3.1 A representação da in(visibilidade)
3.1.3 O posicionamento das mulheres diante do patriarcado
A terceira categoria da análise se volta para a observação do comportamento que as mulheres, em geral, manifestam em relação ao machismo/patriarcalismo dentro das obras. Para isso, foi separada em dois subtópicos a partir da classificação de Tyson (2006) de as mulheres serem percebidas como “good girls” e “bad girls”. No entanto, ainda uma terceira
reflexão sobre o comportamento de mulheres será analisada, por meio da qual as personagens selecionadas irão revelar uma reação comportamental passível a uma ambiguidade analítica.
Nessa perspectiva, o primeiro subtópico é sobre a mulher que se enquadra adequadamente na perspectiva machista/patriarcal; o segundo, sobre a mulher que não se adequa às regras desse sistema social e o terceiro, sobre a mulher que não se enquadra em nenhuma das perspectivas anteriormente citadas.
3.1.3.1 A mulher que é submetida
No percurso da estória de Eurídice é possível perceber que há uma mudança de posicionamento em seu comportamento. A princípio, já adulta, Eurídice era a dona de casa que baixava a cabeça para tudo que Antenor, seu marido, queria, pois foi assim que ela aprendeu e era assim que ela estava fazendo. Com o passar dos anos, ela foi reagindo sutilmente, como mostram os excertos a seguir.
Ainda nesse excerto, Eurídice era uma dona de casa submissa aos mandos de seu esposo Antenor. Na passagem abaixo, ela mostra o esboço de seu livro de receitas, que durante semanas passou testando para Antenor dar sua opinião, mas, ao invés de motivá-la a publicar, Antenor a desencoraja totalmente, pondo sua autoconfiança em dúvida.
“Deixe de besteiras, mulher. Quem compraria um livro feito por uma dona de casa?” [...] E Eurídice, que nunca tinha visto a vida além daquela casa e daquele bairro, ou da casa e do bairro dos pais, achou que o marido tinha razão. Antenor sabia das coisas. [...] “Tá bom assim, mamãe?”
Em cima de um banquinho e na ponta dos pés, Cecília ajudava a mãe a secar os pratos.
“Está sim, Cecília. Um dia você vai ser uma boa dona de casa.”
A última coisa que Eurídice tirou da mesa foi o caderno de receitas. Acariciou a capa, levantou os olhos, virou o rosto. Jogou o caderno no lixo, por cima dos restos de pavê (BATALHA, 2016, p. 32; 33).
Existe na primeira parte desse segmento da narrativa a subestimação da pessoa de Eurídice por parte de seu esposo Antenor, levando a própria Eurídice a acreditar que ela não teria futuro algum como escritora. No mais, no enunciado, “que nunca tinha visto a vida além daquela casa e daquele bairro, ou da casa e do bairro dos pais”, reforça a ideia de que Eurídice realmente não tinha conhecimento de mundo além daquele que ela conhecia, e por isso, não tinha capacidade suficiente para escrever um livro.
Eurídice não é a primeira personagem das estórias fictícias a escrever em cadernos de receitas. Lygia Fagundes Telles, citada em coletâneas de estudo sobre questões femininas,
especialmente ao que se refere às mulheres brasileiras (TELLES, 1997; 2010), escreveu sobre um tipo de mulher que ela deu o nome de “Mulher goiabada”. Um dos textos consultados para essa leitura temcomo título Mulher, mulheres e está publicado no livro História das Mulheres
no Brasil (1997), organizado por Mary del Priore. Ela diz: “A mulher escondida. Guardada.
Principalmente invisível, a se esgueirar na sombra. Reprimida e ainda assim sob suspeita” (1997, p. 671).A mulher goiabada era uma dona de casa como muitas outras que adotava o hábito de fazer registros em cadernos de receita. O texto de Telles fala de como era uma constante na vida das mulheres até meados do século XX a escrita de cadernos em que se misturavam as coisas do dia a dia (compras no mercado, receitas, nascimento dos filhos) a reflexões e expressão de sentimentos. Eurídice tem, em si, um pouco dessa mulher goiabada, aquela dona de casa que dá atenção aos afazeres domésticos, mas nunca deixa de registrar aquilo que é importante para ela.
É interessante notar que a escrita sempre andou junto às mulheres, nem sempre como atividade profissional, mas sempre ocupando um lugar especial na vida delas. O fato de ter “um caderno só seu” (estabelecendo um link com Woolf), remetia ao pouco espaço de privacidade garantido às mulheres, mas também a certeza de que aquele espaço conquistado não seria invadido por ninguém, pois assim como o quarto deveria ser de acesso exclusivo, o caderno tornou-se esse espaço em que só a dona de casa tinha acesso: poderia ir e vir com plena liberdade. Mais do que um caderno de receitas, aquele espaço registrava, como em um diário, memórias que as donas de casa não queriam que ficassem esquecidas.
Volóchinov (2017) afirma que o discurso está relacionado com outras manifestações e interações sociais; isto é, as reações físicas, as expressões faciais, interações que contribuem para a compreensão do discurso, e essa relação entre o discurso e demais interações são sensíveis às oscilações sociais. A partir dessa afirmação é possível entender porque Eurídice responde ao discurso de Antenor dessa maneira. Eurídice está simplesmente seguindo o fluxo social, que nesse momento é o que determina que o comportamento dela seja de uma mulher recatada e obediente, implicando isso ou não em sua felicidade.
De maneira semelhante, Tyson (2006) afirma que a força do discurso machista/patriarcal exercido sobre a mulher anula sua autoestima. Esse é exatamente o caso de Eurídice: ela sabia o valor que tinha seu caderno de receitas, de todo o trabalho depositado nele, por isso o acariciou. No entanto, não tendo forças suficientes para ir de encontro ao sistema, levantou os olhos, virou o rosto e em seguida jogou o caderno no lixo, preferindo ignorar seus sentimentos, esforço e mais do que isso, negando a si mesma, ou seja, assumindo a crítica do marido e se deixando subjugar por ela.
O próximo segmento mostra uma Eurídice frustrada após as muitas tentativas de fazer algo significativo para si. Esse trecho relata uma fase praticamente catatônica de Eurídice: ela simplesmente não reagia a nada, se mostrava apática a todos e tudo. Sentava-se todos os dias no sofá da sala olhando para a estante de livros e passava o dia todo nesse estado de espírito.
Eurídice não discutiu. [...] Havia, é claro, o ruído das pias e do chuveiro pelas manhãs. Da chaleira apitando a água quente para o café, do jornal folheado na mesa da copa. [...] Mas nenhum destes eram barulhos de Eurídice. A moça passava horas sentada, encarando a estante de livros na sala de estar. [...]
Cecília e Afonso também notaram o silêncio da mãe. [...]
Aquela era uma mulher comportada, do jeito que Antenor queria. [...]
Apesar de tudo, ou apesar do nada que a vida de Eurídice se tornou, Antenor era, de fato, um bom marido (BATALHA, 2016, p. 75; 76).
A Eurídice desses trechos é uma mulher que já havia passado por diversas frustrações desde sua infância enquanto filha, e a história se repete porque em sua vida adulta ela enfrenta o mesmo problema enquanto mulher e esposa. Selden (1989) afirma que o homem exerce seu poder sobre a mulher, tanto na esfera civil quanto doméstica para restringir a mulher. Este foi o papel de Antenor na vida de Eurídice: aquele que restringe, que poda, que dá os limites e dita até onde pode ou não pode ir pelo simples fato dela ser mulher. Este é um discurso de cunho cultural hegemônico, conforme explicita Butler (2003).
Nos moldes de seu marido, Eurídice “era uma mulher comportada, do jeito que Antenor queria.” Esse enunciado deixa claro que esta era a vontade que Antenor impunha à Eurídice; o adjetivo “comportada” sinaliza para o fato de que, entre as donas de casa, havia aquelas que não eram obedientes aos seus esposos e essa certamente não era a vontade de Antenor, pois a sua vontade, a sua palavra era o que representava o todo, era o signo ideológico que exigia o respeito é “[A] palavra de autoridade, em seus variados tipos, é aquela que nos interpela, nos cobra reconhecimento e adesão incondicional (FARACO, 2009, p. 84)”. E Eurídice até então obedecia sem questionar.
Em Purple Hibiscus, Beatrice também se via obrigada a obedecer ao marido. Isso se dava ou por medo ou por não ter outra opção de vida diferente que não fosse aquela. O trecho a seguir é uma conversa entre Beatrice, mãe de Kambili, e Ifeoma, tia dela. Beatrice tinha acabado de fugir do hospital onde estivera internada por maus-tratos de seu marido Eugene e foi para Nsukka, onde Ifeoma morava.
“Where would I go if I leave Eugene’s house? Tell me, where would I go?” She did not wait for Aunty Ifeoma to respond. “Do you know how many
mothers pushed their daughters at him? Do you know how many asked him to impregnate them, even, and not to other paying a bride price?” (ADICHIE, 2003, p. 250)25.
Nessa conversa entre as duas mulheres, elas entram em questões culturais representadas na obra e vividas na vida da sociedade nigeriana. Os homens costumam pagar um preço pela noiva, sejam eles ricos ou pobres – sempre têm de pagar. Em alguns casos a dívida podia até ser parcelada; caso o homem morresse antes de conseguir pagar tudo, a dívida se tornaria de honra. Após o pagamento do preço, os homens se viam como donos das mulheres, o que possivelmente justifica tanta agressão doméstica (MORDI, 2019). Nesse diálogo entre elas, Ifeoma foi incapaz de responder às perguntas da maneira que ela gostaria porque sabia que, muito além de ser uma pergunta direcionada a ela, as perguntas de Beatrice reverberavam profundamente as tradições da sociedade patriarcal da Nigéria na arte e na vida. Segundo Tyson (2006), em uma sociedade onde o homem é a figura mais forte, é esperado que a mulher aceite e siga os valores impostos pelo patriarcado. Segundo a escritora, uma cultura que reforça os valores do sexo masculino promove os papéis tradicionais de gênero e põe a mulher no papel daquela que é mais fraca, submissa, obediente, emotiva, ou seja, em uma situação de subjugação. Faraco diz que “qualquer enunciado se dá na esfera de uma das ideologias (i.e., no interior de uma das áreas da atividade intelectual humana)” (FARACO, 2009, p.47). Dessa forma, o questionamento de Beatrice “Where would I go if I leave Eugene’s house?” é um enunciado que, por sua vez, se enquadra na ideologia patriarcal e as ideologias, portanto, conforme Bakhtin (2016a), é uma das áreas da atividade intelectual humana. Essa atividade intelectual humana é apontada por Volóchinov (2017, p.100, 101) e ela envolve qualquer área produzida pelo ser humano que lhe seja atribuída um valor axiológico, tais como a religião, a pintura, a música entre outros.
Na sequência dos trechos, o excerto em destaque representa o papel da mulher que termina por se submeter, por conveniência cultural ou silenciamento social, ao discurso ideológico socialmente machista (TYSON 2006, p. 89, 90), que nega suas vontades para fazer a vontade de seu esposo. Dessa forma, ela toma esse discurso para si, impondo a si mesma a condição de “good girl”, a mulher subordinada, logo, objetificada por essa classe social.
25 Tradução segundo obra publicada: “Para onde eu vou se sair da casa de Eugene? Diga, para onde eu vou? – Perguntou Mama, sem esperar pela resposta de tia Ifeoma. – Sabe quantas mães empurraram suas filhas para ele? Sabe quantas pediram que ele engravidasse suas filhas, sem nem precisar se incomodar em pagar o preço de uma noiva?” (ADICHIE, 2011, p. 264; 265).
Nessa citação, Ifeoma veio à casa do seu irmão Eugene para buscar os sobrinhos e levá-los em férias para sua casa. Ela pergunta a Beatrice se ela também não iria ficar uns dias com ela, mas sua cunhada conhecendo o marido que tinha, declinou o convite.
“Are you ready, Jaja and Kambili?” She asked. “Nwunye m, will you not come with us?”
Mama shooked her head. “You know Eugene likes me to stay around” (ADICHIE, 2003, p. 80; grifo do autor)26.
No fragmento supracitado, a presença do idioma Igbo é demarcada e está em itálico. Assim como na maioria dos trechos onde há o igbo, há a presença do hibridismo: primeiro porque o híbrido está presente na materialidade do texto (BAKHTIN, 2015), depois porque o híbrido diz muito sobre a personalidade da personagem. São as vozes que estão presentes em seu discurso, por isso o híbrido é bilíngue (forma) e bivocal (conteúdo) (CAMPOS, 2018). A classe dominante no contexto da obra é uma classe machista que dita a norma e diz que sua palavra é absoluta, “[A] classe dominante tende a atribuir ao signo ideológico um caráter eterno e superior à luta de classes, apagar ou ocultar o embate das avaliações sociais no seu interior, tornando-o monoacentual” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 113).
Essa é mais uma cena de Kambili entre seus primos e sua tia. Eles estavam passando de frente a universidade onde Ifeoma era professora. Ao que parece, essa era uma das melhores universidades do país. Nessa altura, Amaka, sua prima, já sabia o que queria cursar e onde queria ficar na universidade. Kambili sequer havia pensado sobre o assunto e não tinha observação alguma a fazer em relação a ele.
“[…] Over there is Okpara Hall, and this is Bello Hall, the most famous hostel, where Amaka has sworn she will live when she enters the university and launches her activist movements.”
Amaka laughed but did not dispute Aunty Ifeoma. “Maybe you two will be together, Kambili.”
I nodded stiffly, although Aunty Ifeoma could not see me. I had never thought about the university, where I would go or what I would study. When the time came, Papa would decide (ADICHIE, 2003, p. 130)27.
26 Tradução segundo obra publicada: “- Vocês estão prontos, Jaja e Kambili? – perguntou. – Nwunye m, você vem com a gente?
Mama balançou a cabeça.
- Você sabe que Eugene gosta que eu fique por aqui” (ADICHIE, 2011, p. 88;89).
27 Tradução segundo obra publicada: “Aquele é o Okpara Hall e esse é o Bello Hall, o dormitório mais famoso, onde Amaka jura que vai morar quando entrar na faculdade e funda seus movimentos ativistas.
Amaka riu, mas não contradisse tia Ifeoma.
Na citação acima Kambili diz: “I had never thought about the university”. Essa oração revela muito sobre os costumes dessa comunidade. Em outros trechos da obra, Ifeoma reclama de suas alunas porque elas não pensam em crescer intelectualmente e terem sua liberdade financeira, só valorizando o casamento e o quanto antes. Com Kambili não parecia ser diferente: até aquele momento, apesar de ela não falar sobre casamento, também não falava sobre continuar os estudos (“I had never thought about the university”). Eram poucas as mulheres que chegavam à universidade e ainda assim não eram tão bem vistas porque essas eram as que pensavam de forma diferente. Ifeoma é um exemplo dessas mulheres.
Ribeiro (2019), em Lugar de fala: feminismos plurais, afirma que o falar não é apenas emitir som, palavras, mas ocupar o lugar que lhe é devido na sociedade “poder existir” (RIBEIRO, 2019, ps.537)28. É esse lugar que Kambili não ocupa, ela não tem voz. Faraco (2009), explicando o pensamento de Bakhtin, explica que a(s) voz(es) estão no processo de construção socioideológicas do sujeito e umas são vozes de autoridade e outras são internamente persuasivas. Sobre Kambili, não existia a possibilidade de fala; existia uma negação, um impedimento que é constituído pela sociedade patriarcal (SPIVAK, 2010), representada pela voz de autoridade de seu pai. O adverbio “never” denota a impossibilidade de Kambili ter voz, é uma negação total.
Percebemos, dessa forma, que tanto Eurídice, quanto Beatrice, nos excertos selecionados, estão agindo momentaneamente de acordo com as regras sociais impostas a elas. Eurídice baixa a cabeça para os grossos comentários de seu marido, e Beatrice segue em abnegação para satisfazer as vontades de Eugene, pois aceitar a situação difícil e as grosserias do marido fazia parte do grande lema de ser boa esposa e boa mãe (CAVALCANTE, 2011). No entanto, existe nesses excertos a perspectiva de mudança, de maneira sutil: as escritoras vão deixando rastros que possibilitam ao leitor um vislumbre da guinada que viria à frente.
Quando Eurídice relutou em jogar seu caderno de receitas ou até mesmo na mudança de comportamento de Cecília, filha de Eurídice, podemos perceber um apontamento para uma nova configuração das mulheres que estariam por vir: como personagens e como representação da mulher enquanto ser social. Assim também na situação de Beatrice, quando ela diz para Ifeoma que vai ficar porque aquela era vontade de Eugene, ela deixa claro que não era a sua vontade que estava sendo representada naquele momento. É claro que o leitor pode prever o que irá acontece no decorrer do enredo; no entanto, ao chegar ao final da leitura Assenti automaticamente, embora tia Ifeoma não pudesse me enxergar. Eu nunca me perguntara em que universidade estudaria nem em que me formaria. Quando chegasse a hora Papa decidiria” (ADICHIE, 2011, p. 140).
da obra, o leitor toma consciência de que era como se a escritora o estivesse alertando o tempo todo para uma possível mudança.
A nova configuração feminina está claramente representada em Amaka: ela é a expectativa do pensamento futuro das mulheres. Ela é o desejo da liberdade, e o desejo da liberdade não se impõe como padrões que estão em extremos onde pode ser aceito ou pode ser marginalizado. O desejo de liberdade permeia todas as camadas e intenções: ele simplesmente existe.
Toda explanação acima se referiu à mulher que se submete ao sistema ideológico machista. No entanto, existe o oposto, a situação inversa: aquela mulher que, com as mudanças sociais, não se submete ao sistema opressor do machismo, tema da próxima seção.
3.1.3.2 A mulher que reage
O oposto da mulher que sempre se submete e é objetificada, como uma “good girl” é aquela que não se conforma e reage de maneira que contraria a ótica machista/patriarcal. Essas, segundo Tyson (2006), são as “bad girls”. Esse termo também, segundo a escritora crítica, é empregado com frequência para “mulheres da vida”, as prostitutas. O fato é que, para toda força centrípeta, que insiste em centralizar e exercer domínio, também existe uma força centrífuga que descentraliza o poder (BAKHTIN, 2015). De igual modo, ela é aplicável aos enunciados/discursos. São nesses casos de descentralização que será voltada a atenção agora, começando pela personagem Guida, irmã de Eurídice.
Voltemos para Guida, que agora se recupera de mais de uma década de bordoadas por acreditar no lema da Revolução Francesa. Apesar do peito triturado por Marcos, apesar dos longos meses de grávida solitária, apesar dos anos cuidando dos filhos dos outros, apesar das noites tão longas ouvindo Filomena gemer, apesar dos tempos empoeirados no armarinho e dos dias de acetona em sua sala, apesar de todos os fluidos depositados contra a sua vontade entre suas pernas, Guida era uma espécie peculiar de João Bobo. De boba ela não tinha nada, mas podia bater que voltava. E voltava com mais força, e com mais sorrisos, e com mais crença em seu destino de vencedora (BATALHA, 2016, p 134).
O ideologema “João Bobo” usado pela autora para se referir a Guida remete à sua capacidade de resiliência: ele é um nome próprio, João, que já traz em sua composição um qualificador, Bobo, agregado e que assume lugar de adjetivo e passa a especificar a personagem, caracterizando-a. Bakhtin (2017c) declara que a minha palavra está em relações complexas com a palavra do outro e que para cada um dos indivíduos as palavras são
divididas em suas próprias e a palavra do outro. Isto quer dizer que toda palavra é rodeada de outras palavras. O João Bobo, por exemplo, remete, ou melhor, dialoga com outros signos, tais como resistência, perseverança, que são, por meio do signo ideológico João Bobo, atribuídos à Guida pelo narrador. De igual modo, os substantivos “força” e “sorriso” estão na mesma classe sintática, porém parece que eles estão em campos semânticos distintos; no entanto, no caso do trecho acima, ambos dialogam se complementando.
Guida era o tipo de mulher que, segundo Tyson (2006), é considerada como a “garota má”: não seguia as regras impostas à mulher pela sociedade de seu tempo, antes criava sua própria maneira de viver, mesmo que essa maneira peculiar de viver lhe causasse situações que não a favoreciam. Guida estava à margem, e o fator determinante para o que é norma e o que é margem é a sociedade, pois, segundo Louro (2000), a sociedade constrói demarcadores de fronteiras que ditam quais são seus padrões culturais e quais não são; portanto, tudo que não se enquadra nos padrões fica à margem.