A conta é simples: seu patrão lhe paga 50 reais por hora e cobra do cliente, 250 por hora. Você, ao saber disso, se revolta. Afinal, quem executa o trabalho é você. Ele nem mesmo dá as caras na empresa e ainda leva a fama! Injuriado, decide abrir uma empresa para ganhar sozinho os tais 250 reais por hora. Acontece que depois de três meses de negócio próprio, você se dá conta de que não sabia como empreender e obter lucro. Faltavam-lhe conhecimentos sobre marketing, vendas (são duas coisas distintas), finanças, gestão de pessoas e planejamento. Agora você trabalha mais do que antes, e o pior: não ganha nem os 50 por hora! Você mesmo causou esta mudança em sua vida ao sair da posição de empregado para ser patrão. Mas você não sabia que não pensava como patrão. Não tinha estruturas de reposta adequada para lidar com os problemas que iria enfrentar.
As mudanças na condição de vida levam o indivíduo a criar estruturas de resposta específicas para supera-las. No exemplo acima, quem não cria estas estruturas de resposta acabará voltando a trabalhar como empregado. Por outro lado, quem cria esta estrutura de resposta dá a volta por cima. Quem nunca ouviu falar do desempregado que, por falta de uma oportunidade de emprego, criou um negócio com pouco investimento e muito trabalho empreendendo ‗por necessidade‘?
Esta necessidade surgiu de uma mudança significativa na condição de vida do sujeito, uma vez que sua estrutura de reposta anterior (trabalhar como empregado) já não cooperava para que ele
mantivesse sua vida em harmonia. Anos depois, este mesmo indivíduo tornou-se um empresário bem sucedido, graças à mudança de pensamento que os anos de trabalho por conta própria lhe proporcionaram.
No Brasil, existem milhares de histórias de sucesso que começaram assim: de uma aparente tragédia pessoal ou familiar (uma mudança na condição de vida), surge uma nova maneira de pensar e agir (desenvolvimento intelectual do potencial empreendedor) dando um salto para um novo nível de consciência, ocasionando a criação de novas estruturas de resposta para as mudanças que a vida trouxe, assim como o caso de Viviane Senna, irmã do falecido piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna, tricampeão mundial. Pouco antes da sua morte, ele confessou à irmã seu desejo de criar uma fundação para ajudar pessoas carentes. Após o acidente fatal do irmão, ela aproveitou esta mudança na condição de vida e fundou o Instituto Ayrton Senna. É sobre o despertar deste pensamento empreendedor que falaremos neste capítulo.
Não estou dizendo que é necessário um acidental fatal em sua família para que este espírito empreendedor se desenvolva em você. Uma mudança desta ordem é de fato um grande desafio para qualquer pessoa. O ponto aqui é que, não é necessário que você procure pelas mudanças. Elas vem ao seu encontro. Neste século, a única certeza que podemos ter é que a mudança é a única coisa estável. Por isso, uma vez que o mercado globalizado traz as mudanças, é preciso estar psicologicamente preparado para elas. Livros como este o ajudarão a preparar a mente para pensar e agir como empreendedor quando a necessidade de mudança surgir.
Novos pensamentos para novos problemas
O Dr. Clare W. Graves, ao desenvolver o modelo gravesiano, que mais tarde ficou conhecido como Espiral Dinâmica, concluiu que a “personalidade adulta psicologicamente saudável depende de dois fatores fundamentais: primeiro, a disposição de se auto sacrificar pelo bem estar geral e, segundo, a capacidade de se auto expressar perante os outros” (Ribeiro, 2007, p. 9).
Há uma oscilação natural entre estes dois polos, ou seja, constantemente vamos da auto expressão para o auto sacrifício e vice-e-versa, o que tem um impacto direto na maneira como decidimos as coisas . Para tomar uma decisão simples, como por exemplo, que roupa usar em determinado evento, pensamos ora no que queremos e como vamos nos sentir (auto expressão), e no mesmo instante em como nossa aparência será percebida pelos outros (auto sacrifício). O mesmo acontece com decisões complexas como sair de um emprego para empreender, ou decidir empreender o emprego que têm. Pensamos constantemente naquilo que queremos e no que ‗devemos‘ fazer em conexão com a opinião dos outros. Daí surge uma pergunta: o que determina quando é psicologicamente saudável pensar mais nos outros do que em nós mesmos?
Roberto é um empreendedor de sucesso. Sempre manteve o bom humor e faz questão de atender pessoalmente quem entra em sua loja, tanto clientes, como fornecedores. Naquela manhã, ele passou todo o período na área de vendas e já perto da hora do almoço, atendeu a um casal que queria comprar um refrigerador. Insistiram em um desconto de 40 por cento! Mesmo sabendo que tomaria prejuízo naquela negociação, Roberto aceitou a perda momentânea visando obter a recompensa de conquistar o casal-cliente em longo prazo. Um auto sacrifício justificado. Logo depois de concretizar esta venda, ele subiu para o escritório onde recebera um fornecedor. Lá, na posição de comprador, o mesmo Roberto atencioso e generoso cedeu lugar para uma postura mais arrogante e disposta a fazer valer a sua opinião auto expressiva. Doa a quem doer...
Em sua opinião, o que aconteceu para que Roberto mudasse de personalidade tão rapidamente? Um paradoxo empresarial, ou simplesmente a manifestação de uma personalidade adulta psicologicamente saudável, que se adapta rapidamente às mudanças no ambiente e responde à altura das novas condições de vida para sobreviver à complexidade da vida empresarial?