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Iniciamos nossa investigação com esta temática, por entendermos que o planejamento é um instrumento que possibilita organizar o trabalho escolar, viabiliza a melhoria da qualidade na escola e que diante da complexidade da educação, planejar se faz necessário (LÜCK, 2009). É um método que permite organizar o trabalho de enfrentamento e os desafios da educação.

Os sujeitos entrevistados das escolas de maior IDEPE compreendem o planejamento educacional como instrumento que vai nortear as ações dos agentes responsáveis pelo processo de ensino aprendizagem e o alcance dos objetivos desejados para a unidade escolar: “Bom, planejamento é prever. É estar à frente das ações que você pretende realizar” (CA – Escola A). “Planejar é importante né. A partir do planejamento é que a gente vai basear as nossas ações. Sem planejar fica difícil nortear o dia a dia” (CB – Escola B). E a essa função é atribuída a importância do planejamento educacional.

A flexibilidade, o que Lück (2009) caracteriza e que torna o planejamento como instrumento dinâmico do trabalho escolar, é apontada pelas entrevistadas da Escola A como característica relevante para o planejamento:

Todo planejamento ele é, nós sabemos disso, aprendemos isso lá atrás, ainda no magistério, que ele é flexível e o da escola

não deixa de ser, de ter essa flexibilidade, de ter alterações ao longo do ano letivo (GA – Escola A).

A entrevistada CA atribui a flexibilidade ao tempo pensado para se realizar uma atividade:

Tem planejamento que dá para a gente cumprir tal qual, normalmente os planejamentos mais curtos. Eles dão essa possibilidade de a gente fazer esse planejamento e realizá-lo tal qual ele está ali, porque como é curto o prazo, são poucas interferências. Quando ele é a longo prazo, aí normalmente essas interferências e a necessidade de parar, para reavaliar, para redirecionar vai aparecendo (CA – Escola A).

Mas, sabemos que existem outros vários fatores que podem influenciar no momento de uma aula, mesmo que o tempo seja curto. Esta entrevistada concebe o planejamento como aquele que determina as ações a serem realizadas e não como guia e orientador:

Então, no planejamento a gente tem a oportunidade de, principalmente coletivamente, embora tenha o pessoal né, mas principalmente coletivamente, de determinar naquele espaço de tempo que você se propõe a trabalhar, o que de fato você propõe, o recorte né, o que você vai fazer, o que você se propõe a trabalhar, o tempo necessário, os recursos, enfim (CA – Escola A).

Enxergar o planejamento como aquele que determina ações, ou seja, colocarmos no planejamento atividades engessadas, que não podem ser modificadas ao longo dos acontecimentos, apresenta um caráter ultrapassado do planejamento, que conforme Lück (2009), evoluiu para a flexibilidade, e, de acordo com as necessidades que forem se manifestando, sofre alterações e as atividades pensadas podem até ser substituídas.

Os entrevistados das escolas de menor de IDEPE também compreendem o planejamento como a organização das atividades escolares, mais do que isso, de ações que possam intervir na melhoria da escola como um todo desde a infraestrutura a ações que promovam a formação continuada de professores:

É você pegar todas as tarefas, todas as ações e tudo que você pode investir, tanto em infraestrutura como em cursos de extensão para os professores e também obter deles os seus planejamentos de acordo com as épocas sazonais da escola, de acordo com as épocas do ano (GC – Escola C).

Assim como CA, GC pensa no planejamento de acordo com o tempo, levando em consideração o calendário escolar, para a cada bimestre revisitar o planejamento e fazer a avaliação:

[...] é ter do primeiro ao centésimo dia, todos os dias do ano letivo, a gente pegar do começo, meio e fim, observando os períodos bimestrais, porque a gente vai fazendo a elaborações dos planos de acordo com nosso planejamento e de acordo também com a nossa legislação escolar para que a cada bimestre a gente faça avaliação (GC – Escola C).

Os entrevistados da Escola D apresentam as suas concepções de planejamento também reconhecendo a importância do mesmo para a atividade educacional e como um instrumento que traça objetivos: “Tem como objetivo sinalizar as ações necessárias para o bom ensino aprendizagem dos estudantes” (GD – Escola D); “Avaliar e precisar a natureza, as propriedades e os atributos desejados” (CD - Escola D).

GD já nos aponta a preocupação com a qualidade nas atividades da unidade escolar quando afirma que o planejamento, chamado por ela de Plano de Trabalho, é elaborado para “[...] desenvolver as ações diferenciadas, através das diversas atividades educacionais na busca de alcançar os melhores objetivos na unidade escolar” (GD – Escola D).

As gestoras das Escolas A e B, nesta questão de concepção, já sinalizam em suas falas a forte influência dos resultados do IDEPE, das avaliações em larga escala e das metas pré-estabelecidas na construção do planejamento de suas escolas: “[...] hoje trabalhamos muito em cima de metas que são dadas pelo Governo do Estado através do SAEPE que é a avaliação para saber como a escola está em relação a proficiência” (GA – Escola A). “Você organizar o dia-a-dia da escola, você organizar estratégias, metas, aquilo que você quer conseguir naquela semana, naquele mês, depois de analisar dados” (GB – Escola B).

Entendemos que o planejamento é inseparável da gestão escolar, portanto, essencial, pois é o que envolve a gestão e suas demandas de forma articulada. De tal modo, Lück (2009) afirma que é impossível promover os vários desdobramentos da gestão escolar sem o planejamento. De modo que os fatores e atores que participam da elaboração do planejamento sinalizam sobre qual a forma dessa gestão e sobre como concebem a qualidade.

Para as entrevistadas da Escola A, a dimensão pedagógica é muito importante, ela deve ser o foco principal do planejamento da gestão. Entretanto, a fala de GA nos mostra que o planejamento é reduzido ou confundido com o calendário escolar. Aproxima o planejamento a uma programação que depende do calendário escolar, o qual entendemos ser esse, um dos elementos que compõe a construção do planejamento: “O planejamento da gestão ele vai se dando por etapas de acordo com as demandas que vão chegando da secretaria de educação” (GA – Escola A).

E detalha:

[...] a gente se programa, se faz um calendário letivo, se faz dentro deste calendário atividades que vão ocorrer ao longo do ano, mas também ele é muito cheio de intervenções, porque as demandas que chegam tanto da secretaria de educação dentro do Programa de Educação Integral, como da nossa regional de educação Metro Norte, as demandas são inúmeras, então para se fazer atendimento a essas demandas a gente sofre aí nesse planejamento muitas intervenções ao longo do ano inteiro (GA – Escola A).

Podemos então perceber que, ainda que a escola tenha atividades pensadas a partir das necessidades do cotidiano, a gestão escolar precisa priorizar as demandas e metas que vem da SEE/PE e da GRE, desenvolvidas a partir dos resultados do IDEPE. No entanto, mesmo diante desse conflito a entrevistada afirma que o planejamento tem como principal foco a dimensão pedagógica: “o foco que nós temos é no pedagógico” (GA – Escola A).

Os sujeitos da Escola A afirmam que quem participa da elaboração do planejamento da gestão é a equipe gestora: “Quem participa somos eu, gestora; a coordenadora pedagógica, a secretária e analista em gestão educacional” (GA – Escola A), “A gente tem um gestor, educador de apoio, analista, secretária” (CA – Escola A).

No entanto, CA demonstra que é um planejamento feito de forma compartimentada, cada um elabora de acordo com sua função e sua prática de trabalho, como aponta a fala abaixo:

Porque, na verdade, ele já tem, vamos dizer, demandas que são pré-determinadas para que cada ator, no caso, esses que eu falei, venham desempenhar ao longo do ano [...]se você chegasse para olhar do alto de novo do prédio, você ia ver que tem esse planejamento maior, que é justamente das ações que cabe a cada ator, as ações que são pertinentes ao gestor,

coordenador e se complementam, mas que precisam ter sua especificidade (CA – Escola A).

Do mesmo modo que na Escola A, o planejamento da gestão realizado pela Escola B, é elaborado pela equipe gestora. “A equipe gestora. Junto com os professores também. Não tomo decisão sozinha sabe! Minhas decisões são todas coletivas” (GB – Escola B).

Se couber só a equipe gestora, realizamos só com a equipe gestora. Se precisar de um aval a mais, aí a gente junta a equipe todinha com os professores e a gente colhe depoimento de cada um e opinião para a gente se fortalecer e tomar aquela decisão em conjunto. (CB – Escola B).

Também confundem o planejamento da gestão com reuniões semanais: “Toda quarta-feira nas aulas atividades a gente planeja junto. Eu como coordenadora e os professores conversamos, debatemos alguns assuntos coletivos” (CB – Escola B).

Nas escolas de menor IDEPE, os entrevistados da Escola C, assim como CA da escola de maior IDEPE, compreendem o planejamento da gestão como a delegação de tarefas que cada membro da equipe gestora é responsável:

E aí a delegação de tarefas acontece justamente nessas reuniões, onde cada educador de apoio vai ser responsável por um turno [...] Aí gestor, educador de apoio e chefe de secretaria vão no meio das suas atribuições, fazer parte do pedagógico e do administrativo (GC – Escola C).

CC fala da importância de se observar os vários fatores que estão envolvidos no processo educacional, sobretudo da importância de incluir todos os sujeitos desse processo:

O Planejamento da Gestão deve envolver os demais componentes da escola. Deve ser elaborado a partir da diagnose realizada, ou seja, levantamento das necessidades, prioridades, expectativas de quem participa do processo educacional (CC– Escola C).

Sobre quem participa da elaboração do planejamento da gestão, os entrevistados da Escola D afirmam que este é elaborado “De forma coletiva com equipe gestora e professores” (GD – Escola D), “Gestor, educador de apoio, secretaria e analista de gestão” (CD – Escola D). Os entrevistados da Escola D de forma bastante objetiva disseram que a elaboração do

planejamento da gestão é feita: “De forma coletiva com equipe gestora e professores” (GD – Escola D), conforme CD a equipe gestora é “Gestor, educador de apoio, secretaria e analista de gestão” (CD – Escola D).

Dependendo de quais aspectos são importantes e são considerados na elaboração do planejamento, podemos perceber qual o paradigma de qualidade da educação a gestão se caracteriza. GC apresenta como importantes o setor financeiro, a estrutura da escola e pensar nas pessoas que irão participar da formulação do planejamento, no entanto, sua preocupação é em separar, selecionar as pessoas que devem participar ou não, mas não estabelece quais os critérios para estar apto:

Os aspectos mais importantes são as condições, primeiro você tem pessoal, humano né, as pessoas que vão participar, você tem que saber quem pode, quem está apto, você tem que se preocupar muito com o financeiro, por que sem o financeiro nada anda e em terceiro com a estrutura em que o seu plano vai funcionar. Então são esses aspectos que são importantes para que qualquer coisa dê certo dentro de uma unidade (GC – Escola C).

Podemos então nos questionar quanto a característica desse planejamento e até que ponto ele é participativo, uma vez que indica que nem todos podem participar das decisões da escola, pois o planejamento também é um instrumento que expressa as decisões que são tomadas pela mesma. O destaque ao setor financeiro como elemento importante para formulação do planejamento, é uma característica de um planejamento de caráter muito mais estratégico do que participativo e pedagógico. O sujeito não destacou elementos pedagógicos. Nesse mesmo sentindo, seguem os outros entrevistados: “Objetivos, ações estratégicas, cronograma, recursos e avaliação” (CC – Escola C), “A análise dos resultados do ano anterior para elaboração do plano de ação” (GD – Escola D).

Quanto as escolas de maior IDEPE, sobre os elementos importantes para formular o planejamento, não diferem muito das Escolas de menor IDEPE, visto que também dão destaque aos setores, financeiro, administrativo e pedagógico: “Como eu te disse que atende a várias dimensões, mas a que mais preocupa é a dimensão pedagógica, porque é o nosso foco maior, o nosso foco maior está no aluno” (GA – Escola A). “Pedagógico, primeiro lugar né?! Tudo é em cima do pedagógico. O financeiro, que a gente tem que estar,

que eu acho que é a parte mais complicada para você mexer, você tem que se isolar para você mexer com o dinheiro” (GB – Escola B).

Mas as entrevistadas das escolas de maior IDEPE destacaram a preocupação com as demandas e metas já preestabelecidas pela SEE como aspecto importante na formulação do planejamento, aspecto esse não destacado pelas escolas de menor IDEPE. Nesse sentido, GB afirma: “Prestação de conta, prazo apertado para você enviar né. E eu acho que são esses segmentos aí” (GB – Escola B). E GA, também declara de forma mais detalhada:

Tipo, nós temos um monitoramento pela Regional de Educação e temos um monitoramento pelo Programa de Educação Integral em todos os bimestres, findo os bimestres nós temos que mandar essa planilha dizendo onde o aluno está bem e onde o aluno não está, tanto para um órgão como para outro. Então é a partir daí que começa a se fomentar as intervenções (GA – Escola A).

Como a discussão deste trabalho se situa em torno do que os gestores escolares da rede estadual de Pernambuco compreendem por qualidade da educação, e considerando que o estado tem um sistema de avaliação da educação semelhante ao nacional, apresentando uma qualidade da educação traduzida por números, os sujeitos entrevistados tanto das escolas de maior IDEPE como das de menor não nos surpreenderam ao afirmar que organizam suas ações e o processo de ensino aprendizagem das suas escolas com base nesses indicadores.

Eles tomam como base a nota das escolas, a veem como retrato e diagnóstico das mesmas. As falas dos entrevistados nos revelam que mesmo eles sabendo das várias dimensões, fatores e conhecimentos que agem, influenciam e são importantes na rotina de uma escola, o objetivo maior da escola é melhorar, aumentar e alcançar uma média. Nesse sentido, GA afirma “Isso aí é o foco maior. Nós focamos naquela média que nos foi conferida naquele ano e a partir desta média ela diz a situação em que a escola se encontra” (GA – Escola A). “Porque a gente trabalha em cima daquilo. Nós pegamos aquele índice lá, o termo de compromisso que você assina” (GB – Escola B).

CA relata que logo no início desse modelo de gestão e de avaliação da educação houve uma certa rejeição por parte dos professores, e inclusive protestos:

a princípio, a questão da meritocracia, essa palavra que eu não consigo falar direito, ela estava sendo muito debatida no âmbito educacional entre os professores e estava sendo muito banalizada, de uma certa maneira e, por outro lado, estava sendo muito combatida. Então politicamente, as duas propostas de medida, começaram a ser questionadas também pelos professores. Então isso fazia com que eles também não se interessassem em se apropriar disso. Mesmo iniciando esse processo de formação. Então os professores iam e discutiam muito abertamente, discutia muito mais essa questão: “não, não está certo, porque educação não é assim e tarará”, até conseguir compreender qual a finalidade, vamos dizer assim, de ter esse parâmetro, porque esses indicadores são parâmetros de principalmente de qualidade, para buscar principalmente a melhora. Principalmente isso. Até o próprio docente começar a perceber isso e relaxar, facilitar, deixar aquele entendimento entrar. Porque quando a gente não quer, a gente fecha a porta e você pode falar e mostrar e dizer que vai ser bom e não entra. Então para o professor se abrir para essa ideia, foi necessário um certo tempo (CA – Escola A).

Percebemos com este relato que CA concebe os indicadores Ideb e IDEPE como parâmetros de qualidade e que de fato eles podem possibilitar a melhoria da escola, mesmo os professores sinalizando para os riscos desse formato. A meritocracia, em relação ao trabalho docente, bonifica o professor pelos seus bons resultados, porém essa bonificação nos salários dos professores de forma individualizada pode encorajar a competição e colocar em riscos atividades que poderiam ser desenvolvidas coletivamente.

Segundo a entrevistada, com o passar do tempo, os professores passaram a aceitar, entender, e agora concordar com esse processo. Ficamos com as seguintes questões: qual o real motivo pelo qual deixaram de discutir esse modelo? Foi realmente por causa das formações e a compreensão da dinâmica de funcionamento ou pela sedução do bônus, pelo status em ser o melhor ou fazer parte da melhor escola?

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