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O PLANEJAMENTO NA ESCOLA: QUE ESPAÇO É ESTE?

No documento Bloco alfabetizador (páginas 83-88)

3 COMO ATUAM OS GESTORES QUANTO AO PLANEJAMENTO,

3.1 O PLANEJAMENTO NA ESCOLA: QUE ESPAÇO É ESTE?

Os momentos empregados na escola ao planejamento concentram-se, em sua maioria, no início do ano letivo, salvo para duas das escolas pesquisadas, que, segundo os gestores, afirmaram ser esta atividade trimestral ou semestral, sendo que esta periodicidade não parece corresponder às necessidades:

É semestral. É semestral. A cada semestre, conforme a determinação da GERED. Até por espaço de tempo, né [sic] [...] que, e, [sic] a gente não tem aquele espaço especial [...] ah, cada vez, uma vez por mês, ou coisa parecida. (Mateus, Escola A)

Quando indagados sobre o planejamento para o Bloco Alfabetizador, os diretores informavam sobre a periodicidade do planejamento anual, apontado a prática presente no planejamento de aulas do professor.

Eu acho que alfabetizar não é só do 1º, no 2º e no 3º, né?! [sic] Ele continua indo

sempre. Mas, como é que a gente lida se [...] Fulana, a luz? (Rita, diretora da Escola F)

Na verdade, assim, ó [sic], a gente faz o planejamento no começo do ano, né [sic], todos juntos. Mais ou menos define como vai, né [sic], trabalhar alguma coisa, às vezes, por temas, às vezes, algum projeto e, depois, a maior parte do planejamento, assim, é mais cada professor. (Professora, Escola F)

Alguns demonstraram não ter muita clareza de como e quando é realizado, enquanto outros indicam que a organização seguida é proposta pelo Estado (secretaria municipal de educação ou GERED, quando a escola é estadual).

Eu acredito que, a partir de momento que eles tenham, né [sic] [...] é [...] o [...] o [sic] Plano de Curso [...] seria isso? Tá [sic] [...] eles tão [sic] [...] volta e meia eles tão [sic], se unindo pra [sic] quê? Pra [sic] tentar fazer o melhor pra [sic] pôr em prática.

(Rosa, Escola B)

Tá [sic], vem já o [...] a secretaria municipal, né [sic], ela reúne os professores, ela passa o plano de curso, né [sic], já [...] No início do ano. O que deve ser trabalhado nestas séries com alfabetização, né [sic]. (Jadna, Escola C)

A existência do momento programado para o planejamento anual nas escolas é confirmado por parte dos especialistas (orientadores e supervisores), já que, para alguns deles, os orientadores da Escola A, o assunto não lhes diz respeito:

Nessa parte de planejamento eu não participo, porque nós temos outra pessoa responsável. Que eu fico mais na parte de aluno. (Maria, Escola A)

É nítida a percepção de que o trabalho na escola é dividido, com cada um fazendo uma parte sem a articulação da equipe, o que pode explicar o escasso conhecimento sobre o planejamento e denunciar a falta de interação entre essas partes. A gestora expressa que a criança é considerada como uma parte que pode ser acompanhada pelo profissional que desconheça outros processos na escola (“Que eu fico mais na parte de aluno.”) É de se indagar: Para desenvolver seu trabalho voltado às crianças o que este profissional entende por atuar na parte de aluno? Para que serve? Não é subsídio para o planejamento? Da mesma forma, o que é planejado, projetado para o trabalho em sala de aula não interfere na caminhada dessa criança e, portanto, merece ser do conhecimento de outros profissionais?

A orientadora da Escola B confirma a ocorrência do planejamento anual, informando sobre a nova tentativa de organização deste trabalho em sua unidade escolar desde o início do ano.

de ano, mas, nós estamos fazendo paradas, bem dizer [sic] quinzenais, ou mensais, mas, provavelmente, quinzenais, pra [sic] esses professores poderem se encontrar. (Rosana, Escola B)

Tanto a Escola B quanto a Escola D, segundo os especialistas, vêm tentando realizar momentos de planejamento ao longo do ano. Embora com especificidades para cada unidade escolar, demonstram que são espaços onde os professores podem se articular em relação ao que estão trabalhando em cada turma.

Ao descrever a dinâmica do encontro para o planejamento, no início do ano, a orientadora da Escola D esclarece sobre a dinâmica deste momento, destacando a preocupação pela organização curricular no que se refere à sequência dos conteúdos.

Não, a gente [...] de início, né [sic], da [...] da [...] do ano letivo, a gente senta com todos os professores - a nossa escola, realmente, tem um número de professor efetivo que facilita, né [sic]. Então, a gente senta com eles, a gente segue mais ou menos a proposta do estado, né [sic], e diante dali, então, é planejado a cada ano né [sic], é feito os [sic] [...] os conteúdos curriculares de cada ano, cada um assume, né [sic], os compromissos. Aí se faz junto 1ª série com 2ª e 3ª, que aí cada um analisa até onde um vai, né [sic], pra [sic] depois o da 2ª série já dar continuidade e assim o da 3ª. Então, é feito jun [...] conjuntamente.

(Daiane, Escola D)

A assessora pedagógica Joice, da Escola C, não participa dos momentos de planejamento, bimestrais, organizados pela secretaria municipal de educação, em virtude de outras atribuições na escola, momentos estes que, também, não focam o Bloco Alfabetizador:

Não. Eu fui [...] eu fui, assim, umas duas ou três reuniões assim, mas, não junto, porque aí eu tenho que tá [sic] acompanhando as outras aqui, né [sic] [...] É por série. Então aí elas [...] tal dia pro [sic] primeiro ano, tal dia pro [sic] segundo. (Joice, Escola C)

A professora readaptada Mere, da Escola A, indicada por outros gestores de sua escola como a responsável por esta ação junto ao Bloco Alfabetizador, informa que as tentativas, que na realidade seriam do 1º ao 5º ano, esbarraram em dificuldades como a falta de tempo para os encontros, o despreparo do professor, a rotatividade de professores e a sobrecarga de trabalho, declarando, então, que os encontros não têm acontecido:

[...] a escola, ela [sic] não proporciona o tempo, inclusive, a GERED, né [sic], a gente sabe que é o [...] é determinado tempo para o professor ficar em sala de aula [...] Então, os professores, né [sic], na realidade, eles ainda têm muita dificuldade de tratar desta [...] desta [...] os três primeiros anos com a [...] pra [sic] alfabetização [...] é bastante dificuldade assim, porque, geralmente, são professoras ACTs, então, não existe uma continuidade [...] Eu até me propus a [...] a trabalhar como apoio pedagógico, agora tu vê [sic], por falta de pessoal, no fim eu tô [sic] aqui na biblioteca. (Mere, Escola A)

As condições precárias de trabalho docente, denunciadas no relato das gestoras, são confirmadas pelo Relatório do Observatório da Educação nº 4:

Submetida a condições de progressiva perda de status social e de desqualificação do trabalho docente, os professores vêm sendo acometidos pelos baixos salários, o que induz à excessiva carga horária e quantidade de turmas, e pela pouca qualidade de grande parte dos cursos de formação, geralmente fornecidos por instituições privadas, submetidas a um regime relativamente frouxo de fiscalização. (BRASIL, 2011b).

A fala de um dos assessores de direção evidencia a centralização das decisões referentes ao planejamento por parte do governo municipal (secretaria da educação) como que a uniformizar as escolas: todas com o mesmo tema, sabotando a autonomia que estas necessitam assumir no direcionamento de sua proposta pedagógica. A atuação do gestor nessa situação fica mais para o gerente que distribui tarefas, sendo perdida a oportunidade de protagonismo na escola. O encontro não serve para questionar a realidade e o que ela anuncia como os temas latentes, mas para pensar a partir do que outros determinaram como direção:

Sim, a gente tem um projeto que a gente segue, né [sic]. Então, esse projeto vem com um tema da prefeitura e dentro do tema a gente monta, então, o nosso projeto dentro da escola, né [sic]. Que ele é feito com o tema, vem o subtema, que daí é onde a gente coloca, né [sic], isso. Nós temos a justificativa, os objetivos gerais e específicos e depois os professores fazem o conteúdo deles, né [sic], dentro de cada disciplina, eles, é [sic] feito o conteúdo.

(Patrícia, Escola E)

Quase num tom de confissão a assistente técnica pedagógica informa que a dinâmica antes empreendida neste processo, encaminhada por outro profissional, não ocorre devido à greve e à dificuldade para dispensar as crianças:

Porque, é assim ó [sic], em decorrência – ai, vão me matar por causa disso – em decorrência da greve, ficou um pouco parado esse ano esses encontros [sic], porque senão os pais, né [sic] [...] ficaram muito [...] não pode dispensar tanto o aluno em decorrência da greve. (Patrícia, Escola E)

O receio em dar essa informação pode denunciar relações estabelecidas com base na conivência para preservar a imagem dos profissionais e da escola a despeito daquilo que efetivamente seja realizado. Podem, também, atuar nessa situação, possíveis constrangimentos relativos à recente história do ATP nas escolas públicas estaduais, com uma trajetória e presença na rede, diferentes dos especialistas. As dificuldades prejudicariam a identidade da função, para o profissional e em relação aos demais profissionais da escola, dificultando a definição do seu papel como gestor. A impressão que se tem é que a dinâmica de trabalho dos gestores na escola incomoda a ATP, pois esta declara a esperança, revelando aí o desejo de que o curso61 frequentado pelo grupo, recentemente, altere os rumos da gestão pedagógica:

Porque agora a gente fez um curso em Florianópolis e agora, né [sic], se sabe, né? [sic]. Vai ser tudo, pois é, vai ser todo mundo articulador pedagógico. Então, o que eu tô [sic] sentindo, tô [sic] botando fé é que em 2012 vai ser um pedagógico bem forte. Se Deus quiser. Vais ser uma coisa bem específica, bem dinâmica mesmo. Porque a escola tá [sic] precisando. (Patrícia, Escola E)

Depreende-se, a partir de sua fala, a percepção de que a articulação dos gestores não corresponde às suas expectativas.

Percebe-se, nas falas dos gestores, que o espaço destinado ao planejamento nas escolas ainda está atrelado basicamente aos dias que antecedem às aulas no início do ano letivo, determinado pelas secretarias de educação municipais e estadual. Há iniciativas pontuais, principalmente, em uma das escolas pesquisadas, de romper com essa prática e incluir dias para planejamento durante o ano letivo em paradas quinzenais ou mensais, conquistando este espaço no calendário escolar. O tempo previsto pela Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008,62 que prevê 1/3 de horas do trabalho do professor para a dedicação a outras questões relativas à sua função, quase não é mencionado pelos gestores (BRASIL, 2008b).

61 No ano de 2011 a rede estadual promoveu o I Seminário Catarinense dos Articuladores Técnicos Pedagógicos,

voltado para os especialistas e assistentes técnicos pedagógicos.

62 Art. 2º. § 4o Na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da

Não seria parte deste tempo destinada ao planejamento?

3.2 AS REUNIÕES NAS ESCOLAS: COMO O BLOCO ALFABETIZADOR É INCLUÍDO

No documento Bloco alfabetizador (páginas 83-88)