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5 CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS: O “OUTRO” NA FORMAÇÃO DO “EU”

5.3 Entrelaçamentos na constituição das identidades profissionais das pedagogas não

5.3.3 Distintos olhares: O reconhecer-se pedagoga não docente

5.3.3.2 O olhar para o “eu” a partir do outro – professores

[falando dos professores] Então, eu ouvi isso não foi uma vez só... então era um apelido que colocavam nos pedagogos, pedagogentos [soletra] né? Então, um trabalho assim que é discriminado, não aceito, não tem reconhecimento nenhum e que aparentemente é só sofrimento, então eu não tenho como pensar em continuar aqui, ser a última coisa que eu vou fazer na vida [pensa] não tenho... [feição de desânimo]. (ATALAIA)

Os professores, alguns mais jovens eu percebo que eles tem uma abertura maior, uma aceitação maior, é... da nossa participação no processo, mas também, assim, não requisita, só quando enfrenta alguma demanda que ele não dá conta. Eu não vejo, assim por exemplo, é... fiz um planejamento que deu muito certo ou fiz um planejamento que deu errado... sentar com a equipe pra discutir... não, não há essa abertura. Eu acho até que pela cultura de que o pedagogo vai interferir, que existe essa cultura institucional [...] (ARUANDA) Os professores, é... você percebe assim que eles [pausa maior] tão ali achando que você não tá fazendo nada e aí começa a piadinha tipo, é pedagogo, chama de pegadoido. Ah, o nome do nosso setor que é ASPED, chama as peda, “tinha as peda no meio do caminho.” Por essas brincadeiras você vai vendo a visão deles e isso me incomoda muito. (FAROLÂNDIA)

As percepções do próprio “eu” das pedagogas, a partir do olhar dos docentes, são bastante negativas. Os tons provocadores e, por vezes, ofensivos, criam um clima animoso e

por que não dizer desrespeitoso. Segundo as entrevistadas, as pedagogas são constantemente vítimas de comentários preconceituosos. As “brincadeiras” realizadas, por alguns docentes, parecem afetar o desempenho profissional delas, principalmente porque criam barreiras entre ambos. Nunca se sabe qual a nova brincadeira que poderá surgir. Como reagir a um olhar preconceituoso? Limitar a atuação das pedagogas, essa seria uma defesa do professor?

Uma delas já tem certeza de que vai mudar de profissão. Já Aruanda, entende isso como um problema de cultura Institucional, fazendo com que o professor só procure a pedagoga quando precisa resolver algum problema que não consegue solucionar, mas nunca pede auxílio para as atividades pedagógicas, a exemplo das atividades de planejamento de ensino.

Essa cultura Institucional acerca da atuação das pedagogas envolve a concepção da pedagoga fiscalizadora como pontua a pedagoga:

[quanto aos professores] Alguns valorizam, outros não, eu percebo assim alguns valorizam, alguns acham que nós nos envolvemos muito na vida deles. Podem pensar até que somos até um pouco fiscais deles, mas tem outros que valorizam e que procuram a gente pra resolver muitos problemas, que sentem confiança no trabalho. (LUZIA)

A aparente animosidade entre as duas categorias, parece estar pautada na ideia de que as pedagogas estão na Instituição para fiscalizar, para controlar a categoria docente. Isto surge no discurso de todas as pedagogas, de todos os professores e de dois gestores entrevistados. Nesse aspecto, trago um trecho do discurso do Professor 2, que ilustra mais claramente a situação:

A nossa comunidade é muito difícil. Nós temos um problema de psicologia social, de psicologia corporativa aqui, que é muito complicado! A gente tem muito problema de... animosidades entre grupos, né? Que o relacionamento humano aqui é complicado, em comparações com outras instituições é complicado. Eu acho que essa é a principal dificuldade da pedagogia aqui. O pedagogo se sente muitas vezes acuado por essa rejeição que o professor tem, né, ao trabalho dele com medo de ser.. que esse trabalho do pedagogo seja uma forma de fiscalização, uma forma de controle da sua atividade. Eu acho que essa é a grande dificuldade.

Esse professor tem vinte anos de exercício profissional no IFS, parece se sentir à vontade para fazer seus comentários e críticas, sua expressão durante toda a entrevista é de preocupação com o rumo que as coisas vem tomando na Escola, sobretudo com o ensino. Sua avaliação é sempre negativa e suas palavras soam como descrença em mudanças no atual cenário. Somente no pequeno trecho citado acima, a palavra “complicado” surge três vezes, e quanto à postura

assumida pelas pedagogas não docentes diante dos professores, ele atribui um certo “medo”. Para ele as pedagogas se sentem acuadas e tem “medo” dos professores.

O cenário Institucional entre docentes e pedagogas não docentes no campus Aracaju sugere um ambiente hostil de trabalho. Extraio algumas palavras dos discursos dos próprios entrevistados, citadas aqui nesta seção, que nos dizem muito sobre percepções e sentimentos, a partir das relações intersubjetivas, interiorizadas nos atores: incômodo; discriminação; sofrimento; medo; acuamento, rejeição, animosidade. Estas palavras indicam os desafios que as pedagogas têm que enfrentar para exercer suas atividades. Digo pedagogas, porque nenhuma das categorias entrevistada fala desses sentimentos negativos vindos da parte dos docentes.

Diante dessas considerações é possível inferir, as pedagogas não docentes têm suas identidades construídas sobre o “sofrimento íntimo”87, que segundo Dubar (2005), é causado

pela privação do trabalho. O autor quando trata dessa privação, refere-se a ausência da atividade por conta da crise contemporânea do trabalho e do emprego, contudo, aproprio-me desta análise para refletir sobre a situação dessas profissionais que são privadas do exercício de suas funções, mesmo estando empregadas e “trabalhando”. O resultado dessa perda de identidade com o trabalho é considerado pelo autor como [...] sinônimo de alienação, sofrimento, angústia e morte.” (Id. p. XXV).

Ainda recorrendo a teoria dubariana, associo esse “sofrimento” ao que Dubar (2011) atribui ao cenário das crises identitárias, à mudança nas relações sociais do tipo comunitária para a societária, que implica em individualização negativa. Dessa forma, a aparente sensação de inutilidade das pedagogas não docentes pode estar atrelada a uma sensação de impotência, acreditando que a melhora do desempenho dependa, única e exclusivamente, de si. Talvez, por isso, acirrando a competição com os docentes: “é preciso ser melhor do que o outro”. Esse quadro para o autor tem relação direta com o que se chama “mal do século identitário”, a depressão.

A exigência desse novo individualismo performático e desse double bind [duplo vínculo] (“torne-se autônomo”), desse culto do desempenho e da competição (“seja o melhor”), dessa singularidade distintiva (“seja você mesmo”) provoca distúrbios de todo o tipo (depressão, burn out e suicídios) entre aqueles que não encontram outros meios, que não o trabalho, de

87Longe de querer psicologizar as análises, trago a consideração de Dubar (2005) sobre a imbricação da

socialização biográfica e relacional na constituição do sujeito e de sua identidade, destarte, ressalto que os aspectos emocionais não podem ser desconsiderados dentro do processo de socialização seja ele primário ou secundário. Além do que o sofrimento pontuado é resultado das relações de trabalho, onde o reconhecimento e valorização como colocados por Berger e Luckman (1974) são resultado de relações objetivas e subjetivas, de relações entre os atores e com a instituição.

restabelecer sua autoestima e o reconhecimento do outro, indispensáveis à saúde física [...] a “fatiga de ser você mesmo”, como escreveu Ehrenberg, faz da depressão o novo mal (identitário) do século e faz com que o tema da fratura social entre “incluídos” e “excluídos” substitua aquele da luta de classes. (Ibid, p. 180-181)

De acordo com a teoria dubariana, a privação do trabalho, além de trazer feridas identitárias, causa desorganização social. Como de fato vem ocorrendo no Instituto Federal de Sergipe, campus Aracaju, as pedagogas não docentes estão limitadas no desempenho de seus papéis profissionais, que também são sociais, além de viverem em constante conflito, especialmente consigo mesmas. O não desempenho de suas atividades profissionais causa uma disfunção em todo o sistema escolar, posto que, nenhum outro profissional desempenha esse papel.