2 OS COMUNISTAS E O GOVERNO PRESIDENCIALISTA DE JOÃO GOULART
4 O PARTIDO COMUNISTA E JOÃO GOULART: O COMÍCIO, A ADESÃO E O GOLPE
4.2 O PCB e a Formação de um Governo das Esquerdas
No contexto das negociações que ocorriam entre as esquerdas, dentre estas, o PCB, e João Goulart visando o comício de 13 de março e tomando medidas reformistas, o artigo de
Luiz Carlos Prestes, Os comunistas e os entendimentos políticos,334 traz mais luz em relação
às expectativas dos comunistas, sendo imprescindível realçar o empenho do partido, às vésperas do comício, pela unidade das esquerdas em torno da ideia da criação de um novo governo, sem representantes da direita ou de centro.
Prestes elogiou a iniciativa de San Tiago Dantas pela criação de uma Frente Progressista de Apoio às Reformas de Base reiterando a posição dos comunistas de uma “unidade de todos os patriotas e democratas”, sem “discriminações”, para a concretização das reformas necessárias à “completa emancipação nacional”, confirmando o que já foi mostrado nesta pesquisa, de que os comunistas aproveitaram a proposta de Dantas para pressionar Jango, como sempre fizeram, a dissociar-se do PSD. Os pessedistas não estavam incluídos entre os “patriotas” e “democratas”, pois eram classificados como inimigos da nação.
Prestes comentou “alguns aspectos altamente positivos”, do período de governo de João Goulart, como ter reatado relações diplomáticas com a União Soviética e ter defendido a autodeterminação do povo cubano. Internamente, nos conflitos entre patrões e empregados, o presidente teria assumido, no âmbito geral, “posição favorável às reivindicações dos trabalhadores” e tomado algumas medidas de acordo com os “interesses da nação”. As “liberdades democráticas e os direitos constitucionais” tinham também sido respeitados, tópicos que os comunistas apoiavam “firmemente”. Mas longe de estar elogiando ou apoiando o presidente, aproveitou a digressão sobre tais conquistas para atribuí-las à força da mobilização popular. Os avanços não se deviam a inclinações democráticas e nacionalistas do Executivo:
“Esses aspectos positivos refletem a força crescente do movimento democrático em nosso país, as aspirações progressistas de nosso povo, o constante fortalecimento da
luta emancipadora e o crescente grau de organização e unidade dos trabalhadores.”335
Outra prova da desconfiança em Jango residiu na afirmação de Prestes de que questões que dependiam apenas do primeiro não foram tomadas e, por isso, a situação econômica dos trabalhadores se agravara, cujos salários ficaram sem obter um aumento real, enquanto os lucros dos grandes capitalistas cresceram exponencialmente, sobretudo dos monopólios norte- americanos e a renda dos latifundiários. Até os trabalhadores do campo não conseguiram mais suportar a “brutalidade da exploração do latifúndio” começavam a resolver “por sua própria iniciativa” o problema da terra. O custo de vida continuava subindo, a inflação estava cada vez mais elevada e o governo não tomava medidas efetivas para contê-la. Ao longo dos dois anos de governo, a composição dos ministérios fora de “conhecidos agentes do imperialismo e representantes do latifúndio”, não sendo tomada “nenhuma medida mais séria, profunda e eficaz”, prosseguindo a inflação, a “especulação mais desbragada, a corrupção administrativa e as negociatas vergonhosas”. Esse seria o resultado da “conciliação” desenvolvida por Jango. Da mesma maneira que Brizola, Prestes atribuía o fortalecimento dos setores de direita golpista à “conciliação de Jango”, porque os “agentes do imperialismo” se aproveitavam dos “erros e vacilações presidenciais” para tentar dividir e enfraquecer o movimento nacionalista e democrático. No entanto, havia uma solução para esmaecer a direita golpista e estabelecer as reformas de base:
“É voltando-se para o povo e tomando medidas concretas em seu benefício que o presidente João Goulart melhor poderá contribuir para reforçar o movimento patriótico e democrático, aumentando sua força de pressão sobre o parlamento que se veria na contingência de ceder e aprovar as medidas legislativas e as reformas da Constituição
indispensáveis à realização das reformas de base.”336
A estratégia dos comunistas, para a implantação das reformas de base era a de pressionar o Congresso Nacional com comícios, greves e manifestações de trabalhadores e estudantes, obrigando os parlamentares a aprovarem as propostas do presidente de alterar a Constituição, permitindo, por exemplo, a reforma agrária sem indenizações aos latifundiários. Uma vez que, para os comunistas, a Constituição continha preceitos reacionários, pois elaborada por representantes do latifúndio e dos interesses imperialistas norte-americanos, nada mais justo do que modificá-la, agora, sob pressão popular, para o benefício dos
335
Novos Rumos, n. 262, Rio de Janeiro, edição de 6 a 12 de março de 1964, p. 3. 336 Novos Rumos, n. 262, Rio de Janeiro, edição de 6 a 12 de março de 1964, p. 3.
operários, dos camponeses e do desenvolvimento econômico autônomo do país. Essa era também a proposta da FMP e de Miguel Arraes.
Ao reconhecer a complexidade de se chegar a um programa comum que contemplasse as propostas de todas as esquerdas, Prestes insistia na sequência das negociações, assegurando que os comunistas se esforçariam para encontrar o “terreno comum, a plataforma programática mínima”, para a união das “mais amplas forças patrióticas e democráticas”. Tais forças, juntamente com João Goulart, deveriam constituir a “base de um novo governo, livre de compromissos com os agentes entreguistas e os defensores do latifúndio”.
Ao propor a constituição de uma plataforma mínima, novamente Prestes enfatizava o objetivo de formação de um governo apenas com as esquerdas. A participação do PSD certamente iria “descaracterizar a plataforma de unidade para satisfazer aos setores reacionários”, reproduziria a “mesma política de conciliação comprovadamente incapaz de dar solução aos problemas nacionais e impulsionar as reformas de base”.
“Pensamos que a última proposta apresentada pelo Sr. San Tiago Dantas em nome do Presidente da República padece de semelhante mal. Os comunistas, no entanto, são de opinião de que os entendimentos políticos devem prosseguir e não pouparão esforços para contribuir com sua colaboração para que sejam dados novos passos através de um debate público, do qual participem todos os patriotas e democratas, visando-se a chegar a uma plataforma de unidade, capaz de ser realizada por um novo governo
apoiado no povo.”337
Neste testemunho, Prestes evidenciava o motivo do PCB não acompanhar a proposta de Dantas. Por outro lado, sinalizava com o prosseguimento das negociações com Goulart para que se desvencilhasse do PSD, o que esperava ser oficializado na semana seguinte, durante o comício do dia 13 de março. No mesmo texto, o secretário-geral indicava também como deveria ser o papel de João Goulart na frente:
“É evidente que a participação do Sr. João Goulart de semelhante frente única deverá significar a imediata recomposição do governo, livrando-o dos representantes do entreguismo e do latifúndio e compondo-o com personalidades que possam inspirar confiança às forças patrióticas e democráticas.”
A condição para que João Goulart participasse da Frente alicerçava-se no rompimento com o PSD, retirando do governo representantes deste partido ou elementos que tivessem o seu apoio. Jango deveria constituir um governo com ministros de esquerda, para que medidas
populares fossem efetivamente implementadas. Prestes deteve-se brevemente no assunto sucessão presidencial:
“Outro problema que não pode ser evitado e que, nas circunstâncias atuais, vincula-se inevitavelmente à constituição da frente única é o problema da sucessão presidencial de 1965. Da unidade que for alcançada e com o apoio do presidente João Goulart deve
surgir o nome do candidato das forças patrióticas e democráticas (...)”.338
A eleição para presidente de 1965 tocava em um ponto deveras importante tendo em vista que se referia não apenas à constituição da Frente, bem como as futuras ações referentes a medidas nacionalistas, principalmente após o comício. A partir da unidade que se fizesse em torno da plataforma mínima das esquerdas e com o “apoio” de Jango, deveria sair o nome do seu sucessor. Com efeito, o PCB também não apoiava de público ou propunha o nome do presidente para ser reeleito, o que naquele momento era inconstitucional, mas chamava a atenção de que era necessário que houvesse um candidato das esquerdas para o próximo pleito eleitoral, não importando quem fosse, desde que contasse com o apoio destes segmentos.
Dentre as expectativas para o comício do dia 13, uma delas de era que este selaria a adesão definitiva de Goulart e, ao mesmo tempo, a instituição de um governo de esquerdas, para a implantação das reformas de base. Tanto que edição dos Novos Rumos a primeira página estampava a chamada Comício da Central: decisão do povo de conquistar as reformas de base com nova política e novo governo.339 O texto avaliava que o evento ocorreria em um momento da vida nacional em que a situação política se apresentava “tensa e com perspectiva de um aguçamento maior”. A prova da tensão e do aguçamento da situação política devia-se as articulações que transitavam no Congresso Nacional, para que Auro de Moura Andrade e José Maria Alkmin se tornassem, respectivamente, presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Para o jornal, restava óbvio que “a maioria” retrógrada do parlamento se dispunha a consolidar e ampliar suas posições e, com isso, oferecer “mais encarniçada resistência” ao encaminhamento das reformas de base “exigidas pelo povo”.
Os dois políticos eram lideranças do PSD e, se eleitos, com certeza obstariam as proposições mais à esquerda, as quais Jango escolhia. O jornal relacionou a “encarniçada resistência” com as reformas “exigidas pelo povo”, numa clara alusão de que o Congresso Nacional não comungava dos anseios da maioria da população. Por outro lado, tal relação estabelecida tanto desclassificava a Câmara de ser capaz de representar os interesses dos
338
Novos Rumos, n. 262, Rio de Janeiro, edição de 6 a 12 de março de 1964, p. 3. 339 Novos Rumos, n. 263, Rio de Janeiro, edição de 13 a 19 de março de 1964, p. 1.
setores subalternos, quanto mostrava que, para os comunistas, não valia a pena apoiar ou defender uma instituição como o Congresso Nacional.
No novo governo, para o qual lutavam os comunistas, não havia espaço para a maioria dos parlamentares do Congresso Nacional eleita em outubro de 1962 – excetuando os parlamentares comprometidos com as reformas. A nova política exigia a formação de um grupo comprometido com as reformas de base e com as medidas que seriam adotadas por Jango. Uma vez que a maioria dos congressistas pertencia ao PSD e a outros partidos de direita, tal grupo não corresponderia aos anseios populares, sendo, por isto, desprezados pelos comunistas. Por outro lado, embora constituíssem a maioria do Congresso, representavam uma “minoria retrógrada”, que defendia interesses ultrapassados e, portanto, estava na contramão dos avanços sociais. Caberia aos congressistas, pressionados pelas esquerdas, aprovarem as mudanças, já que não o fariam por conta própria. Este era um dos motivos porque as forças de esquerda não hesitavam em considerar, inclusive, a possibilidade de seu fechamento.
Mediado pelas reportagens dos Novos Rumos, o partido exortava os leitores, fossem militantes ou simpatizantes do partido, a comparecerem em peso a fim de reivindicarem, também, um novo governo e, desse modo, as transformações benéficas à população seriam mais rapidamente implementadas.
Numa edição, sob o título de Esfomeadores do povo querem ir ao golpe,340 uma
reportagem relatava sobre articulações para parlamentares do PSD assumirem a presidência
da Câmara dos Deputados e do Senado, e também uma reunião do Conselho Nacional das
Classes Produtoras – Conclap, no Estado da Guanabara, como iniciativas que visavam impedir as reformas. Na reunião do Conclap, por exemplo, representantes deste Conselho e dos latifundiários colocaram-se abertamente contra os movimentos populares, classificando- os como “infiltração comunista”, propondo inclusive ações ilegais como o uso de armas para autodefesa. Diante disso, afirmavam os comunistas:
“Essa agitação golpista não surpreende as forças patrióticas e populares, especialmente os trabalhadores. As organizações democráticas mantêm-se vigilantes e prontas para esmagar qualquer tentativa dos grupos antinacionais e reacionários de levar à prática os seus planos golpistas.”341
Na iminência da adesão de Goulart durante o comício, o PCB entendia que quanto mais as esquerdas se aproximavam de uma vitória, mais aumentava a resistência e oposição para
340
Novos Rumos, n. 263, Rio de Janeiro, edição de 13 a 19 de março de 1964, p. 3. 341 Novos Rumos, n. 263, Rio de Janeiro, edição de 13 a 19 de março de 1964, p. 3.
impedi-la. Por isto os esforços do partido convergiam cada vez mais para arregimentar ao máximo a população, no sentido de coagir os parlamentares e intimidar os golpistas, mostrando a força dos setores populares. A principal estratégia era pressionar, nas ruas, o Congresso Nacional. Ao mesmo tempo pretendia-se engrossar os movimentos reivindicatórios, para não deixar espaço a ações golpistas de direita.
A necessidade da organização de um governo de esquerda se explicava pelos motivos já expostos. Os grupos refratários às reformas estariam cada vez mais desesperados e resistentes por causa da crescente força dos movimentos populares. Se houvesse a formação de um governo exclusivo das esquerdas, os opositores das reformas seriam desalojados das posições de poder e influência política, sem condições de sabotarem ou impedirem as reformas. Mas para que um governo de esquerdas fosse constituído era preciso haver a pressão popular e o apoio para tal grupo, daí o esforço hercúleo dos comunistas para a participação popular no comício.
A edição da semana do comício trouxe um suplemento de quatro páginas dedicadas exclusivamente do assunto. Na primeira página do suplemento havia o manifesto de conclamação aos “trabalhadores e o povo em geral para essa demonstração cívica de unidade e patriotismo”, para defender “soluções populares e nacionalistas para os problemas
brasileiros”.342 Isto porque, segundo o manifesto, “ao povo compete legitimamente traçar os
rumos definitivos dos destinos nacionais”. Assinavam o manifesto representantes das mais diversas entidades, como confederações de trabalhadores, o CGT, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, confederação dos servidores público, dos jornalistas, do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, da União dos Estudantes, dos portuários, UBES, da Frente Parlamentar Nacionalista e Liga Feminina da Guanabara.
A página seguinte do suplemento indicava os pontos onde haveria a concentração para o comício, meios de transporte e horários especiais dos trens que seguiriam para a Central do Brasil. Outra página exibia a chamada É preciso ir ao comício, onde tentava persuadir os leitores sobre a importância do ato:
“Pelas reformas de base, pela assinatura do decreto da Supra, por medidas para deter a carestia e romper o processo espoliativo que está esmagando o povo brasileiro, guanabarinos, fluminenses, paulistas e mineiros estarão reunidos sexta-feira, dia 13, na Central do Brasil, em comício que constituirá a maior demonstração popular de apoio
às reformas de estrutura que toda a nação reclama.”343
342
Novos Rumos, n. 263, Rio de Janeiro, edição de 13 a 19 de março de 1964, p. 9. 343 Novos Rumos, n. 263, Rio de Janeiro, edição de 13 a 19 de março de 1964, p. 11.
Completava o texto a afirmação de que “este tabloide é a contribuição de NR” àquela manifestação, assim como, dizia o jornal, “nosso apelo para que ninguém falte, para que todos estejamos dia 13, na Central, exigindo efetivamente as reformas”. Na última página do suplemento sob o título Pelas reformas havia a explicação de que era pelas reformas que haveria a mobilização popular no dia 13. No evento os “trabalhadores, os patriotas e democratas” exigiriam mudanças. No final do texto lia-se que:
“O povo brasileiro dirá, enfim, que a sua participação ativa e crescente na vida política do país é uma conquista de que ele não abrirá mão. (...) O povo adquiriu plena consciência do papel decisivo que lhe cabe desempenhar na sociedade brasileira. E
nenhuma força impedirá o povo de cumprir o seu dever.”344
Com o objetivo de mobilizar o máximo de pessoas e setores simpáticos às reformas, percebe-se nos textos do jornal o uso de afirmações que eram atribuídas a toda a população do país sob afirmações referentes ao “povo”, no afinco de legitimar o discurso das esquerdas, que pertenceria a uma maioria. A minoria eram os opositores dos interesses do “povo”. Em relação a isto escreveu Jorge Ferreira:
“As esquerdas, naqueles anos, fabricaram, disseminaram e tornaram comuns imagens que agiram no sentido de sedimentar ideias, crenças e comportamentos coletivos. Traduzido por meio da linguagem, o conjunto de representações auxiliava no processo
de alimentar certezas, arregimentar adeptos e reforçar utopias.”345
A tática de tentar criar comportamentos e sedimentar ideias pelas reformas mostrava- se eficiente para fortalecer a frente ampla, sobretudo em sua base, a operária. Este seria o aval para Goulart formar um governo com as esquerdas, porque tão importante quanto sua adesão era que à sua volta e nos ministérios não houvesse representantes das forças de centro ou de direita.