6 INTEGRAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE NO CURSO DE
6.1 O PPC E O “TRABALHO INTERDISCIPLINAR” NO CURSO DE
Para analisar a questão da integração e da interdisciplinaridade no PPC do CAU/UnP/Mossoró, transcreveremos alguns trechos do PPC procurando entender e explicar como o mesmo considera esses conceitos, pois como vimos no capítulo anterior, esses termos possuem uma diversificação de conceituação entre os pesquisadores da área, necessitando assim de uma posição definida de quem os utiliza.
Atualmente, o PPC possui 3 estruturas curriculares vigentes (2010, 2012, 2014), cada uma organizada em dez semestres letivos, 5 anos, com 3.600h (4.320
horas-aula34). Todos os PPC’s procuram atender às diretrizes curriculares nacionais para a graduação em Arquitetura e Urbanismo; à Resolução CNE/CES 2/2007, Resolução CNE/CES 3/2007 e a RESOLUÇÃO Nº 2, DE 17 DE JUNHO DE 201035; às leis, decretos e normas referentes a educação ambiental, educação das relações étnico-raciais e educação inclusiva; aos dispositivos pertinentes oriundos do CAU, recomendações da ABEA; e às políticas e metas previstas no PDI 2007/2016.
Para o nosso trabalho está sendo considerada a estrutura curricular do primeiro PPC que data de 201036, por ser neste PPC onde está inserida a série pesquisada (primeiro semestre de 2014).
Logo na apresentação, o documento explicita a preocupação com uma avaliação contínua, podendo gerar “novas tomadas de decisões, sobretudo pelo Conselho do Curso e por todos envolvidos no processo de formação do profissional em arquitetura e urbanismo” (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 3).
Como objetivo geral do curso, o PPC elenca:
Formar o profissional generalista, com capacidade técnica e rigor científico, crítico e consciente do seu papel na sociedade, capaz de perceber as questões socioculturais, econômicas e ambientais em seu entorno, competente na resolução de problemas que envolvam as condições de preservação da paisagem natural e construída e as transformações que se sucederem, apto a enfrentar a realidade de seu tempo e as exigências da qualidade de vida (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 57).
Com relação à integração e a interdisciplinaridade, elas são enfatizadas de um modo geral em todo o documento e, em alguns objetivos específicos do curso, é mostrada esta preocupação sem muitos detalhes, conforme transcrito abaixo três destes objetivos:
Buscar, de forma constante, as inovações pedagógicas que possam promover a interdisciplinaridade e a integração entre a diversidade de atividades da teoria à prática;
34 O total de 4320 horas-aula refere-se às aulas de 50 minutos de duração, que corresponde exatamente as 3.600 horas relógio exigida como o mínimo para um curso de arquitetura e urbanismo segundo a resolução CNE/CES 2/2007.
35 O PPC de 2010 segue a Resolução CNE/CES 2/2007 e a Resolução CNE/CES 3/2007 porém os PPC’s de 2012 e 2014 seguem a RESOLUÇÃO Nº 2, DE 17 DE JUNHO DE 2010. De uma forma geral não há alterações relacionadas com a integração e interdisciplinaridade nos PPC’s de 2012 e 2014. 36 Ver anexo B e C. “A estrutura curricular do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UnP, Campus de Mossoró, não só se organiza sobre as diretrizes curriculares nacionais e diretrizes didático-pedagógicas do PPI, como também considera a realidade local e regional das demandas do mercado de trabalho” (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p.55).
Estimular a vivência da prática integrada, associada a situações concretas, considerando a rápida e permanente mudança mundial;
Promover ações de integração que estimulem o ensino, pesquisa e extensão (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p.58, grifo nosso).
A própria UnP estimula a busca por inovações oferecendo, por semestre, alguns cursos gratuitos de formação acadêmica para os docentes e práticas que envolvem integração. Portanto, esta prática integrada do Curso de arquitetura da UnP/Mossoró, que se materializa principalmente no “Trabalho Interdisciplinar”, também conta com outras ações gerais da instituição que buscam essa interdisciplinaridade.
Quanto a essas ações de integração, temos na UnP, duas vezes por ano, dois grandes eventos, que são: um geral, o Congresso Científico; e um outro, mais específico, que é o Workshop das Escolas de Ciências Exatas, onde alunos e professores participam com apresentação de trabalhos de pesquisa. Consideramos esses eventos como ações de integração, porque envolvem discentes e docentes de todos os cursos, bem como alguns membros da sociedade, participando de mesas redondas, mesa demonstrativas, apresentação de pôsteres, exposições, gincanas e oficinas que tratam de assuntos de áreas diversas. Uma das exposições desses eventos é a exposição dos trabalhos das cadeiras dos alunos da segunda série, no qual participamos como coordenadora37.
Entre os princípios orientadores da organização curricular especificamente do Curso de Arquitetura e Urbanismo está:
Interdisciplinaridade, uma vez que a formação do arquiteto e urbanista não deve ser considerada como um processo fechado e sim um espaço aberto onde permeiam conhecimentos de diversos campos do saber, permitindo que os futuros arquitetos, responsáveis pelas mensagens gráficas, as utilizem como forma de diálogo consigo mesmo, ao longo de todo processo de criação do projeto, seja ele destinado ao cliente, ou à determinada comunidade; (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 56, grifo nosso).
Na citação acima, extraída do PPC, vemos a interdisciplinaridade como um dos princípios orientadores da organização curricular; porém, a explicação de como
37 O referido trabalho das cadeiras trata-se de um exercício de criatividade do primeiro componente curricular de projeto de arquitetura, onde os alunos, em um exercício de criatividade, criam cadeiras e desenvolvem o protótipo ou a maquete para ser apresentado na exposição no congresso científico. Essa exposição é visitada por vários discentes e docentes da UnP, e por outras pessoas da sociedade que visitam o evento.
isso acontece não está clara, necessitando de um esclarecimento que justifique a afirmação.
Em outras partes do PPC, frisamos alguns momentos onde é destacada a questão da integração e da interdisciplinaridade, conforme segue abaixo:
[...] O Curso de Arquitetura e Urbanismo da UnP propõe uma metodologia integrada para a prática do ensino, que congrega conteúdos, posturas e fazeres. Essa integração encontra seu ápice na concepção de laboratórios para aulas práticas e ateliês para introdução da prática profissional regulamentada no âmbito universitário, que buscam, acima de tudo, a interdisciplinaridade através da associação dos blocos de conhecimento do Curso, propostos nesse Projeto Pedagógico (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 56–57, grifo nosso).
[...] O TCC tem como meta avaliar as condições de qualificação do formando no desempenho de suas atividades profissionais, traduzida nos seguintes objetivos básicos: treinar o aluno quanto à realização de um projeto interdisciplinar que o leve a uma visão integrada da forma de atuação do arquiteto e urbanista (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 86, grifo nosso).
Enquanto proposta, acreditamos que o ápice da integração aconteça no “trabalho interdisciplinar”, pois conforme vimos no capítulo quatro, Fazenda (2011) aponta que a interdisciplinaridade envolve uma relação de trocas entre áreas diversas e reciprocidade, e essas características devem estar presente no processo de construção de um “trabalho interdisciplinar”.
O TCC/TFG38 pode ser considerado interdisciplinar pela aplicação do conteúdo e, por este motivo, estaremos usando o trabalho de Cavalcante (2014) como referência na construção metodológica de como analisar os “trabalhos interdisciplinares” da UnP. Mas, o processo de construção do TCC/TFG é um processo mais individual, ou seja, pode representar o resultado desse processo de amadurecimento dos alunos em relação à integração de diferentes conteúdos disciplinares.
O PPC aponta que, para os procedimentos metodológicos do curso, onde “destacam-se: trabalhos interdisciplinares semestrais” (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p. 145, grifo nosso).
38 Na UnP, o ultimo trabalho do Curso de Arquitetura e Urbanismo chama-se “Trabalho de Conclusão de Curso” (TCC ) e na UFRN, onde foi feita a pesquisa de Cavalcante (2014), este mesmo trabalho é chamado de “Trabalho Final de Graduação” (TFG).
O PPC também mostra, como ilustração da interdisciplinaridade, a previsão que o curso tem com a “participação do discente em projetos e programas técnico- científicos, cuja execução exige conteúdos de várias disciplinas” (Ibid., p. 146).
Abaixo segue a citação do PPC onde informa sobre o “trabalho interdisciplinar”:
Outras ações deverão caracterizar a interdisciplinaridade proposta pelo Curso. Como exemplo, são citados os trabalhos interdisciplinares apresentados ao final de cada série, que por sua vez, deverão conter conteúdos de todas as disciplinas da série em questão (ou do maior número possível). Divididos em grupos, os discentes deverão elaborar os trabalhos interdisciplinares e apresentar em sala de aula, perante uma banca composta por docentes, o resultado das suas propostas de intervenção nos espaços arquitetônicos e urbanos, ou a análise integrada sobre variados temas da arquitetura e urbanismo, que ajudam a entender o universo da profissão. Esses trabalhos deverão ser elaborados, como também apresentados, duas vezes ao ano, ao final de cada semestre; e deverão ter suas regras definidas e publicadas aos alunos no início do semestre. A definição e publicação das regras, que podem tomar a forma de edital, ocorrerão nas reuniões do corpo docente componente do semestre em questão, e deverão ser aprovadas e registradas em ata pela Direção de Curso (UNIVERSIDADE POTIGUAR, 2010, p.146–147, grifo nosso).
Conforme vimos nas conceituações de interdisciplinaridade, com estas informações acima, considerando a conceituação de Fazenda exposta no capítulo anterior, não podemos relacionar o praticado como um trabalho interdisciplinar, mas sim como um trabalho que pode envolver integração no seu processo.
Ainda referente as relações entre os componentes, nós destacamos algumas colocações no PPC:
Para atender os objetivos do curso, as disciplinas constantes da estrutura curricular (também chamada de grade curricular) são distribuídos de maneira a oferecer conteúdo de complexidade crescente, propiciando que em cada série haja uma integração horizontal com as demais disciplinas oferecidas nesta etapa. Dessa forma, as disciplinas de fundamentação e técnicas fornecerão os subsídios necessários para as disciplinas teóricas e práticas de projeto, construindo e, simultaneamente, embasando o conhecimento dos alunos, preparando-os para a próxima série a cursar, estabelecendo-se, dessa forma, a integração vertical do curso (Ibid., p. 55, grifo nosso).
Nota-se aqui a preocupação com a integração, tanto vertical como horizontal, em todo o curso; porém, neste momento não é citada a relação desta integração com o “trabalho interdisciplinar”.
No item “atividades de pesquisa, iniciação científica, extensão e ação comunitária” (Ibid., p. 152) é sugerido criação de:
[...] projetos com o objetivo de fortalecer o aprendizado do aluno através do contato direto com as demandas reais das edificações e das cidades. Para tanto, esses projetos buscarão sempre a interdisciplinaridade, não mais horizontal, mas transversal, congregando não somente as disciplinas de uma mesma série, mas todas as turmas em torno de uma mesma realidade (Ibid., loc. cit., grifo nosso).
Em todo o PPC essas são as principais colocações envolvendo integração e interdisciplinaridade. Apesar do PPC utilizar os dois termos dizendo que busca a integração e a interdisciplinaridade, não fica claro a conscientização de quais são as diferenças de um termo para outro. No texto parecem ser usado como sinônimos, o que pode contribuir para que o “trabalho interdisciplinar” também não fique claro nem para os docentes nem para os discentes.