2 OS COMUNISTAS E O GOVERNO PRESIDENCIALISTA DE JOÃO GOULART
3 O PCB ENTRE A PROPOSTA DE TRANSIÇÃO PACÍFICA E A REFORMA VIOLENTA
3.1 Revolta dos Sargentos: As Esquerdas Apostam no Confronto
Um termômetro da radicalização ocorrida no governo Goulart ficou patente no mês de setembro de 1963, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) votou a ilegibilidade do sargento Aimoré Zoch Cavalheiro. O resultado desfavorável ao sargento e outros em igual situação motivou um levante de sargentos em Brasília. O PCB, solidário à causa dos sargentos, apoiou por completo a revolta, embora não tenha dela participado, mas aproveitou para criticar Jango, como se atesta em Novos Rumos, no texto Unidade das forças populares, pelas liberdades democráticas, pelas reformas de base:
“Os últimos acontecimentos revelam que se tornam acentuadamente mais agudas as contradições existentes na sociedade brasileira. Continua o Governo insistindo em levar à prática uma política dúplice e vacilante. Ao invés de apoiar-se nas forças
patrióticas e democráticas e enfrentar com decisão os problemas nacionais, resolvendo-os de acordo com os interesses do nosso povo – e nesse caso contaria sem
dúvida com o apoio de esmagadora maioria da Nação.”227
Como acontecia desde a posse de Jango, no texto havia críticas à conduta do presidente, “vacilante”, recusando a se apoiar nas “forças patrióticas” representadas apenas pelos setores e personalidades de esquerda: Leonel Brizola, Miguel Arraes, CGT, FMP, entre outras. O trecho destacado também mostra a crença de que se o presidente seguisse com as esquerdas encontraria apoio “da esmagadora maioria da Nação”. No mesmo texto estava escrito que cresciam “as lutas das massas” adquirindo maior radicalização e amplitude.
“São exemplos recentes a greve geral da baixada santista, a vigorosa luta dos estudantes e trabalhadores de Brasília contra a carestia e em defesa do direito de reunião, a intensificação do movimento camponês, particularmente no Nordeste, as greves dos soldados e oficiais das Forças Públicas do Piauí e do Rio Grande do Norte, o movimento de protesto dos soldados, sargentos e suboficiais de Brasília. (...) Elevam-se a organização, a consciência política e a combatividade dos trabalhadores e de todo o povo. Continua assim a desenvolver-se em linha ascendente o movimento de
massas, que se estende a setores cada vez mais vastos da população.”228
O levante dos sargentos estaria, segundo os comunistas, dentro do contexto de insatisfação nacional contra a crise econômica pela qual passava o país, assim como da política de Jango de seguir negociando com o PSD no Congresso. Ao enumerar os protestos que ocorriam de Norte a Sul, com greves de trabalhadores e de policiais, o crescimento do movimento dos camponeses e sargentos pegando em armas contra decisões do governo, o PCB interpretava o contexto nacional como próximo de uma situação pré-revolucionária.
Segundo Paulo Parucker, os sargentos já haviam participado de ações vitoriosas, legalistas, com o marechal Lott em 1955 e em agosto de 1961 na oposição ao veto dos ministros militares à posse de Jango. Neste último evento, os sargentos tiveram uma participação de destaque, já que impediram que aviões levantassem voo para atacar as forças legalistas. Após a vitória pela posse de Goulart, começou a ganhar corpo, entre os sargentos, um movimento, aventando a possibilidade da eleição de representantes destes graduados para
o Legislativo, a fim de defender seus interesses.229
A Constituição de 1946 deixara dúvidas quanto à elegibilidade dos sargentos, a interpretação da lei ficava por conta dos juízes. O sargento Antônio Garcia Filho registrara
227 Novos Rumos n. 239, Rio de Janeiro, edição de 20 a 26 de setembro de 1963, p. 1. 228 Novos Rumos n. 239, Rio de Janeiro, edição de 20 a 26 de setembro de 1963, p. 1.
229 PARUCKER, Paulo Eduardo Castello. Praças em pé de guerra: o movimento político dos subalternos militares no Brasil (1961-1964) e a Revolta dos Sargentos de Brasília, São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 57 e 58.
sua candidatura, pelo PTB, através do Tribunal Regional Eleitoral da Guanabara (TRE-GB), para deputado federal, conseguindo votação suficiente para ser eleito e diplomado por este Tribunal. Paralelamente, outros sargentos também haviam tentado o registro de suas candidaturas, mas os TREs dos seus Estados indeferiram os pedidos. Um deles, Aimoré Cavalheiro, no Rio Grande do Sul, impetrou um mandado de segurança junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), obtendo, por liminar, o registro de sua candidatura. Após o pleito,
conseguiu ser eleito, mas não foi diplomado e recorreu ao STF.230
Na quarta-feira, dia 11 de setembro de 1963, o STF decidiu sobre o impasse que envolvia o sargento Aimoré. A maioria dos juízes votou contra o reconhecimento da eleição, sendo este o veredito final sobre o assunto. Após saberem o resultado, os sargentos iniciaram o levante em Brasília, por volta das 23 horas do mesmo dia, arrombando um depósito de armas, prendendo soldados e oficiais que não aderiam ao movimento. A seguir, obstruíram e ocuparam rodovias e locais estratégicos, como aeroportos, a central telefônica, prédios de
ministérios etc. 231 Após várias ações dos rebelados e a reação legalista, os revoltosos se
renderam na manhã do dia 12.
Na reportagem dos Novos Rumos que tratava da sublevação, constava que, durante algumas horas da madrugada de 12 de setembro, Brasília “esteve sob o poder dos sargentos da Aeronáutica e da Marinha”. Informava ainda que “numerosos cabos e soldados participaram, ao lado dos sargentos, no movimento que comoveu todo o país”. Lia-se ainda que
“um ministro do Supremo Tribunal Federal, o presidente em exercício da Câmara dos Deputados, um subchefe da Casa Civil da Presidência da República e vários oficiais foram presos pelos sargentos. Os edifícios dos ministérios da Marinha e da Aeronáutica, a Base Aérea, o aeroporto e a central telefônica foram ocupados pelos
sublevados.”232
Novos Rumos relatou também as causas para o levante: “a decisão iníqua do Supremo Tribunal Federal” que não reconhecia “o mandato conferido por 70 mil eleitores gaúchos ao sargento Aimoré Cavalheiro – o candidato mais votado à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul”. Na mesma reportagem estava escrito que, após uma intensa movimentação militar e a intervenção de uma delegação de parlamentares da Frente Nacionalista, os sargentos concordaram em se render. Os presos chegavam à casa dos seiscentos e foram levados para o Rio de Janeiro.
230 Idem, p. 72. 231
Idem, p. 138.
Sobre as causas do movimento, Parucker defende que não houve premeditação. Ânimos exaltados e superestimação da força dos sargentos levaram-nos à revolta, embora houvesse uma esperança, por parte do sargento Prestes de Paula, líder do levante, de uma
insurreição que envolvesse civis, militares e tomasse proporções maiores.233 A causa principal
fora mesmo um protesto contra a decisão do STF, porém, o autor assinala a politização e o clima de extremismos daquela conjuntura que influenciou os graduados:
“Além da indignação, foi determinante a própria politização dos praças, embasada materialmente pela ação dos clubes e associações e sustentada com esforço diante da crescente reação da instituição militar. Contou também, enormemente, a efervescência do período. Cada vez mais a radicalização e o confronto direto das forças pareciam a
única solução para os impasses políticos.”234
A comparação entre a ação dos sargentos e a crescente radicalização que ocorria nas esquerdas e no PCB demonstra como os ânimos estavam exaltados. Mesmo os que pregavam reformas de modo pacífico começaram a se contagiar com o oposto. Apesar de ter sido um movimento que foi frontalmente contra a legalidade constitucional que o PCB dizia defender,
Hércules Correa235 considerou a revolta como mais um “movimento de protesto” dos
sargentos. Afirmou o dirigente sindical que “no bojo do movimento de protesto dos sargentos há uma reivindicação justa”, visto que ser inaceitável que os sargentos não tivessem “os mesmos direitos dos demais brasileiros, quando a Constituição estabelece que todos são
iguais perante a lei.”236
Segundo o líder do CGT era normal os graduados protestarem promovendo uma revolta armada. Quando praticado pelos aliados preferenciais do PCB, um ato que atentava contra a Constituição era considerado justo. Sob esse ponto de vista, o radicalismo começava a tomar o partido. Para Dulce Pandolfi:
“Diferentemente do que é veiculado pela memória oficial da organização, o PCB não tinha uma visão clara a respeito da ‘revolução’. A transformação do regime, ou seja, a substituição no poder de uma classe por outra, era percebida ora como um processo lento e gradual, ora como uma insurreição, uma ruptura brusca. Em relação à primeira etapa da revolução, considerava-se possível e desejável a utilização da via pacífica. Entretanto, além da possibilidade do caminho institucional, o PCB apostava também numa solução de confronto. Efetuada essa primeira etapa, deveria ser avaliada a
conveniência de acelerar o percurso para o rompimento total com o capitalismo.”237
233
PARUCKER, Paulo Eduardo Castello. Op. cit, p. 206. 234 Idem, p. 203.
235 Hércules Correa era líder sindical, membro da diretoria do CGT e do Comitê Central do PCB. 236 Novos Rumos n. 239, Rio de Janeiro, edição de 20 a 26 de setembro de 1963, p. 3.
237
PANDOLFI, Dulce Chaves. Camaradas e companheiros: memória e história do PCB, Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Roberto Marinho, 1995, p. 184, 185.
Não sendo claro para o PCB, como analisa Pandolfi, como seria a “transformação do regime”, percebida ora como um processo “lento e gradual”, ora “como uma insurreição”, um movimento como o dos sargentos estimulava a opção pela mudança brusca. Como os documentos do partido aceitavam a possibilidade de um confronto armado, num momento de grande agitação social, greves, protestos os mais diversos, além do apoio de parlamentares, de oficiais militares, bem como o sucesso contra forças golpistas em agosto de 1961, avanço das forças de esquerda após as eleições, vitória avassaladora em prol do retorno ao presidencialismo, no plebiscito de janeiro de 1963, e a demonstração de apoio dos militares de baixa patente, não era difícil para o PCB avaliar o momento político e social do Brasil como pré-revolucionário.
O PCB fazia oposição sistemática a Jango desde sua posse como presidente em setembro de 1961, exigindo deste a organização de um governo de esquerda e a decretação imediata das reformas de base. Diante da resistência do presidente e com tantos protestos, discursos violentos e acirramentos de ânimos contra o governo, até de militares de baixa patente, a direção do partido era tentada a pensar que o “processo lento e gradual” já havia passado e estava na hora da “ruptura brusca”. Outro aspecto que ajuda a entender o apoio do PCB à revolta dos sargentos é que houve, naquele tempo, um vínculo cada vez mais forte entre graduados e o movimento civil, principalmente o sindical.
Paulo Parucker elucida que os setores, que se autoproclamavam progressistas, aproveitaram a questão da elegibilidade dos sargentos para se aproximar dos graduados. O PCB e o CGT desenvolveram essa política, solidarizando-se, desde o início, com a essa causa e mostrando apoio incondicional à rebelião de Brasília, defendendo imediatamente a anistia aos presos.
Entre os grupos vistos pelo PCB como preferenciais aliados estavam os militares e, entre esses, os sargentos, pelas demonstrações dadas de adesão às causas progressistas. Havia uma aproximação entre sindicatos, forças de esquerda e sargentos, sob o lema “Sargento também é povo” ou mesmo “Sargentos são nossos irmãos”. Exemplo da ligação cada vez maior entre graduados e movimento sindical ocorreu no mês de abril de 1963, quando o CGT desenvolveu uma campanha por aumento de salário de 70% para servidores civis e militares. O fato de uma organização sindical, sem reconhecimento legal, defender aumento dos militares com a visível intenção de ter o apoio de sargentos, cabos e soldados para sua causa, provocou repúdio dos altos comandos militares, mas mostra a aproximação que aconteceu entre graduados e o CGT, controlado pelo PCB.
Essa aproximação, contudo, entre militares e sindicalistas era de mão dupla. No dia 11 de maio de 1963, Gelcy Rodrigues Correia, subtenente paraquedista, em uma homenagem ao general Osvino Ferreira Alves, agradeceu o apoio do CGT aos militares e afirmou que estes pegariam nos seus instrumentos de trabalho e fariam as reformas junto com o povo, lembrando que o referido instrumento era o fuzil. Neste evento, ocorrido na sede de uma entidade civil, o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC-GB), estavam presentes centenas de sargentos, políticos, representantes da UNE, UBES, dos
camponeses e de diversos sindicatos, como portuários, têxteis e marítimos.238
A título de conclusão sobre o estreitamento de laços entre civis e militares, Parucker resume com bastante propriedade a questão:
“A aliança dessas forças aos sargentos politizados seria, assim, estimulada de ambas as partes. Para os movimentos populares, como já vimos, abria-se a perspectiva de poderem contar com o que sempre lhes faltara nos embates decisivos: a força militar. Alguns olhos mais otimistas enxergavam na aproximação o próprio esfacelamento da repressão. Os sargentos, por seu turno, além de verem naquela união a chance de suplantar pela pressão das massas populares o poder férreo das cúpulas militares,
sentiam que aquelas eram também suas lutas, pois ‘sargento também é povo’.”239
Novos Rumos aproveitou a revolta dos sargentos para avaliar a posição das “forças democráticas”, comparando a conjuntura de 1963 com a de 1954 e 1961, afirmando que diferentemente dos períodos anteriores, os “inimigos do povo” tinham “pela frente um movimento democrático e patriótico seguro de suas posições”, citando o Comando Geral dos Trabalhadores, a Confederação Nacional dos trabalhadores na Indústria, a Frente de Mobilização Popular e a União Nacional dos Estudantes, que se solidarizavam com a “causa
dos sargentos” e protestavam contra “a decisão iníqua do Supremo Tribunal Federal”.240
A reportagem referia-se também à solidariedade que deveria ser oferecida aos sargentos, através do reforço da campanha da elegibilidade, exigência da imediata libertação dos presos e ajuda às suas famílias, além de protestos contra as condições de tratamento impostas aos sargentos, cabos e soldados detidos no levante. Na mesma página havia um manifesto do CGT, datado de 12 de setembro, colocando-se contra os cerceamentos das liberdades democráticas e sindicais, apoiando os “patriotas civis e militares pelas reformas de base”, e repudiando decisões políticas dos tribunais, que atentassem “contra interesses dos trabalhadores, do povo e da nação”.
238 PARUCKER, Paulo Eduardo Castello. Op. cit, p. 65 e 66. 239
Idem, p. 80.
Em relação ao levante de Brasília e a crescente radicalização das esquerdas, cabe enfatizar os seguintes aspectos: a característica contraditória do movimento dos sargentos, o grande poder que as esquerdas atribuíam a si mesmas e as consequências, para as esquerdas, do acontecimento. O movimento dos sargentos foi aparentemente contraditório, assim como era a postura do PCB, visto que os militares embora defendessem a democracia e o nacionalismo, promoveram um levante armado. Provavelmente acreditavam que o regime democrático vigente não correspondia ao modelo verdadeiramente democrático, como afirmavam, portanto, fazia-se necessário instituir a democracia. Por isso, o levante foi classificado por vários grupos de esquerda, inclusive o PCB, como legítimo. Seja como for, os sargentos materializaram o que permanecia no imaginário de muitas lideranças nacionalistas e no interior de alguns movimentos, que defendiam a democracia, mas acreditavam em ações violentas. Só não fizeram por não ter as possibilidades e instrumentos dos sargentos.
No que se refere ao poder dos movimentos nacionalistas, a causa das esquerdas possuía grande aceitação junto à opinião pública, dando-lhes força frente à oposição. Cientes disto tendiam a apressar as conquistas posto não acreditarem em negociações políticas no Congresso Nacional, cuja morosidade decorria de negociações, pactos e compromissos, além de não propiciarem a certeza de vitória.
Paulo Parucker definiu o levante de Brasília numa metáfora significativa: os sargentos cutucavam a onça de vara curta, mas para eles, no calor dos acontecimentos, a vara parecia
“um vigoroso porrete”.241 Essa mesma metáfora pode ser usada em relação às esquerdas que,
sabendo da conjuntura favorável nos círculos militares, concluíram que teriam o mesmo apoio e a mesma força dos setores conservadores e reacionários se seguissem o caminho do confronto político.
A crença na vitória, se houvesse confronto, leva a uma terceira reflexão importante: as consequências do levante dos sargentos e da postura radical das esquerdas prejudicaram a causa do nacionalismo e das reformas de base. O levante dos sargentos, nos círculos militares, revelou-se negativo por ser, segundo Parucker, um movimento frontalmente contrário à disciplina e à hierarquia, tendo impacto indesejável em muitos oficiais que nutriam “alguma simpatia pelas bandeiras reformistas”. Estes passaram a temer que a radicalização dos graduados, nos termos em que passava a ser colocada, levasse efetivamente a instituição
militar à desagregação.242 Como sabido, a disciplina e a hierarquia são os fundamentos da
241
PARUCKER, Paulo Eduardo Castello. Op. cit, p. 87. 242 Idem, p. 188.
instituição militar. A maioria da população se virou contra a causa dos sargentos, isto causou, sem dúvida, uma perda política.
As bandeiras das esquerdas representadas por reformas de base, nacionalismo, reforma agrária, oposição ao imperialismo norte-americano comungavam da simpatia da opinião pública, mas em virtude do abandono da proposta de transição pacífica e de respeito à democracia, perderam o apoio da sociedade e dos setores militares legalistas. A força das esquerdas estava, em grande parte, na defesa da legalidade, como ocorreu em agosto de 1961.