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Santo Remédio

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CAPÍTULO I – MARTYR SEBASTIANUS, DEFENSOR ECCLESIAE

1.4 Santo Remédio

Através de uma crônica do século XIV, Sheila Barker percebe a existência de um culto anti-pestilencial (“plague-cult”) original na cidade de Pávia. Na Paróquia de San Pietro in

Vinculi, a festa anual de São Sebastião era celebrada com a distribuição de pães abençoados, para prevenir os comensais dos perigos da peste, e miniaturas de dardos, para proteger seus possuidores de possíveis flechadas. Barker observa que não são as flechas os itens associados à contenção da pestilência, mas os pães. Para ela, um forte indício de que o surgimento do patrocínio de Sebastião contra a peste não teve como pré-requisito quaisquer associações metafóricas entre o simbolismo da flecha e as epidemias53. Tradicionalmente, os estudiosos

50 Há uma divergência entre a leitura que Sheila Barker faz de Paulo Diácono e a Legenda Áurea. Na primeira, a

epidemia cessa após a chegada da relíquia; na segunda, após a construção do altar, sendo a relíquia levada a ele posteriormente. Cf., acima, n.34 e, abaixo, n.44.

51 A narrativa de Jacopo de Varazze sobre a vida de Sebastião foi citada e parafraseada a partir da tradução de

Hilário Franco Júnior e Néri de Barros Almeida, contida na edição brasileira da Legenda áurea, em VARAZZE,

op.cit., pp.177-182.

52 Cf. BARKER, op.cit., p.97. 53 Cf. BARKER, op.cit., p.97.

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explicam a assistência de São Sebastião aos enfermos como devedora do simbolismo da flecha, associada à pestilência desde a Antigüidade – na mitologia greco-romana, o deus Apolo disseminava epidemias atirando flechas. Cita-se também, no que toca à tradição judaico-cristã, a recorrente interpretação bíblica de que o castigo divino era como flecha, sendo a peste recorrentemente vista como uma das principais punições de Deus aos pecados da coletividade54. Para Sheila Barker, não foi essa relação simbólica que engendrou o culto ao santo dardejado como protetor contra epidemias, mas seu prestígio enquanto mártir associado a Roma, bem como seu uso em um contexto histórico específico da cidade de Pávia. A associação flecha – doença viria a ser possível e bastante difundida a posteriori: não fora pré- requisito para aquele culto específico e, menos ainda, um atestado da sucessão de Sebastião a Apolo ou outro deus Antigo.

Propiciado pela peste de 680, o culto original a São Sebastião enquanto protetor contra desastres epidêmicos, surgido em Pávia, se estenderia a outras cidades, mas não imediatamente. Florença, castigada pela peste negra em 1348, também foi colocada sob o patrocínio do santo sagitado. Um padre infectado, Filippo dell’Antella, dedicou uma missa ao mártir Sebastião, após ter conhecido a história de sua proteção em Pávia. Recuperado, passou a propagar a nova devoção, doando uma das flechas que teriam martirizado o santo à catedral, quando do retorno da epidemia, em 1353. Nomeado bispo florentino em 1357, deu destaque a São Sebastião no culto episcopal. Em 1362, nova onda da peste bubônica atingiu a cidade e Dell’Antella consagrou um dos altares da catedral ao santo, mandando orná-lo com um políptico no qual Sebastião foi representado com uma leve barba marrom e em roupagem militar. A simbolizar seu martírio, uma seta e uma palma em suas mãos. No ano de 1374, quando o bispo já havia sido substituído, e diante do retorno da “morte negra”, outro conjunto pictórico substituiu o primeiro no altar. O tríptico inaugurado se baseava na narrativa da Legenda áurea sobre São Sebastião, difundindo aos florentinos a vida e as virtudes do mártir narbonense. E, especialmente, a intervenção em favor de Pávia55.

A idéia de uma salvação do santo ante a morte pela flecha se associava à idéia de uma má morte trazida a toda uma comunidade pelo flagelo da peste – rápido e repentino como as flechas que chagaram Sebastião. Assim, a representação do momento do martírio dardejante passou a funcionar em Florença e em outras cidades italianas como uma lembrança da peste e uma exortação à audiência cristã a uma preparação para uma boa morte e o encontro com Cristo. Particularmente, no meio das ordens mendicantes. Tal perspectiva não excluía interpretações não-religiosas das irrupções epidêmicas, tal como vinham sendo desenvolvidas nas universidades. Os remédios e prevenções divinos e humanos podiam ser vistos como complementares. De fato, mais uma vez com Sheila Barker, foi esta convergência que contribuiu para a adoção do culto sebastianino por um número cada vez mais abrangente de comunas italianas, ao longo dos séculos XIV e XV.

O caso prodigioso de Pávia e o título de Defensor da Igreja indicavam Sebastião como protetor de comunidades inteiras contra os terrores pestíferos. A responsabilidade pelo bem

comum citadino e os temores do retorno da peste negra e outras doenças levaram, em Florença, as elites municipais a mover um osso do dedo do mártir Sebastião para a catedral e consagrar um culto oficial ao santo. Chamado a defender o bem-estar de inúmeras municipalidades e bispados mediante votos expressos de honra e piedade, consolidava-se o santo como protetor contra a peste. Parma, em 1411, Assis, em 1448 e Siena, em 1476, entre muitas outras, recorreram ao orago flechado em momentos críticos. Enquanto mediador entre

54 Para essas interpretações, ver, por exemplo, MENESES, José N.C, op.cit. p.54; AZZI, Riolando. A teologia católica na formação da sociedade colonial brasileira. Petrópolis: Vozes, 2004, p.254; BASTOS, Mario J. M. Pecado, Castigo e Redenção: a Peste como Elemento do Proselitismo Cristão (Portugal, Séculos. XIV/XVI). In:

Tempo. Rio de Janeiro, v.2, n.3, 183-205, 1997, p.15; DANIELI, op.cit., p.10.

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o divino e o humano na contenção das pestilências, o santo era apreendido pela Igreja e pelos fiéis como vítima expiatória que, devidamente invocada e venerada, podia substituir o sofrimento da comunidade mediante seu próprio padecimento, pacificando a ira divina. Assim, inclusive como mecanismo de controle de heterodoxias e desvios leigos, estátuas de madeira ou outro material representavam Sebastião em procissões e se associavam a práticas penitenciais em diversas localidades. Acreditava-se que o santo sofria em lugar dos penitentes, aplacando a cólera de Deus e liberando a comunidade dos flagelos56.

Na transição entre os séculos XV e XVI, São Sebastião se torna um personagem recorrente entre os escultores e pintores renascentistas. Aos poucos, sua iconografia vai tomando a forma pela qual é mais bem identificada nos dias de hoje. O santo é rejuvenescido, passa a figurar sem barba e aparenta beleza e proporções heróicas, remetendo aos legados da cultura greco-romana – tão reportados e ressignificados na Renascença. Também o princípio de que quanto mais precioso o sacrifício maior a misericórdia divina influiu no aperfeiçoamento progressivo da beleza do santo nas telas do Renascimento. Cada vez mais, o santo capitão pretoriano é despido, proporcionando uma boa oportunidade para o desenho do corpo humano em suas minúcias, exercício prezado tanto pelos artistas da época quanto pelos Antigos. As formas e a vitalidade da anatomia dos “belos Sebastiães”, como diz Sheila Barker, eram concebidas para “enamorar os observadores do Céu e da Terra”57.

A pictografia sebastianina desenvolvida na Europa entre os séculos XV e XVI incluía ainda certas ervas, frutos e raízes, itens medicinais da época. Muitas vezes presentes nos hospitais religiosos, essas imagens possibilitavam a confiança do enfermo tanto na medicina humana como na celeste, unificando as explicações secular e religiosa. Também a beleza do santo tinha fins terapêuticos, segundo Sheila Barker. Os tratados médicos recomendavam que os debilitados pela doença vissem apenas coisas agradáveis e não pensassem em coisas funestas. Assim, as representações de Sebastião gratificavam pela beleza e estimulação dos sentidos, constituindo uma forma de “remédio visual”. Isso implicou a diminuição gradual das flechas e suas feridas ao mínimo necessário para identificar o santo, de modo que se contribuísse para uma recuperação corporal adequada e rápida dos debilitados58.

Andrea Mantegna, Sandro Botticelli, Luca Signorelli, Rafael Sanzio, El Greco, Antony Van Dyck e Georges de La Tour são apenas alguns dos inúmeros artistas que retrataram o santo, em sua estética simultaneamente sagrada e profana. Alguns deles se dedicaram a várias obras sobre o tema, certamente um dos mais abordados na história da arte59. No período que vai do século XV ao XVII, o sofrimento pelo dardo ecoava na sensibilidade ocidental, tão marcada pelas incertezas e infortúnios cotidianos do “tempo dos suplícios”60. Sendo assim, o martírio de Sebastião evocado na Renascença o levou a uma posição cada vez mais destacada no Ocidente, fazendo do antigo Defensor da Igreja nascente

56 Cf. BARKER, op.cit., pp.101-114. Sobre o caso de Siena (1476), ver WEBB, Diana. Patrons and defenders. The saints in the Italian city-states. London, New York: Tauris Academic Studies, 1996 (International Library of Historical Studies, 4), p.211.

57 Cf. BARKER, op.cit., p.114-117; MENESES, op.cit., p.54. 58 Cf. BARKER, op.cit., p.119-127.

59 Sobre as obras dos séculos XV a XVII que retratam São Sebastião existem inúmeros trabalhos, embora

dificilmente traduzidos para o português e raramente disponíveis no Brasil. Veja-se, por exemplo, SALTER, David. Anthony Van Dyck's St. Sebastian: reimagining the Death of a Martyr. In: Logos: A Journal of Catholic

Thought and Culture, v.9, n.1, Winter 2006, pp. 145-163; ZUPNICK, Irving. Saint Sebastian: the vicissitudes of the hero as martyr. In: BURNS, Norman T. & REAGAN, Christopher J. (Ed.). Concepts of the hero in the

Middle Ages and the Renaissance. Papers for medieval and Early Renaissance studies (...). Albany: State University of New York Press, 1975; DANIELI, op.cit., p.45 e ss. Sobre São Sebastião, seu culto e sua iconografia ao longo do tempo, pode-se ver ainda a extensa e difícil bibliografia ao final de BARKER, op.cit.

60 Assim como os martírios de Santa Úrsula, Santa Águeda e Santa Margarida, conforme observação de SOUZA,

Laura de Mello e. Inferno Atlântico. Demonologia e colonização, séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, pp.127-128.

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um dos santos mais conhecidos, representados, polimorfos, humanizados e próximos dos europeus no século das reformas religiosas e da conquista do Novo Mundo. Época de D. Sebastião, Estácio de Sá, Araribóia, Lutero, Calvino, Loyola, Nóbrega, Anchieta, Fernão Cardim e Cristóvão de Gouvêa.

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