CAPÍTULO II – SEU PADROEIRO E PROTECTOR
2.3 O Patrocinium Citadino
A idéia de santo patrono citadino é antiga e se trata de matéria freqüente na literatura cristã51. Como André Vauchez salienta, “(...) desde os primeiros séculos do cristianismo que a idéia de um patronato especial exercido pelos servos de Deus no local onde se encontravam as suas relíquias, tinha obtido grande sucesso”. O historiador informa ainda que “em breve, todas as cidades episcopais, a começar por Roma, com S. Pedro e S. Paulo, tiveram o seu sanctus
proprius, guardião acreditado das suas muralhas e dos seus habitantes”. Lembra-nos ainda que, já no século XIII, qualquer “(...) homem de Deus é considerado, sobretudo, um intercessor a quem compete proteger aqueles que o invocam”52.
De acordo com os estudos de Alba Maria Orselli, somente na segunda metade do século V se faz evidente nos pensadores e hagiógrafos a consciência de uma especial relação entre comunidade citadina e santos mártires locais, intitulados patroni. A categoria de “santo patrono citadino” é vista pela autora – referência no assunto – como uma especificidade que diferenciava a invocação do padroeiro urbano daquela feita de modo ordinário e individual pelos fiéis. Orselli defende que o patrono citadino é ligado à “comunidade-cliente” por um vínculo particular, pertencente mais à esfera das relações civis que à da vida religiosa. Tal
48 CYMBALISTA, op.cit., pp.27-28.
49 Cf. OSSWALD, Maria Cristina. The Society of Jesus and the diffusion of the cult and iconography of Saint
Ursula and the Eleven Thousand Virgins in the Portuguese Empire during the second half of the 16th century. In: A Companhia de Jesus na Península Ibérica nos séculos XVI e XVII – espiritualidade e cultura. Actas do colóquio internacional – maio 2004, vol.I. Porto: Instituto de Cultura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Centro Inter-Universitário de História da Espiritualidade da Universidade do Porto, 2004.
50 CARDIM, op.cit. p.169.
51 Veja-se a obra clássica a este respeito, ORSELLI, Alba Maria. L’idea e il culto del santo patrono cittadino en
la letteratura cristiana. In: L’immaginario religioso della città medievale. Ravenna: Edizioni del Girasole, 1985; ou a sua primeira edição: Idem. L’idea e il culto... Bologna: Zanichelli, 1965.
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ente é quase sempre um mártir, encarregado do lugar onde derramou seu sangue, ou um santo bispo, convocado pelo rebanho que governou em vida53.
O termo patronus e as suas derivações eram referentes a relações sociais e jurídicas do mundo romano. Foram adotados por líderes cristãos como Ambrósio de Milão, Paulino de Nola e Prudêncio para caracterizar os membros e os valores da civitas caelestis – a cidade de Deus de Santo Agostinho. As analogias permitiam a proposição aos fiéis de um modelo de devoção particular entre o fiel e seu santo patrono, mas também entre um santo padroeiro e toda uma comunidade urbana. A releitura cristã do patrocinium insistia no pedido de proteção e defesa a uma espécie de magistrado celeste de altíssima autoridade, conferida a ele por Cristo. Sob o praesidium (capacidade de presidir) de um mártir que tivesse legado seus despojos a uma cidade, os clientes (cliens), seus concidadãos, ansiavam pela sua proteção, no sentido de entrega a uma tutela, uma guarda celestial especial contra os perigos mundanos. O culto de Roma aos Príncipes dos Apóstolos, Pedro e Paulo, foi emblemático quanto a este ponto. A partir do século VI, a veneração especial aos patronos citadinos se dirigiria, por sua vez, à memória dos bispos que conduziram seus rebanhos durante sua estadia na cidade terrestre, sendo paradigmático o exemplo de São Martinho em Tours. Fossem os santos patronos urbanos confessores ou mártires, conclui Alba Orselli, deles eram esperados não tanto valimentos puramente espirituais, mas acima de tudo sua interferência nas e pelas garantias de prerrogativas civis, nas modificações necessárias à sociedade, na restauração do equilíbrio político, e na defesa dos seus contra toda insídia ou abuso dos poderes terrenos54.
Há, fora do Brasil, uma extensa historiografia a incluir o assunto, com inúmeros trabalhos inéditos em língua portuguesa55. Dentre eles, outro estudo que nos pode ser útil é a obra de Diana Webb, Patrons and Defenders, que se detém nas comunas (cidades-estado) italianas dos séculos XIII a XVI e investiga a interferência e os usos dos poderes leigos municipais na construção, regulamentação e representação do culto dos santos patronos citadinos, posicionados em verdadeiros panteões urbanos. Segundo Diana Webb, tratava-se de um costume geral entre as cidades-estado italianas o uso da festa do patrono por uma cidade dominante como ocasião para se exigir demonstrações de obediência por parte da população urbana, das comunidades rurais do entorno e até mesmo de cidades dominadas. Dessa forma, “a celebração da festa patronal expressava a autoridade dos governantes urbanos tanto para dentro como para além das muralhas da cidade” e o próprio santo simbolizava poder. A invocação do padroeiro, inscrita inclusive nos estatutos urbanos, realizava a mediação entre os mandatários citadinos e os poderes divinos. Na verdade, fazendo coro à observação de Alba Orselli, Diana Webb afirma que, pelo menos no caso das comunas italianas, poucas vezes o clamor pelo santo padroeiro se dava num sentido estritamente espiritual, ou seja, em rogo pelas almas dos vivos e mortos. Na maioria das vezes, os santos eram invocados nos textos como patronos (patronus), defensores (defensor) e advogados (advocatus) das comunas. Apareciam também como vocabulum, isto é, situação em que o nome do santo era usado como grito-de-guerra. E ainda, em casos mais raros, os patronos eram chamados de
53 Cf. ORSELLI, op.cit., 1985, pp.8-9. 54 Cf. ORSELLI, op.cit., pp.63-169; 181-182.
55 Entre vários trabalhos, ver ORSELLI, Alba Maria. L’immaginario religioso...; WEBB, op.cit.; PEYER, H.C. Città e santi patroni nell’Italia medievale. Firenze: Le Lettere, 1998 (de Stadt und Stadtpatron im
mittelalterlichen Italien. Zurich, 1955) ; VAUCHEZ, André (dir.). La religion civique à l’époque médiévale et
moderne (chrétienité et islam). Actes du colloque de Nanterre (21-23 juin 1993). Roma : École Française de Rome, 1995 (Collection de l’École française de Rome, 213); GOLINELLI, Paolo. Città e culto dei santi nel
Medioevo italiano. Bologna: Clueb, 1996; SALLMANN, Jean-Michel. Naples et ses saints à l’age baroque
(1540-1750). Paris : Puf, 1994 ; DELFOSSE, Annick. La « protectrice du Païs-Bas ». Stratégies politiques et
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governadores (gubernator), embora Diana Webb reconheça ser difícil estabelecer o significado do uso deste termo, ou mesmo se ele denotava algo especial56.
Por volta de 1550, um humanista italiano explicava o conceito de santo padroeiro urbano dizendo que, por dádiva dos Céus, para cada cidade havia sido selecionado algum santo como guardião e protetor. Isso garantia ao patrono, de maneira justa, a seu ver, honra e culto em todas as épocas; mas, de modo especial, em circunstâncias incertas ou perigosas, nas quais o santo exercitasse seu papel de “protetor” e “defensor”. Giovanni Flaminio dizia ainda ser isto fato bem sabido e que, não obstante todos esses “espíritos abençoados”, que gozavam da eternidade com os anjos, cuidassem dos cristãos em qualquer lugar, tinham particular cuidado e proteção para com os lugares onde nasceram, ou viveram por longo tempo, ou sofreram torturas e a morte por Cristo, dando felizes demonstrações dessa disposição. Prossegue o humanista, cabia lembrar ainda aqueles que, embora estrangeiros, eram escolhidos pelas cidades como seus patronos, obtendo especial culto e devoção, e cumprindo seu papel com a mesma dignidade57.
Em 1584, São Sebastião já havia há muito sido alçado à condição de terceiro padroeiro de Roma, secundando os apóstolos fundadores da Igreja, Pedro e Paulo. Isso acontecera entre os séculos VII e VIII. O papa Gregório, o Grande (590-604), assim o investira, provavelmente endossando a associação territorial que os vestígios do mártir asseteado haviam estabelecido com a cidade da Sé Apostólica, não muito diferente do caso dos dois Príncipes dos
Apóstolos58. Tal fato não é de menor importância. No século XVI, o padre Geral da Companhia de Jesus residia em Roma, capital dos apóstolos e mártires, território “santo” e centro do catolicismo. Lugar também vigiado pelo sentinela Sebastião, segundo a delegação investida por Gregório, o Grande. Certamente, essa plausível identidade partilhada entre Rio, periferia jesuítica, e Roma, centro da ordem59, ambas escoltadas pelo mesmo mártir (embora Sebastião fosse secundário nesta última), não deve ser superestimada. Mas é possível que, na teia de significados entretecida pelos jesuítas em meio a sua conquista espiritual e material da América, tal ponte simbólica pudesse ser estabelecida de alguma forma, ainda que não se possa, a princípio, definir qual60.
Algo, porém, parece se delinear de maneira mais clara. Ao ser considerado por jesuítas como Fernão Cardim o padroeiro e protetor da cidade que levava seu nome, São Sebastião era localmente confirmado e sacramentado segundo um universo semântico no qual poderia ser clamado tutor, advogado, protetor, defensor, propugnador, patrono, padroeiro (etc.)61 dos seus clientes legítimos, isto é, os habitantes católicos da cidade. De acordo com a crença corrente, sua relíquia vinha corroborar sua presença e atualizar sua potência em plena Guanabara do século XVI. Os padres de Santo Inácio se baseavam, para isso, na então milenar e tradicional
56 Cf. WEBB, op.cit., pp.2-3 ; 5 ; 103-105. 57 Apud WEBB, op.cit., p.3.
58 Cf. BARKER, Sheila. The making of a plague saint. Saint Sebastian’s imagery and cult before the Counter-
Reformation. In: MORMANDO, Franco, WORCESTER, Thomas (Ed.). Piety and plague: from Byzantium to
the Baroque. Kirksville: Truman State University Press, 2007 (Sixteenth Century Essays & Studies Series, 78), p.91.
59 A análise da Companhia de Jesus em termos de centro e periferia é usada por CASTELNAU-L’ESTOILE, op.cit.
60 Com o apoio de Clifford Geertz, pode-se dizer que “como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o
que eu chamaria símbolos, ignorando as utilizações provinciais), [uma cultura] (...) é um contexto (...)”, é uma “teia” de significados partilhados que devem ser interpretados (ou, se quisermos, traduzidos) em suas correlações, possibilidades e profundidades, numa descrição que ultrapasse a “superficial” e atinja uma “descrição densa”. GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura. In: A
interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989, p.17 e ss.
61 Entre outras variações. Para uma idéia deste quadro semântico e sua readaptação na Antiguidade tardia, ver
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idéia de santo patrono citadino, que encontrou um outro e imenso terreno fértil para seu enraizamento: o Novo Mundo.
A plurissecular cultura dos santos patronos citadinos também foi trazida pelos castelhanos ao seu rincão da América. A fundação de cidades e a ocupação das terras dos ameríndios pelos exploradores espanhóis implicavam também a escolha de um santo patrono. Por vezes, segundo um antigo costume, os conquistadores “espanhóis” tiravam a sorte para defini-lo. A imagem do padroeiro era então transportada pelos campos em procissão e acreditava-se, por exemplo, que espantava gafanhotos e protegia colheitas de trigo62. Em 1574, o ayuntamiento da Cidade do México elegeu a Nossa Senhora dos Remédios como
patrona, muito antes que à Virgem de Guadalupe. A dos Remédios seria invocada de forma dramática, em procissões desesperadas, contra as pestes e secas que afligiram a cidade nas últimas décadas do Quinhentos. No século seguinte, quase todas as cidades e distritos da América espanhola tinham um santo patrono63.