonta à década de 60. A urbanização, o crescimento das classes médias e a diversificação dos interesses sociais, junto ao esgotamento do milagre econômico que rendeu a industrialização de orientação cepalina fizeram com que o regime já não fosse mais capaz de absorver suficientemente os diversos interesses em suas estruturas corporativas e verticais. Isso desatou um processo de autonomização política da sociedade, que se acentuou com a morte de centenas de estudantes no famoso Massacre de Tlatelolco54 em 1968. “O

começo da abertura política no México, em meados dos anos 70, representou pela via dos fatos o reconhecimento tardio – após os numerosos incidentes de repressão da década anterior – de que o sistema político carecia de ampla reforma para se adequar às mudanças ocorridas no seio da sociedade” (Gurza, 2000: 19).

Gurza (2000: 19-25) acrescenta à explicação sociológica outra também corrente, esta de caráter político e mais conjuntural: os efeitos das reformas econômicas e políticas neoliberais que começaram a ser implementadas a partir de 1982 e se intensificaram depois de 1988. O ajuste estrutural levou à supressão da política social do regime, e dos órgãos estatais que eram necessários para estas políticas. Isso levou não apenas à piora dos indicadores de saúde, alimentação e educação, mas também diminuiu a “capilaridade dos mecanismos clientelistas de controle político” e eleitoral. Além disso, o programa de ajuste acarretou também a violação das “regras não escritas do sistema”. A principal delas era a que garantia a alternância no poder dos principais grupos do PRI a cada seis anos, tempo de duração de um mandato presidencial. Para garantir a continuidade das reformas, o grupo no

54 No dia 2 de outubro de 1968, dez dias antes de começarem as Olimpíadas do México, uma manifestação

estudantil em Tlatelolco (cidade do México) que protestava contra a repressão acabou sendo massacrada, com 27 mortes segundo dados oficiais e mais de 300 em outras estimativas (De La Grange & Rico, 1997: 108).

poder aferrou-se a ele e violou também uma outra regra, a que garantia para todos os grupos poderosos o acesso aos principais cargos públicos, de onde podiam articular e disputar a sucessão presidencial seguinte. Se antes nem mesmo os grupos com pouca influência ficavam excluídos de posições na administração pública, o grupo dominante passou a ser intolerante com visões diferentes sobre as políticas a serem implementadas no país, ao mesmo tempo em que foram reduzidos os postos disponíveis para filiados do PRI. Finalmente, a flexibilização produtiva corroeu os interesses da burocracia sindical corporativa, e podemos acrescentar que a reforma do artigo 27 da Constituição em 1992 levou ao fim da reforma agrária.