2.4 GREGÓRIO E AS INSTÂNCIAS DE PODER POLÍTICO
2.4.2 OS EXARCAS
No Ocidente, o mais imediato contato papal com o poder imperial deu-se por intermédio das relações com os funcionários imperiais. Frequentemente, esses pareciam ter atuado com um objetivo em vista, ou seja, aqueles que foram nomeados para governar pretendiam obter o máximo de lucro possível. Gregório percebeu que, como bispo de Roma, deveria exercer algum grau de hegemonia sobre tais indivíduos corruptos. E mais: devido às circunstâncias da época, acreditava que deveria responder às necessidades que tais membros da sociedade política imperial eram incapazes de cumprir.
A propriedade precisava ser administrada, soldados precisam ser pagos e cidades defendidas, além, evidentemente, do crescente número de pobres a serem alimentados. Algumas vezes, o próprio imperador fazia uso do papa, ao invés dos seus oficiais, como um canal para a satisfação dessas necessidades (Ep. V.30). Entretanto, é válido ressaltar que, na maior parte do tempo, o papa trabalhou em cooperação com os funcionários locais. Entre os representantes imperiais com quem Gregório teve maior contato, estavam o exarca da Itália (residente em Ravena), o exarca da África e o pretor da Sicília. Suas tratativas com esses três oficiais demonstram claramente as fraquezas e os pontos fortes do Estado ampliado imperial, ao menos no que tange ao Ocidente.
Os postos do exarca da Itália e da África foram essencialmente novas criações imperiais, durante a segunda metade do sexto século. Fundamentalmente,
o cargo de exarca reunia a administração civil, jurídica e religiosa. Tal cargo era ocupado, em geral, por um combatente de alta patente. Por conseguinte, sempre havia grande possibilidade, ainda mais considerando tais características – grande concentração de poder hegemônico gerido por uma pessoa com perfil militar –, de o exarca atuar de maneira despótica. Somam-se a esse quadro as invasões vândalas no Norte da África e as invasões lombardas na Península Itálica. O permanente estado de guerra naquele tempo, em muitas daquelas conturbadas províncias ocidentais, impelia o Império, se quisesse reter parte ou todo o território, a adotar medidas ainda mais centralizadoras, usando, portanto, os principais mecanismos da sociedade política. Reiterando, a sociedade política corresponde ao papel de dominação direta:
[...] ou de comando que se exprime no Estado ou governo jurídico [...] isto é, aparelho de coerção de Estado, que assegura “legalmente” a disciplina desses grupos que recusam seu acordo, seja ativo ou passivo; no entanto, é constituído para o conjunto da sociedade, em previsão dos momentos de crise no comando e na direção, quando falha o consenso espontâneo (PORTELLI, 1977, p. 30-31).
Roma estava dentro da jurisdição estatal do exarca da Itália. Enquanto Gregório foi papa, houve três ocupantes desse cargo: Romanum (590-596)44,
Callinico (596-603)45 e Smaragdo (603-608)46. No exarcado da África, o
conhecimento é escasso, mas dois exarcas podem ser identificados: Gennadio (591- 598)47 e Heraclio. Porém, Gregório I não se corresponde com esse último.
O início do pontificado de Gregório I coincidiu com a designação de Romanum para a função de exarca da Itália. As atitudes independentes do papa, relacionadas aos assuntos administrativos, na maior parte das vezes, completamente diferentes das decisões do exarca, provocaram hostilidade entre os dois líderes. Romanum buscou consolidar seu poder hegemônico com os apoiadores do cisma dos Três Capítulos, especialmente João de Parenzo, Severo de Trieste e Vindemius de Cissa. Gregório I, favorecido por medidas severas e de acordo com a política que ele tinha ajudado a estabelecer junto a seu predecessor
44 Citado por Gregório I nas seguintes Ep. I.32; II.38; III.3; V.6; V.19; V.40 e V.41.
45 Citado por Gregório I nas seguintes Ep. VII.19; VII.26; VIII.36: IX.96; IX.142; IX.155; IX.156; IX.177 e
IX.231.
46 Citado por Gregório I na Ep. XIII.34.
Pelágio II, chamou-os a Roma para julgamento (Ep. 1.16). O sínodo não aconteceu, pois os cismáticos procuraram o Imperador para que ele decidisse sobre seus destinos. Devido à ameaça lombarda, Maurício preferiu não punir tais indivíduos, o que não agradou ao papa.
Durante o pontificado de Gregório, o desenvolvimento do supracitado cisma tornou-se intimamente vinculado com as atividades dos lombardos no Norte da Itália. Dissidências da condenação dos Três Capítulos sobreviveram em áreas que estavam sobre controle lombardo, enquanto que a Igreja, em outros territórios, alinhava-se com a posição delineada pelo papado. Na prática, apesar das melhores intenções de Gregório I, a disputa resultou no desenvolvimento de duas Igrejas territoriais, uma de observância romana e outra de controle lombardo. O mais claro sinal disso eram as divisões das igrejas de Milão e de Aquileia (MARKUS, 1997a, p. 127).
Ao longo de sua vida, Gregório foi muito aplicado em sua campanha contra os heréticos. Todavia, ele procurou produzir um clima no qual a reconciliação fosse possível, uma vez que cabe à nova classe dominante, ou ao mesmo postulante à dirigente, para, além de desenvolver os seus próprios intelectuais orgânicos, esforçar-se para assimilar os intelectuais tradicionais ou não aliados. Suas epístolas48 mostram o quanto ele estava empenhado em acabar com a desunião da
Igreja, o que, por extensão, fortalecia seu papel hegemônico junto ao Estado ampliado. Na Ep. XII.7, por exemplo, ele forneceu uma fórmula em que um cismático pode publicamente indicar o desejo de votar a participar da Igreja Romana.
Porém, retomamos novamente os conflitos entre o exarca da Itália e o pontífice. Outra contenta entre tais líderes deu-se no caso da escolha do bispo de Saloma (veja Ep. IV.20; V.6; VI.3 e VI.25). Aqui, Honorato, o candidato aprovado por Gregório, foi posto de lado pelo pro-cônsul de Dalmatia, Marcelino. Máximo foi consagrado em seu lugar. Presume-se que Romanum aprovou essa ação. Vale lembrar que o novo prelado exerceu suas atividades em sua Sé, apoiado pela força militar, até a morte desse exarca.
Uma série de acontecimentos similares ocorreu em Ravena. Em dezembro de 594, Gregório repreendeu o exarca pelo apoio dado ao padre Speciosos que estava
48 Apenas para citar algumas: Ep. I.16; II.38; II.43; III.29; IV.2; IV.3; IV.4; IV.14; IV.37; VI.38; VI.47; VII.14;
agindo contra o seu bispo, João (Ep. V.19). Quando esse bispo faleceu, Romanum propôs, sem sucesso, Donato como seu substituto. Mas, em setembro de 595, o novo bispo Marinianus, que, por coincidência, passou a ser um protegido de Gregório, encontrou-se vítima de um ataque (Ep. 6.2). Como os eventos dessa natureza dificilmente tomariam lugar em Ravenasem o conhecimento do exarca, pode-se suspeitar da influência de Romanum em tal episódio.
Romanum estava destinado a recuperar as terras do Império previamente perdidas para os lombardos. Como as fontes sobre ele são muito limitadas, sabemos via Gregório I (Ep. 2.38; Homiliae in Hiezechihelem 2.6.23) que seus esforços para defender a região de Perugia contra os lombardos, em 592-593, deixaram Roma desguarnecida e muito vulnerável. A situação agravou-se ainda mais graças às intervenções papais nos assuntos seculares na Península Itálica.
A necessidade pastoral, devido a essa ameaçadora circunstância, obrigava a Gregório I, como aos bispos sob julgo dos lombardos (Ep I.30), a procurar uma acomodação pacífica com os invasores, porém sem deixar de ser leal ao imperador (Ep. II.28). Prova disso se deu em maio de 595, quando o papa abertamente pediu para que Severo, escolástico do exarca, convencesse seu superior a se reunir com o rei lombardo Agilulf, para se estabelecer uma trégua geral (Ep. V.34). Romanum parece ter “respondido” à pressão papal, acusando-o de traição ao imperador. Apesar da amizade de longa data entre Maurício e Gregório I, tais denúncias estremeceram a relação entre esses dois líderes (Ep. V.36). Essas tensões permaneceram até a repentina morte de Romanum, no início de 596.
O novo exarca da Itália, Callinico, foi muito mais flexível no exercício de suas atividades que seu predecessor. Mas, mesmo havendo esforços para restaurar a cooperação entre o exarcado e o papado, as tensões persistiam, notadamente quando se tratava dos lombardos ou do caso do bispo Máximo de Salona. Assim, podemos caracterizar o período em que Callinico ocupou o cargo como uma fase de aliança instável entre as duas instituições de poder hegemônico peninsular.
Após o golpe de Phocas contra Maurício, em 602, Smaragdo tornou-se exarca da Itália. Ele compartilhou boa parte das ideias gregorianas sobre os acontecimentos atuais. Em outros termos, aliaram-se contra os adeptos do cisma dos Três Capítulos, privando-os de seu poder. E mais: juntos, iniciaram as tratativas
de uma trégua geral com os lombardos. As boas relações desse exarca com papa só se interrompeu em 604, com o falecimento de Gregório I (MARTYN, 2004, p. 23).
Como já antecipamos anteriormente, havia outra representação do poder imperial no Ocidente além do italiano, o exarcado da África. No fim do sexto século, ele incluía os territórios imperiais do pró-cônsul da África: Byzacena, Numídia, Mauritânia I (área ao redor de Sitifis e Cesáreia), Mauritânia II (Septem, Balearic, Ilhas e cidades gregas da Espanha), Sardenha e Córsega. O exarca vivia no antigo palácio dos reis vândalos, em Cartago. Como já mencionado acima, dois exarcas ocuparam o cargo durante o pontificado de Gregório I, Gennadio (591-598) e Heraclio (nomeado algum tempo antes de 602). Desses, apenas o primeiro é mencionado na correspondência de Gregório Magno.
Gregório I manteve ativas relações com o exarca africano. Ele não só reconhecia o direito exarcal de intervir em assuntos religiosos, como, inclusive, chegou a pedir-lhe para fazê-lo (Ep. 4.7). Entre os assuntos que mais chamaram a atenção papal, quando se trata do exarcado da África, estavam a atividade donatista na Numídia (Ep. I.72; I.75; II.39; IV.32; IV.35; VI.36; VI.62; VI.64), a conversão dos pagãos (Ep. II.2; IV.26; IV.294) e a predatória coleta de impostos pelos oficiais imperiais na Córsega e na Sardelha (Ep. IV.24).
Gregório I, enquanto postulante a dirigente ocidental, não hesitou em mover- se contra aqueles que considerava culpado. Assim, pressionou Gennadio a punir Theodorum, comandante militar da Sardenha, acusado de espancar e prender os clérigos(Ep. I.59). Tal postura, vez ou outra, colocava os líderes em situação oposta. Por exemplo, em 596, quando o exarca foi repreendido pelo o papa por não ter ajudado satisfatoriamente o bispo Paulo, que sofria com problemas e perseguições por parte dos donatistas (Ep. VI.62).