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CAPÍTULO 1. Possibilidades e determinações abrangentes do conceito do desenvolvimento

1.9 O pensamento neoliberal e as políticas de ajuste

Após o auge do pensamento cepalino, outra corrente econômica voltada às questões do desenvolvimento toma força, inclusive em países da América Latina, não obstante tenha sido contrária às idéias da CEPAL. Deixando de lado eventuais preocupações sociais apresentadas

pelos desenvolvimentistas até então propostos, surge nos Estados Unidos e na Inglaterra o pensamento econômico neoliberal, que se fundamenta em três bases principais: i) nos economistas seguidores do pensamento de Milton Friedman, da Escola de Chicago e do Instituto de Assuntos Econômicos da Inglaterra, que defendiam que problemas macroeconômicos causavam o subdesenvolvimento, tais como a alta taxa de inflação e o endividamento externo; esses problemas, por sua vez, são causados pelos gastos excessivos do governo e pela não contenção do lastro monetário; ii) a partir do entendimento dos “novos liberais clássicos” ou neoliberais, qualquer modelo de desenvolvimento que se voltasse às preocupações sociais ou se aproximasse das idéias de Keynes deveria se completamente ignorado, prevalecendo os princípios puristas de Smith e Ricardo; e finalmente iii) nas idéias políticas conservadoras e de centro-direita de glorificação do laissez faire e do individualismo, propagado por Ayn Rand e por organizações tradicionais como a American Heritage Foundation (PEET, 1999, p. 49).

A política neoliberal é mais conhecida pelas idéias de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, e não foi exatamente bem sucedida. O modelo econômico neoliberal, encampado pelo Consenso de Washington, não resultou em ganho algum para os países em desenvolvimento, e chegou mesmo a afetar seriamente a economia dos países desenvolvidos, sendo a crise de desemprego na Inglaterra de Thatcher um de seus piores reflexos.

A teoria desenvolvimentista na década de 1980, capitaneada pelas instituições de Bretton-Woods, notadamente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), foi profundamente influenciada pelas idéias neoliberais. A política de ajustes imposta pelas duas instituições aos países em desenvolvimento estava intimamente ligada às recomendações dos teóricos neoliberais, notadamente John Williamson, economista do Instituto de Economia Internacional de Washington, responsável pelo delineamento do Consenso de Washington. Os ajustes nas economias dos países em desenvolvimento deveriam ser feitos a partir de alguns pontos principais, como uma feroz política de privatizações, disciplina e reforma fiscal, abertura ampla aos investimentos estrangeiros, liberalização de mercado e redução de barreiras, ausência de políticas de proteção às indústrias nacionais, proteção dos direitos de propriedade e baixas taxas de câmbio. A idéia central do Consenso de Washington era de prudência macroeconômica, aliada ao capitalismo de mercado a partir da orientação externa. A política de desenvolvimento consistia em retirar qualquer intervenção do governo em favor da racionalização da economia, a partir do disciplinamento do mercado e da crença nas escolhas prudentes na alocação de recursos externos (PEET, 1999, p. 52).

Tanto Banco Mundial como FMI não levaram em consideração, na formulação desse modelo, diferenças sociais e culturais, assombrosos níveis de corrupção, instituições decadentes e fragilidade social que levaram o modelo ao colapso. Ou pior, levaram os países que seguiram o modelo ao colapso. A Argentina é o mais significativo exemplo da mal fadada política de ajustes do Consenso de Washington. Muitos países não tinham infra-estrutura institucional para seguir o modelo proposto, e mais uma vez o desenvolvimento, mesmo o crescimento econômico, se torna uma promessa não cumprida. Os países em desenvolvimento não contavam com uma rede institucional e social segura e necessária para a concretização dos objetivos propostos, e os piores efeitos foram sentidos justamente nas camadas mais pobres da sociedade. O modelo não levou em consideração questões sociais fundamentais junto ao processo de desenvolvimento, e sacrificou algumas políticas sociais internas que poderiam ter rendido resultados mais satisfatórios aos países em desenvolvimento.

A política neoliberal de ajustes se torna, ao final da década de 90, sujeita a modificações, em razão de seu redundante fracasso. A preocupação com questões sociais nas políticas e modelos de desenvolvimento propostos pelo Banco Mundial volta a ser pauta na agenda das reuniões da instituição, e uma revisão do modelo neoliberal começa pelo reconhecimento da necessidade de uma parcela de intervenção do Estado na atividade econômica, bem como pela necessidade da boa governança, explicitada pelo pluralismo político e promoção da democracia, responsabilização (accountability) e pela necessidade de um sistema legal eficiente e obediência às normas legais.

Os relatórios anuais do Banco Mundial passam a ter a redução da pobreza e da igualdade como temas centrais, e as condições de empréstimo agora se voltam para a formulação de programas e políticas que incentivem a promoção do emprego e aproveitamento da mão-de-obra, além da promoção de necessidades básicas finalmente entendidas como vitais ao processo de desenvolvimento, como saúde e educação. O Banco Mundial passa a ter um papel tão significativo na promoção do desenvolvimento que se chega a dizer que está para o desenvolvimento assim como o papa está para o catolicismo, inclusive com encíclicas (PEET, 1999, p. 57)24.

Apresentar a evolução da idéia de desenvolvimento ao longo de algumas escolas econômicas é essencial para que se perceba como este conceito varia até que se chegue a um entendimento moderno sobre o que é desenvolvimento. Desta forma, o objetivo deste capítulo

24 “The bank is to economic development theology what the Papacy is to Catholicism, complete with early

era o de algumas compreensões sobre o que é desenvolvimento e esclarecer que o conceito que se tem hoje ainda não é determinado e conciso. Em sendo desenvolvimento considerado, para fins desta pesquisa, um processo econômico, social e cultural, que tem como sujeito central o indivíduo, a perspectiva de Adam Smith se mostra a mais diretamente identificada com a de Amartya Sen, que no século XX associa a idéia de desenvolvimento à liberdade e à capacitação, resgatando valores desenhados séculos antes por Adam Smith.

Por mais importantes que sejam as outras escolas econômicas, é no Liberalismo Clássico, representado pelo pensador escocês, que se fundamentam as idéias de Amartya Sen. Com efeito, é a liberdade e a capacidade de trabalho que desencadeia todo o processo de desenvolvimento. Desde o exemplo da fabricação de alfinetes, até as últimas linhas de “A riqueza das nações”, por várias vezes Adam Smith ressalta o valor essencial do trabalho na geração de renda, distribuição de riqueza e promoção do bem-estar coletivo. Não há como se conceber uma nação desenvolvida se não há garantias de capacitação e trabalho para a população. O bem-estar coletivo é promovido não só pelo trabalho, mas também pela busca da satisfação do interesse individual, sendo evidente que há limites para a satisfação dos interesses individuais e coletivos, e esses limites são principalmente decorrentes da ética que permeia toda a sociedade e da garantia dos direitos dos indivíduos.

A ética é ponto de destaque na teoria econômica-política e desenvolvimentista de Smith. A corrupção e a má conduta devem ser punidas, e a ética e obediência à lei e ao direito, incentivadas. A sociedade de Smith é a sociedade racional, e cada homem decide por si só mas a partir do uso de sua razão. É a razão que determina seus atos, e é por ela que se deve seguir. Quando as condutas pessoais se afastam da ética, se corrompe o modelo racional elaborado pelo pensador iluminista. Há uma inquietação de Smith com relação aos comportamentos injustos ou amorais. Esses comportamentos comprometem todo o bem-estar social, e devem ser rechaçados. Daí sua preocupação com a construção de um eficiente sistema judiciário e de governo, que devem estar prontos para promover a segurança dos indivíduos e para garantir o bom funcionamento de instituições que promovam o desenvolvimento da sociedade.

Ao estabelecer que a sociedade de mercado é autônoma, e carece de regulamentação coercitiva e limitadora, Smith não insufla a desordem ou a submissão dos mais fracos aos mais fortes. Ao contrário, deposita tamanha crença no comportamento humano a ponto de afirmar que os homens, por si sós, são capazes de estabelecer mecanismos de funcionamento da sociedade, mas sempre pautados por uma conduta ética. Não há lugar para a competição

devem ser desestimulados e punidos. Não há espaço para a supremacia de interesses particulares se estes são contrários às regras gerais; também não há lugar para a corrupção e agentes estatais corruptíveis.

É a mão-de-obra eficiente que gera riqueza, e os indivíduos buscam melhores condições de vida a partir do valor de seu trabalho. O que Smith identifica como egoísmo ou auto-interesse não pode ser percebido a partir do sentido perverso da palavra. O egoísmo é o que move o indivíduo na busca pela satisfação do seu interesse, e nessa busca, os interesses de outros acabam também sendo satisfeitos; a interação entre a sociedade se dá a partir dessa busca em conjunto, responsável por transformações históricas essenciais, como o declínio do poder feudal e a multiplicação de atividades econômicas.

As atividades econômicas e sociais não prescindem do Estado, como sugerem algumas leituras de Adam Smith; o autor está longe de ser um negador da atividade estatal, até mesmo porque a economia precisa do Estado. O que Smith considera é a independência social e econômica tão-somente porque os homens são perfeitamente racionais e guiam seus comportamentos por um modelo ético fundamentado no respeito ao direito alheio, à propriedade, aos interesses de outrem. Em vez de descartar o Estado, Smith lhe reserva tarefas essenciais, como a promoção da defesa e segurança, e trata como indispensáveis instituições públicas que promoveriam o bem-estar da coletividade, como as de educação.

Os mecanismos de boa governança pública são necessários. O que Smith afasta é um Estado centralizador, interventor e ditador de condutas, porque disso a sociedade de mercado realmente prescinde; aliás, ambos não coexistem. Se não há garantias de liberdade e se não há um eficiente sistema político e administrativo, dificilmente a sociedade alcançará níveis de desenvolvimento razoáveis.

A justiça é outro pilar capital na percepção de sociedade desenvolvida de Adam Smith. Assim como um eficiente sistema político-administrativo e necessário, um sistema legal equilibrado, não suscetível às interferências externas, principalmente do Poder Executivo, é essencial para a garantia e promoção do desenvolvimento. A justiça é acima de tudo uma virtude, e deve ser cultivada pelos indivíduos formadores da sociedade; há, na teoria de Smith, necessidade de enraizamento de um senso de justiça comum que seja capaz de condenar, tanto pelos indivíduos, como pelo Estado, condutas contrárias às leis bem como se faz necessária a eficiência no sistema punitivo.

O que é mais interessante nas análises que Smith faz da justiça e do Direito é justamente a sua idéia de construção de um arcabouço legal comum às várias ordens estatais que seja fundamentado em princípios gerais, que ordenariam as mais diversas ordens jurídicas

e sistemas de direito positivo. Esse sistema é evidentemente baseado na teoria jurídica do Iluminismo, e é formado por valores universais que dariam unidade ao sistema como um todo.

A sociedade de mercado prescrita por Adam Smith garantiria a opulência da nação, é fato. Mas muitos conceitos tangentes precisam ser trabalhados e implementados para que essa sociedade promova o bem-estar comum a partir da divisão do trabalho e do comércio. Uma coesa organização da sociedade civil, instituições públicas sólidas e confiáveis, um Estado forte, mas não autoritário ou centralizador, garantidor de direitos individuais e de participação social, um eficiente e independente sistema judiciário e uma forte base ética comportamental seriam as condições mínimas para o que se pode conceber como desenvolvimento para Adam Smith.

Com a leitura dos textos de Amartya Sen, percebe-se que é nítida a influência das idéias de Smith sobre o economista indiano; o que se tem de mais distinto entre as percepções do que é desenvolvimento para os dois teóricos é um grande destaque dado à democracia e aos direitos de participação política que Sen estende à sociedade, o que não foi destacado por Smith. Mas assim como não se percebe um conceito determinado de desenvolvimento para Sen, o mesmo não acontece com Smith. Não há uma definição do que seja desenvolvimento, mas uma proposta de como tal objetivo pode ser alcançado, ou que condições são necessárias para que isto aconteça.

Desta forma, passa-se de um teórico a outro, ressaltando que nem para Smith, nem para Amartya Sen desenvolvimento é um conceito único e determinado, mas um conjunto de condições e variáveis, e que ambos os estudiosos não encaram projetos de desenvolvimento como simples sugestão de crescimento econômico ou acumulação de renda e riqueza.

CAPÍTULO 2. Desenvolvimento como liberdade a partir da supressão de privações

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