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5 CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS: O “OUTRO” NA FORMAÇÃO DO “EU”

5.3 Entrelaçamentos na constituição das identidades profissionais das pedagogas não

5.3.3 Distintos olhares: O reconhecer-se pedagoga não docente

5.3.3.4 O olhar para o “eu” a partir do outro – gestores

O gestor maior dessa instituição deixa claro com as políticas que ele implementa que o pedagogo aqui não tem função, não faz nada, não tem valor nenhum, agora incoerentemente faz concurso pra pedagogo. Então eu não sei se esse é o discurso da defesa porque a gente tem uma visão mais crítica da organização pedagógica institucional, ou se é defesa; ou se é por descrença mesmo no nosso trabalho. E as políticas são aquelas que desagregam os pedagogos. Eu não vejo uma política de firmar uma equipe pedagógica, de manter uma coesão pedagógica pra que essa equipe tenha um papel efetivo [...] (ARUANDA)

[...] assim com questão aos gestores eu acho que ainda não aproveitaram ao máximo a capacidade dos pedagogos de atuar na instituição, e diante disso eu acho que fica o pedagogo, fica um pouco subutilizado, né? Assim, subutilizado eu digo, assim, no trabalho mesmo, ele podia desenvolver melhor [...] (LUZIA)

Ao longo desses cinco anos e seis meses, tivemos, é... cinco diretores de ensino diferentes. Cinco diretores! Então fica complicado ter uma organização, um planejamento. Cada um tem uma visão diferente do que a gente [pedagogas] tem que fazer, então a gente nunca consegue. Lógico que a gente tem que determinar, ou ser a pessoa que determina. (ATALAIA)

Nesta subcategoria de análise, onde as pedagogas percebem seu “eu” através dos gestores institucionais, elas surgem, novamente, como profissionais subutilizadas; confusas em suas atribuições, de certa forma, dependentes do planejamento de cada gestor que assume o cargo, praticamente um novo gestor a cada ano. Uma das pedagogas, inclusive, desabafa e relata que a descrença para com o grupo de profissionais vem do mais alto cargo da Instituição, manifestada através de seus discursos e de adoção de políticas desagregadoras para o setor pedagógico.

Não apenas uma vez surge esse depoimento sobre a gestão superior da Instituição, pelo menos três das pedagogas entrevistadas deixam esse pensamento transparecer durante as entrevistas. Sendo que, a pedagoga Aruanda afirma que essa política de desagregamento pode ser intencional por parte da gestão, visto que são as pedagogas não docentes que, possivelmente, tecem as maiores críticas ao sistema pedagógico do IFS.

Aproveito o discurso de Aruanda e o relaciono com a teoria dubariana sobre a legitimação de saberes a partir da socialização secundária, que indica a construção de autonomias e mundos em tornos de saberes mais fragmentados, que transforma as socializações primárias e por conseguinte provoca uma transformação social. É possível que a tentativa de impedimento ou minimização do papel das pedagogas não docentes seja intencional, de forma a impossibilitar o acontecimento de algumas transformações não desejadas para os aspectos pedagógicos e, por que não dizer, das práticas de gestão como um todo.

Mas o Professor 2 pensa diferente, ele afirma que diante da ineficácia da gestão é possível desenvolver qualquer trabalho, deixando evidenciado em sua fala que às pedagogas não docentes falta iniciativa de trabalho:

[...] eu vejo aqui é que, justamente nesse ambiente caótico, é um ambiente onde você consegue plantar, qualquer iniciativa que você plante aqui ela germina. Porque como não existe uma administração rígida, como a administração não tem um norte rígido, aliás não tem norte nenhum, ela

permite que as iniciativas individuais tenham espaço. Então qualquer indivíduo, ou dois ou três que se juntem: - rapaz vamos fazer tal coisa? Então vai adiante sem ninguém perturbar, entendeu? Então acho que essa seria uma grande facilidade pra que os pedagogos se tivesse alguma iniciativa de fazer algum projeto, de elaborar alguma coisa... Eu não vejo, não teriam, não encontrariam resistência institucional pra isso. Podem encontrar resistência cultural, mas institucional não.

A fala do professor 2 parte do princípio de que existe uma inércia das pedagogas não docentes diante da atual situação. O docente parece solicitar uma reação do grupo profissional que se permitiu desaparecer do cenário Institucional. Sua avaliação sobre a gestão indica que não existe nenhuma intencionalidade por parte da mesma em manter as relações como estão. Ele entende que a falta de planejamento da gestão ou de “norte,” como ele mesmo classifica, é um resultado do acaso.

Finalizando sua colocação, o professor compreende que pode haver uma resistência cultural diante da ação das pedagogas, mas não Institucional. Com esta fala, o Professor 2 parece atribuir vida própria à Instituição, como uma entidade que funciona independente de seus atores. Estaria a cultura organizacional dissociada da instituição e seus atores? O entrevistado faz distinção entre a realidade objetiva e a realidade subjetiva, como se estas não se relacionassem e/ou não interferissem na transformação uma da outra, ou mesmo, fosse resultado de forças externas superiores.

À esta situação Berger e Luckman (1974) atribuem uma reificação das instituições que lhes dá caráter ontológico, mas para os autores isso ocorre, também, com os papéis sociais e profissionais, como se não houvesse outra maneira de agir a não ser aquela que se apresenta. “[...] as reificações outorgam um estado ontológico e total a uma tipificação que é produzida pelo homem, e que, mesmo quando interiorizada, objetifica somente um segmento da personalidade.” (Ibid., p. 125)

É provável que as pedagogas não docentes tenham interiorizado os papéis que lhe foram apresentados, no entanto não se pode avaliar esta situação do ponto de vista determinista da Instituição. Parece sim existir uma reciprocidade entre o desempenho das profissionais em questão e o cenário profissional Institucional, representada pelos seus atores. Onde as pedagogas não docentes têm permitido a prevalência da percepção do outro e construindo sua identidade profissional menos pela reivindicação do que pela imposição identitária.

Todavia, uma outra leitura também é possível. Visto que a instituição é uma atividade humana objetivada e se apresenta sob forma de controle social, exercendo poder coercitivo sobre os indivíduos, é compreensível que haja uma forte resistência dela sobre as alterações de

papéis ou quaisquer outras transformações. Portanto, apesar de haver uma mobilidade dos atores, não é tão fácil resistir à organização e reivindicar sua autonomia. Ainda assim, não se descarta o surgimento de novas identificações.

Em consonância com o pensamento do Professor 2, o Gestor 2 e o Gestor 3, também, entendem que existe pouca autonomia e que falta iniciativa da ASPED e das pedagogas não docentes como um todo. Os discursos dos gestores indicam que o setor, bem como as profissionais de pedagogia, desenvolvem suas ações restritas às demandas dos alunos e dos familiares dos alunos, deixando o trabalho com os docentes em segundo plano. Assim como, deixam a desejar na elaboração de projetos de intervenção ou prevenção. Segundo o gestor 3, as pedagogas precisam ser “provocadas”, porque faz uma leitura de que no serviço público as pessoas são mais acomodadas.

Veja, o que a gente observa hoje é um trabalho pedagógico que acontece por demanda, única e exclusivamente, carecendo da existência de projetos do setor pedagógico para atividade institucional, ou seja, hoje eu sinto que há uma dificuldade de expansão do setor, porque o setor ficou restrito a responder o que lhe é perguntado, e não houve criação de ações que passassem a ser atribuições pertinentes àquele setor. (GESTOR 3)

Atualmente a ASPED tá mais fazendo trabalho voltado apenas com os discentes que é atendimento a discentes, questões de ocorrências e de pendências, mas eu acho que ASPED deveria fazer um trabalho mais forte com os docentes que não existe ainda [...] Na verdade eu acho que não ocorre pelo fato de não ter ninguém provocando o pessoal da ASPED pra fazer. (risos), é a dificuldade do serviço público né? Se ninguém provocar o pessoal pra fazer, talvez ele se acomode e ache que tá tudo bem... (GESTOR 2)

É interessante notar que os próprios gestores entendem as dificuldades existentes em desenvolver alguma atividade pedagógica com os professores, mas em nenhum momento é colocado por eles alguma atuação vinda da parte da gestão para dirimir tais questões, ou mesmo, algum projeto futuro que intervenha na situação a fim de promover mudanças. Afinal, o trabalho pedagógico é o pilar do trabalho de uma escola e ele não depende, única e exclusivamente, de um setor ou de determinada categoria profissional. Em uma das falas, um dos gestores entrevistados alerta que os professores, principalmente os mais antigos, não comparecem às reuniões pedagógicas e até ri quando lembra uma colocação preconceituosa contra as colegas pedagogas:

[...] você faz uma convocação, pra uma reunião onde o assunto é que o setor pedagógico vai fazer um treinamento, você vê que os faltosos são o pessoal

mais antigo. O pessoal nem vem as vezes e esse é que é o problema, entendeu? É aí que eu enxergo as vezes o preconceito, e também muitos as vezes falam - Ah! Pra quê que eu vou? Aquele pessoal não sabe de nada. [risos] É isso que acontece. [sobre outras convocações para reuniões com professores] que não seja as vezes da parte pedagógica, as vezes comparecem. [grifo meu] (GESTOR 2)