3.1 RISCO E VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAIS
3.1.2 O paradigma da “sociedade de risco” de Ulrich Beck
Foi a partir da obra do sociólogo alemão Ulrich Beck, A sociedade de risco, que esse conceito tornou-se difundido e aplicado pela comunidade acadêmica em geral, abrindo-se
caminho a um novo paradigma nas ciências sociais, naturais e humanas15. Tal paradigma leva em consideração, sobretudo, a ação humana como fonte dos novos riscos.
Beck anuncia as características da sociedade de risco, a qual se distancia da sociedade industrial moderna, tornando-se não mais uma sociedade simples, mas agora reflexiva.
Inicialmente, retrata a concepção do término do “outro”, a supressão de zonas ou fronteiras em relação aos perigos e ameaças e afirma que o medo é o produto da modernidade. A principal questão levantada diz respeito a “como proteger” a sociedade diante desses riscos e, principalmente, como diagnosticar os riscos, uma vez que tal análise depende de instrumentos e teorias e a ciência não alcança mais a verdade absoluta16, assim como a ciência do direito é incapaz de captar os fatos.
Esse paradigma retrata uma fratura da modernidade, decorrente da passagem da modernidade industrial para a sociedade do risco. Mas “hay que seguir viviendo después de ello” (BECK, 1998, p.18). A questão, a saber, é esta: “como”?
Na sociedade atual, a produção social de riquezas passa a produzir riscos e a problemática está na reprodução, produção e repartição de riscos, cuja causa centra-se no desenvolvimento técnico-econômico. Beck (1998) alerta para a necessária técnica de gestão de riscos e a observação dos efeitos secundários do sistema produtivo, geradores dos riscos, os quais se caracterizam hoje por serem globais, invisíveis, imperceptíveis, decorrentes da sobreprodução industrial e gerarem danos irreversíveis.
O novo paradigma da sociedade do risco, na conclusão de Beck, consiste, portanto, em evitar ou minimizar os riscos e perigos produzidos sistematicamente no processo de modernização, limitando-os e dividindo-os de modo que não obstacularizem o processo de modernização e nem ultrapassem os limites tanto do suportável na ecologia, na medicina e na psicologia, quanto do suportável na sociedade e na vida nos aglomerados urbanos.
As potências de autoameaça civilizatória encontram-se nas seguintes argumentações:
os riscos que são gerados do desenvolvimento das forças produtivas se diferenciam essencialmente das riquezas; com a divisão e o incremento dos riscos surgem situações sociais de perigo que afetam a todos, até mesmo aqueles que produzem e se beneficiam desses riscos (efeito bumerangue); a expansão dos riscos não rompe em absoluto com a lógica do
15 A referida obra está dividida em três partes. Na primeira parte o autor faz uma abordagem sobre o vulcão civilizatório, os contornos da sociedade do risco. Na segunda individualização da desigualdade social, ele trata da destradicionalização das formas de vida da sociedade industrial. Na terceira parte, modernização reflexiva, apresenta ideias sobre a generalização da ciência e da política.
16 Beck utiliza-se da expressão “desencantamento da ciência e da técnica”.
desenvolvimento capitalista, mas, ao contrário, a eleva a um novo nível; os riscos reconhecidos socialmente têm um conteúdo político explosivo peculiar. O que até o momento era considerado apolítico se torna político.
Os riscos da modernização mostram um efeito social de bumerangue: tampouco ricos e poderosos estão seguros diante deles. Os efeitos secundários anteriormente latentes golpeiam também os centros de sua produção. Os próprios atores da modernização sofrem e se beneficiam dos perigos que desencadeiam. Nesse sentido, a divisão de classes desaparece:
“aqui queda claro que la Tierra se ha convertido en una catapulta que no respecta las diferencias entre ricos y pobres, blancos y negros, sur y norte, este y oeste” (BECK, 1998, p.28).
As indústrias com poder de gerar riscos se estabelecem nos países mais pobres, pois existe uma força de atração sistemática entre a pobreza extrema e os riscos extremos. Nesses países subdesenvolvidos, onde há uma massa desempregada, observa-se até maior receptividade para com as indústrias, pois com elas aparece a esperança de novas tecnologias e geração de empregos, esquecendo-se dos possíveis riscos em favor da superação da miséria material. A evidência da miséria acaba por nublar a percepção dos riscos, pois a necessidade da atividade para fugir dela torna-se maior.
Nesse aspecto, Beck (1998, p.34) retrata a existência de uma maior vulnerabilidade de certas comunidades frente aos riscos, por mais genéricos e absolutos que eles possam ser.
Assim, “los riesgos de la modernización se presentan de una manera universal que es al mismo tiempo específica e inespecífica localmente; y segundo, cuán incalculables e impredecibles son los intricados caminos de su efecto nocivo”.
A consciência do risco na civilização altamente industrializada se forma contra a negação constante dos cientistas e continua sendo reprimida por eles. Enquanto os riscos não são reconhecidos cientificamente, eles não existem, portanto não serão impedidos, tratados ou ressarcidos. Ademais, os novos riscos também são vistos como um big business, pois novos mercados se abrem para as empresas gestoras de riscos. O saber científico adquire especial relevância, até mesmo no campo político.
Outro fator crucial para a teoria social da sociedade de risco é o fato de que a natureza já não pode ser pensada sem a sociedade; e a sociedade, por sua vez, não pode ser pensada sem a natureza. Como mencionado anteriormente, a cultura ocidental, com base nas concepções judaico-cristãs, considerava a natureza como algo a ser dominado. No entanto,
esse modelo, que acarreta a destruição do mundo natural, transformou-se em um imenso conjunto de ameaças médicas, sociais e econômicas globais para os seres humanos, com desafios completamente novos para as instituições sociais e políticas da sociedade mundial superindustrializada. Hoje, os problemas do meio ambiente tornaram-se também problemas sociais, problemas do ser humano, das condições de vida tanto nas cidades quanto nos meio rural e no meio costeiro, do ordenamento econômico, cultural e político das sociedades.
Da mesma forma, a interdisciplinaridade na análise das questões socioambientais é obrigatória, já que há o rompimento do monopólio da racionalidade das ciências. Nesse sentido, afirma Beck, “sem uma racionalidade social, a racionalidade científica está vazia; sem uma racionalidade científica, a racionalidade social está cega”. (1998, p.40).
Mas o saber, de outro lado, se adentra ao campo político e há aqueles que se beneficiam dos riscos. Cresce o significado do saber e do poder sobre os meios que o configuram. “En este sentido, la sociedad del riesgo también es la sociedad de la ciência, de los médios y de la información. En ella se abren así nuevos contrastes entre quienes producen las definiciones de riesgo e quienes las consumem” (BECK, 1998, p.53).
Questiona-se, igualmente, a forma de estabelecer novas políticas, procurando-se saber se há um vazio político, se há colisões com os nacionalismos estatais e interesses predominantes. Afinal, quem serão os novos agentes políticos? Touraine (1998), afirma que nesse contexto é necessário que cada indivíduo se torne sujeito e ator, reivindicador e agente da mudança.
Após a descrição dos contornos da sociedade de risco, com a análise da lógica da divisão dos riscos da modernização, verifica-se que essa é apenas uma das vertentes caracterizadoras dessa sociedade. As situações de ameaça global que surgem e as dinâmicas sociais e políticas de conflito e desenvolvimento que elas contêm são novas e consideráveis, mas ficam ocultas pelos riscos e inseguranças sociais, biográficas e culturais que na modernidade avançada foram recortados e transformados na estrutura social interior da sociedade industrial (as classes sociais, as formas familiares, as situações sexuais, o matrimônio, a paternidade, a profissão e as evidências básicas do estilo de vida que estão incluídas nela).
Atualmente, a estrutura da desigualdade social nos países desenvolvidos, como a Alemanha, apresenta todos os atributos de uma estabilidade surpreendente. De outro lado, no mesmo espaço de tempo se têm suavizado socialmente as questões relativas à desigualdade.
Essa análise da individualização da desigualdade social é, no entanto, por demais estrita à realidade europeia da década de 1980.
Percebe-se, hoje, uma mudança social dentro da modernidade, em cujo transcurso os seres humanos são liberados das formas sociais da sociedade industrial (classe, camada, família, situações sexuais de homens e mulheres). Isso ocorre mediante o processo de individualização. O ingresso das pessoas no mercado de trabalho17 vem unido à liberação dos laços familiares, profissionais e culturais e coincide com o pensamento de Baudrillard (1990), quando afirma que o século XX foi o século de todas as emancipações e liberações.
Essa tendência obriga as pessoas, em nome da própria sobrevivência material, a fazer de si mesmas o centro de seus próprios planos de vida. Verifica-se um novo modo de socialização, uma mudança radical entre o homem e a sociedade, havendo uma tríplice forma de individualização: dissolução das precedentes formas sociais históricas; perda de seguranças tradicionais (saber) e um novo tipo de coesão social. Assim, “la individualización se convierte en la forma más avanzada de socialización dependiente del mercado, de las leyes, de la educación etc”.
Em relação ao trabalho, ocorre igualmente uma mudança em seu sistema, pois a profissão perdeu suas garantias e proteções anteriores. Há um risco grande de bacharéis ficarem marginalizados no mercado de trabalho após a graduação. Os títulos garantem apenas um lugar na sala de espera do mercado.
A noção de sociedade industrial pressupõe o domínio da lógica da riqueza e admite como compatível a distribuição do risco, enquanto que a noção de sociedade do risco considera incompatíveis a distribuição de riqueza e de risco e aceita a rivalidade entre suas lógicas. Esta é a lógica do desenvolvimento: os riscos da modernização se consolidam socialmente em um jogo de tensões entre ciência, prática e vida pública, desencadeando uma crise de identidade, novas formas de organização e de trabalho, novos fundamentos teóricos, novos desenvolvimentos metodológicos. A discussão pública dos riscos da modernização é o caminho para a conversão dos erros em oportunidades de expansão abaixo das circunstâncias da cientificidade reflexiva.
17 Durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, enquanto os homens foram para o front, as mulheres e as crianças ocuparam os seus lugares na agricultura, no mercado de trabalho e nas indústrias, inclusive na bélica, eliminando ainda mais as diferenças de gênero e faixa etária. Assim, a emancipação dos papéis sociais antes clara e determinada, deu lugar à individuação, em uma luta que duraria ainda várias décadas.
Essa interpenetração entre a crítica civilizatória, contraposições interpretativas interdisciplinares e os movimentos de protesto de caráter público resulta especialmente clara no movimento de defesa do meio ambiente e nos movimentos sociais que lutam por uma melhor qualidade de vida, especialmente nos grandes aglomerados urbanos. Em relação aos riscos civilizatórios, estes enfrentam principalmente duas opções: a eliminação de causas, derivadas da industrialização primária, ou das consequências e sintomas da industrialização secundária pela expansão do mercado. Diferente de todas as épocas anteriores (incluída a sociedade industrial), a sociedade do risco se caracteriza essencialmente por uma carência: a impossibilidade de prever externamente as situações de perigo.
Naqueles aspectos em que os riscos preocupam os homens, já não há um perigo cuja origem possa ser atribuída ao externo, ao alheio, ao extra-humano, senão à capacidade adquirida historicamente pelos homens de autotransformar, de autoconfigurar e de autodestruir as condições de reprodução de toda a vida sobre a Terra. Mas isso significa que as fontes de perigo já não estão na ignorância, senão no saber; nem no domínio deficiente da natureza, senão no aperfeiçoado; nem na falta de ação humana, senão precisamente no sistema de decisões e restrições estabelecido. Os riscos se converteram no motor da autopolitização da sociedade industrial moderna; e mais, com esta sociedade variam o conceito, a localização e os meios da política.