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4.   Fundamentação teórica II: Língua e discurso na perspectiva da

4.6.   O potencial universal das unidades entoacionais 124

uma função básica de realizar enquadramentos atencionais sobre entidades do ambiente

96 Essa analogia é sugerida em Tomasello e Farrar (1986: 1462) e meu propósito aqui, ao articular essa

proposta com a da análise da conversa, é o de argumentar a favor da similaridade entre objetos

lingüísticos e objetos físicos no que concerne aos processos atencionais. O estudo de LSs como a libras oferece evidências interessantes dessa similaridade, como será demonstrado nas análises das seções 7.4.1 e 7.4.2.

125 imediato e/ou do próprio universo do discurso, o que é crucial para a coordenação das ações sociais, é plausível especular que todas as línguas humanas possuam UEs com função similar. Seria interessante, então, investigar quais das características formais dessas unidades se mostram universais e quais se mostram particulares de uma língua, a fim de dimensionar a possível relevância dessas características para a análise de uma língua tão distinta do inglês – que constituiu a base do estudo de Chafe –, como é o caso da libras.

Não por acaso, desde os trabalhos de Chafe, uma série de estudos sobre UEs tem sido conduzida em várias línguas, com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre a natureza e função dessas unidades básicas da fala. Tais estudos, ainda que não muito numerosos, têm tomado como objeto línguas de famílias não-relacionadas tão diversas quanto: inglês e alemão, na Europa; japonês, chinês, coreano e cebuano, na Ásia; hebraico, no Oriente Médio; sêneca, na América do Norte; wardaman, na Oceania; entre outras (Amir et al., 2004; Chafe, 1994; Croft, 1995, 2005; Iwasaki e Tao, 1993; Izre’el, 2005; Matsumoto, 2000, 2003; Park, 2002; Tanangkingsing, 2006; Tao, 1996).

A primeira constatação que podemos apontar nesses estudos – ainda que possa parecer óbvia – é a de que, em todas as línguas, UEs puderam ser identificadas. De maneira geral, o procedimento de segmentação dessas unidades é feito de maneira perceptual e, em alguns casos, recorre-se à análise acústica como complementação para as investigações e para eventuais ajustes nas fronteiras definidas (procedimentos descritos em Du Bois et. al., 1992; ver também Schuetze-Coburn et al., 1991). Para essa identificação perceptual, as pistas prosódicas apontadas por Chafe, além do contorno entoacional, são as pausas, as redefinições de pitch, as mudanças de qualidade da voz e o padrão de aceleração-desaceleração.

Dentre essas pistas, Chafe (1994) aponta o padrão de aceleração-desaceleração como o mais consistente (p. 59), ainda que as pausas sejam os mais salientes (p. 57). Amir et. al (2004), corroborando o achado de Chafe num estudo comparativo sobre os correlatos acústicos e perceptuais das UEs no hebraico, identificam o alongamento final como o principal critério (81% das UEs), seguido da redefinição de pitch (70%), das pausas (55%), e da aceleração inicial (34%). A maioria dos estudos, contudo, têm outros focos de análise e se limita apenas a mencionar os critérios de delimitação adotados.

126 Além das características formais internas e externas das UEs que permitem a sua delimitação, Chafe enumera ainda outros aspectos importantes dessas unidades que merecem ter o seu potencial universal verificado. Um primeiro aspecto é o tamanho reduzido das UEs, que Chafe analisa por meio do número médio de palavras que essas unidades apresentam. Para as UEs substantivas, Chafe observou uma média de quase cinco palavras, ao passo que para as regulatórias, a média cai para cerca de duas palavras. Dos estudos pesquisados que se ocuparam com essa questão, todos se concentraram na análise das chamadas “UEs substantivas”. Tanangkingsing (2006), no estudo do cebuano, uma língua filipina, identifica a média de quase quatro palavras/UE, sendo que 75,7% das UEs apresentam entre uma e cinco palavras – embora haja UEs de até quinze palavras nessa língua. O autor menciona ainda que a média das UEs no cebuano está muito próxima da do chinês, que oscila entre três e quatro palavras/UE. No hebraico, Amir et al. (2004) identificam uma média de três palavras/UE, a variação absoluta ocorrendo entre uma e seis palavras. Embora seja óbvio que o número de palavras por UE seja um critério bastante relativo, uma vez que línguas tipologicamente distintas do ponto de vista morfológico apresentarão padrões distintos de distribuição de informações em palavras, ainda assim uma média relativamente baixa de palavras/UE parece plausível de ser estipulada como universal, considerando-se a diversidade de línguas estudadas até o momento.

Uma outra observação de Chafe relacionada a esse tamanho reduzido das UEs é a alta correlação entre essas unidades e a forma gramatical da oração. As UEs do tipo oracional podem apresentar uma idéia relativa a um estado ou evento, bem como aos referentes que deles participam, embora seja possível encontrar UEs formadas exclusivamente por sintagmas nominais (i.e. restritas apenas a referentes). Nos estudos de Chafe, as UEs oracionais constituíram cerca de 60% do corpus estudado. Essa correlação tem sido um dos principais aspectos investigados por outros lingüistas interessados nas características universais dessas unidades.

A grande maioria dos estudos vem corroborar essa alta correlação apontada por Chafe. O estudo de Croft (1995) sobre o inglês aponta 47,8% das UEs como sendo formadas por orações simples, enquanto seu estudo com o wardaman (Croft, 2005) aponta a mesma correlação em 50,3% dos casos. De maneira geral, a correlação entre UEs e unidades gramaticais revela grande sistematicidade em ambos os seus estudos (cerca de 90%), e vários dos casos que fogem a esse padrão se referem a elementos que,

127 segundo o autor, são independentes e apresentam as suas próprias funções discursivas (e.g. interjeições, certos advérbios, etc).97

Park (2002), no estudo do coreano, alcança uma conclusão semelhante. Ele aponta que a correlação estrita entre oração e UE alcança 48,3% das unidades e que a não-correspondência entre as unidades tende a se concentrar em orações complexas – das quais 74% foram produzidas em duas ou mais UEs, enquanto apenas 22% das orações simples foram quebradas em mais de uma UE. Diversos outros estudos parecem reconhecer essa primazia da oração como unidade básica da fala (para uma proposta que caminha especificamente nesse sentido, ver Thompson e Couper-Kuhlen, 2005). Refletindo sobre essa primazia, Langacker (2001) argumenta que o fato de grande parte das UEs corresponderem a orações simples “representa um mapeamento muito natural, especialmente no caso das orações finitas, que incorporam o ancoramento (grounding)98 e, desse modo, indicam como o falante e o receptor enxergam o processo realçado em relação às suas próprias circunstâncias” (p. 154).99

No que se refere às manifestações formais da salientação no âmbito de uma UE, Chafe (1994) diz que a proeminência se manifesta principalmente pelo uso de nomes

97 Cabe destacar que a opção metodológica pela análise de narrativas (espontâneas e semi-espontâneas)

no trabalho de Croft tende a favorecer a correlação entre unidades prosódicas e sintáticas em um grau maior do que podemos esperar da conversa espontânea. Isso ocorre porque as narrativas (especialmente quando produzidas fora de contextos conversacionais, como nas “Histórias da Pêra”, as quais Croft utilizou neste estudo) estão significativamente menos submetidas ao nível de interatividade que se observa na conversação cotidiana.

98 O conceito de ancoramento de Langacker faz referência aos elementos lingüísticos que estabelecem a

relação entre o conteúdo semântico e a situação de fala.

99 Alguns poucos estudos têm questionado a validade da oração como unidade gramatical básica da língua

espontânea. Iwasaki e Tao (1993), em sua análise comparativa entre inglês, japonês e chinês, categorizam seu corpus em termos de UEs oracionais e UEs não-oracionais – assim como faz Tao (1996) em uma análise do chinês. Eles apontam que, diferentemente do inglês, cujas UEs oracionais prevalecem em seu corpus (53,6%), tanto no chinês quanto no japonês essa primazia não se mantém (60,2% das UEs no chinês são não-oracionais, assim como 54,6% das UEs no japonês). Izre’el (2005), numa análise ainda preliminar do hebraico, divide seu corpus nessas mesmas duas categorias e conclui, assim como os pesquisadores do japonês e do chinês, que a ligeira predominância das UEs não-oracionais (cerca de 52%) em relação às oracionais (cerca de 47%) revelam uma supervalorização da oração nos estudos tradicionais do hebraico.

Esses poucos estudos, porém, parecem fragilizados diante de certas críticas. Croft (2005) identifica problemas metodológicos na conclusão de Tao (1996) que podem ser estendidos aos trabalhos de Iwasaki e Tao (1993) e Izre’el (2005). Croft considera um erro o uso de “UE não-oracional” como categoria analítica, tendo em vista a extrema heterogeneidade de estruturas que ela pode abarcar; em contraposição à sólida coesão da categoria “UE oracional”. Em face dessa discrepância, e considerando que na maioria dos estudos as orações simples constituem algo em torno da metade das UEs, Croft argumenta ser contra- intuitiva a conclusão de Tao, que nega a primazia da oração no chinês falado.

128 plenos (em contraposição aos pronomes) e de acentos primários (em contraposição a acentos secundários). Em sua comparação com o sêneca, porém, ele já deixa claro que a proeminência é realizada de diferentes maneiras em cada língua, de acordo com as suas características peculiares (ver também, e.g., Lambrecht, 1994). No inglês indiano, por exemplo, o acento e as mudanças de pitch apresentam um padrão marcantemente distinto do inglês ocidental, em especial no que concerne à sua distribuição no enunciado (e.g. na realização de contrastes, o pitch marcado ocorre em orações inteiras ao invés de aparecer localizado em palavras específicas) (Gumperz, 1982). Dentre os recursos de salientação de informação freqüentemente discutidos na literatura, então, encontram-se desde sinais prosódicos (e.g. variações de pitch, alongamentos, aumento de volume) até morfossintáticos (e.g. ordem das palavras, construções sintáticas marcadas, morfemas de focalização).

Relacionada a essa discussão sobre a salientação de informações está a tese de Chafe (1980) de que a produção do discurso opere sob restrições de ordem cognitiva, formulada pelo autor a partir da análise dos pequenos “pedaços” de discurso – em geral, orações – que aparecem correlacionados às UEs no discurso. DuBois (1987) estende essa tese buscando especificar, em termos de manifestações lingüísticas observáveis, que tipo de restrições se mostram correlacionadas ao processo de produção do discurso por meio de UEs.

Com base na análise de narrativas numa língua maia, o sacapulteco, DuBois identifica quatro restrições formais relativas à produção de orações que, tomadas em conjunto, constituem o que ele chamou de estrutura argumental preferida.100 No âmbito pragmático, referente ao estatuto informacional de referentes, DuBois propõe que sujeitos transitivos sejam predominantemente dados e que a fala prossiga em termos de não mais do que um argumento novo por UE. No âmbito gramatical, o autor propõe que os falantes evitem sujeitos transitivos lexicalizados e mais do que um único argumento lexicalizado por oração. Tal proposta desencadeou uma série de estudos trans- lingüísticos buscando verificar a sua aplicabilidade universal, o que até agora tem sido demonstrado de maneira consistente (e.g. Ashby e Bentivoglio, 1993, com o francês e o espanhol; Smith, 1996, com o hebraico; Kärkkäinen, 1996, com o inglês americano;

100 DuBois analisa a estrutura argumental da oração em termos da relação entre o verbo e seus sintagmas

nominais nucleares (i.e. seus argumentos), que podem ser do tipo S (sujeito intransitivo), A (sujeito transitivo) e O (objeto direto).

129 Matsumoto, 2000, com o japonês; Pezatti, 1996, com o português brasileiro, entre outros).

A proposta de que deva haver uma restrição operante no processo de produção da fala – que força as UEs a serem formadas por constituintes relativamente simples (Chafe, 1994), caracterizados por restrições pragmáticas e gramaticais (DuBois, 1987) – é fortalecida nos estudos de Clark e Wasow (1998) e Croft (1995; 2005). Clark e Wasow trazem evidências robustas de que o esforço de expressar uma grande carga informacional a cada novo momento – carga essa avaliada em termos da complexidade sintática de uma fala expressa por uma UE – seja um dos principais fatores preditivos de disfluências na fala.

Numa das demonstrações dessa hipótese, os autores analisam a repetição de artigos sob diferentes contextos sintáticos num corpus de fala espontânea. Tendo em vista que artigos como “the” do inglês aparecem no início de constituintes com diferentes ordens de complexidade, a hipótese é a de que disfluências envolvendo repetições de artigos seriam maiores diante de constituintes complexos do que de constituintes simples. Confirmando essa predição, a pesquisa mostra que os artigos que antecedem NPs complexos (e.g. “the, the time we were there at the warehouse”) são significativamente mais repetidos do que os que antecedem NPs simples (e.g. “the, the diesel”), assim como os artigos que antecedem constituintes maiores (uma oração ou sentença) são mais repetidos do que os que antecedem constituintes menores (objeto do verbo ou da preposição). Análises similares com diferentes tipos de pronomes revelaram essa mesma sistematicidade.

Em seus estudos do inglês e do wardaman, Croft (1995, 2005) adota um olhar inverso ao de Chafe: ao invés de observar quais são as características dos constituintes que aparecem expressos numa UE, ele analisa de que maneira as diferentes construções sintáticas são configuradas em termos de UEs (para análises semelhantes, ver Ono e Thompson, 1995 e Park, 2002). Esse olhar permite ao autor observar, em primeiro lugar, que há uma quebra sistemática de unidades gramaticais complexas em unidades menores, que acabam distribuídas ao longo de dois ou mais agrupamentos prosódicos sucessivos. A partir daí, analisando um número reduzido de unidades complexas que rompem com esse padrão, aparecendo freqüentemente sob uma única UE, o autor nota que tais construções envolvem relações semânticas apresentadas em vários estudos como universalmente propensas à gramaticalização (e.g. “manipulação do sujeito +

130 [instrumento] + ação”, como em “Ele pegou o martelo e quebrou a janela” que tendem a resultar em construções seriais do tipo “Ele pegou e quebrou a janela”).101

De maneira geral, portanto, os estudos centrados na análise das UEs no discurso espontâneo revelam claras restrições no nível de complexidade das construções que aparecem agrupadas por essas unidades. Permanece carente de maior aprofundamento quais seriam o(s) fator(es) relevante(s) que, quando multiplicado(s), parece(m) estourar a nossa capacidade de formulação a cada novo momento, impondo a cisão de uma dada conceitualização ao longo de mais de um quadro atencional. Para os fins deste trabalho, porém, uma resposta definitiva para essa questão não é essencial, uma vez que, no que diz respeito à busca de critérios para a segmentação da conversação espontânea na libras, as características formais das UEs – identificadas por Chafe e expandidas por vários pesquisadores no estudo de outras línguas humanas – oferecem subsídios suficientes para uma investigação inicial sobre a sua aplicabilidade na libras.

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