PONTO DE PARTIDA
1. TRAMA CONCEITUAL
1.3. O PRECARIADO, UM SEGMENTO DA CLASSE TRABALHADORA
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componente está representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de bens e aquisitivos, e isto 3) em condições determinadas pelo mercado de bens ou de trabalho (situação de classe).
Assim, credores x devedores. Ou ainda proprietários de bens, dos meios de produção x falta de propriedade, pessoas que trabalham (Marx). Esta seriam as categorias fundamentais de todas as situações de classe, permitindo que Wright (2015) argumente similitude entre Weber e Marx.
Atualmente, as referências mais comuns acerca de classe passam por uma referência ao critério de estratificação social, «medido pela renda e definido pelo acesso diferenciado ao consumo no mercado». Já as referências acerca de classe enquanto organização coletiva ou, ainda, na disputa do espaço de produção e nas próprias relações laborais que aspiram um sentido de classe, são ínfimas. Encontramos sobre
«“classe A, B, C” etc. ou sobre novas e velhas “classes médias” [e um pouco menos sobre
“ricos” e “pobres”)» em todos os espaços de comunicação, mas também em debates e discursos políticos e, inclusive, em «elaborações acadêmicas». É «cada vez mais raro o emprego de expressões como “classe trabalhadora”, “classe operária” ou “proletariado”
[assim como são raras as referências a “burguesia” e “classe dominante”)» (Mattos, 2019:9). Parece haver uma omissão da configuração de classe típica desse sistema, e dos conflitos sociais fundamentais nos quais vivemos imersos. Esse «reducionismo impede a compreensão de classes sociais em sua articulação com a totalidade da dinâmica social», das «relações que homens e mulheres, vivendo em sociedade, estabelecem entre si para produzir e reproduzir-se socialmente» (idem).
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separar a classe trabalhadora e o precariado, seria supor que seus interesses são diversos, com interesses materiais distintos (com base nas análises marxista e weberiana). Na dimensão de lutas por direitos laborais, não evidenciamos isto. Interesse difere de preferências, e a interpretação de Standing pode servir como ferramenta de uma elite que se apropria deste sectarismo para dizer o que a massa trabalhadora precisa, ao invés de corroborar com uma luta coletiva63 por interesses e preferências.
O nosso ponto é que o precariado é a representação da complexificação das mutações no campo do trabalho, que vem se intensificando com o neoliberalismo, e, atualmente, após a pandemia e a sua crise que acaba por se intensificar com a guerra energética no leste da Europa. Ao pensarmos em um breque dessa fluidez e flexibilidade que se aguçam nas relações laborais, a divisão de classes não parece ser uma estratégia acertada. Wright (2015:197) cita Davis Grusky e Kim Weeden e explana sobre o marco de análise das microclasses; compreendendo que as pessoas que trabalham numa mesma ocupação, possuem uma mesma microclasse. Entretanto, defendemos que, a luta da classe trabalhadora deveria ser primeiro compreendida enquanto a união de todas as pessoas que trabalham e que, também se incluem nessas microclasses. Ao pensarmos enquanto uma união, uma massa de pessoas que trabalham, há um corpo muito maior na disputa por direitos64.
Wright (2015:198) faz uma analogia que a busca pelos interesses materiais objetivos no capitalismo pode ser concretizado ao nível de um jogo em si («juego mismo»), ao nível das regras do jogo e dos movimentos no curso do jogo. O fundamento base do marxismo enquanto uma teoria social são alternativas emancipadoras do capitalismo, a partir da tríade analítica das «conexiones entre las clases, la crítica del capitalismo y las alternativas emancipadoras65» (idem: 148). O autor propõe resolver este questionamento de como poderemos «especificar claramente los intereses de la gente en la estrtuctura socioeconómica existente en relación con una alternativa tan
63 Conforme Mário Branco: «Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular / Somos sete rios, rios de certeza / Vamos lá cantando no fragor da correnteza / Eu vi este povo a lutar / Para a sua exploração acabar / Sete rios de multidão / Que levavam a História na mão».
64 Há aquele ditado de que «uma andorinha não faz verão», no nosso caso, «uma pessoa trabalhadora não faz transformação».
65 Tradução livre: «conexões entre classes, a crítica do capitalismo e alternativas emancipatórias».
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abstracta como el “socialismo”?66». A partir da identificação de «una serie de situaciones dentro de las relaciones de clases del capitalismo que se dan, de algún modo, simulaneamente en más de una clase67». Ou seja, concretamente das relações «de dominación y explotación, algunas situaciones pueden ser simultáneamente dominadas y dominadoras, o explotadoras y explotadas68». Essa ideia compõe o que Wright (2015:199) chama de «situaciones contradictorias dentro de las relaciones de clase», estas que tem interesses contraditórios, que apontam direções opostas, onde os interesses materiais da classe são definidos pelo jogo do capitalismo frente ao socialismo.
O nível das regras do jogo («las reglas del juego»), Wright (idem) corresponde ao problema do interesse de classe referentes ao conjunto de normas que contribuem ao sistema econômico, visto que há pessoas que em algumas situações continuam jogando o jogo do capitalismo. Baseando-se na análise weberiana de classes, onde o conceito era utilizado na descrição das desigualdades geradas em relação ao mercado.
O capitalismo, portanto, seria o único jogo possível (Wright, 2015: 149). Por exemplo, na variação e alteração de normas na Segurança Social69, desmantelando a política pública e a sua rede de apoio as pessoas. «La cuestión es que podamos definir los intereses materiales y, con ello, la posición de la gente en la estructura de clases con respecto a esas variaciones de las reglas del capitalismo y no solamente sobre el juego del capitalismo en sí mismo». Portanto, a análise se fundamenta na definição das
«categorías relevantes de gentes situadas en lugares similares en relación con la variedad de las reglas del juego» (idem).
66 Tradução livre: «especificar os interesses das pessoas na estrutura socioeconômica existente em relação a uma alternativa tão abstrata como o "socialismo"?».
67 Tradução livre: «uma série de situações nas relações de classe do capitalismo que ocorrem, de alguma forma, simuladas em mais de uma classe».
68 Tradução livre: «de dominação e exploração, algumas situações podem ser simultaneamente dominadas e dominadoras, ou exploradoras e exploradas».
69 Aqui também se enquadraria, como exemplo recente, a proposta de alteração das pensões em Portugal, com o novo pacote apresentado pelo PS em setembro de 2022. Disponível em:
https://expresso.pt/economia/2022-09-12-Pensoes.-Qual-e-o-problema--Por-que-se-debate-a-sustentabilidade-da-Seguranca-Social--465d0d18. Acesso em: 13 de setembro de 2022.
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Sobre o nível dos movimentos no jogo («los movimientos del juego») o problema dos interesses das microclases no modo de análise durkheimiano (Wright, 2015:149), ou seja, o movimento dos jogadores no jogo. «Mientras no haya una perspectiva real de cuestionar las reglas generales del juego, sus intereses seguirán siendo distintos y fragmentarios durante la mayor parte del tiempo» (idem).
A partir desta metáfora do capitalismo como um jogo podemos compreender que aos níveis do jogo, numa perspectiva em que há a possibilidade de uma socialista e democrática, o precariado e a classe trabalhadora estão na mesma posição na estrutura de classes (ao nível do jogo em si). As ambiguidades em relação à alteração de regras que seriam benéficas para a classe trabalhadora, mas prejudiciais ao precariado (regras do jogo), Wright (2015: 203), configurando, por exemplo, numa acentuação do dualismo de mercado de trabalho pode ter como efeito colateral a estabilização de empregos e acentuação de empregos precarizados. Entretanto, «estas ambigüidades son la base pra considerar que el precariado es un segmento específico de la classe obrera» (idem - grifos do autor). Os vários segmentos da classe trabalhadora compartilham interesses gerais e diferem sobre as prioridades em relação às alterações das regras do jogo, havendo também a possibilidade de interesses contraditórios. Ao considerar as situações específicas na estrutura de classes, tencionadas pelos vários segmentos nela existentes (microclasses), há a possibilidade de considerarmos que o precariado e a classe trabalhadora tenham classes diferentes em função da disputa dos movimentos ideais para os interesses de classe. Entretanto, a classe trabalhadora deixa de ser uma classe ao reduzi-la a definição de classe que compreende dos movimentos no jogo; além disso, o próprio precariado está dividido em categorias diferentes e com diferentes interesses (Wright, 2015: 204).
Deste modo, o autor (idem:205) apresenta duas possibilidades de inserção do precariado: a) ou como uma parte da classe trabalhadora enquanto a função de análise são as regras básicas do jogo desenvolvido pelo capitalismo do século XXI; b) ou, em função aos movimentos do jogo, ser considerado como um agregado de diferentes situações de classe, se esta define-se enquanto de função de interesses homogêneos de setores. Portanto, o precariado como o segmento da classe trabalhadora mais crescente
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e o mais prejudicado pelo capitalismo neoliberal, pode ser um potencializador nas lutas sobre as regras do capitalismo e sobre o próprio capitalismo. A importância de pensarmos, e identificarmos, enquanto um segmento da classe trabalhadora é a importância do reconhecimento da sua condição real e do que fazer a partir disto.