1.2 O PRIMADO DE ROMA
1.2.2 O PONTIFICADO DE GELÁSIO I E O PODER SECULAR
O pontificado de Gelásio I coincide justamente com a época em que distintos grupos germânicos tornaram-se os senhores das antigas províncias do Ocidente. Por exemplo, Clóvis, líder franco, apoderava-se da Gália. Teodorico, ariano e governante dos ostrogodos, tornou-se rei da Itália. Os visigodos estavam instalados na Península Ibérica, os vândalos no noroeste africano. Os imperadores, por seu turno, não tinham outra opção que não fosse a de reconhecer seus líderes como reis “federados” daquelas áreas, a fim de que esses os aceitassem pelo menos
nominalmente como único soberano de todos, conforme a doutrina universalista idealizada pelos chefes de estado romanos.
Em 494, ocorreram fatos importantes que marcaram o pontificado de Gelásio. Primeiramente, convocou um sínodo ao qual compareceram setenta bispos. O trabalho principal dos padres sinodais consistiu em catalogar e classificar todos os livros canônicos da Sagrada Escritura, os livros apócrifos da igreja primitiva e os livros proibidos, escritos por hereges, desde as origens do cristianismo até aquela ocasião. O sínodo romano também reafirmou as decisões tomadas pelos quatro Concílios Ecumênicos aos quais já nos referimos.
Nesse mesmo ano, o imperador Anastácio enviou à Itália alguns legados para tratar com Teodorico assuntos de interesse do Império. Esses legados tinham ordem expressa de não se avistarem com Gelásio, devido às relações tensas entre a Igreja e Estado por causa do monofisismo e do cisma acaciano.
O sumo pontífice soube das ordens imperiais e fez chegar aos ouvidos de Fausto e Irineu, embaixadores de Anastácio, o seu descontentamento por aquele gesto do imperador. Eles, ao regressarem a Constantinopla, informaram Anastácio das queixas do papa. Quando regressaram novamente à Itália, disseram pessoalmente a Gelásio que o imperador havia tomado aquela atitude porque o papa não lhe havia comunicado sua eleição ao papado. Esses fatos levaram o santo padre a escrever a conhecida epístola ao imperador (Epístola n. 8. In: PL MIGNE, v LIX).
Um dos aspectos mais relevantes nesse longo documento pontifício é a firmeza e autenticidade de Gelásio. Por que mascarar a verdade dos fatos com subterfúgios, com desculpas? Os hereges usufruem do apoio imperial, ocupando bispados que, por direito e justiça, não lhes pertencem, servem-se da política imperial em benefício próprio, causando prejuízos à religião e à Igreja, embora sejam instrumentos dóceis e imorais nas mãos do Estado, que necessita deles para atingir seus objetivos.
Gelásio, como cidadão romano, respeita a autoridade constituída por Deus para governar o Império e assim considera a pessoa de Anastácio. Entretanto, não há reciprocidade nos gestos. Ele, na condição de papa, se vê como o responsável pela ortodoxia, pela unidade eclesial, chamado que foi pelo Cristo para exercer o múnus apostólico.
Por isso, agradando ou não, acha-se na obrigação moral de corrigir os que erram, inclusive o próprio Anastácio, que se diz cristão. Lembramos aqui que, dentro da concepção de hegemonia, uma classe pode ser dirigente antes de se tornar dominante, ou seja, já exerce influência mesmo antes de atingir o poder efetivo.
O santo padre considera uma falha de sua parte não advertir o imperador a respeito dos males causados pelo monofisismo e seus fautores, tendo em vista que ele se mostrou desejoso de reavivar os contatos com o papado. Por tal razão, mesmo que pareça desrespeitoso usar de franqueza para com o imperador, supremo governante universal, ele, Gelásio, não se furtará em dizer a verdade, particularmente no que se refere às coisas de Deus, que naturalmente ocupam um lugar proeminente em relação aos demais.
Os postulados gelasianos referentes de modo específico às relações entre Igreja e Estado estão enunciados no conceito de auctoritas e potestas. Em nossa língua e na terminologia jurídica atual, esses termos são sinônimos. Entretanto, em latim e conforme o Direito Romano, cada um deles tinha um significado particular.
Auctoritas designava a própria fonte de poder, una e indivisível, enquanto potestas significava uma fração de autoridade proveniente dela e exercida por alguém. O supremo mandatário romano era detentor da auctoritas, enquanto, por exemplo, os governantes das províncias, os duces, os praetores e até mesmo os reis bárbaros exerciam somente a potestas.
Numa sociedade nova, alicerçada na cultura romana e no cristianismo, ocorreram algumas alterações importantes. O sumo pontífice recebeu diretamente de Cristo, na pessoa de São Pedro, argumentos para justificar sua posição de classe dirigente, a autoridade para dirigir a Igreja, depositária da Revelação salvífica. O imperador, indubitavelmente, exerce um poder cuja origem é divina, mas que lhe foi concedido mediatamente pelo desígnio da Providência, de modo que, em razão da origem (imediata e mediata), o poder imperial é inferior espiritualmente em dignidade à hegemonia pontifícia.
O mesmo acontece quanto à finalidade. Os sacerdotes, em especial o santo padre, são responsáveis pela salvação de todas as almas, mesmo as dos potentados do universo, e, por esse motivo, têm a obrigação moral de orientá-los e adverti-los a respeito do que é certo segundo os ensinamentos do cristianismo, e
ainda de combater e denunciar o que é ilícito e injusto de acordo com os princípios religiosos.
Por outro lado, a competência dos governantes seculares é imanente e histórica, pois se restringe aos aspectos materiais da vida terrena, quer dizer, à consecução do bem comum, manifesto no progresso e desenvolvimento socioeconômico da população, na ordem pública, no cumprimento e observância da lei e da justiça, na paz externa etc. Por conseguinte, nesses aspectos o clero deve acatar as determinações do Estado.
Mas o propósito de Gelásio, após estabelecer os princípios básicos de sua argumentação ideológica, não foi definir, em razão deles, a supremacia da Igreja sobre o Estado ou dos sacerdotes sobre os governantes seculares. O sumo pontífice pretendia mostrar que ocorria uma inversão de valores, suscitada por motivos econômicos e políticos, visto que o monofisismo grassava em províncias (Egito, Síria, Fenícia) economicamente vitais para a sobrevivência do Império, enfim, para a própria segurança do Estado. E tais motivos, embora politicamente justificáveis, tornavam-se moralmente ilícitos na medida em que envolviam um problema religioso, a preservação da ortodoxia.
Como o Império aderiu ao cristianismo e seu governante supremo se diz cristão, tem a obrigação moral de restabelecer a ordem natural das coisas e, no âmbito religioso, observar a ortodoxia, impedir a difusão das heresias, ouvir e acatar as decisões do clero legítimo, principalmente do sumo pontífice que dirige e lidera a Igreja universal. Anastácio, ao desejar a unidade e a paz imperial, não deve ser o primeiro a contribuir para a perpetração de cismas e das heresias e para a indisciplina eclesiástica. Agindo assim, revela uma atitude contraditória com sua função e, o que é mais grave, contrária ao próprio autor da religião cristã e da harmonia e ordem universal.
Após todas essas discussões, retomamos novamente a ideia, exposta no início do capítulo, de que o papado foi uma obra da Europa medieval. Quando afiançamos tal assertiva, pretendemos dizer nas entrelinhas que foi no decurso da Idade Média que a Igreja romana, originalmente uma pequena comunidade obscura e perseguida da capital do Império Romano, transformou-se em instituição mundial, dotada, como afirmou o I Concílio do Vaticano (1870), do supremo poder de dirigir a Igreja universal. Contudo, como vimos, até o século V, apesar de toda teoria
ideológica dogmática desenvolvida, tal título representava somente a expressão da solicitude paterna do bispo pelo seu rebanho, ou seja, foi apenas a partir do século VI, e somente no Ocidente, que o título de “papa” – no sentido de chefe máximo da Igreja – começou a ser reservado ao bispo de Roma. Vimos também que a posição hegemônica do papado, efetuado ao longo da Idade Média, foi desenvolvida a partir de uma luta perene entre os interesses de diversos grupos sociais, no qual assistimos avanços e recuos. Assim, no capítulo seguinte, veremos como Gregório I posiciona-se nesse debate.
CAPÍTULO 2:
ESTADO AMPLIADO, IDENTIDADE E O PAPEL INTELECTUAL
EM GREGÓRIO I
O contexto de Gregório I é marcado por profundas transformações que afetaram a posição hegemônica do papa. Os lombardos, mais preocupados com os recursos do exarcado de Ravena, colocaram Roma em segundo plano. Com o colapso imperial no tempo de Maurício (582-602), o ducado de Roma passou a atuar autonomamente. Nessa urbe, como noutras localidades, o epíscopo era agora o primeiro dignitário civil, e os seus assistentes, indicados originalmente para gerir os interesses da Igreja, quase por necessidade assumiram outros papéis, como distribuição de água, assistência aos pobres e necessitados etc., funções que até então eram atribuídas às autoridades civis. Portanto, o papado passou a ser “classe dominante” e “classe dirigente”, ao menos nas imediações da “cidade eterna”. Não devemos esquecer que a Igreja de Roma, segundo G. Barraclough (1979, p. 32), possuía vastos recursos. Pelágio I deu início à reorganização dos seus estados, arrasados durante os conflitos de Justiniano contra os godos. Gregório I concluiu tal tarefa, bem como alargou as receitas do chamado “patrimônio de São Pedro”.
Portanto, como fruto da sua ação em Roma, Gregório acabou efetivamente no controle completo da cidade e de sua circunvizinhança. Isto é, Roma assumia cada vez mais a configuração de um “Estado” governado pelo pontífice (PIAZZONI, 2008, p. 160), superando tanto a incapacidade de gestão imperial, naquele momento nas mãos dos representantes imperiais, quanto, por extensão, a falta de real interesse que a corte bizantina mostrava pela antiga capital. Cabe destacar que esse processo, isto é, o aumento das atribuições dos bispos, atuantes não só na esfera religiosa, mas também no campo civil, administrativo e jurídico, foi um fenômeno amplo que abrangeu boa parte da Europa ocidental no período de Gregório (DUMEZIL, 2005, p. 75).
Ao alicerçar o campo das disputas pela hegemonia, Gramsci deu novo sentido à noção de Estado, ampliando-o, pois, vinculou a ideia de Estado (aparelhamento político), à base estrutural (ordem econômica) (BUCI-GLUCKSMANN, 1990). No
entanto, a proposta aqui apresentada diz respeito às interpretações que buscam dar sentido às transformações históricas vivenciadas pelo Estado no início da Idade Média – período tradicionalmente delimitado entre os séculos V e VIII, porém aqui limitadas ao pontificado de Gregório I (590-604). Tendo em vista a análise do objeto a que nos propomos, consideramos que o conceito gramsciano de “Estado Ampliado”, se submetido aos ajustes necessários, constitui um vigoroso instrumento para a abordagem do fenômeno estatal em uma formação social pré-capitalista. Afinal, vale lembrar que Gramsci não idealizou seus conceitos pensando o período medieval, o que, em nenhum sentido, desqualifica o conjunto de seus apontamentos quando aplicados à Idade Média.
Acreditamos ser pertinente, portanto, em um primeiro momento, apresentar rapidamente o conceito em sua matriz original, isto é, como elaborado por Gramsci, para, em seguida, propormos um conceito mais adequado, porém ainda “bebendo desta fonte”, à temporalidade em questão, a Primeira Idade Média. Assim, o Estado ampliado é concebido, pelo sardo marxista, sob a perspectiva dialética de articulação da sociedade política, apreendida de acordo com a tradição como Estado no seu sentido literal, e a sociedade civil (BUCI-GLUCKSMANN, 1990; LIGUORI, 2007). Nas palavras do próprio Gramsci (2007, Q 6, § 88, p. 763- 764): “[...] Estado = sociedade política + sociedade civil, isto é hegemonia revestida de coerção”1.
A concepção de Estado envolve em si dois elementos importantes: a afinidade entre política e economia e a relação entre sociedade política e sociedade civil, elementos da superestrutura, que abarcam a aquisição da hegemonia de uma classe sobre as demais. Dito de outra forma, podemos afirmar que os subsídios definidores do alcance e das nuanças das aplicações organizativas e conectivas das distintas camadas de intelectuais com os grupos sociais fundamentais podem ser determinados “da base estrutural para o alto” – isto é, da estrutura para a superestrutura. Nesse sentido, para Gramsci, a superestrutura é composta pela:
“sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da “sociedade política ou Estado”, planos que correspondem, respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no
Estado e no governo “jurídico”. Estas funções são precisamente organizativas e conectivas (2007, Q 12, § 1 p. 1518-19)2.
A sociedade civil é, de acordo com os apontamentos gramscianos, o locus onde se materializam os conflitos sociais e, nesse sentido, é a arena na qual se realiza a competição pela hegemonia por meio da luta de classes corporificada nos embates ideológicos entre os grupos e camadas sociais que integram a sociedade civil. Em síntese, a esfera da luta hegemônica é a sociedade civil, pois nela encontra-se a possibilidade de conquista do consenso e da dinâmica do desenvolvimento cultural (GOMES, 2014, p. 99).
Por seu turno, a sociedade política apresenta, segundo Hugues Portelli (1977, p. 30-31), predicados bem delineados: reúne o conjunto de mecanismos da superestrutura, que tem relação com o papel de coerção, notadamente as forças militares e as normas de conduta jurídicas. Nessa acepção, ela é uma extensão da sociedade civil, pois, considerando os distintos níveis da concepção de um sistema hegemônico, Gramsci apontou que o momento político-militar é o prolongamento e consolidação do comando econômico e ideológico que um grupo detém sobre a formação social.
Realizada esta rápida exposição, que de forma alguma procurou minimizar ou encerrar a discussão conceitual sobre a concepção de Estado Ampliado, passaremos a considerar as particularidades do seu emprego em relação aos primeiros séculos da medievalidade.
Enquanto o Estado capitalista é justificado por meio de sua apresentação como forma mais avançada de estrutura política, a partir da separação ideológica entre a sociedade política e a sociedade civil, o Estado alto-medieval não se fundamentava em iguais argumentos nem mesmo quando abordados os seus discursos legitimadores, oriundos dos grupos socialmente dominantes. A constituição da sociedade civil foi, ela própria, resultado de um processo histórico em muito posterior ao nosso período de análise, o que não implica em que não possamos considerar a existência de uma expressão “pré-divuliana” sua que, em nosso contexto, vemos manifesta na Igreja.
2 Q 12, § 1 p. 1518-19: “«società civile», cioè dell’insieme di organismi volgarmente detti «privati» e quello
della «società politica o Stato» e che corrispondono alla funzione di «egemonia» che il gruppo dominante esercita in tutta la società e a quello di «dominio diretto» o di comando che si esprime nello Stato e nel governo «giuridico». Queste funzioni sono precisamente organizzative e connettive”.
Concebemos o Estado Ampliado como um conjunto complexo de relações sociais de domínio jurídico, político e cultural, que garante a hegemonia social do grupo dominante sobre os grupos dominados de uma sociedade, produzindo e reproduzindo um sistema social no qual os primeiros indelevelmente afirmam e efetivam a sua supremacia social. Assim, percebemos a estrutura estatal (alto) medieval como instrumento das várias manifestações da classe aristocrática na manutenção e expansão das relações de produção que lhes eram favoráveis. Como exemplo, demonstraremos, ao longo desta tese, o papel que a aristocracia clerical, em especial o papado, e mais precisamente o pontificado de Gregório I, cumpria na reprodução daquela dinâmica, configurando-se em um de seus mais eficazes recursos legitimadores na Idade Média. Nesse sentido, o Estado Ampliado que se constitui na Primeira Idade Média reuniu a sociedade política e a Igreja não em perfeita e pacífica harmonia, mas em relações pautadas por disputas e tensões estruturais que reproduziam, contraditoriamente, o domínio político e social do conjunto da aristocracia. O Estado Ampliado constituiria, mais do que uma instituição centralizadora das formas de coerção física (sociedade política), a sua articulação com os instrumentos dirigentes da vida social, especialmente a Igreja, como instituição e produtora de visões de mundo.
Em condições de supremacia, o papado procurará associar o Estado com as organizações dirigentes da ação, da formação e da propagação das normas sociais, compatibilizando essa realidade com a formulação teórica do Estado Ampliado. Naquele contexto, essas entidades comportar-se-iam como aparelhos ideológicos do Estado, segundo a célebre formulação de Louis Althusser (1983). Contudo, a vinculação desses mecanismos ideológicos com o Estado não comporta compreendê-los de maneira mecânica ou determinista, tendo em vista as tensões que caracterizam a sua articulação (GRUPPI, 1978, p. XIII).
E vale lembrar, como o fez Gramsci, que não devemos entender o Estado como um simples instrumento da garantia da reprodução da dominação e da exploração de classe em uma sociedade. As diversas frações da classe dominante que o integram disputam constantemente o seu controle, e o Estado não “pertence” à classe dominante como uma propriedade privada. O Estado é uma representação universal de toda uma sociedade, pois reproduz política e institucionalmente os interesses da classe dominante na mesma medida que reproduz os conflitos de
classe. Portanto, também carrega em seu seio os interesses dos grupos dominados, mesmo que de forma relativamente menor e submetida à lógica dos grupos dominantes (MENDONÇA, 2013).
Assim, redundaria reducionista conceber que, na Primeira Idade Média ocidental, o Estado (materializado nas várias entidades constituídas nas antigas províncias imperiais) estivesse circunscrito, em sua constituição, pela sociedade política germânica. Por um lado, percebe-se que a “estabilidade política” e a perenidade de existência foi mais efetiva nos casos daquelas entidades nas quais a adoção do cristianismo niceno, pela abjuração do paganismo ou do arianismo pelas aristocracias germanas, fomentou a articulação de um grupo dominante ampliado pela participação e apoio dos altos dignitários das Igrejas “locais”. Por outro lado, o papado, além de buscar a preservação da sua ascendência no quadro específico da Igreja, visou, quase que por extensão, dada a sua requisitada “universal” supremacia, afiançar a sua condição de liderança superior dos novos grupos dirigentes que haviam se tornado senhores dos destinos do Ocidente. Mas não se tratava, da parte de Gregório I, de promover sua preeminência política em total detrimento da existência de grupos privilegiados outros, subvertendo a ordem social por uma espécie de primazia do “rector cristão” pelo esvaziamento dos poderes aristocráticos de seu papel também dominante naquela sociedade.
O papado procurou, no âmago daquele Estado Ampliado, garantir, na articulação com os poderes temporais, para si e para a Igreja, a direção política do próprio grupo hegemônico e, por extensão, da sociedade da Primeira Idade Média, através da compatibilização do exercício conjunto das atribuições políticas nos vários reinos germânicos e “Igrejas nacionais”.
Isso posto, vimos que, durante as crises de 591 e 593, Gregório utilizou da base material da Igreja para se desembaraçar dos lombardos. E, em breve, será o papa que pagara às tropas do ducado de Ravena, as quais, recebendo salários do seu tesouro, começaram a considerá-lo como seu chefe, portanto, já assumindo posição hegemônica. Numa correspondência (Ep. V. 39) dirigida à imperatriz Constantina, Gregório se intitulava o “tesoureiro” de Roma, de forma similar ao
tesoureiro do imperador em Ravena3. Quando os lombardos apareceram junto das
muralhas de Roma, foi Gregório que negociou a paz, apesar das contrárias orientações da administração de Constantinopla.
Em nossa visão, essa atividade diplomática fortaleceu a posição do papa, ao mesmo tempo que a sua autoridade moral conquistava o respeito da população romana. Na questão com os lombardos, tratou não como representante do imperador, mas como terceira parte independente. Isso não caracterizava, da parte de Gregório, deslealdade ao Império, mas sim o fato de que o governo imperial não conseguia mais dirigir as províncias italianas, que começavam a seguir o seu próprio caminho.
A hegemonia inclina-se a efetivar uma integração de forças sociais e políticas díspares e procura preservá-las unidas por meio da visão do mundo que ela formulou e propagou. Nesse sentido, conforme destacamos no capítulo anterior, o prélio pela hegemonia deve abarcar todos os níveis de uma dada formação social: a base econômica, a superestrutura política e a superestrutura ideológica (GRUPPI, 1978).
As negociações com o rei dos lombardos, Agilulfo, colocaram Gregório em relação direta com os reinos germânicos. Isso lhe abriu novos horizontes dentro dessa incipiente realidade histórica, afinal, ainda é usual, devido à missão que