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CAPÍTULO II  A CÂMARA DOS DEPUTADOS E A COMISSÃO DE

2.2. O Pecado Original e a Católica Pacificação

Em mensagem enviada ao Congresso Nacional, no dia 14 de julho de 1919, Altino Arantes, presidente do Estado de São Paulo, recomendava a adoção de leis sociais que consagrassem os princípios estabelecidos pela Conferência de Paz de Paris, na qual foi discutido, elaborado e acordado o Tratado de Versalhes. Repetia o gesto do vice-presidente Delfim Moreira que, em 15 de maio do mesmo ano, havia conclamado os parlamentares a cumprirem os termos do acordo firmado em Paris, a fim de evitar confrontos no campo do trabalho e assegurar a ordem159.

Na sessão da Câmara dos Deputados, de 17 de maio de 1919, Maurício de Lacerda foi à tribuna comentar a mensagem do chefe da nação, julgando-a tardia e insuficiente. Encerrou seu discurso tecendo críticas ao encaminhamento dado pelo Poder Executivo às questões sociais. Como reação às críticas, o séquito governista rapidamente adjetivou o deputado, expressando o ímpeto dos conservadores daquela

158 Ver Nota 22.

159 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Mensagem do Presidente do Estado de São

época em desqualificar qualquer ideia de avanço social como “comunista e maximalista”, rótulos dos quais ele se defendeu de forma eloquente:

Os que por preguiça intelectual ou por incapacidade mental não acompanham o problema nem o podem acompanhar têm tentado definir todos os gestos todos os estudos e todas as observações em certo sentido, como filhas de uma disciplinação espiritual ou política, partidária ou facciosa à ideia maximalista. [...] São os mesmos fúteis que jamais se dedicaram ao exame sincero de uma ideia, e que, nesse momento, se erguem para no meio de suas chalaças de incapazes ou de sua protervia de sabe-tudo pretender enclausurar na regra rígida de um partido alguém que, de princípio, começa por declarar que não se encerra em partido, em seita, método ou sistema algum160.

Não era nova a tentativa de desqualificação e rotulação dos parlamentares e figuras extraparlamentares, como Evaristo de Moraes, que defendia a questão social e os direitos para os trabalhadores. Desde o início do século, mas, principalmente, após a revolução russa de 1917, quase sempre o argumento daqueles que se opunham à adoção de regulamentação do trabalho era de que seus defensores estavam embebidos em teorias revolucionárias europeias que, além de não terem sentido em um país com as tradições brasileiras, colocavam em risco os valores da pátria. Não surpreendia, portanto, que uma vez mais o debate fosse deslocado para a arena dos ataques doutrinários, impedindo que, ao menos, suas razões fossem ouvidas sem viés ideológico pré-determinado.

Antes de mais nada, cabia aos parlamentares da bancada trabalhista desconstruírem a pecha de patronos da desordem. Na sessão do dia 19 de maio Maurício de Lacerda retomou o debate. Primeiramente, reafirmou que não era ligado a nenhuma seita ou linha (política, filosófica ou religiosa) e, tampouco, estava submetido a dogmas. Para tanto, enumera problemas no movimento socialista internacional e os limites que esse encontrava mesmo nos países onde as condições para seu desenvolvimento eram mais adequadas. Em suas palavras, era “um homem contemporâneo, que abstrai de sistemas, de credos para viver de sua simples razão [..] alimentada pela observação direta da vida”161.

Vale notar que mais do que a negação da filiação a um movimento socialista internacional ou afinidades com os bolcheviques, está a preocupação em afirmar que as

160 DOCUMENTOS PARLAMENTARES, 1923, p.672. 161 Ibid., p. 670.

ideias em que acreditava vinham da relação direta com a prática, com a vida operária e com a observação das injustiças que eram cometidas contra essa classe social. Essa característica de Lacerda é fundamental para a compreensão de sua atuação parlamentar e tema recorrente de suas falas no âmbito da Comissão de Legislação Social. Naquele momento, para ele, nenhuma corrente seria capaz de dar todas as respostas e ninguém poderia dizer “que tal sistema, tal filosofia, melhor define, enquadra, encaminha, realiza, coordena, disciplina os esforços dessa grande renascença humana”162. Nota-se, também, que abrir mão da filiação doutrinária na política não significava negar a política.

Ainda para refutar as posições do vice-presidente Delfim Moreira, Maurício de Lacerda aproveitou o pronunciamento para apontar a contradição de setores da imprensa que haviam aproveitado a semana para avançar contra ele e seu colega de bancada trabalhista, deputado Nicanor Nascimento. Nascido no Rio de Janeiro e formado em Direito em 1893, foi deputado de 1911 a 1921 “quando perdeu seu mandato”163. Por seu notório empenho nas causas sociais, principalmente no

acompanhamento dos movimentos grevistas de 1917, foi indicado em 1918 para fazer parte da CLS.

Apesar disso, nunca havia se enquadrado em nenhuma das correntes políticas ou ideológicas das quais era agora, acusado pelo Rio Jornal de ser “socialista de última hora”. Nesse ponto, em discurso carregado de ironia, Lacerda relatou que vinha há anos defendendo a adoção de leis sociais, assim como Nicanor Nascimento, mas só agora o “brilhante vespertino da cidade” havia lembrado que a questão social existe, mas exatamente para acusá-los de oportunistas.

A mensagem do Poder Executivo foi, de acordo com Tristan Vargas, uma “tentativa pouco hábil do governo164” de assumir as questões sociais. No entanto, os

debates parlamentares mostram mais que isso. Havia em torno dessa mensagem presidencial uma disputa sobre os rumos e sentidos a serem dados ao que chegava da Europa, ou seja, as cláusulas da Parte XIII do Tratado de Versalhes.

A posição oficial do governo e a defesa que o Presidente do Estado de São Paulo, Altino Arantes, assumira da questão social, era um gesto em busca de garantir a

162 Ibid., p. 800.

163 BATALHA, 2009, p.113. 164 VARGAS, 2004, p. 291.

credibilidade com os industriais e, ao mesmo tempo, amainar as críticas do operariado. Em outras palavras, o portador das boas notícias  a receber o bônus político pelo enfrentamento da questão social como caso de justiça  deveria ser o governo e seus representantes que tinham ido a Paris. Por isso, foi tão importante marcar posição e apagar os rastros do que já havia sido produzido pelo parlamento. A disputa, com efeito, era mais do que pela autoria das leis (a bem da verdade até agora apenas pela iniciativa do debate). Devido aos acontecimentos de agitação operária em São Paulo havia muitos motivos para o governo federal dar essa ênfase repentina ao Tratado de Versalhes, tão noticiado quanto desconhecido do povo e do parlamento brasileiro.

Tal como o jornal A Plebe, a primeira reação dos deputados da bancada trabalhista é de crítica ao texto resultante da Conferência de Paz. O caráter internacional do documento e o fato de ter sido construído com base no consenso entre os países vencedores da guerra tornaram seus artigos exageradamente genéricos. Na compreensão desses deputados, as bases lançadas na Conferência de Paz para a questão do trabalho eram de uma “generalidade impalpável”:

A esse Tratado, diga-se de passagem, assinaria eu ‘vencido’, ante a desconformidade de várias de suas estipulações [..] Essa minha restrição ao Tratado de Paz em seu capítulo concernente a um direito do trabalho que internacionalmente ele reconhecia nos mais cuidadosos termos para reduzir a um mínimo de direito as prescrições nacionais relativas às convenções internacionais respectivas, facultando-se uma inobservância parcial da sua forma e essência, nas legislações de cada nação165.

A ausência de um programa e de uma sistematização dos temas, além da presença de poucos e limitados princípios, sendo a maior parte deles já antigas demandas, foram consideradas as consequências de um documento que tinha mais sentido de “capitulação”, de recuo das classes dominantes internacionais diante da maior capacidade de organização dos trabalhadores do que realmente uma intenção “sincera” de resolver tais problemas. Esse gesto tardio das potências mundiais e suas classes dominantes foi comparado ao atraso do governo brasileiro em reconhecer a pertinência desse debate. Na CLS, Maurício de Lacerda afirmou sobre o Tratado de Versalhes:

165 LACERDA, 1980, p. 189.

Representa uma capitulação em forma, capitulação idêntica a esta da Câmara, quando premida pela greve estrondosa do ano passado, saiu do letargo e do pouco caso com que estudava o projeto de legislação do trabalho, para a toda pressa, em comissão especial, esgarçar do conjunto do projeto uma lei manca sobre acidentes de trabalho e atirá- la como carneiro de palha aos lobos famintos do operariado. Essa iniciativa não representa reconhecimento de direitos [...] representa, antes, manobra diante da qual a desconfiança vai se generalizando nos meios operários [...] pretendendo como na Conferência de Paz, que sofre do mesmo pecado original, só tratar do problema quando a bastilha da burguesia está cercada pelas reclamações e reivindicações dos operários166.

O pecado original do governo e do parlamento brasileiro, consequentemente, era o mesmo da Conferência de Paz: era apenas uma tentativa de atenuar a tensão social causada pelo seu próprio anacronismo. Se a motivação era exclusivamente amenizar os conflitos entre empregados e empregadores, era tarde demais para convencer a classe operária de que seus interesses eram os mais francos ou que os tempos mágicos do pós-guerra e a atmosfera parisiense tinham sensibilizado os grandes detentores do capital.

Cabe salientar, no entanto, que ao contrário de setores mais radicais alinhados ao anarquismo, comunismo e sindicalismo revolucionário, os deputados da bancada trabalhista não desprezaram as conquistas por meio de leis que há tanto lutavam para assegurar, nem minimizaram a possibilidade de enfim discuti-las. É importante essa elucidação porque está aí uma das principais divergências táticas entre os grupos mais radicalizados, que nas ruas negavam qualquer disputa na institucionalidade, e esses parlamentares, muitas vezes subestimados, que insistiam nas pequenas conquistas, ainda que as reconhecessem como “leis mancas”, leis incompletas porque isoladas, apartadas, sem um marco jurídico global que desse a elas um sentido estrutural.

Durante o período em que se debruçou sobre cada um dos pontos estabelecidos pelo tratado de paz, a CLS tomou ciência da criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), organismo que teria a tarefa de consertar esse “pecado original” apontado pelos legisladores brasileiros, a partir da constatação de que o direito social estava mais adiantado em outros países, ao passo que o Brasil ainda vivia uma

166 Ibid., p. 673.

“teimosa falta de reconhecimento da questão167”. Tal questão exigia dos legisladores

atenção não só aos (poucos) princípios gerais que norteavam a nova organização internacional, mas, também, aos pontos específicos para um país com as características do Brasil, entre eles a questão do trabalho e dos trabalhadores na agricultura.

O crescimento econômico e a industrialização sem dúvida acelerava o processo de urbanização de forma inédita no Brasil, situação que tornava a vida nas cidades um desafio para os governantes e legisladores, porém, não se pode desconsiderar que o país continuava majoritariamente rural e dependente da agricultura. De acordo com o Censo de 1920 das 9,1 milhões de pessoas em atividade, 6,3 milhões (63,7%) trabalhavam na agricultura; 1,2 milhão (13,8%) se dedicavam à indústria; e 1,5 milhão (16,5%) aos serviços de uma maneira geral168.

Ângela de Castro Gomes analisou os discursos de 17 de maio e 26 de junho de 1919 e as denúncias que os deputados da bancada trabalhista faziam contra setores que defendiam uma inviável “volta à terra” ou “fim das indústrias”, como solução para as questões urbanas e do trabalho. Os deputados queriam se distanciar de uma rarefeita ideia de que o Brasil estava fadado a uma vocação agrária, pois não era disso que se tratava. A crítica, segundo a historiadora, se dava por esses setores “ignorarem, de fato, as péssimas condições de trabalho nos campos”169, assim como que a área rural estava

concentrada em latifúndios e as condições de trabalho eram ainda piores. O debate sobre o trabalho no campo foi aprofundado e, novamente, estava relacionado aos pressupostos da Parte XIII do Tratado de Paz.

O esquecimento dos trabalhadores rurais por parte dos legisladores brasileiros não era um detalhe, tampouco ocasional. Certamente, a ausência de sindicatos e organização de classe com poder de barganha e capaz de intimidar os patrões contribuiu para isso. Nos “Princípios Gerais” estabelecidos pelo Tratado de Versalhes, embora o 8º tópico registrasse que a “legislação estabelecida em cada país [...] deverá assegurar tratamento econômico equitativo para todos trabalhadores que residam no país”, havia a ressalva de que esses pontos deveriam ser esforços das “comunidades industriais”. Essas e outras ambiguidades, à luz da interpretação dos

167 Idem.

168 SCHWARCZ, Lilia Moritz (Dir.). História do Brasil Nação: 1808-2010. Rio de Janeiro: Objetiva,

2012, p.43.

proprietários, excluíam na prática os trabalhadores do campo da maior parte das tímidas, mas valiosas, conquistas sociais. Para Lacerda, por “uma propositada confusão maliciosa os defensores da ordem burguesa nos atiram à cara que defendemos apenas o operário da cidade” ao passo que, na sua leitura, “operário quer dizer em vernáculo trabalhador e não simplesmente trabalhador urbano”. A Convenção sobre o direito de associação para trabalhadores da agricultura seria aprovada pela Organização Mundial do Trabalho, em 1921.

Em aparte ao deputado Lacerda, o deputado Deodato Maia fez coro às críticas de que as resoluções sobre trabalho da Conferência de Paz eram “melífluas” e acrescentou que “as conclusões da Conferência estão muito aquém do que resolveram os Congressos Operários anteriores”170. Deodato Maia era deputado por Sergipe e

acabava de ser nomeado pelo Instituto dos Advogados para acompanhar a elaboração em torno da questão social, fato que Lacerda fez questão de ressaltar e, novamente com a palavra, vaticinou que as conclusões da Conferência de Paz eram “imprecisas e indecisas como incompletas”.

Entre as tentativas de desqualificação política da bancada trabalhista, o governo havia lançado mão de um artifício que falava diretamente aos corações e mentes do povo brasileiro: a religiosidade. Delfim Moreira não apenas havia estabelecido uma nova base para a discussão da questão social, ao recorrer de forma genérica à Doutrina Social da Igreja Católica, como membros da bancada mineira, nesse momento à frente da articulação política do governo, se valeram dessa questão para deslegitimá-los, acusando-os de ameaçar a instituição familiar brasileira.

Além do pecado original do Tratado de Versalhes, revelava-se na Comissão de Legislação Social a ideia de “pacificação católica”. Passávamos, assim, para um segundo estágio de desqualificação pela política, pois agora as ideias mais ligadas aos trabalhadores além de “maximalistas” eram “anticristo”. Contra essa última investida, os deputados da bancada trabalhista tiveram como aliados os parlamentares da bancada riograndense que, adeptos do positivismo, não aceitavam a imposição da tal doutrina, que preconizava a igreja católica na política. Diálogos entre Maurício de Lacerda e o deputado gaúcho Carlos Penafiel dão mostras de convergência:

O Sr. Carlos Penafiel: [...] A forma de organizar sem Deus, sem rei, é princípio básico da Encyclopedia da Revolução e sobre o qual se deve estribar todo o direito social.

O Sr. Maurício de Lacerda: Sr. Presidente, o aparte do nobre deputado, muito oportuno...

O Sr. Carlos Penafiel: Protestei, não individualmente, mas em nome do Rio Grande Republicano.

O Sr. Maurício de Lacerda: ... vem demonstrar – e chegarei lá – que outras igrejas também existem, que tem sobre a questão social o direito de serem ouvidas pelo Governo da República, principalmente a positivista.

O Sr. Maurício de Lacerda: [...] Representa mais antiga do que a ideia da bula de Leão XIII [...]171.

A sequência do diálogo não apenas mostra como as posições entre as bancadas eram fluídas, menos rígidas a depender da temática, mas é também reveladora da centelha que foi lançada pelo vice-presidente da república quando ele assumiu a questão social com base no Tratado de Versalhes. O debate incendiou-se de tal forma que a questão religiosa demarcou posições. A separação entre religião e estado na questão social, para os deputados gaúchos, era um princípio que remetia ao iluminismo e a postura da igreja católica a esse respeito era um recurso para reassumir o controle da classe trabalhadora. Ainda em sua própria defesa, Lacerda acusou diretamente o vice- presidente da república de não querer a verdadeira transformação do país e oferecer apenas uma política pela qual se faria a “harmonização social sem grandes abalos através da igreja católica” e, foi além ao afirmar que o grande problema, o novo pecado, era que o cristianismo almejava promover a conciliação entre trabalhadores e patrões em um sistema de submissão rejeitado pela bancada trabalhista.

Ademais, a questão esbarrava em princípios morais. Ao contrário do receituário católico, a bancada trabalhista defendia que a libertação dos trabalhadores passava por aspectos como mudanças nas relações familiares. Não eram, portanto, apenas pontos de proteção ao trabalho que estavam em jogo. É bem verdade que a Conferência avançou no que tange à igualdade entre homens e mulheres e a própria ordem do dia  definida para a primeira Conferência Internacional do Trabalho, a ser realizada em Washington  mantinha a questão do emprego noturno e emprego antes e

171 DOCUMENTOS PARLAMENTARES. Aparte do deputado Carlos Penafiel a Maurício de Lacerda,

depois do parto para as mulheres, assim como o 7º princípio geral tratava de salários iguais para trabalhos iguais, independentes do gênero.

Ao se defender dos ataques de que tais ideias destruíam a família, Lacerda contra-argumentava que:

Nós trabalhistas, não queremos, quando pretendemos para a mulher salário igual e quando pretendemos para a mulher menor tempo de trabalho do que para o homem, não queremos senão assegurar a proeminência da família que sabe se defender para os burgueses, mas que se contesta ao operário [...] nós não queremos dissolver a família quando pretendemos o divórcio, queremos praticamente corrigir as situações [..]172.

Assim, as disputas que se davam em torno do trabalho extrapolavam a legislação trabalhista em si e debates como a exploração das mulheres no seio da própria família, os laços econômicos que a cada dia eram mais importantes que os afetivos, a ausência de direitos fundamentais e acesso aos bens essenciais da vida também se tornavam objeto das questões sociais. Nesse sentido, Lacerda se pronuncia:

Não queremos, nós os trabalhistas, a prostituição, não pleiteamos a dissolução da família: queremos que a família deixe de se basear sobre um negócio de dote, sobre as imposições paternas, sobre os arranjos dos desempregados que se empregam de marido, e se baseie no amor, expressão única, sincera, real e verdadeira de uma união afetiva, qual esta deve ser. Queremos a dissolubilidade do matrimônio, o divórcio, porque que menos imoral – se imoral fosse- é a separação dos dois cônjuges do que a coabitação de indivíduos que se detestam e só tem proximidade carnal, em vez de laços afetivos e espirituais que deviam existir entre eles. Queremos, quando pelejamos pela igualdade da mulher ao homem, pela interferência da mulher no governo173.

A tentativa de “pacificação católica” ao “pecado original” naqueles conturbados anos de agitação política e social direcionou o debate para aspectos pouco explorados, senão ignorados pelos pesquisadores que se debruçaram sobre as atas da CLS. Uma hipótese para o silêncio a respeito da lógica que motivava parlamentares conservadores a acusarem a bancada trabalhista de “ameaça à instituição familiar brasileira” é a dificuldade analítica de relacionar tal questão com a luta pela legislação do trabalho. Sueann Caulfield deu pistas disso ao demonstrar que:

172 Ibid., p.584.

Autoridades públicas do começo do século consideravam a defesa da honra sexual um componente fundamental para a missão civilizadora da recém-proclamada República ainda que o processo de definição dos conceitos de honra e civilização tenha provocado profundas controvérsias desde a criação das instituições republicanas, nas décadas de 1920 e 1930174.

Em outras palavras, para a elite política e econômica a honra da mulher era “a base da república” e sua entrada no mercado de trabalho deveria resguardar sua honra. De tal maneira, a ampliação dos direitos do trabalho implicava necessariamente o rearranjo das relações familiares em uma sociedade patriarcal.

Mutatis mutandis, para a bancada trabalhista era evidente que qualquer