3.1 A representação da in(visibilidade)
3.1.2 O posicionamento materno diante do patriarcado
Nesta segunda seção, serão destacados alguns trechos que mostram como se dá o posicionamento materno das personagens nas obras. De maneira geral, como a voz materna se posiciona diante do heterodiscurso patriarcal/machista presentes no contexto das obras, ou seja, os discursos acentuadamente de aspecto machista que estão presentes nos romances e representam, por sua vez, um discurso socialmente construído e que são refratados na materialidade das obras.
O excerto abaixo relata uma breve passagem sobre mais uma mulher no enredo. Seu nome é Zélia, a personagem que faz o papel da invejosa e fofoqueira do bairro que, além de dar conta da vida de todas as mulheres, direcionava uma atenção especial para Eurídice, porque Eurídice vivia em melhores condições financeiras, era uma mulher criativa e não se incomodava com o que pensavam dela. Zélia é um típico exemplo de mulher que teve uma infância feliz; no entanto, quando chegou à idade adulta percebeu que as regras da sociedade em que ela estava inserida não eram tão favoráveis às mulheres quanto ela pensava que fossem. No trecho que segue, ainda quando criança, a mãe de Zélia e suas vizinhas conversavam sobre os limites que a mãe de Zélia deveria pôr nela, mas sua mãe se negou a intervir no comportamento da filha e assumiu a seguinte posição diante dos discursos dos outros:
As vizinhas condenavam os rompantes da menina: “Isto é falta de sova”. Mas a mãe dispensava conselhos. “Um dia ela vai descobrir que a vida não é tão feliz, mas esse dia não tem que ser hoje”, ela dizia, saudosa por ver nos trotes da filha aqueles que tinha dado, tantos anos atrás (BATALHA, 2016, p. 17).
Selden (1989) afirma que a mulher tem sido dominada pela linguagem masculina. A despeito disso, dessa dominação por longos anos, é comum encontrar uma linguagem machista vinda das próprias mulheres com relação umas às outras. Conforme Bakhtin (2015), os discursos externos alcançam certo ponto que se tornam tão frequentes na vida real que, sem que se dê conta de quando, de repente são reproduzidos: eles se internalizam. O Círculo
chama esse fenômeno de discurso interiormente persuasivo, uma vez que se interiorizam e passam a fazer parte do repertório: no caso do trecho em destaque, as vizinhas internalizaram esse discurso.
É perceptível a presença desse discurso machista nessa passagem na fala das vizinhas “Isto é falta de sova” e esse discurso só existe porque tem um autor, alguém que se posiciona, isto é, esse discurso materializou-se se tornando enunciado que expressa uma tomada de posição (BAKHTIN 2010, p. 210). Nesse exemplo, são as próprias vizinhas, as mulheres, que assumiram esse lugar de fala e se posicionaram por meio desse discurso.
Em contrapartida, a mãe representada nesse trecho se resguarda ao direito de assumir um posicionamento de ‘neutralidade’: “Mas a mãe dispensava conselhos”, ela não incentiva a filha aconselhando a lutar pela sua felicidade, como também não reprime com um possível discurso opressor; ao contrário, mantinha-se ‘neutra’ ao dizer que “Um dia ela vai descobrir que a vida não é tão feliz, mas esse dia não tem que ser hoje”. No entanto, como diz Faraco (2009), a ‘neutralidade’ (não tomada de posição) também é uma tomada de posição e qualquer posicionamento que se assuma é responsivo e valorativo com relação ao outro.
Já nesse próximo excerto é notável que a figura materna, representada aqui pela mãe de Eurídice, dá continuidade ao pensamento de que as mulheres são criadas tendo sempre em vista o bem da casa, seja em qual área for.
Tornou-se íntima das palavras bem antes que seus colegas, e já na primeira série só saía de casa informada, depois de ler as costas do jornal que escondia o rosto do pai. A mãe de Eurídice, d. Ana, via futuro nos avanços da filha.
“Esta menina muito em breve poderá nos ajudar na quitanda” (BATALHA, 2016, p. 55).
Eurídice, ao que parece, teria sido uma mulher bem sucedida se não tivessem lhe negado o direito de ser, como fica claro na oração principal que desde sua infância ela tinha facilidade com leituras: “Tornou-se íntima das palavras bem antes que seus colegas”. Eurídice era uma criança com uma desenvoltura acima do esperado na escola; ademais, a palavra “íntima” apontava para um futuro de muitas leituras que ela viria a fazer e da escritora que ela seria no futuro, uma demonstração de sua intelectualidade.
A perspectiva da mãe de Eurídice com relação ao sucesso dela era apenas unilateral. Eurídice seria bem sucedida se ela fosse uma menina que ajudasse em casa e futuramente uma boa esposa. Eurídice não foi criada para ser uma profissional, e sim uma boa dona de casa. Portanto, o comportamento materno de D. Ana era de uma visão machista, que muito
provavelmente tenha sido a educação que ela recebera e estava reproduzindo com as filhas. Isso é percebido nesse trecho em que Guida, irmã de Eurídice, tenta ajudar a irmã a manter suas aulas de música e, quem sabe, ter um futuro profissional. “Mas, mãe, a Eurídice pode um dia tocar na sinfônica!” “Quieta, Guida. Não se meta onde não é chamada” (BATALHA, 2016, p.63). D. Ana não só internalizou o heterodiscurso patriarcal/machista, como também o reproduziu silenciando, além da vontade de Eurídice, a voz de Guida falando em ajuda à sua irmã.
Para as mulheres que vivem em contexto machista, ser bem sucedida não é algo bem quisto na sociedade. Não é feminino uma mulher assumir uma posição profissional em que ela se sobressaia e ganhe bem, tenha sucesso profissional, porque a visão machista/patriarcal enxerga o feminino como fragilidade, timidez como bem afirma Tyson (2006). É esta a perspectiva ideológica do excerto acima: “Não se meta onde não é chamada”, o que deixa brecha para uma leitura de que, pelo fato de D. Ana não ter voz o suficiente para se impor, ou simplesmente não querer assumir esse lugar de fala, ela é silenciada, obliterada, usando um termo de Spivak (2010). Ela repete o comportamento que recebeu com a filha, porque, ainda de acordo com Spivak (2010), se tratando do gênero feminino, ela é duplamente obliterada.
Bakhtin (2017c) explica que o discurso não pode ser separado do falante, nem da situação em que está sendo proferido – neste caso um ambiente familiar. Adiciona que o que determina o discurso hierárquico de poder não é o tom com que ele é proferido, e sim as relações entre o falante e seu interlocutor, e nesse enunciado “Quieta, Guida. Não se meta onde não é chamada”, o que determina a relação de poder não é o fato de uma mandar a outra se calar, mas sim a relação hierárquica de poder entre elas.
No caso do núcleo familiar de Kambili, as regras eram mais rigorosas e a quebra das regras implicava em consequências severas. A imposição do poder, em sua maioria, se dava pelo uso da força física. Como exemplo, são evidentes os maus-tratos na passagem do jejum da eucaristia em que o pai submete toda a família à agressão física com o seu cinto, porque Kambili quebrou o jejum e Beatrice, a mãe, era submetida aos mal tratos da mesma forma que os filhos:
He unbuckled his belt slowly. It was a heavy belt made of layers of brown leather with a sedate leather-covered buckle. It landed on Jaja first, across his shoulder. Then Mama raised her hands as it landed on her upper arm, which was covered by the puffy sequined sleeve of her church blouse. I put
the bowl down just as the belt landed on my back (ADICHIE, 2003, p. 102)22.
Selden (1989, p. 137) declara que o patriarcalismo subordina a mulher ao homem ou a trata por inferior a ele, pois o “[p]oder é exercido direta ou indiretamente na vida civil e doméstica para restringir as mulheres”23. E o cinto (belt) que, como signo, adquire “uma significação que ultrapassa os limites da sua existência particular” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 110), é preenchido pelo tema do patriarcalismo. Ademais, como “[u]m tema ideológico recebe uma ênfase social”; ele penetra a “consciência individual que [...] é totalmente ideológica” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 111). É esse tema ideológico (do patriarcalismo) e a forma (do cinto) que estão ligados entre si de modo indissolúvel (VOLÓCHINOV, 2017, p. 112) na consciência do pai, que não titubeia em subordinar Kambili ao poder patriarcal. Ademais, existe um contraste entre o cinto, quem de fato Eugene é e representa, e a roupa da igreja, quem Eugene fingia ser e o que ele queria demonstrar para os outros que era.
Beatrice esteve subjugada pelo discurso de poder que emanava da figura masculina de Eugene. Como afirma Tyson (2006), essa posição de inferioridade da mulher é uma questão cultural e não biológica. A teórica, ao fazer essa afirmação, não se refere à questão física entre homem e mulher, mas sim à sua capacidade intelectual, por exemplo. No entanto, a vertente machista enxerga a diferença física como inferioridade e faz uso dessa diferença de forma abusiva. É o caso de Eugene em relação a sua família.
O segmento que será relatado acontece logo após Kambili e Jaja voltarem de férias da casa de sua tia Ifeoma, em Nsukka. Eles são maltratados porque seu avô paterno, saiba-se, estava com eles na mesma casa, fato inadmissível por Eugene. Apesar de ser o seu próprio pai, na percepção de Eugene, Papa-Nnukwu era um pagão, e ele não aceitava que seus filhos convivessem com uma pessoa pagã – ainda que essa pessoa fosse seu pai.
Papa was holding me with one wide hand, pouring the water carefully with the other. I did not know that the sobbing voice – “I’ m sorry! I’m sorry! – was mine until the water stopped and I realized my mouth was moving and the words were still coming out. Papa put the kettle down, wiped at his eyes. I stood in the scalding tub; I was too scared to move – the skin of my feet would peel off if I tried to step out of the tub.
22
Tradução segundo obra publicada: “Papa tirou o cinto devagar. Era um cinto pesado feito de camadas de couro marrom com uma fivela discreta coberta do mesmo material. Ele bateu em Jaja primeiro, no ombro. Mama ergueu as mãos e recebeu um golpe na parte superior do braço, que estava coberta pela manga bufante de lantejoulas da blusa que ela usava para ir à igreja. Larguei a tigela sobre a mesa um segundo antes de o cinto me atingir nas costas” (ADICHIE, 2011, p. 111).
Papa put his hands under my arms to carry me out, but I heard Mama say, “let me, please.” I did not realize that Mama had come into the bathroom. Tears were running down her face. Her nose was running, too, and I wondered if she would wipe it before it got to her mouth, before she would have to taste it. She mixed salt with cold water and gently plastered the gritty mixture onto my feet. She helped me out of the tub, made to carry me on her back to my room, but I shook my head. She was too small. We might both fall. Mama did not speak until we were in my room (ADICHIE, 2003, p.195)24.
Apesar de se tratar de criação artística, é sabido que a obra reflete e refrata a realidade social concreta, e que a existência não só é refletida no signo, como também refratada nele (VOLÓCHINOV, 2017). Tem-se aqui uma relação direta com uma parte da sociedade nigeriana, como na região subsaariana, onde os maus-tratos domésticos, além de serem permitidos, são mecanismos corriqueiros de correção nas mulheres aplicados pelos homens apenas pelo fato de elas discordarem de alguma coisa de seus maridos (MORDI, 2019).
Logo se percebe que o silenciamento de Beatrice não é apenas no que diz respeito a ter voz, lugar de fala; é literalmente um silenciamento físico. Ela assiste a toda cena calada e decide não reagir energicamente contra o ato de agressão. Ela se posiciona responsivamente de maneira a não contrariar a atitude de Eugene. O silêncio de Beatrice é um enunciado e, portanto, “[n]ão existe enunciado sem avaliação. Todo enunciado é antes de tudo uma
orientação avaliativa” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 236; grifo do autor).
É interessante notar que, em mais uma cena, os objetos, no caso desse exemplo a chaleira (kettle) e a água (water), assumem “uma significação que ultrapassa os limites da sua existência particular” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 110), e assume um papel de utensilio de maus-tratos, ou seja, é preenchido pela ideologia do patriarcalismo que deposita nas mãos da figura masculina o poder de agressão e com a imposição de sua autoridade submete Kambili ao seu poder de pai.
24 Tradução segundo obra publicada: “Papa me segurava com uma de suas mãos enormes, derramando cuidadosamente a água com a outra. Eu não sabia que aquela voz que soluçava – Desculpe! Desculpe! – era minha até que a água parou de cair e percebi que minha boca se movia e as palavras ainda saiam por ela. Papa largou a chaleira e enxugou as lagrimas. Fiquei parada na banheira quente; estava sentindo medo demais para me mexer – a pele dos meus pés ia ser arrancada se eu tentasse sair dali.
Papa colocou as mãos embaixo das minhas axilas para me carregar, mas ouvi Mama dizer: - Deixe eu fazer isso, por favor.
Eu não tinha percebido que Mama havia entrado no banheiro. Lágrimas escorriam por seu rosto. Seu nariz estava escorrendo também, e me perguntei se ela ia limpá-lo ates que o catarro chegasse a sua boca, antes que tivesse de sentir seu gosto. Mama juntou sal com água fria e gentilmente passou a mistura arenosa em meus pés. Ela me ajudou a sair da banheira e fez menção de me carregar nas costas até meu quarto, mas eu balancei a cabeça. Mama era pequena demais. Nós duas podíamos cair. Ela só falou quando chegamos ao meu quarto” (ADICHIE, 2011, p.207).
O processo de silenciamento cultural das mulheres é fortemente demonstrado pelas figuras maternas das personagens D. Ana, a mãe de Zélia e Beatrice, cada uma em medidas diferentes, no entanto, silenciadas pela cultura. Apesar de parecer que D. Ana tem voz quando repreende Guida, por parecer que é sua vontade que está falando, não é esse o caso, pois ela está simplesmente ecoando/reproduzindo um comportamento cultural imposto à mulher. Tendo sempre de concordar com a opinião do homem, D. Ana até antecipa a resposta de seu Manoel porque o discurso machista está tão internalizado que ela mesma assumiu a postura de disseminá-lo.
A situação da mãe de Zélia é um caso bem particular. Ela estava submetida ao silenciamento cultural pelo fato de não ter se imposto com veemência e não poder fazer com que a filha fosse definitivamente livre das imposições culturais. No entanto, ela não se deixou dominar totalmente pelo discurso opressor externo vindo da voz autoritária dos discursos das mulheres. O discurso externo machista de autoritarismo foi tão cauterizado que as mulheres o internalizaram de tal maneira que passou a ser o discurso delas.
Já em Beatrice, o silenciamento imposto pela cultura vinha de forma agressiva e direta. Ela sequer podia se expressar: o tempo todo era oprimida e silenciada literalmente. Sua voz era pouco ouvida com relação ao que ela pensava ou queria quando estava entre outras pessoas, em especial seu marido. Ela só se sentia mais à vontade com os filhos, Jaja e Kambili, e com a cunhada, Ifeoma, o que faz com que o leitor tenha uma visão dela como sendo uma mulher ‘insípida’, indiferente e extremamente submissa. No entanto, essa não é de fato a Beatrice verdadeira. Durante todo o enredo ela foi silenciada pela cultura por meio de seu marido até chegar ao seu limite de tolerância física, psicológica e sentimental.
Depois de confrontar o comportamento materno nos dois romances, a próxima categoria aborda, de igual forma, o posicionamento da mulher diante do patriarcado, no entanto em dois aspectos distintos, a mulher que é submetida e a mulher que reage e ainda um terceiro posicionamento que contrapõe a ideia dicotômica de “boa” e “má”.