3.1 RISCO E VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAIS
3.1.4 Vulnerabilidade: noções gerais e conceitos
Em tópicos anteriores deste trabalho, houve destaque para o fato de o conceito de vulnerabilidade estar inserido na noção ampla de risco, como referência ao potencial de dano passível de ser sofrido por uma determinada sociedade. Localizar e entender o termo
vulnerabilidade nas diferentes abordagens científicas é um empreendimento que não pode ser realizado sem se considerar, simultaneamente, o conceito de risco. Segundo Marandola Jr (2004) isso se deve ao fato de a vulnerabilidade aparecer no contexto dos estudos sobre risco, num primeiro momento em sua dimensão ambiental e só mais tarde no contexto socioeconômico.
A vulnerabilidade é um componente fundamental na análise de risco. Muñoz (2002) utilizando-se dos apontamentos de Blaikie et al., (1994), a define como as “características de uma pessoa ou grupo em termos de sua capacidade para antecipar, enfrentar, resistir e se recompor do impacto de um perigo natural. Isto implica uma combinação de fatores que determinam o grau em que a vida e o sustento dos indivíduos são postos em perigo por um evento identificável na natureza e nas sociedades”.
Para Oliver-Smith (2004), vulnerabilidade é fundamentalmente um conceito político-ecológico. Isso envolve a relação do ser humano com o meio ambiente, considerando as forças econômicas e políticas, características da sociedade em que ele está inserido. Do ponto de vista dos hazards e dos desastres, vulnerabilidade é um nexo conceitual que relaciona o meio-ambiente às forças sociais, instituições e valores culturais que os sustentam ou combatem. Combinando elementos do ambiente, da sociedade e da cultura em múltiplas proporções, o conceito de vulnerabilidade provê um referencial teórico que engloba a multidimensionalidade dos desastres.
Para o referido autor, desastres são tanto eventos materiais complexos quanto uma multiplicidade de construções sociais interpenetrantes e por vezes conflitantes. Quer sejam material ou socialmente construídos, os efeitos dos desastres são canalizados e distribuídos na forma de risco no âmbito da sociedade, de acordo com práticas e instituições políticas, sociais e econômicas. Essa é a essência da vulnerabilidade.
Wilches-Chaux (1989) identifica onze diferentes formas de vulnerabilidade: natural, física, econômica, social, política, técnica, ideológica, cultural, educacional, ecológica e institucional. O modelo proposto por Blaikie et al., (1994) coloca essas diferentes formas de vulnerabilidade em correntes causais. Situa as ideologias dos sistemas político e econômico como originárias da maioria dos desastres a que o mundo está vulnerável hoje, já que afetam a alocação e a distribuição de recursos na sociedade. A vulnerabilidade está situada conceitualmente na interseção entre natureza e cultura e demonstra, muitas vezes dramaticamente, a mutualidade de ambas na construção do desastre.
É necessário examinar os conceitos de vulnerabilidade em termos teóricos, para desvelar suas amplas implicações ecológicas, políticas, econômicas e socioculturais. É necessário reconhecer, naquilo que geralmente se compreende como distúrbios da natureza, as suas profundas bases socioculturais, econômicas e políticas.
Se, como sustentam teóricos da vulnerabilidade, desastres são mais da sociedade que especificamente fenômenos naturais, certas questões concernentes à conjuntura da cultura, da sociedade e da natureza aparecem. É preciso entender vulnerabilidade enquanto relacionada às estruturas sociais e econômicas, normas e valores culturais e hazards do meio-ambiente (e desastres) em correntes causais.
Alves (2005), em seu trabalho de identificação e caracterização das situações de vulnerabilidade socioambiental na metrópole de São Paulo, define vulnerabilidade [socioambiental] como “a coexistência ou sobreposição espacial entre grupos sociais muito pobres e com alta privação (vulnerabilidade social) em áreas de risco com degradação ambiental (vulnerabilidade ambiental)”. Nesse sentido, é a combinação dessas duas dimensões que caracteriza uma situação de vulnerabilidade socioambiental.
Para Alves (2005) “não é por acaso que as áreas de risco e degradação ambiental também são, na maioria das vezes, áreas de pobreza e privação social”. Assim, a sua hipótese é a de que “a vulnerabilidade ambiental é um fator relevante na configuração da distribuição espacial das situações de pobreza e privação social”, o que, de modo geral, deve repetir-se em outras metrópoles brasileiras devido à similaridade dos processos que as formaram e aos problemas que enfrentam na atual conjuntura do país.
Nesse sentido, esse autor acredita que a categoria vulnerabilidade pode captar e traduzir os fenômenos de sobreposição espacial e interação entre os problemas sociais e ambientais sendo adequada para uma análise da dimensão socioambiental (espacial) da pobreza. Mendonça (2004, p.140-141) também ressalta que a “condição de pobreza de uma determinada população está estreitamente vinculada à condição de formação de riscos e de vulnerabilidade socioambiental”.
Lowry (1995) coloca que se pode conceituar vulnerabilidade, então, como: “La susceptibilidad de la vida, propiedades y medio ambiente para ser dañados si una amenaza manifiesta su potencial”.
A vulnerabilidade implica, pois, uma combinação de fatores que determinam o grau em que a vida e o sustento dos indivíduos são postos em perigo por um evento identificável
na natureza ou na sociedade. A vulnerabilidade é inerente ao território e à população, mas se trata de um fenômeno que pode ser trabalhado. Constitui um conceito complexo por abranger aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, além de outras perspectivas epistemológicas como ecologia política e ecologia ambiental, entre outras.
Os aspectos referidos permitem compreender melhor o conceito de vulnerabilidade, quando associados à capacidade que um grupo social possui de reagir diante de perigos naturais e tecnológicos, prevenindo-os, evitando-os ou reduzindo seus impactos.
Como componentes de uma definição de vulnerabilidade cartográfica, Maria de los Ângeles Dias Muñoz (2006) afirma que a vulnerabilidade está na base dos desastres e diretamente ligada à capacidade de resposta de uma sociedade em prevenir, evitar e reduzir os prejuízos ocasionados. Daí sua relação com vários aspectos, como grau de informações, condições econômicas, legislação ambiental, grau de organização social, nível de vida e saúde, rede de proteção civil da sociedade.
Diante do conceito de vulnerabilidade trazido por Muñoz, cabe perguntar: como medir a vulnerabilidade? Como saber o grau de vulnerabilidade de um determinado grupo social? E a resposta da autora remonta à complexidade da definição, ao mesmo tempo em que sugere um conjunto de variáveis e critérios para mensurar a vulnerabilidade em que a população da área que se pretende avaliar é o principal aspecto a considerar, observando o volume da população potencialmente exposta aos riscos e as características dessa população, identificando sua capacidade de prevenção e de reação a esses riscos.
Assim, para identificar tal capacidade de resposta, alguns indicadores são decisivos, como o caso do nível de renda, que permite perceber os níveis de pobreza; grau de instrução;
taxas de desemprego e de rotatividade nos empregos; ou outros indicadores que permitem identificar as formas de trabalhar e viver. Esse quadro revela a dificuldade de medir territorialmente a vulnerabilidade, bem como de definir os indicadores apropriados para alcançar tais objetivos.
Não se deve esquecer, porém, que as diferentes camadas sociais ou os diversos grupos, ou as regiões com variados níveis de desenvolvimento, estão expostos, cada um, a diferentes riscos, sendo precipitado afirmar de antemão que quanto maior o nível econômico ou o nível de instrução ou de desenvolvimento, menor o número e a dimensão de riscos a que os sujeitos estão expostos. São outros os riscos, outros os possíveis desastres. Essa é, de fato, uma tendência, mas não pode ser tomada como regra. No entanto, a identificação do grau de
vulnerabilidade de determinada área territorial está diretamente ligada à possibilidade de um bom planejamento de programas de emergência e de programas para enfrentar de maneira eficaz uma catástrofe.
As diferentes situações de vulnerabilidade dos sujeitos (individuais e/ou coletivos) podem ser particularizadas pelo reconhecimento de três componentes interligados: o individual, o social e o programático ou institucional, os quais remetem às seguintes questões de ordem prática:
vulnerabilidade de quem?
vulnerabilidade a quê?
vulnerabilidade em que circunstâncias ou condições?
Os componentes da vulnerabilidade individual referem-se à ordem cognitiva como quantidade e qualidade de informação de que os indivíduos dispõem e sua capacidade de elaborá-la, e também à ordem comportamental. Ou seja, referem-se à capacidade, à habilidade e ao interesse desses sujeitos para transformar suas preocupações em atitudes e ações passíveis de proteção.
O componente social da vulnerabilidade envolve o alcance às informações, as possibilidades de processá-las e de incorporá-las a mudanças práticas na vida cotidiana, condições essas diretamente associadas ao acesso a recursos materiais, a instituições sociais como escola e serviços em geral, ao poder de influenciar decisões políticas, à possibilidade de enfrentar barreiras culturais e de estar livre de coerções violentas de todas as ordens, questões essas que precisam então ser incorporadas às análises de vulnerabilidade.
O componente institucional ou programático da vulnerabilidade conecta os componentes individual e social. Diz respeito ao grau e à qualidade de compromisso, recursos, gerência e monitoramento de programas nacionais, regionais ou locais de prevenção e cuidado, que são importantes para identificar necessidades, canalizar os recursos sociais existentes e otimizar seu uso.
Fatores da mesma magnitude para compreender a vulnerabilidade são os aspectos técnicos, políticos, sociais e territoriais. Mais do que compreender ou medir a vulnerabilidade, segundo Los Angeles (2006), tal elaboração constitui passo fundamental para o planejamento urbano, sem o qual não se conseguirá alcançar formas sustentáveis de organização e de ocupação territorial que reduzam os riscos para a população.
Articulados entre si, os componentes constitutivos de uma abordagem apoiada no quadro conceitual da vulnerabilidade priorizam análises e intervenções multidimensionais, sugerem a compreensão de que as pessoas não são, em si, vulneráveis, mas podem estar vulneráveis a alguns agravos e não a outros, sob determinadas condições, em diferentes momentos de suas vidas.