3.2 RISCOS EMERGENTES
3.2.4 Um panorama sobre os interferentes endócrinos
Nos últimos anos tem-se discutido muito, nos últimos anos em vários países, sobre a eficiência das tecnologias de tratamento de águas que contenham IE e os limites máximos permissíveis dessas substâncias após o tratamento. Apesar de constantes inovações nas técnicas para tratamento de água, há indícios de doenças de contaminação química por veiculação hídrica, causadas por ausência ou por deficiência no tratamento da água. Esses problemas vêm sendo relatados não apenas em países em desenvolvimento, onde a falta de tratamento ou o tratamento inadequado da água ainda é bastante evidente, mas também em países desenvolvidos.
Vários países estão avaliando seus corpos d‟água e seus mananciais quanto à presença de IE, resultando na constatação de concentrações variadas dos mesmos. Diante disso, vêm sendo realizados estudos dos efeitos dos IE, de suas fontes e de maneiras de eliminá-los durante o tratamento de água, além da reavaliação dos limites máximos permissíveis de IE e da inclusão de novos compostos em suas legislações como possíveis IE.
A Tabela 4 inclui uma lista de substâncias químicas que já foram classificadas como IE por organizações de países que estão pesquisando o assunto.
Em dezembro de 1999, a Comissão Européia adotou uma diretriz sobre os interferentes endócrinos, tendo em vista substâncias sintéticas, inclusive produtos químicos e hormônios sintéticos que podem causar prejuízos à saúde. O objetivo foi identificar interferentes endócrinos, sua origem, suas consequências, e também definir uma política de ação visando à prevenção, de maneira a responder rápida e efetivamente ao problema.
Apontou-se a necessidade de mais pesquisas, cooperação internacional, comunicação com o público e determinação de metas a serem alcançadas a curto, a médio e a longo prazo (EUROPEAN COMMISSION, 2006).
Dados coletados em 51 estações de tratamento de água na Europa (Espanha-32, Alemanha-16,Reino Unido -1, Bélgica-1 eHolanda-1), indicaram a ocorrência de IE na água bruta em 17 (33%) delas e na água tratada em 12 (24%).
TABELA 4 – LISTA COMPOSTOS CLASSIFICADOS COMO I.E. POR VÁRIAS ORGANIZAÇÕES
Fonte: adaptado de Wenzel, Muller e Ternes (2003)
A Tabela 5 apresenta as concentrações dos IE encontrados na água bruta e na água tratada dessas 51 estações (WENZEL; MULLER, TERNES, 2003).
TABELA 5 – CONCENTRAÇÕES DE ALGUNS INTERFERENTES ENDOCRINOS ENCONTRADOS NA ÁGUA BRUTA E NA ÁGUA TRATADA EM 51 ESTAÇÕES NA EUROPA.
IE DETECTADOS estágios do ciclo da vida, como gravidez e lactação, pode ocasionar efeitos indesejados. Por isso, e pela persistência de alguns IE no meio ambiente, a EPA (1998) considerou o estudo dos IE como uma das prioridades de seu plano de estratégia. Como pouco se sabe sobre os IE, seus efeitos sobre o ecossistema serão avaliados e maneiras de abaixar ou eliminar o risco máximo de metoxicloro de 0,04 ppm na água para beber e advertiu que crianças não deveriam beber água com concentrações acima de 0,05 ppm por mais de um ano e que os adultos não deveriam consumir água com concentrações acima de 0,2 ppm por longos períodos de tempo.
Os níveis de nonilfenol encontrados em rios nos Estados Unidos variaram de 2 ìgL-1 a 1000 ìgL-1. Em amostras de água para beber analisadas, as concentrações de compostos de alquilfenóis foram de 1 ìgL-1 (EPA, 2006).
Há relatos de que a contaminação com pesticidas organoclorados em lagos da Flórida ocasionou a alteração da maturação sexual de jacarés, provocando o retardamento e a anormalidade sexual dos mesmos (KAVLOCK, 1999).
Estudos realizados pela EPA (2001) para remoção de IE constataram que a utilização do carvão ativado granular (CAG) resultou em uma remoção eficiente de substâncias orgânicas sintéticas. Observou-se que quando o tamanho dos poros do CAG utilizado foi um pouco maior do que o material adsorvido, a eficiência alcançada foi maior. Além disso, parâmetros como matéria orgânica dissolvida, pH e temperatura, afetaram significativamente a eficiência da remoção.
Em estudos realizados com amostras de água coletadas de diferentes pontos da estação de tratamento de água reciclada na China, foram encontrados vários IE, dentre os quais, bisfenol-A, nonilfenol, 17â-estradiol e outros. A média de eficiência de remoção de IE variou entre 30% a 82%, indicando que os compostos não foram totalmente removidos durante o tratamento de água (WANG et al., 2005). No Brasil, não há monitoramento regular dos corpos d‟água quanto à presença de IE. O risco da presença dos mesmos é grande, uma vez que frequentemente os corpos d‟água recebem efluentes das ETEs ou esgoto in natura.
Praticamente não há estudos para avaliar se os IE presentes em mananciais são eficientemente removidos nas estações de tratamento de água brasileiras.
Stumpf et al., 1999 (apud BILA e DEZOTTI, 2003) encontraram antilipêmicos, antiinflamatórios e alguns metabolitos em rios que recebiam efluentes de ETE e esgoto in natura no Estado do Rio de Janeiro, em concentrações entre 0,02 e 0,04 ìgL-1.
A Portaria nº 518/2004, do Ministério da Saúde, exige que diversos parâmetros sejam monitorados durante o tratamento de água. Contudo, percebe-se que várias substâncias, possíveis IE, não constam na referida Portaria. Os limites máximos permitidos das substâncias relacionadas na Portaria são hoje questionáveis, em função dos danos que possam causar, mesmo em pequenas dosagens, por um longo período de tempo. Outra questão é que o monitoramento dessas substâncias é exigido em intervalos de tempo muito espaçados, causando o risco de eventual contaminação passar despercebida. As questões de quais IE e quais as concentrações dos mesmos o homem pode receber ao longo da vida sem causar efeitos danosos trazem ainda dúvidas para vários pesquisadores de diversos países. Espera-se que na revisão da Portaria de potabilidade da água pelo Ministério da Saúde prevista para
2009 seja incluído o monitoramento dessas substâncias químicas na água bruta dos mananciais e nas águas após tratamento nas ETAs.
As limitações dos métodos de quantificação dos IE e seus custos vêm dificultando os estudos tanto de quantificação quanto de identificação dos IE nos corpos d´água o que torna também complexo estabelecer os valores máximos permissíveis.
Em seu plano de estratégia, de setembro de 2006, a EPA (2006) e seus parceiros na implementação do SDWA (Safe Drinking Water Act – Lei da Água Potável Segura) propuseram as seguintes metas: i) estabelecer métodos para estimar valores de exposição e de monitoramento de contaminantes; ii) estudar o modo de atuação dos contaminantes e reações em função de suas dosagens; iii) determinar o tratamento, seu desempenho e seu custo; e iv) estudar os efeitos no sistema de distribuição e qualidade da água.
Ao mesmo tempo em que a área técnico-cientifica busca estabelecer métodos analíticos para a detecção dos IE, novos processos para o tratamento de água e de efluentes que sejam capazes de remover essas substâncias, avaliar os impactos dessas sobre o meio ambiente e a vida que nele palpita; as normas oficiais que regulamentam a comercialização dos produtos químicos sintéticos, empregadas em praticamente em todo o mundo, se desenvolvem sobre a base do risco de câncer e de graves problemas de nascimento e se calculam esses riscos tendo como referência um jovem masculino de 70 kg de peso. Não é levada em consideração a especial vulnerabilidade das crianças antes do nascimento e nas primeiras etapas da vida, nem os efeitos no sistema hormonal.
Os métodos de teste da toxidade avaliam, atualmente, cada substância química por si mesma, enquanto que no mundo real encontramos complexas misturas de substâncias químicas. Os estudos científicos mostram com claridade que as substâncias químicas podem interagir ou podem agir juntas para produzir um efeito superior ao que produziriam individualmente (sinergia). As leis atuais ignoram esses efeitos aditivos ou interativos (SANTAMARTA, 2001).
Os fabricantes, por sua vez, em escala praticamente mundial, utilizam as leis sobre segredos comerciais para negar acesso público às informações sobre a composição exata de seus produtos. Dessa maneira, se os fabricantes não colocam rótulos com informações precisas e de modo direto e objetivo em seus produtos, os consumidores não terão a informação de que necessitam para proteger-se de produtos hormonalmente ativos. Em alguns
casos, as substâncias químicas podem se decompor em substâncias potencialmente mais perigosas que a substância química original, como já exposto anteriormente.
A indústria química, via de regra, em quase todos os países trata de desacreditar as conclusões dos estudos sobre IE, do mesmo modo que até bem pouco tempo fazia com respeito aos CFCs (cloro flúor carbonos), ou como fazem as campanhas da indústria do fumo, ao negarem a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão (GUIMARÃES, 2004).
As pesquisas para entender os efeitos dos interferentes estão mudando. Ao invés de fazer testes de exposição animal, abre-se o campo relativamente novo de pesquisa computacional toxicológica. Além disso, a crescente habilidade de sequenciar o genoma humano fornece ferramentas adicionais para pesquisas sobre os IE (EPA, 2006).
Os resultados das pesquisas geradas tanto na área científica quanto na área da engenharia contribuirão para alcançar uma água de beber de boa qualidade e segura para todos. As pesquisas que estão sendo realizadas deverão reduzir as incertezas sobre os efeitos, as exposições, as quantidades e o gerenciamento dos IE. E ainda poderão ajudar a determinar o impacto que os interferentes têm sobre os seres humanos, sobre a vida selvagem e sobre o meio ambiente.
“Quando existe avanço tecnológico sem avanço social, surge, quase automaticamente, um aumento da miséria humana”.
Michael Harrington
CAPÍTULO 4 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO