2. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A TELEVISÃO DIGITAL NO BRASIL
2.5. O papel do Estado e a influência do mercado
É claro e notório que o papel do Estado tem função fundamental em um processo de democratização da comunicação. No entanto, a função que deveria cumprir e a que efetivamente é praticada, muitas vezes, são divergentes. Não é novidade, também, que a influência do mercado é expressiva junto ao Estado, interferindo em decisões e condutas que afetam a todos, beneficiando uma minoria, que, inevitavelmente, prejudicam uma maioria. Pensando em como deveria ser a função do Estado neste processo, o papel das comunicações na sociedade e a natureza do serviço prestado pelas instituições de comunicação, o caminho escolhido deve partir da forma de participação do Estado, "protagonista natural no processo de estudos de políticas" (SANTOS, SILVEIRA, 2007,
p. 50). Ou seja, cabe exatamente ao Estado o papel central de gestor das políticas públicas que garanta uma comunicação democrática.
No Brasil a radiodifusão sempre esteve atrelada aos interesses do mercado, desde sua criação em 1923, em uma estrutura privada. Utilizada pelo Estado como instrumento de domínio, foi marcada pela história por ser estrutura, especialmente pela influência da Ditadura Militar imposta em 31 de março de 1964, com uma relação distante da efetiva participação social e amplo controle. Os veículos públicos de comunicação se consolidaram como um espaço do Estado, em teoria, à serviço da sociedade, mas não com sua participação.
Apesar das distinções que o mercado provoca na natureza da regulação entre público e privado, para Santos e Silveira (2007), lembrando Jambeiro (2000, in SANTOS, SILVEIRA, 2007), estes serviços usualmente estão incluídos dentro de um setor único, genericamente chamado de comunicações, no qual o Estado assume as funções de proprietário, promotor e regulador, no que se refere, por exemplo, a bibliotecas, a centros de documentação, ao espectro eletromagnético e às emissoras de rádio e televisão que explora diretamente. É também Estado promotor, porque traça as estratégias públicas para o desenvolvimento do setor, faz inversões de infraestrutura e concede incentivos e subvenções. E, finalmente, é Estado regulador, na sua função de fixar regras claras de instalação e operação, que eliminem as incertezas e desequilíbrios.
Mosco (in SANTOS, SILVEIRA, 2007) chama atenção para o fato de que, diferente do que se pode depreender numa leitura generalista, mercado não é um mecanismo auto-criador e auto-sustentável. “Ao contrário, a questão chave da sua estrutura é justamente: quem cria e sustenta os mercados e para benefício de quem” (SANTOS, SILVEIRA, 2007, p. 59). Nesta lógica, a postura do Estado torna-se central, pois os modelos de comunicação enquadram-se em duas linhas básicas: as que têm um serviço prestado pelo Estado (direta ou indiretamente), ou seja, públicas, e as que têm serviço prestado pela iniciativa privada, ou seja, as comerciais. “Chamam atenção que a definição do papel que o Estado desempenha na gestão do modelo estabelece a natureza dos serviços de comunicação que uma sociedade se propõe, ou que a ela se impõe” (SANTOS, SILVEIRA, 2007, p. 60).
Ramos e Haje (2011) lembram que o direito à comunicação implica a garantia da circulação da diversidade e da pluralidade de idéias existentes na sociedade, isto é, “a universalidade da liberdade de expressão individual. O direito à comunicação é baseado nos princípios da liberdade, inclusão, diversidade e participação.” (RAMOS, HAJE,
2011, p. 15). No entanto, no Brasil, para Ramos e Haje (2011) os processos e as atividades da comunicação apresentam duas características básicas: a centralização geográfica da produção de conteúdo no Rio de Janeiro e em São Paulo e a concentração do controle e o controle cruzado da produção de conteúdos por grandes grupos empresariais. Entre esses grupos estão a Rede Globo - televisão, rádio, jornais, televisão por assinatura, revistas, portal de internet, produção fonográfica, produção cinematográfica -, a Editora Abril - revista, portal de internet, produção editorial, televisão por assinatura -, a Rede Record - televisão, rádio, jornal, portal de internet -, o grupo Bandeirantes - televisão, rádio, portal de internet -, o grupo O Estado de S. Paulo - jornal, rádio, portal de Internet - e a Rede Brasil - televisão, jornal, portal de internet.
A estrutura vigente é incompatível com os princípios para a produção e a programação dos meios de comunicação eletrônica, listados no Artigo 221 da Constituição: promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente e regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei (RAMOS, HAJE, 2011).
Com incentivo uma política pública de descentralização geográfica e desconcentração e descruzamento empresarial na produção de conteúdos de comunicação, principalmente audiovisuais? Como colocar em prática os artigos 220 (inciso 5º) e 221 da Constituição, os quais determinam a proibição de monopólios ou oligopólios no setor e a proteção e valorização de conteúdos culturais regionais e nacionais? (RAMOS, HAJE, 2011, p. 16)
As políticas nacionais de comunicação foram originalmente configuradas como instrumentos de Estado para assegurar, juntamente com outras políticas estatais, o desenvolvimento homogêneo e pleno das nações e seus povos (RAMOS, HAJE, 2001) e não atendendo aos interesses de uma minoria que atua com o objetivo de massificação, poder e/ou estímulo ao consumo visando o próprio lucro. As políticas de comunicação devem ser hoje pensadas como políticas efetivamente públicas e não formuladas "a partir de um centro incrustado no coração do Estado, mas sim, a partir do embate de posições antagônicas no âmbito da esfera pública.” (RAMOS, HAJE, 2011, p. 16). Para Dourado (2010), o Estado não é um ente neutro, tendo uma origem de classe, visando tutelar os interesses do capitalismo. “Não obstante, a partir dos processos de contra- hegemonia, ele é demandado a novas funções, aproximando-se de interesses majoritários, considerando as demandas eleitorais e a própria complexificação social.”
(DOURADO, 2010, p. 161). Assim, ao se demarcar o espaço público midiático, faz-se necessária a inclusão da premissa na qual “a liberdade de opinião e expressão são requisitos fundamentais para a democracia e, consequentemente, para a cidadania. Hansen defende que as relações Estado-sociedade têm como mediadores os meios de comunicação” (DOURADO, 2011, p. 162).
Ao passo que produzem informações e conteúdos a que, de outra forma, o público não teria acesso, esses veículos tanto possibilitam que a sociedade exerça um maior controle sobre o governo quanto permitem que esse legitime suas ações frente à sociedade. Desse modo, ao tratar dos meios de comunicação de massa como estruturas centrais nas democracias ocidentais, os trabalhos que se enquadram nessa perspectiva, geralmente, privilegiam questões como as posições entre público e privado e entre visibilidade e invisibilidade e a necessidade de regulamentação e democratização dos meios de comunicação, sobretudo para atender à exigência democrática de acesso igual ao direito às diversas fontes de informação e opinião. (HANSEN in DOURADO, 2010, p. 162)
Neste cenário as indústrias culturais passaram a despertar grande interesse por parte dos setores industriais e comerciais, os quais perceberam nos meios de comunicação uma excelente ferramenta para divulgar seus negócios. “A mídia foi essencial às sociedades capitalistas, por ser capaz de incentivar o consumo através da publicidade.” (ANDRES in DOURADO, 2010, p.166). Por outro lado, Dourado (2010) argumenta que as empresas de comunicação se capitalizaram e se expandiram diante dos investimentos trazidos pelas indústrias e demais setores comerciais. “Diante da possibilidade de crescimento, as organizações se modernizaram, implantaram tecnologias de comunicação e informação e começaram uma corrida de expansão, dando origem aos oligopólios de comunicação.” (ANDRES in DOURADO, 2010, p. 166)
A indústria cultural, nas etapas monopolista e contemporânea do capitalismo, desempenha as funções de publicidade e propaganda. Uma voltada à produção a partir da mídia, e a outra direcionada à produção de estilos de vida que desencadeiam o consumismo exacerbado, característico da sociedade capitalista. Portanto, foi no desenvolvimento da sociedade capitalista que os meios de comunicação de massa (MCM) encontraram as condições favoráveis para seu desenvolvimento. (DOURADO, 2010, p. 166)
Inserido em uma sociedade capitalista acostumada com os meios de comunicação de massa dominantes, os meios de comunicação públicos assumiram um espaço tímido e não caracterizado, estando, por décadas, subjugado, inclusive pelo Estado. No entanto, com a chegada das novas tecnologia, inclusive a televisão digital, o cenário da comunicação começa a ganhar novos formatos e novas possibilidades. Para Bolaño e Brittos (2007), o espaço público midiático hoje é demarcado pela reordenação capitalista, na qual a aceleração da inovação tecnológica desempenha um papel fundamental, no qual a tecnologia fornece o lastro para as várias reestruturações que vêm se processando desde a formatação da esfera pública burguesa.