Se a maior preocupação do posto no que diz respeito aos adolescentes é a possibilidade da gravidez, e se é aí que reside o maior controle, também é justamente este aspecto que afasta os jovens. O que faz com que o posto tenha vantagens para a população no que diz respeito ao acesso tem o efeito contrário para os jovens. Os postos ficam próximos da casa deles, são freqüentados por pessoas conhecidas, os agentes de saúde são da comunidade.
A questão da sexualidade não é algo que as pessoas lidem com facilidade. A virgindade das filhas, sobretudo nas camadas mais desfavorecidas, tem um valor moral muito forte. E, mesmo quando os pais de alguma forma “desconfiam” das relações sexuais dos filhos é comum que não haja comunicação direta. Nem os jovens nem os pais assumem que estão ocorrendo relações sexuais. Muitos jovens preferem manter o sigilo sobre sua vida íntima com o intuito de evitar interferência dos pais (Brandão, 2004).
“Pra mim adolescente vem com a mãe, quando ta sentindo alguma coisa. Eu não consegui começar a trabalhar com adolescente ainda aqui. Mas até o fim do ano eu quero começar o ambulatório de adolescente e o grupo de adolescente. Que é outro grupo que eu quero trabalhar além dos hipertensos e diabéticos. Então assim, quando eles vêm, eles vêm mais com a mãe, quando tá sentindo alguma coisa. Dificilmente vem um adolescente só. As vezes vem, assim, menina, com uma infecção ou alguma coisa que não quer que a mãe saiba. Aí você pede uma prevenção elas ‘não, minha mãe não pode saber, minha mãe acha que eu não posso fazer prevenção, não sei o quê’. Agora teve um caso que me chamou atenção que não foi aqui, foi no outro posto ainda. Que uma adolescente veio com uma história que não menstruava há 3 meses. Essa criança, essa menina me chamou a atenção porque assim, ela foi com a mãe, né? Aí a mãe chegou desesperada. Não, porque eu tô preocupada minha filha ta sem menstruar há... parece que foi ‘há 4 meses’. Aí eu, ta sentindo alguma coisa? A menina disse: não. A mãe disse, olhe, de vez em
quando ela vomita. Eu disse ‘olhe, pode ser gravidez’. Não dra, minha filha, a menina tinha... uns 14 anos. ‘Minha filha? Gravidez? De jeito nenhum!’ Aí eu conversei com a filha: olhe, você tem namorado, ta saindo com alguém, tem relações com alguém? A menina calada. Aí depois fez, “não”. Aí eu disse: olhe, aí pedi para a mãe sair, é melhor você me contar porque senão eu vou descobrir. Porque tava com jeito de gravidez. Ela com a carinha assim, a barriguinha já crescendo. Aí eu disse: ‘eu vou descobrir’. Ela disse: ‘não, não to saindo com ninguém não’. Então eu disse, vamo examinar. Aí mandei a mãe entrar. Quando eu deitei ela que botei a mão na barriga já senti o útero. 4 meses já tava dando para sentir direitinho. Aí eu disse à mãe: é gravidez, você coloca a mão já dá para sentir o útero dela aqui. Aí botei a mão da mãe. A mãe, meu Deus, foi aquele desespero. Esse caso me chamou a atenção porque elas escondem da mãe até o último minuto (Entrevista com profissional de medicina).
Diante disso, ir ao posto é uma péssima opção para os jovens. No dia que é feito o planejamento familiar pela enfermeira a médica atende pediatria. Pra organizar a entrada na sala a pessoa que está na recepção pergunta “quem vai para o planejamento familiar?” ou “quem mais vai pegar remédio, camisinha não tem hoje não”. Ter os dias bem definidos para as ações, com pouca flexibilidade dificulta a ida dos jovens, pois impossibilita que se mantenha a privacidade.
Porque assim, é uma opção delas não contar para a mãe e a gente tem que respeitar. Algumas eu consigo convencer [a fazer o preventivo], agora algumas assim, porque a comunidade é fofoqueira, vai dizer: olha a filha de fulana no posto no dia da prevenção. Então quando acontece isso a gente manda lá para a maternidade. Já teve uma que não quis ir nem pra maternidade, eu mandei ela lá para o Cabo. Ela disse, olhe, nem na maternidade porque se eu encontrar alguma conhecida da minha mãe vai dizer pra minha mãe. Então eu mandei ela lá para o Cabo. Ele foi lá para o Cabo aí fez a prevenção, trouxe o resultado, fez tudinho direitinho. (...) É porque, assim, fazer o procedimento da prevenção você acaba chamando atenção. Ela vem, vai demorar mais tempo no consultório. É mais difícil. É melhor mandar para outro lugar. Também elas não querem, se disser que elas vão fazer aqui dentro elas não querem. Não dra, alguém vai ver, pode ter uma amiga da minha mãe aqui no posto, é complicado. Mas eu sempre converso com ela. Se der alguma coisa sua mãe vai acabar descobrindo. Se tiver que usar um creme, alguma coisa vai ter que usar em casa, né? Eu sempre converso com elas: converse com a sua mãe, explique que você já teve relações com o seu namorado, é normal hoje em dia. Mas têm algumas que parece que tem pânico da mãe. Tem pavor da mãe. (Entrevista com médica)
A própria postura dos profissionais contribui para o distanciamento. Médicos, enfermeiras, auxiliares e agentes de saúde sempre, ao se referir aos jovens quando contam que souberam que eles mantêm relações sexuais, aconselham a contar para os pais. Isto pode se dar pelo fato dos profissionais não reconhecerem o posto como um local no qual é possível ter privacidade, embora o discurso seja sempre o de que “o povo inventa história, ninguém da equipe comenta nada” ou de que a gravidez é inevitável e os pais vão saber de qualquer jeito.
O fato é que a postura dos profissionais no posto, neste aspecto, se difere muito da que se tem, por exemplo, em clínicas para a classe média, nas quais as ginecologistas orientam mas não aconselham ninguém a contar para os pais.
Neste caso fica implícita a questão de classe dentro do PSF. Ao mesmo tempo em que os profissionais vêem como reconhecimento a utilização do posto por pessoas que possuem um poder aquisitivo melhor, por outro lado mantém a já referida postura de que se as pessoas têm acesso ao serviço público de saúde, é preciso se submeter às regras do mesmo.