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O papel dos passeios no contexto das cidades

No documento Sintaxe Catarina (páginas 120-123)

Caminhar é o único modo de transporte indispensável à população das cidades, pois está presente em qualquer viagem curta, bem como no início e término das viagens que utilizam veículos automotores. Mas os pedestres necessitam que os espaços públicos destinados a eles, como os passeios públicos, ofereçam um nível mínimo de acessibilidade.

A acessibilidade pode ser definida como a possibilidade de integração entre as pessoas e os ambientes, sem segregá-las e permitindo que as atividades sejam realizadas com êxito por diferentes usuários (DORNELES; BINS ELY, 2013). As pessoas têm peculiaridades, e, por isso, garantir a acessibilidade para todos é uma tarefa difícil, pois devem- se abranger as necessidades espaciais de pessoas com as mais diferentes habilidades, ou seja, incluindo pessoas com limitações em desempenhar atividades devido às suas condições físicas associadas às características dos ambientes (DISCHINGER et al., 2004).

Nas ruas, o pedestre está muito vulnerável a riscos por competir com outros meios de transporte que circulam pelos mesmos lugares. Além desse fator, na maioria das vezes, as calçadas não são adequadas aos pedestres por terem uma capacidade de fluxo e condições físicas impróprias ao seu deslocamento, como, por exemplo: pisos escorregadios, desníveis no passeio, calçada com largura inferior à mínima recomendada e falta de sinaleiras e faixas elevadas para pedestres (MELO; MOREIRA, 2005).

A calçada29 faz parte do sistema viário das cidades e possui um papel

que vai além do trânsito de pedestres, implantação de mobiliário urbano, sinalização, entre outros; ela serve como interface entre as edificações e seu entorno. Os habitantes e moradores se apropriam da cidade e, mais especificamente, dos passeios públicos, transformando este espaço público de circulação em algo muito mais complexo e dinâmico.

29 Calçada é a porção do espaço público situada entre o lote e o leito carroçável. Segundo Yázigi (2000, p. 31), a denominação mais correta é passeio, mas o termo calçada vem da época em que as ruas eram de terra e não possuíam pavimentação nem separação. As pessoas, cavalos e veículos de tração animal compartilhavam o mesmo espaço, a única parte pavimentada do espaço público ficava próxima à edificação e destinava-se a proteger a edificação e suas fundações das águas pluviais, esse trecho era chamada de calçada ou calçadinha.

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Segundo o Código Brasileiro de Trânsito (CTB Anexo I, 1997, p. 94), a calçada é: “parte da via, normalmente segregada e em nível diferente, não destinada à circulação de veículos, reservada ao trânsito de pedestres e, quando possível, à implantação de mobiliário urbano, sinalização, vegetação e outros fins” (BRASIL, 1997).

Segundo Yázigi (2000) os espaços de pedestres podem ser classificados de três maneiras: o sistema principal, que engloba, por exemplo, as ruas, praças, parques e largos; as extensões virtuais de calçadas: as passarelas, túneis e escadarias; e as áreas de pedestres em áreas semipúblicas: galerias, átrios e shopping centers. Pode-se notar claramente que esta classificação ocorre quase instintivamente, já que a primeira corresponde ao sistema principal, ou seja, às áreas destinadas principalmente aos pedestres, e a segunda corresponde às ligações, ou seja, às adaptações que permitem a acessibilidade continuar independente das transições com outros modais de trânsito. A terceira classificação fica a cargo de áreas semipúblicas, às quais o pedestre pode ter acesso, no entanto, elas não são públicas e podem estar fechadas durante algum período de tempo.

As faixas de circulação para pedestres (passeios), que permitam um deslocamento fácil e seguro, devem possuir uma faixa livre de obstáculos, com área de mobiliários e equipamentos urbanos sem conflito com espaço para deslocamento, e presença de sinalização tátil no piso, como ilustra a Figura 1. Além disso, as conexões entre os passeios também devem permitir segurança aos pedestres, seja por uma marcação clara das travessias, seja pela alocação de traffic calming, como no caso da Figura 2, que ilustra uma travessia de pedestres em Londres. Neste espaço há marcação visual por meio de pinturas no piso e postes com iluminação alaranjada, a travessia é elevada no nível da calçada, evitando transposição de desníveis para os pedestres, e há texturas táteis no piso indicando a direção de deslocamento para pessoas com deficiência visual.

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Figura 1 – Passeio público em Santiago do Chile

Fonte: Dorneles (2009).

Figura 2 – Travessia de pedestres no nível da calçada no Aeroporto Heathrow em Londres

Fonte: Dorneles (2012).

Como visto, a calçada é uma forma de circulação urbana, mas também é muito mais que isso. O modo como a sociedade se apropria dos passeios constitui uma forma de representação espacial dos arranjos sociais no nível local da calçada. Entender as causas geradoras do movimento de pedestres é muito importante para o planejamento urbano de nossas cidades, a fim de inferir se as medidas tomadas usualmente, a concepção e manutenção dos espaços, estão de fato contribuindo para o fortalecimento da dinâmica social. Portanto, é importante compreender que o deslocamento de pedestres não pode ser entendido como um simples movimento aleatório, trata-

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se de um fenômeno urbano. Sempre houve a necessidade de entender os fluxos de pedestres pelos estudiosos deste fenômeno (BATTY; TORRENS, 2001; BERLING-WOLFF; WU, 2004; DIXON, 1996; HELBING, 1992; HILLIER; HANSON, 1984; JACOBS, 2004; KHISTY, 1994; RUBENSTEIN- MONTANO, 2000; ZACHARIAS, 2001). Esses esforços foram realizados em diferentes áreas do conhecimento para tentar determinar, entre outras coisas, as características físicas do passeio, isto é, como a posição hierárquica na malha urbana, qualidade e dimensões dos passeios podem influir no fluxo de pedestres.

Segundo Stanton et al. (1985), o movimento de pedestres ocorre em locais distintos, como calçadas, praças, passagem entre modais de transporte, para alcançar edificações, espaços públicos e outros mais. Os deslocamentos de pedestres são realizados em espaços específicos para esse fim, que podem ser públicos ou privados. Os espaços privados ocorrem dentro de edificações ou lotes particulares e possuem restrições ao movimento de todos os pedestres. Os espaços públicos destinados aos pedestres são aqueles com acesso irrestrito nas 24 horas do dia, compar- tilhados ou não com outros tipos de transporte. No entanto, o trânsito de pedestre deve ter preferência em relação aos outros em locais como, por exemplo, calçadas, passeios públicos, praças, parques, vias para pedestres e demais espaços destinados aos pedestres. O limite desses espaços acaba onde a prioridade do pedestre termina e outras formas de deslocamento têm a preferência. A ligação entre todos esses espaços cria o ambiente peatonal urbano (ZACHARIAS, 2001).

Análise da qualidade dos passeios: um modelo preditivo do

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