CAPÍTULO I DIREITO DO TRABALHO, A ÚLTIMA MODA EM PARIS
1.3. A Parte XIII
A sessão plenária do dia 11 de abril de 1919 aprovou a parte do Tratado de Paz elaborada pela Comissão sobre Legislação Internacional do Trabalho. A comissão havia se reunido 35 vezes; concluiu seus trabalhos em março e imediatamente encaminhou a proposta para a Conferência. O documento apresentado foi aprovado e sofreu apenas ligeiras modificações textuais em sua versão final76 que consta nos
Tratados de Versalhes e seus similares (Sèvres, Saint-German, Neuilly-sur-Seine e Trianon)77.
A convicção de que a paz social deveria anteceder a paz militar não foi apenas retórica. Por motivos diversos, entre eles as dificuldades nas negociações dos termos de rendição e impasses quanto à participação dos países na Sociedade das Nações (SDN), idealizada por Woodrow Wilson, as resoluções referentes ao trabalho foram votadas e apresentadas ao público antes mesmo do projeto da Sociedade das Nações e do próprio acordo de paz. O clima político europeu contribuiu para isso. A revolta “espartaquista” na Alemanha e a memória da comoção causada pela morte de Jean Jaurés, pouco antes da eclosão da guerra78, fizeram acelerar a aprovação de leis do
76 Curiosamente, a versão inglesa do texto utilizado por esta comissão em seus projetos foi redigida por
Harold Butler e Edward Phelan, que se tornaram, posteriormente, presidentes da OIT.
77 Essas informações constam na introdução ao documento original disponibilizado no website da ILO.
International Labour Office (ILO). 1920. The labour provisions of the peace treaties (Genève). Call N.: 20B09/18 ENGL.
78 Comumente associados aos bolcheviques, os espartaquistas participaram das manifestações
revolucionárias ocorridas em novembro de 1918 em diversas regiões da Alemanha e que culminaram na tomada do poder e proclamação da república na região da Baviera. Os assassinatos de Karl Liebnecht e Rosa Luxemburgo, em janeiro de 1919, assim como havia ocorrido com o revolucionário socialista e anti- belicista Jean Jaurés na França, em 1914, causaram comoção entre a classe operária, gerando o temor, por parte dos conservadores, de que esse ambiente lançasse centelhas na chama revolucionária. Sobre Jaurés: Cf. BATALHA, Claudio H. de M. Jaurès au Brésil. Paris: Jean Jaurés - Cahiers Trimestriels, n.139, p. 23-30, 1996.
trabalho em alguns países (foi o caso do projeto de jornada de 8 horas de trabalho na França, apresentado às pressas ao parlamento), assim como acendeu o sinal de alerta para o “perigo bolchevique” em outros locais como, de forma traumática, na República de Weimar. A celeridade na aprovação da Parte sobre trabalho poderia ser uma resposta das potências que conduziam o tratado de paz.
A Seção I da Parte XIII do Tratado já apresentava com objetividade a espinha dorsal dos marcos legais e da organização que estava a surgir: só seria possível uma paz universal se a mesma tivesse como base a justiça social. A própria sobrevivência da Sociedade Das Nações, organismo ao qual estaria submetida à Organização oriunda da Parte XIII, dependia da preservação desse fundamento. De acordo com o documento, as condições adversas de trabalho causam sensação de injustiça para grupos que, de fato, vivem privações e misérias, e geram um estado de descontentamento que põe em perigo a paz e a harmonia entre os povos e nações.
Assim sendo, todos os estados membros da Sociedade das Nações comprometiam-se a fundar e sustentar uma organização permanente para as questões do trabalho e, consequentemente, aceitar a regulamentação internacional do trabalho. Estava firmada a posição de que sem melhorar a situação operária a “paz duradoura”, objetivo da entidade de mediação internacional idealizada pelo presidente Wilson dos Estados Unidos, era inviável e, com efeito, a própria Conferência era dispensável.
Entre os temas citados no texto destacam-se a regulamentação das horas de trabalho, recrutamento da mão de obra, garantia de salário digno, proteção contra doenças gerais e provenientes de acidentes de trabalho, proteção às crianças, adolescentes e mulheres, pensões por velhice e invalidez, liberdade sindical e organização do ensino técnico e profissional. Em suma, grande parte das bandeiras levantadas pelo movimento operário nas últimas décadas estava contemplada. Cabe destacar que essas demandas estavam em pauta não apenas nas associações, conferências e encontros internacionais, mas eram objetos de negociações (quase sempre diretas) que estavam em andamento entre sindicatos, patrões e governos de diversas partes do mundo industrializado. Restava ali garantir o funcionamento da recém-nascida Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O Artigo 388º indica as duas bases que compreendem a instituição: a) A Conferências Gerais e b) um Bureau sob a direção do Conselho de Administração.
Nesse ponto, há que se atentar para uma frequente confusão, mesmo em textos acadêmicos, entre a Organização Internacional do Trabalho e o Bureau Internacional do Trabalho. A Constituição da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é a própria Parte XIII do Tratado de Versalhes que, em seu segundo artigo, se divide em uma Conferência com representação de todos os membros e um órgão administrativo permanente chamado Bureau Internacional do Trabalho (BIT). Françoise Thebaud faz referência a essa confusão em certa passagem de seu artigo sobre as mulheres no BIT:
O que dizer sobre a Organização Internacional do Trabalho e seu órgão executivo permanente, o Bureau Internacional do Trabalho (BIT)? Fazendo certa confusão entre essas duas siglas, Maria Vérone, advogada e presidente da Liga Francesa pelos Direitos das Mulheres, escreve em L’Oeuvre, em 1928: O BIT, dirigido por Albert Thomas, conta sempre com mais mulheres que a SDN. Isto se deve, em parte, aos sentimentos feministas do diretor79.
Em outras palavras, o BIT (Bureau International du Travail) é o Secretariado, órgão executivo, da OIT (Organização Internacional do Trabalho) que, por sua vez, estava, inicialmente, submetida à Sociedade das Nações. Certa tentação ao anacronismo também contribui para aumentar a confusão sobre o lugar da OIT, uma vez que a Sociedade das Nações foi inviabilizada pela eclosão da II Guerra Mundial, em 1939 e foi formalmente encerrada em 1946. Além disso, em alguns países de língua oficial portuguesa optou-se por traduzir bureau para "escritório".
A proposta considerada a base de formação de uma organização internacional para as questões do trabalho foi trazida pela delegação inglesa; esta sugeria a criação de um organismo tripartite (presença de governo, empregados e empregadores). Essa proposta teve apoio também de países como França e Itália, que ressaltavam o papel dos governos no funcionamento da OIT e os Estados Unidos da América que deram ênfase aos empregados e aos empregadores. As Conferências estabelecidas pela Parte XIII do Tratado de Versalhes, portanto, seriam constituídas de delegados de todos os países membros, sendo compostas por: 2 delegados indicados pelo governo, 1 representante dos trabalhadores e 1 representante dos patrões. Igualmente haveria a participação de conselheiros técnicos, com direito a voz, mas sem
79 THEBAUD, Françoise. As mulheres no BIT (Bureau Internacional do Trabalho): O Exemplo de
Marguerite Thibert. Revista Gênero. Niterói, v. 6, n. 2 - v. 7, n. 1, p. 25-36, 1 – 2, 2006. [Tradução Suely Gomes Costa e Vera Soares].
direito a voto, bem como, seria obrigatória a presença de uma mulher conselheira quando abordasse questões que interessavam imediatamente ao gênero.
O Bureau Internacional do Trabalho (BIT) é descrito no 392º Artigo. Ficava estabelecido como cargo mais alto da estrutura o de Diretor, sendo esse responsável pela nomeação dos técnicos do BIT, com a recomendação genérica de que deveriam ser contratadas para a estrutura “um certo número de mulheres”, e exercendo funções como organizar e ser Secretário das Conferências,centralizar e distribuir todas as informações relativas à regulamentação internacional da condição dos trabalhadores e regimes de trabalho e, em particular, estudar propostas para serem submetidas à discussão durante as Conferências, com o propósito de virarem Convenções Internacionais, de alcance universal.
O Conselho de Administração, órgão diretivo do BIT, seguia em sua composição a mesma lógica aplicada às delegações, a tripartição da representação entre governos, trabalhadores e patrões. As grandes potências, no entanto, tinham direito de indicar 8 dos 12 representantes dos governos, pois, alegavam que sua “importância industrial é maior”. As demais vagas deveriam ser preenchidas por 6 delegados indicados por trabalhadores e 6 por patrões, totalizando 24 membros. Os mandatos teriam duração de 3 anos. Aqui fica evidente uma questão que permeou os debates nas comissões internas da conferência de paz: o excessivo poder exercido pelas 4 grandes potências vencedoras da guerra.
Para presidir a comissão que elaboraria a Parte XIII do Tratado de Paz, Woodrow Wilson indicou Samuel Gompers, presidente da American Federation of
Labor (AFL). De acordo com Elizabeth McKillen, em importante artigo sobre a atuação
de Gompers na presidência dessa comissão:
Como presidente da comissão da legislação trabalhista internacional durante a conferência de paz, Gompers dirigiu os procedimentos que criaram a OIT e forçou delegados britânicos e europeus a modificarem várias propostas que teriam dado a nova organização amplos poderes para criar a legislação internacional do trabalho. Gompers também teimosamente (embora sem sucesso) se opôs a uma proposta britânica para estabelecer uma estrutura de participação tripartite para a OIT80.
80 MCKILLEN, Elizabeth. Beyond Gompers: The American Federation of Labor, the Creation of the ILO
and US Labor Dissent. ILO Histories. In. VAN DAELE, Jasmien et al. (eds). Essays on the International Labour Organization and Its Impact on the World During the Twentieth Century. Berna: Peter Lang International Academic Publishers, 2010, p. 41.
A indicação de Gompers para a presidência da comissão não gerou incômodos apenas pelas polêmicas travadas, mas também gerou preocupação entre sindicalistas e críticos da esquerda mundial. Em primeiro lugar, porque o mais célebre membro do movimento operário estadunidense era assumidamente antissocialista (já havia frases como “o socialismo nada possui, a não ser a infelicidade para a raça humana”)81 e também porque em diversos momentos da conferência ele mesmo pôs em
dúvida a eficácia de uma organização internacional do trabalho.
No entanto, segundo relato de James Shotwell historiador americano que a certa altura foi convocado por Gompers e Wilson para auxiliar em um subcomitê de trabalhos da conferência Gompers “tinha um profundo interesse pessoal” na aprovação daquela legislação internacional “porque era declaração desses princípios gerais para a qual ele e a American Federation of Labor lutaram”82.
Assim sendo, a rotina da Comissão sobre Legislação Internacional do Trabalho estava longe de ser monótona. Embora poucos projetos globais tenham sido apresentados, havia muitos debates conceituais, teóricos, sobre a internacionalização dos direitos, assim como o recebimento de demandas sindicais e de Estados interessados na questão. Entre as manifestações recebidas pela Comissão destacam-se dois documentos: uma declaração da delegação italiana e uma da AFL.
No primeiro caso, os italianos afirmam contentamento pela comissão fazer valer como objeto questões surgidas nos dois eventos mais importantes para a classe trabalhadora durante a guerra; a Conferência dos Sindicatos dos países da Entente (Conferência de Leeds, em 1916) e a Conferência de Berna. Porém, mais importante que isso é a demanda de que já fossem incluídos no texto do Tratado princípios, por exemplo, sobre a jornada de 8 horas e democratização dos regimes fabris, e não apenas a criação de uma organização. Na missiva encaminhada pela AFL também são afirmados princípios que deveriam constar na Carta do Trabalho, entre eles a liberdade de associação e de assembleia, a garantia de um salário que fosse adequado aos custos
81 GOMPERS, Samuel. Seventy Years of Life and Labor. 2 vols. New York: E. P. Dutton & Company,
1925.
de vida da civilização daquela época e a importância de que fossem garantidas mulheres entre o pessoal do Bureau83.
Na parte final do texto foram incluídos nove itens de princípios gerais, tal como sugerido pela delegação italiana e contempladas as sugestões da AFL, reconhecendo que os princípios não seriam necessariamente definitivos, mas serviriam de guia para a SDN. Os pontos expressos no Artigo 427 são84:
1º O princípio dirigente, acima enunciado, de que o trabalho não deve ser considerado simplesmente como mercadoria ou artigo de comércio.
2º O direito de associação tendente a quaisquer propósitos não contrários às leis, tanto para os salariados como para os patrões. 3º O pagamento, aos trabalhadores, de um salário que lhes assegure condições de vida razoáveis, tais como elas se compreendem no seu tempo e país.
4º A adoção do dia de oito horas ou da semana de quarenta e oito horas como objetivo a atingir em toda a parte onde ainda não foi alcançado.
5º A adoção de um repouso hebdomadário mínimo, de vinte e quatro horas, que deveria compreender o domingo sempre que fosse possível. 6º A supressão do trabalho das crianças e a obrigação de impor ao trabalho da mocidade de ambos os sexos os limites necessários para lhes permitir que continuem sua educação e lhes assegurar o desenvolvimento físico.
7º O princípio da igualdade de salário, sem distinção de sexo, para um trabalho de igual valor.
8º A legislação publicada em cada país a respeito das condições de trabalho deverá assegurar um tratamento econômico equitativo para todos os trabalhadores que residam legalmente no país.
9º Cada Estado deverá organizar um serviço de inspeção, que compreenderá mulheres, a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a proteção dos trabalhadores.
83 Para acessar esses e outros importantes documentos sobre a rotina da Comissão sobre Legislação
Internacional do Trabalho ler publicação editada por Justin Godart logo após a Conferência de Paz. Cf. GODART, Justin. Les clauses du Travail dans le Traité de Versalles (28 Juin 1919). Paris: Dunod Editeur, 1920.
84 CASELLA, Paulo Borba. Tratado de Versalhes na História do Direito Internacional. São Paulo:
Quartier Latin, 2007. A Edição aqui utilizada é uma das poucas traduções do texto integral do Tratado de Versalhes. As raras edições completas do Tratado de Versalhes traduzidas para o português são indício da ainda tímida inserção do tema na historiografia e no debate jurídico brasileiro. Em Portugal há uma tradução completa do Tratado de 1921. A edição portuguesa tem a seguinte referência: PINTO LOUREIRO, José (Resp.). Tratado de Versalhes. Coimbra: Coimbra Editores, 1921. Celecção de Legislação Portuguesa.
Estavam lançadas, portanto, as bases sociais que tinham a dupla função de evitar a proliferação de ideias revolucionárias e garantir a mínima dignidade humana aos trabalhadores, ainda que dentro dos marcos liberais. De tal modo, tanto os princípios supracitados quanto a pauta estabelecida para a primeira Conferência da OIT, realizada em 1919 na cidade de Washington, serviram como inspiração e arma política para as forças sociais (sindicatos, juristas, parlamentares progressistas) que travariam a partir daí uma dura e longa batalha para que tais decisões fossem levadas à prática.
Em texto publicado em 1921, Archibald Chisholm publica um estudo crítico sobre o Tratado de Paz e as cláusulas do trabalho e, mesmo reconhecendo seus limites, aponta o referido documento como modelo para condução das questões sociais no mundo industrial pós-Primeira Guerra:
Algo terá sido feito para realizar o objetivo indicado no primeiro dos princípios gerais, mencionados no Artigo 427 do Tratado de Paz de que ‘o trabalho não há de ser considerado como mercadoria ou artigo de comércio’; mas mais do que isso é necessário85.
Mesmo com efeitos limitados e ressalvas de que as cláusulas do trabalho não seriam aplicáveis imediatamente a todos os países (nem nos países com condições socioeconômicas mais avançadas, tampouco em colônias e protetorados), a Parte XIII incomodou, e muito, os governos e elites dos países participantes da Sociedade das Nações. Por mais moderadas e razoáveis que soassem aquelas garantias mínimas para os trabalhadores muitos industriais viam, por um lado, uma concessão aos sindicatos e organizações operárias e, por outro, o risco de que tais medidas afetassem seus lucros.
O programa de redução de jornadas, salário digno, direito de salário igual para trabalhos iguais entre homens e mulheres, pareciam aspectos de difícil efetivação até para os redatores desses artigos. Segundo Jean-Jacques Becker “esse programa era tão ambicioso quanto difícil era a sua realização mesmo nos países socialmente mais avançados” e para os redatores se “tinha consciência de que, dentro do estado em que o mundo se encontrava, esse programa era irrealizável em qualquer lugar”86.
Cada qual à sua maneira, as classes dominantes elaboravam argumentos para inviabilizar ou ao menos protelar a aplicação das resoluções inscritas na Parte XIII,
85 CHISHOLM, Archibald. Labour's Magna Charta; a critical study of the labour clauses of the Peace
treaty and of the draft conventions and recommendations of the Washington International Labour Conference. New York; Bombai: Longmans, Green and Company, 1921, p.163. (Tradução nossa).
e o principal argumento passou a ser a crítica à intervenção na soberania nacional, uma vez que uma legislação internacional poderia agir de forma discricionária, desrespeitando as regras, tradições e costumes de cada país. Um cronista brasileiro, que fazia a cobertura da participação da delegação brasileira em Paris, deu especial atenção a esse tema e, de pronto, em seus relatos, rebateu esses argumentos:
É evidente que a soberania das nações sofre com esse controle humano! Não podemos deixar de pensar, entretanto, que todas as aspirações se encadeiam em sanções que as referendam. O Bureau pode saber do trabalhador em qualquer país? Há muito tempo o cidadão de uma nacionalidade é acompanhado por ela aonde ele vá! [...] Diante da estupidez das oligarquias conservadoras, a minha revolta era contra a teimosia de não quererem elas entender a necessidade da igualdade humana. Esse projeto é, conservadoramente, apenas de igualdade humana. Nada tem de desorganizador da ordem e dos interesses de quem quer que seja. A novidade é a humanidade87.
O posicionamento de João do Rio88 enfrentou os dois obstáculos interpostos pelas elites, por ele chamadas de “oligarquias conservadoras”, que também iriam ser reproduzidos no Brasil. O primeiro, já citado, de que haveria uma intervenção nas questões nacionais, era apenas uma interpretação seletiva, visto que todo o procedimento estava previsto no acordo firmado entre os integrantes da Sociedade das Nações e havia diversos precedentes de situações parecidas sobre as quais não recaiam críticas. O segundo argumento consistia no teor “comunista”, “socialista” ou “bolchevique” dessas leis, questão ironizada por João do Rio ao tratá-las, ao contrário, como conservadoras. Destarte, a adoção das leis do trabalho era mais uma vacina contra a fúria das massas do que uma injeção de ânimo nas veias revolucionárias. A garantia de direitos para a classe trabalhadora tratava-se tão somente de um gesto de “humanidade”.
No Brasil, reações e argumentos parecidos com os enfrentados por João do Rio em 1919 também figurariam nas discussões sobre a recepção do Tratado de Paz e suas cláusulas do trabalho. Ainda que, assim como o jornalista, especialistas afirmassem que “os conservadores de hoje são aqueles que resolverem o problema que a humanidade proletária exige”89, setores da elite brasileira reproduziam atos de histeria a
cada vez que algum privilégio parecesse ameaçado e qualquer menção a avanços para a
87 RIO, João do. Na Conferência da Paz. 3 v. Rio de Janeiro: Villas Boas, 1919-20, p.87.
88 João do Rio é pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, jornalista,
cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro.
classe trabalhadora era imediatamente interpretada como uma afronta “aos nossos costumes”.