1. O SURGIMENTO DO PROBLEMA ACERCA DA LINGUAGEM MENTAL
1.1. Agostinho
1.1.1. O papel da Linguagem dentro do modelo Agostiniano
Partindo dos elementos expostos até o momento, e tendo como norte o dado da figura agostiniana como marco pioneiro de uma filosofia cristã, uma pergunta urge a ser respondida: qual é a importância do modelo de uma filosofia da linguagem agostiniana?
Para Maria Leonor Xavier, em sua introdução à tradução do texto agostiniano do De Magistro, a questão imposta acima poderia ser respondida da seguinte forma:
A singularidade do pensamento de Santo Agostinho sobre a alma só emerge verdadeiramente a respeito da noção de mente (mens) ou de homem interior, que é especialmente elaborada em A Trindade, VIII- XIV. No foro íntimo da mente, encontra-se o sentido mais profundo da identidade humana. Não se trata da identidade com uma forma, uma ideia ou uma definição, mas com uma vida irredutivelmente relacional que se tece num mundo interior de fronteiras indelimitáveis. Nessa vida, basilarmente constituída pelas funções da memória, da inteligência e da vontade, radicam experiências
irrecusáveis da existência humana, como as da fé e da linguagem. Na verdade, o contributo mais original de Santo Agostinho em filosofia da linguagem é a sua concepção da origem da palavra significante numa linguagem interior da mente, o verbo mental, que procede naturalmente do conhecimento.65
A estrutura da linguagem no processo agostiniano deve ser vista inserida no contexto imbricado em que o tornar-se portador da sabedoria nos coloca inseridos entre dois pólos distintos e conflitantes, a saber, o pólo da ontologia da significação e o pólo da condição humana. Nesse sentido a ontologia implica a inserção do ser humano numa cadeia de seres sensíveis, mas que tem a necessidade de buscar por um mundo transcendente, o qual somente poderia ser alcançado através do uso da linguagem. Contudo, no sistema agostiniano, essa função da linguagem humana como o instrumento de acesso privilegiado e chave de acesso à ontologia transcendente não acontece. Se por um lado temos o fato de que em tudo há signo, do outro lado seria natural falar-se em uma linguagem universal. Se isso ocorre, a ontologia e a condição humana estariam plenamente alinhadas. Mas esse alinhamento não ocorre. Apesar de estarmos inseridos em uma ontologia, esta entendida de forma significante, esses dados não garantem, à linguagem humana, nenhuma forma privilegiada de acesso a essa linguagem universal. Segundo Novaes Filho, “enquanto as coisas têm uma „voz‟ que afirma a existência e a excelência de um criador supremo, a linguagem humana parece não ter a mesma capacidade de comunicar a verdade” 66.
A linguagem humana, justamente pelo fato mesmo de ser humana, participa do elemento constitutivo da condição humana, a saber, estar decaída em relação ao ser primeiro. Portanto, se em sua filosofia a atenção é voltada para a condição humana concreta, em seu estado de decadência, onde se visa um elemento de reestruturação da natureza humana em relação à ontologia primeira. No que tange à estrutura da linguagem propriamente dita, nela também será necessário o retorno a uma estrutura ontológica significante que lhe permita, novamente, participar da ordenação do mundo. Pois bem, se a condição humana precisa restabelecer seu lugar e papel dentro do cosmo, da ordenação, a linguagem humana também terá de realizar essa atividade67.
65 XAVIER, In.: AGOSTINHO, De mag., 1995, Introdução, p. 9. 66 NOVAES FILHO, 2007, p. 30.
Não obstante temos, por detrás desse escopo, a necessidade de uma completa reorganização da estrutura da linguagem. Portanto, tem-se, na visão dessa empresa agostiniana, a necessidade de uma minuciosa análise acerca das palavras e de sua estrutura. Assim, a ordem da linguagem insere-se na investigação acerca da função significante das palavras e, portanto, numa ordem racional da linguagem. Essa ordem racional de significação das palavras pode ser interpretada, como nos afirma Maria Leonor Xavier68, através da regra de nominação e da regra de comunicação.
Segundo Xavier, poderíamos começar a pensar a regra de nomeação mediante uma análise que nos permita examinar o termo „nome‟, portanto,
Atenda-se ao termo <<nome>> (nomen) quanto à compreensão e extensão. Na compreensão de <<nome>>, inclui-se a função de significar de um modo determinado, como é nomear. Por <<nome>> compreende-se, pois, a palavra que significa nomeando alguma coisa. Assim, dada a compreensão de <<nome>>, quais são as palavras que pertencem à sua extensão? Quais são as palavras que podem significar como nomes, ou seja, nomear? Apenas uma espécie de palavras ou o gênero de todas as palavras? Apenas as palavras que são formalmente nomes ou também as restantes? Apenas a classe morfológica dos nomes ou todas as classes de palavras? A primeira destas duas hipóteses pode parecer acertada, de acordo com classificações da gramática escolar. Todavia, é a segunda hipótese que a regra de nominação confirma, estabelecendo que todas as palavras são nomes.69
Justamente através do fato de que seja comum a todas as classes morfológicas de palavras tornarem-se nomes é que se instaura aqui uma espécie de regularidade, uma ordenação racional da linguagem, no âmbito verbal, que nos impele a estabelecer a regra da nominação como uma espécie de regra racional da linguagem. Entrementes, o sentido proposto por uma noção de regra é aquele no qual temos um conjunto de possibilidades que poderão atualizar-se mediante qualquer palavra em contexto. O sentido de regra, portanto, deverá ser entendido, nesse sistema agostiniano, como sendo diferente da noção conceitual de „norma‟. O que Agostinho pretende criar com a noção da regra de nominação é uma espécie de conjunto de aptidões comuns que sejam intrínsecas às palavras; portanto, que reitere as funções semânticas e sintáticas dos nomes quando utilizados por palavras
68 XAVIER, In.: AGOSTINHO, De mag., 1995, Introdução, p.14. Cf., também, BOTTIN, 2005, p. 46-
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de diferentes classes morfológicas em seu uso regular. Para Xavier, “é este facto de regular que designamos pela expressão de <<regra da nominação>>, por ser a regra de atribuição do caráter nominal a todas as palavras”70.
Esse sistema que permite entender a regra da nominação como uma regra racional da linguagem que nos aponta para a estrutura que deve ser entendida como um ditame da razão interna, portanto, como uma ordem constituinte da linguagem verbal e, obviamente, não poderá ser entendida como uma espécie de convenção humana. O aspecto racional que a ela é aludido deve ser visto como sendo algo oposto ao convencional, por conseguinte, deverá ser visto como algo essencial ou mesmo natural. Esse aspecto racional nos permite criar possibilidades que se convertem em funções nominativas das palavras expressas através daquilo que se entende como as funções semânticas e sintáticas de um nome. Fala-se em possibilidades pois, dependendo do contexto frasal ao qual cada palavra está sujeita no seu emprego particular, esta poderá ou não se atualizar. Entendida dessa forma,
a regra da nominação não desmente o registro dos hábitos de linguagem feito pela gramática escolar, mas descobre uma ordem implícita de possibilidades funcionais da linguagem, que condiciona a formação de tais hábitos. Por esta razão, a regra da nominação é parte integrante de uma gramática profunda da linguagem verbal. Na medida em que cabe especialmente á filosofia trazer à evidência o teor de tal gramática, podemos dizer que se trata de uma gramática filosófica.71
Dentro dessa estrutura, os princípios de nominação efetivam duas funções, a saber, de significação e de construção, caracterizando palavras enquanto nomes e mediante suas aplicações sintático-semânticas. Portanto, lembrando que a regra da nominação é específica da estrutura racional, pode-se estabelecer que ela pertença à ordem comum de uma linguagem, conseqüentemente, às regras de linguagem. Para Xavier,
a regra de nominação pertence, não à gramática de uma língua, mas a uma gramática comum a diversas línguas, como o grego, o latim e o português. Trata-se, por isso, não de uma regra de língua, mas de uma regra de linguagem, que traz à evidência uma ordem comum da linguagem verbal. 72
70 XAVIER, In.: AGOSTINHO, De mag., 1995, Introdução, p. 14 71 Ibid., p. 15.
Ainda, nesse ínterim, poder-se-ia estabelecer que a regra da nominação, mediante uma construção, faz com que as palavras possam desempenhar corretamente as funções sintático-semânticas ora ocupadas pelos nomes. Xavier assim expõem essa construção:
Todas as palavras são nomes, porque todas as palavras podem desempenhar as funções semântico-sintácticas dos nomes. A actualização destas funções torna-se manifesta, quer na tradução das palavras de uma língua para outra, fora de contexto determinado, que no uso das palavras em contexto.73
Uma vez determinada à forma com que a regra da nominação é realizada, passemos a abordar a segunda regra apresentada acima, a saber, a regra da comunicação. Primeiramente devemos colocá-la ao lado da regra de nominação, haja vista que a regra da comunicação também é uma regra da linguagem, portanto não restrita a nenhuma língua natural privada circunscrita a um determinado grupo. Contudo, seu objetivo difere da regra de nominação justamente na medida em que ela opera suas atividades relativas às funções semânticas, ou de significação, das palavras como nomes.
Examinando o exercício da linguagem de conceber a função de significar nomeando, Agostinho estabelece duas funções significativas, a saber, a função transitiva e a função reflexiva74. Ao processo de significação transitiva devemos entender “a função de nomear coisas distintas dos próprios nomes significantes”75. Já ao que concerne ao processo da significação reflexiva devemos entender “a função de significar pela qual as palavras se nomeiam ou denominam a si mesmas”76. Pelo fato das palavras desempenharem as duas funções, transitiva e reflexiva, para o Bispo de Hipona, torna-se plausível o grau de complementaridade entre as duas significações. Entrementes, para o autor, apesar de às palavras aplicar-se uma significação reflexiva, normalmente, elas significam de um modo transitivo, ou seja, sua função habitual insere-se no campo lingüístico justamente à medida em que nomeiam coisas distintas delas mesmas. É justamente nesse aspecto que a regra da comunicação irá trabalhar. Assim, no concernente à regra da comunicação,
73 Ibid., p. 21.
74 A esse respeito Cf. op. cit., Introdução, p. 21-29.
75 XAVIER, In.: AGOSTINHO, De mag., 1995, Introdução, p. 21. 76 Ibidem.
Esta regra não afirma um conjunto de possibilidades de significação das palavras, como era o caso da regra da nominação. Entre tais possibilidades, a regra da comunicação registra aquela que o uso corrente da linguagem normalmente actualiza. A regra da comunicação é, pois, a afirmação de um facto normal do uso da linguagem. Por essa razão, a regra da comunicação não é simplesmente uma regra de linguagem, mas, de forma mais determinada, uma regra do uso da linguagem. Tal é o que sugere a designação augustiniana de loquendi regula, assim como a versão portuguesa de <<lei da fala>>.77
Contudo, ao olharmos efetivamente para o exercício próprio dessa rega de comunicação, poderíamos formulá-la com a seguinte estrutura, conforme nos alerta Xavier:
Dada uma palavra na experiência comum do uso da linguagem, a nossa atenção dirige-se de imediato para aquilo que ela significa de distinto de si mesma, isto é, para a sua significação transitiva. (...) Podemos detectar quatro enunciações desta regra, que salientam quatro diferentes aspectos da sua pertinência e natureza, a saber, enquanto é: relativa e necessário ao fim da comunicação; igualmente necessária ao exercício judicativo da razão; condicionada pelas circunstâncias particulares do emprego das palavras em contexto; constituinte de uma necessidade de pensamento. Tais são os aspectos de caracterização da lei da fala (loquendi regula) no diálogo augustiniano, (...).78
Portanto, se assim a entendermos, definir-se-á que a regra da comunicação é uma espécie de tomada de consciência do hábito mental que, em seu exercício, constitui uma espécie de regulador do uso da linguagem através da significação transitiva das palavras. Portanto, a concatenação dos diferentes aspectos dessa regra aponta para o fato de que as determinações acerca do uso da linguagem acima descritas apresentam-se, de forma intrínseca, como uma finalidade da comunicação. Em suma, o exercício da regra de comunicação nos impele a não confundir as palavras com as coisas, justamente na medida em que fixa o ponto comum da significação das palavras, mostrando, nesse exercício, que pertence tanto ao campo da linguagem quanto ao campo da racionalidade.
Toda a construção desse sistema agostiniano permite uma estreita relação valorativa entre as palavras e as coisas. Todo interesse que as regras de nominação e comunicação podem estabelecer pela linguagem, quer a concepção de palavras como nome, estabelecida pela primeira regra, quer a capacidade usual das palavras
77 XAVIER, In.: AGOSTINHO, De mag., 1995, Introdução, p. 22. 78 Idem., p. 23.
ao serviço do pensamento e da conversação, estabelecidos na segunda regra, postulam o legado neoplatônico onde é erigida a primazia dos objetos, o valor das coisas, sobre as palavras, a linguagem. Portanto, toda a estrutura estabelecida para a linguagem somente terá lugar mediante sua relação para com a realidade, ou seja, nesse contexto é pensado um valor superior à linguagem, o conhecimento. A esse respeito assevera Xavier,
A ordem axiológica entre o conhecimento das coisas e a linguagem dos sinais é, antes de mais, expressão de uma ordem teleológica: os sinais, como sejam as palavras, são um meio para um fim, que é o conhecimento das coisas. Com base nesta ordem, produz-se também uma relação de valor no domínio do conhecimento: dado que os sinais são instrumentais a respeito do conhecimento das coisas, então, não apenas aos sinais, mas também ao conhecimento dos sinais é preferível o conhecimento das coisas.79
Na construção dessa estrutura onde a linguagem significante está subordinada ao conhecimento da realidade, se estabelece uma hierarquia teleológica no sistema. Justamente nesse ponto, no tentar demonstrar essa estrutura teleológica onde existe a prioridade de valor do conhecimento sobre a linguagem, tem-se a instauração de um ordenamento onde a linguagem significante (quer escrita, quer falada) tem uma origem numa linguagem interior, denominada de verbo mental (verbum mentis), que é estabelecida como sendo a expressão direta do conhecimento da realidade.
Justamente aqui, nas interfaces desse conhecimento interior, teremos a base significante da linguagem humana. Todo o valor cognitivo da linguagem humana, portanto, circunscreve-se num âmbito original, o âmbito da interioridade. Mas o que é e como se fundamenta essa estrutura do verbo mental, verbum mentis?
Doravante nos ocuparemos desse tema.