2. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A TELEVISÃO DIGITAL NO BRASIL
2.6. Televisão digital e poder
O processo de reestruturação tecnológica, transitando do sistema analógico para o digital, que a televisão no Brasil passa, desde dezembro de 2007, cria possibilidades reais para uma nova perspectiva de atuação, abrindo um novo segmento de conteúdo e programação gratuito, aberto e alternativo ao sistema adotado pelas televisões comerciais. O sistema ISDB-T foi implantado em um ambiente controverso, no qual os envolvidos, sociedade civil, governo, mercado e academia, vinham discutindo as vantagens para o consumidor entre os modelos existente. Em um contexto de pouca cultura história nos estudos sobre televisão digital, sendo iniciados em 1994 no Brasil, a discussão sobre o modelo a ser adotado girou em torno de três opções: o europeu, com o sistema Digital Vídeo Broadcasting (DVB), adotado em mais de 50 países, entre eles: todos os países da Europa, Austrália Nova Zelândia, Índia, Cingapura e Taiwan; o modelo norte-americano, com o sistema Advanced Television Standard Commitee (ATSC), que foi adotado pelos Estados Unidos da América, Canadá, México e Coréia do Sul; e o modelo japonês Integrated System Digital Broadcasting (ISDB). "Embora a academia tenha iniciado seus testes em 1996, no padrão de codificação para vídeo digital e áudio associado MPEG-2 em alta definição, é possível afirmar que foi realizado um trabalho conjunto entre a academia e o mercado" (GOBBI, 2010, p. 34).
O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), contratado pelo Governo Federal para identificar o melhor modelo a ser adotado, criticou, em 2006, por meio de relatório, identificando a escolha como não sendo a melhor opção, preferindo o modelo europeu, pois considerava a escolha como uma continuidade do modelo analógico adotado e o japonês como o sendo mais caro para o
brasileiro. Enquanto as discussões aconteciam, Gobbi (2010) lembra que as entidades envolvidas no debate não se entendiam e foi ainda em 2006, com a queda do Chefe da Casa Civil, Jose Dirceu, e a entrada no ministro Hélio Costa, que "houve uma mudança significativa no cenário comunicativo-tecnológico do país" (GOBBI, 2010, p. 36), resultando na escolha do sistema japonês, com a adaptações nacionais, conhecido como o sistema nipo-brasileiro.
O padrão japonês pode-se afirmar, atendeu "os interesses comerciais dos radiodifusores", uma vez que não prioriza a convergência das mídias e a multiprogramação, mas por outro lado traz substancial adequação a alta e a mono-definição. (GOBBI, 2010, p. 36)
Para Gobbi (2010) a preocupação das indústrias, governo e telecomunicações de colocar o Brasil na era digital não deve ser encarada ingenuamente, pois está havendo uma mudança de cenário com novos desafios lançados não envolvendo apenas tecnologia, mas também a produção de conteúdos e a participação social. "Já faz algum tempo que as audiências televisivas estão caindo entre os jovens. Um dos grandes vilões foi o próprio advento da internet, que possibilitou um mundo sem fronteiras" (GOBBI, 2010, p. 36), no qual os jovens consideram a internet como um elo de comunicação com o mundo, "enquanto a televisão é apenas uma fonte de comunicação entre você e o meio de comunicação" (TAPSCOTT, 1999 in: GOBBI, 2010, p. 36).
No caso da decisão da televisão digital no Brasil, como foi tomada, além das questões de produção de conteúdo e participação social, outros pontos fundamentais influenciaram na decisão, fortemente trabalhadas pelas televisões comerciais, entre eles o bolo comercial de negócio envolvido e a necessidade de manutenção do modelo que garanta a hegemonia de poder e financeira instaurada. Cruz (2008) considera que a escolha adotada pode ser interpretada como uma medida defensiva, resultado da pressão das emissoras. “A ideia foi melhorar a qualidade do vídeo, ampliar os dispositivos de recepção (com a mobilidade), para manter tudo como está, sem mudar o modelo de negócio. A grande questão é quanto tempo será possível segurar as mudanças trazidas pelo avanço tecnológico” (CRUZ, 2008, p. 18). Para o autor, o risco é de os radiodifusores descobrirem depois que, enquanto tentavam barrar politicamente a entrada de novas empresas no mercado, o tempo passou e se tornou tarde para fazer qualquer coisa e o jogo tenha sido perdido (CRUZ, 2008).
Um dos pontos mais críticos ao analisar a política pública da comunicação, da radiodifusão e, especificamente, da própria televisão digital, é a relação do Estado e o mercado. Cruz (2008) aponta uma conexão tensa e grave: um em cada dez deputados é proprietário direto de rádio ou televisão, o que é proibido pela Constituição, conforme investiga a Procuradoria da República do Distrito Federal. De 513 deputados, 50 têm emissoras, sem contar aqueles com concessões em nome de parentes ou empregados. A lista da Procuradoria não inclui os 25 senadores que são donos de empresas de rádio e TV. Quatorze são proprietários diretos e 11 indiretos.
O Artigo 54 da Constituição proíbe deputados e senadores, desde a posse, de serem "proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada". O artigo seguinte prevê perda de mandato para quem desobedecer ao dispositivo (CRUZ, 2008). O autor ressalta a relação desvirtuada e grave entre Estado, meios de comunicação e poder caracterizadas pelo ex presidente da República José Sarney (PMDB) e atual presidente do Senado Federal. “As concessões de televisão são ferramentas importantes para manter o poder regional. Durante a Constituinte, as concessões de rádio e televisão ajudaram a garantir a aprovação da emenda que aumentou para cinco anos o mandato do presidente Sarney.” (CRUZ, 2008, p. 25)
A família Sarney é um exemplo de como o poder político regional está ligado às comunicações. Reseana Sarney, filha de José Sarney, é sócia da TV Mirante, retransmissora da Globo São Luís (MA), ao lado dos irmãos Fernando José Macieira Sarney e Sarney Filho, deputado pelo PV-MA. Também controla a Rádio Mirante FM, de São Luís, com os irmãos, a Rádio Interior AM, em Caxias (MA), e a Rádio Interior AM, em Pinheiros (MA). Além das emissoras em nome da filha, o senador José Sarney (PMDB-AP) tem controle indireto sobre a TV Rádio Mirante do Maranhão (retransmissora da Globo), a Rádio Mirante do Maranhão AM e a Rádio Mirante do Maranhão FM, em Imperatriz (MA); a Rádio Difusora de Timon FM, em Timon; e a TV Itapicuru, em Codó (MA). Toda em nome de familiares. (CRUZ, 2008, p. 25)
Cruz (2008) argumenta que a presença desses parlamentares nas comissões impede que sejam votadas leis que atualizem o quadro regulatório das comunicações. Considerando a televisão como principal meio de comunicação no país, possui um mercado extremamente concentrado, com a Rede Globo mantendo mais da metade da audiência e das verbas publicitárias em um modelo baseado no americano, no qual as emissoras são sustentadas por receitas publicitárias. A liderança concentrada, lembra
Cruz (2008), foi construída durante a ditadura militar, quando a televisão foi utilizada como instrumento de poder, e consolidada após a redemocratização
quando se cristalizou como um poder político em si mesma. As concessões de rádio e TV são instrumentos importantes de poder regional. As operações de TV são verticalmente integradas, reunindo em uma só empresa produção, programação e distribuição (CRUZ, 2008, p. 49).
O processo de implantação da tecnologia digital sofreu forte influência do grupo hegemônico de comunicação do país. Para Cruz (2008), ao exigir o padrão japonês, com alta definição, as emissoras buscam garantir um novo canal de 6MHz na transição, evitando o que aconteceu na Europa, em que a opção pela multiprogramação com vários programas simultâneos de resolução normal em um único canal. Isso, “permitiu que os governos brasileiros abrissem espaço para o aumento da competição no mercado televisivo, dando às emissoras menos que um canal inteiro para a transmissão digital e leiloando novas faixas de espectro.” (CRUZ, 2008, p. 117). O autor lembra que na Europa, o principal argumento ao consumidor foi a multiplicação do número de programações disponíveis, possível com a digitalização. “A opção europeia, porém, trouxe alguns problemas aos radiodifusores que demoraram a conseguir definir um novo modelo de negócios” (CRUZ, 2008, p. 117).
Para o autor (2008), o grande desafio do modelo de programas múltiplos, em que até quatro programações simultâneas podem ser transmitidas em um único canal, está em como financiar o aumento no volume de produção de programação, perante um mercado publicitário, ou de receitas públicas, de mesmo tamanho. O argumento utilizado pelo Governo Federal de que a televisão precisaria se tornar uma ferramenta de inclusão digital no país perdeu força, ao longo do processo, enquanto as emissoras de TV defenderam a mobilidade como uma característica importante para o sistema a ser adotado no Brasil, com o objetivo de blindar contra a entrada das operadoras de telecomunicações nesse mercado (CRUZ, 2008).
Cruz (2008) identifica que as emissoras têm pressa na digitalização, pois se encontram atrasadas digitalmente em relação a outras plataformas de distribuição de conteúdo. As telefonias fixa e móvel já são digitais, assim como a TV a cabo nos grandes centros. A TV paga via satélite sempre foi digital. “As emissoras temem a migração da melhor fatia de sua base de clientes para as outras plataformas de
distribuição, o que seria fatal para o modelo de negócio com base na publicidade.” (CRUZ, 2008, p. 194).
A transmissão da televisão aberta para a tecnologia digital vem sendo considerada pelo segmento de emissoras do campo público como uma rara oportunidade de se buscar a complementaridade entre o sistema público, privado e estatal, prevista na Constituição Federal. Como essa transição exigirá das emissoras e retransmissoras vultosos investimentos em rede, torna-se indispensável o compartilhamento dessa infraestrutura e a adoção da multiprogramação. (PAZ FILHO, TAVARES, 2009, p. 13)
Existe hoje um consenso de que a legislação precisa ser atualizada. Como consequência a escolha do modelo japonês atendendo aos maiores interesses comerciais, mesmo com controvérsias, houve, em meio a transição tecnológica, uma abertura relevante para, não apenas retomar, mas fortalecer o debate sobre a importância da televisão pública para a sociedade civil, suas potencialidades como instrumento democrático por meio das características tecnológicos do sistema nipo-brasileiros e a urgente necessidade de implantação de um marco regulatório que a norteie. Com a chegada da tecnologia digital no Brasil a televisão pública começou a ganhar novas esperanças de renovação e uma regulação efetiva. Por fim, a escolha pelo modelo japonês e a implantação do sistema "nipo-brasileiro" foi a mais acertada.