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2 OS COMUNISTAS E O GOVERNO PRESIDENCIALISTA DE JOÃO GOULART

3 O PCB ENTRE A PROPOSTA DE TRANSIÇÃO PACÍFICA E A REFORMA VIOLENTA

3.5 Um Presidente Sob Críticas

solução das tarefas democráticas e das tarefas socialistas pode não tomar a forma de duas revoluções distantes entre si, mas constituir apenas duas etapas de um mesmo processo revolucionário”.

Considerado dessa maneira, negociar com o governo constituía uma necessidade revolucionária, na sua primeira fase. Um momento de aparente capitulação, mas estrutural para efetivar a segunda fase. Para, em seguida, finalizar:

“Em nossas condições atuais, a revolução brasileira passa pelo caminho da luta de massas pelas reformas de estrutura, pelo caminho da conquista e a realização dessas reformas”.

Isto significa que naquela conjuntura dos anos 1960, no Brasil, a primeira fase ainda estava acontecendo. Abandonar a proposta da frente única, ou seja, não acompanhar o movimento de reivindicações pelas reformas de base, seria queimar uma etapa e condenar os objetivos revolucionários de implantação do socialismo ao fracasso. Os acordos com Jango também eram necessários, devido ao cargo ocupado e por ser representante da burguesia nacional que se opunha aos setores mais reacionários, mas sem deixar-se levar pelas suas práticas de “conciliação” com os inimigos das reformas.

3.5 Um Presidente Sob Críticas

Os comunistas opinavam que a negociação que fizessem seria uma estratégia da transição pacífica, mas se Jango negociasse era “conciliação”. As direitas, por sua vez, interpretavam as negociações entre Jango e os movimentos populares, sindicatos em particular, como manipulação da conjuntura política e social em proveito próprio. Os jornais conservadores acusavam-no de utilizar organizações como a CGT para alimentar a agitação, visando continuar no poder, em detrimento das reformas e da democracia.

O Jornal do Brasil, no editorial Um ano depois, trata do aniversário de um ano de volta ao presidencialismo, afirmando que o presidente aproveitara o fim do parlamentarismo para voltar-se contra o Congresso, na busca de poderes pessoais, sem preocupar-se com a nação. Entre as reformas e a restauração de seus poderes pessoais, Jango teria optado pela

restauração destes últimos.288

A imprensa de direita atacava o presidente de querer implantar uma “República sindicalista”, que seria o poder que Jango daria às organizações sindicais para agirem acima

de partidos e instâncias de poder legalmente constituídas. Assim, os sindicatos pressionariam o Congresso e a sociedade para efetuarem as mudanças desejadas pelo presidente. Os líderes sindicais ficariam fiéis ao governo ocupando cargos em empresas públicas, voz de poder para propor mudanças governamentais etc. Por meio destes expedientes, João Goulart manteria as lideranças sindicais sob seu controle, amedrontando a sociedade e subordinando o Legislativo, tendo como objetivo final dar um golpe e governar como ditador.

A postura política de Jango de mediar conflitos, habituado a tratar com os trabalhadores, fazia com que ele, em muitos momentos, intermediasse disputas entre patrões e empregados, sendo, por isto, acusado pelas direitas de usar os sindicatos para governar por cima das instituições democráticas da República.

Na interpretação dos comunistas, as negociações políticas de Jango no Congresso Nacional, além de “conciliação”, eram manipulação. Ao atender parcialmente reivindicações das esquerdas tentava mantê-las sob controle, motivo pelo qual sofria oposição do PCB. Jango como membro da burguesia, podia até se opor aos interesses dos latifundiários, dos norte-americanos e de seus aliados, mas tendia, no final, a se afastar das “forças progressistas”, conciliando-se com as “forças da reação”.

Exemplo da manipulação de Jango, segundo os comunistas, teria sido quando houve eleições para a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), no início de janeiro de 1964. Concorreram Clodesmith Riani encabeçando uma chapa formada por trabalhistas e comunistas e noutra chapa João Wagner, que tinha o apoio de pessoas ligadas a Jango. O resultado favorável a Riani foi considerado pelos comunistas como “uma indiscutível vitória da política de unidade, contra o peleguismo e a corrupção, no meio

sindical brasileiro”.289

Sobre o fato da eleição para a CNTI, as ações das pessoas ligadas a Jango sugerem que este pretendia ter na direção da instituição elementos mais fiéis a fim de equilibrar a correlação de forças no movimento sindical e ser menos coagido para conduzir as reformas mais de acordo com sua vontade.

João Goulart era favorável às reformas, tinha como prática a busca pelo entendimento das partes e historicamente estava associado ao movimento dos trabalhadores e às esquerdas, de onde tirava sua base e apoio, mas não era socialista. Na verdade, era um reformista que procurava aliar o PTB ao PSD, o maior partido da Câmara, pois precisava deste para que as reformas fossem aprovadas. Por outro lado, o presidente sofria pressão da imprensa

conservadora, de políticos, dos oficiais militares e partidos de direita do Congresso, para que não se aproximasse politicamente de Luiz Carlos Prestes, Brizola e os sindicatos. Convém frisar que, naquele período, o país atravessava uma crise econômica, fora o contexto de Guerra Fria e a intensa campanha anticomunista. Jango, apesar disso, caminhava com as esquerdas, mas sem reciprocidade.

Jango não só ouviu como também prestigiou o movimento sindical e aproximou-se dos comunistas, mesmo à revelia da direita e sofrendo oposição do próprio PCB. O que ficou registrado na historiografia como “conciliação” ou manipulações de João Goulart, assim como o “desvio de direita” atribuído ao PCB, são escolhas dos atores políticos num contexto de luta pelo estabelecimento das reformas políticas e sociais, de acordo com a visão estratégica de mundo de cada um.

3.6 A Entrevista de Prestes

Luís Carlos Prestes foi entrevistado, no dia 3 de janeiro, em São Paulo por uma emissora de televisão. Historiadores apontam para a possibilidade de Jango ter se aproximado mais dos comunistas em busca de apoio, ao mesmo tempo em que Prestes e o PCB passaram a apoiar mais intensamente não só o presidente, como também sua reeleição. As respostas de Prestes às reportagens dos Novos Rumos e a leitura dos documentos do partido são esclarecedoras acerca da opinião do Partido Comunista sobre Jango, antes do comício de 13 de março de 1964.

Na entrevista à televisão, transcrita em Novos Rumos, Prestes fora questionado sobre como os comunistas pretendiam chegar ao poder ao que respondeu que, embora acreditasse que o socialismo fosse uma fatalidade para o mundo e, em consequência, para o Brasil também, naquele momento os comunistas não lutavam pela implantação do socialismo:

“A revolução brasileira no momento atual, é nacional e democrática. Trata-se de emancipar o País do jugo imperialista e de realizar uma reforma agrária radical, que acabe com o latifúndio. Então, lutamos por um governo revolucionário das forças anti- imperialistas e antifeudais, capazes de levar até ao fim as tarefas da revolução. Nesse processo, para alcançar esse governo revolucionário, nós comunistas pensamos que, no momento atual, dada a situação mundial e a situação brasileira, é possível, mesmo dentro do regime atual, ainda nesse regime, capitalista, com essa estrutura que aí está,

formar-se um governo nacionalista e democrático, que inicie as reformas.” 290