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PONTO DE PARTIDA

1. TRAMA CONCEITUAL

1.1. O TRABALHO

1.1.1. Ramificações do conceito Trabalho 54

É fato a importância da Convenção de 1999 da Organização Mundial do Trabalho (OIT), a qual define princípios a serem implementados ao nível mundial e cunha o conceito de Trabalho Decente. Contudo, devido ao impacto da constante flexibilização disseminada pelo avanço do neoliberalismo, parece não dar margem para haver uma efetiva implementação e compromisso das instituições na implementação destes princípios cunhados pela OIT. A regulação, a partir destes princípios, encontraram grande resistência das organizações que dela participam. Apesar de ter sido aceita, segundo Anner e Caraway (2010), a regulação tem sido tratada de forma secundarizada desde então.

Trazemos extensões do conceito Trabalho para a reflexão, os quais foram cunhados e criados para configurar como outras possibilidades de organização do trabalho nas mutações do sistema, e dos impactos do neoliberalismo no mundo do trabalho. Superficialmente, poderíamos separar os conceitos de Trabalho Decente e de Trabalho Justo/Fairwork numa perspectiva de ações concretas e possibilidades alternativas ao neoliberalismo e à sua capacidade de flexibilização do sistema de produção e da sua influência nas relações laborais. O conceito de Trabalho Precarizado poderia ser considerado como a caracterização «das entranhas dessas transformações desregulamentadas e perversas que vem se aprofundando na sociedade».

1.1.1.1. Trabalho Decente55

54 Uma versão deste subtópicos foi publicada em: MACHADO, Tainara F (2022). Trabalho decente, justo e precarizado: uma reflexão sobre conceitos laborais. In: LAZZARIN, Helena; LAZZARIN, Sonilde; SEVERO, Valdete (Orgs.) A centralidade dos Direitos Sociais [recurso eletrônico]. Porto Alegre, RS: Editora Fi.

Disponível em: https://www.editorafi.org/ebook/451centralidade. Acesso em: 9 de agosto de 2022.

55 Uma versão deste subtópicos foi publicada em: MACHADO, Tainara F (2022). Trabalho decente, justo e precarizado: uma reflexão sobre conceitos laborais. In: LAZZARIN, Helena; LAZZARIN, Sonilde; SEVERO, Valdete (Orgs.) A centralidade dos Direitos Sociais [recurso eletrônico]. Porto Alegre, RS: Editora Fi.

Disponível em: https://www.editorafi.org/ebook/451centralidade. Acesso em: 09 de Agosto de 2022.

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O Trabalho Decente é a sintetização da «missão histórica» da OIT e de sua representação mundial, em que aglutina os princípios defendidos pela organização, no sentido de «promover a luta e a consciência da importância de relações laborais», ou seja, um trabalho produtivo que seja de qualidade; um trabalho decente. Além da promoção desses princípios, é reivindicada a garantia das condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas. Estas que são, conforme a organização, as condições fundamentais de superação da pobreza, de redução das desigualdades sociais, da garantia da governabilidade democrática e do desenvolvimento sustentável.

Há quatro objetivos estratégicos da OIT que representam o ponto de convergência, representados pelo Trabalho Decente. São eles:

1. o respeito aos direitos no trabalho, especialmente aqueles definidos como fundamentais (liberdade sindical, direito de negociação coletiva, eliminação de todas as formas de discriminação em matéria de emprego e ocupação e erradicação de todas as formas de trabalho forçado e trabalho infantil); 2. a promoção do emprego produtivo e de qualidade; 3. a ampliação da proteção social; 4. e o fortalecimento do diálogo social56.

Historicamente (Anner e Caraway,2010), a OIT é a organização internacional mais antiga em funcionamento a defender princípios, normas e direitos laborais. Porém, mesmo com este peso histórico e reconhecimento em diversas dimensões sociais, ainda não foi possível a garantia de implementação e efetivação desses princípios, normas e direitos laborais num sentido amplo. Para isso, a OIT busca apoio em organizações que comprometem-se em implementar e concretizar o que é decidido nas suas Convenções.

Although the ILO cannot compel countries to comply with international labor standards, it has gained in influence as a number of more powerful international organizations have begun to defer to it, including the World Bank, the IMF, and the Organization of Economic Cooperation and Development (OECD) (idem, 2010:152)57.

56 Retirado de: https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-decente/lang--pt/index.htm. Acesso em 02 de novembro de 2021.

57 Tradução livre: “Embora a OIT não possa obrigar os países a cumprir as normas trabalhistas internacionais, ela ganhou influência à medida que várias organizações internacionais mais poderosas

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Mesmo assim, a promoção de uma Agenda do Trabalho Digno e a do Pleno Emprego não ganham muito impacto no debate e nas agendas de desenvolvimento social dos países e das organizações na totalidade. Uma das possíveis causas pode ser princípios conflitantes com o funcionamento atual do sistema económico e com o avanço do neoliberalismo.

This may be because this social determinant of health (and human right) conflicts so directly with neoliberalism, the dominant global ideology and policymaking framework. Neoliberalism is an ideology of market fundamentalism, which posits that economic growth is the sole avenue to development and social progress and requires reducing labor protections, among other actions that result in exploitation of workers, to successfully compete in the global marketplace58(MACNAUGHTON;

FREY, 2018:45)

Além de um processo econômico, há um processo ideológico que rege o sistema capitalista e que exerce influência nos regimentos e transformações das relações laborais, principalmente nas crises cíclicas que fazem parte do sistema capitalista (Harvey, 1989). A sua máxima é a flexibilização, esta que tem extravasado, inclusive, as fronteiras laborais e se adentrado em terras das relações pessoais (conforme refletimos no capítulo A ordem e a Desordem). O avanço do neoliberalismo e, consequentemente, da cidade neoliberal (Wacquant, 2014) evidencia um ponto limítrofe da implementação e manutenção deste conceito regido pela OIT.

1.1.1.2. Trabalho Justo — Fairwork59

começaram a adiar para ela, incluindo o Banco Mundial, o FMI e a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).”

58 Tradução livre: “Isso pode ser porque esse determinante social da saúde (e do direito humano) entra em conflito tão diretamente com o neoliberalismo, a ideologia global dominante e o quadro político. O neoliberalismo é uma ideologia do fundamentalismo de mercado, que afirma que o crescimento econômico é o único caminho para o desenvolvimento e o progresso social e requer a redução das proteções trabalhistas, entre outras ações que resultam na exploração dos trabalhadores, para competir com sucesso no mercado global”.

59 Uma versão deste subtópicos foi publicada em: MACHADO, Tainara F (2022). Trabalho decente, justo e precarizado: uma reflexão sobre conceitos laborais. In: LAZZARIN, Helena; LAZZARIN, Sonilde; SEVERO, Valdete (Orgs.) A centralidade dos Direitos Sociais [recurso eletrônico]. Porto Alegre, RS: Editora Fi.

Disponível em: https://www.editorafi.org/ebook/451centralidade. Acesso em: 09 de Agosto de 2022.

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Os princípios do Trabalho Justo – Fairwork – podem ser considerados como

«uma sequência de ação dos princípios do Trabalho Decente criado pela OIT». Aspiram representar «ações concretas de regulamentação de empresas» com o intuito de garantir condições laborais dignas às pessoas que trabalham. Configura-se, então, como uma rede de regulamentação e de pontuação de plataformas digitais de trabalho, visando promover um certificado de promoção e execução de um trabalho justo;

podendo também ser considerada uma forma de consciencialização para os trabalhadores sobre os seus direitos laborais.

A metodologia dessa rede de regulamentação se dá a partir de pesquisa documental, entrevistas com gestores de plataformas e entrevistas com as pessoas que trabalham nas plataformas digitais de trabalho. Conforme o relatório anual do Fairwork (2020), essa é uma abordagem tripla que

fornece uma maneira de verificar as afirmações feitas pelas plataformas, ao mesmo tempo que oferece a oportunidade de coletar evidências positivas e negativas de várias fontes. As pontuações finais são decididas coletivamente pela equipe do fairwork com base em todos os três tipos de informações. As pontuações são revisadas por pares da equipe do país, pela equipe de Oxford e dois revisores de equipes de outros países. Essa abordagem traz consistência e rigor ao processo de pontuação. Os pontos são atribuídos somente se houver evidências claras em cada subitem.

Em sequência a essas 3 abordagens, é realizada uma pontuação das empresas, conforme o sistema de pontuação que está na tabela abaixo, que visa medir a equidade do trabalho fornecido pelas empresas de plataforma.

Tabela 3 - Sistema de pontuação Fairwork

149 Fonte: Fairwork (2020) — Relatório Anual.

A avaliação, conforme a tabela, é realizada por meio dos 5 princípios do Trabalho Justo — Fairwork. Estes foram inicialmente desenvolvidos num seminário com partes interessadas na OIT.

O projeto Fairwork, coordenado pela Universidade de Oxford e presente em diversos países (...), construiu, em consonância com a OIT, cinco princípios de trabalho decente em plataformas digitais, seja nas ruas ou em casa: 1) remuneração; 2) condições de trabalho; 3) contratos; 4) gestão; 5) representação. O objetivo do projeto é destacar as melhores e piores práticas da economia de plataformas em cada país, ao passo em que busca imaginar e concretizar outros mundos possíveis60.

Os entrevistados, Rafael Grohmann e Mark Graham, argumentam que o foco em formas de regulamentação, normalização e implementação de princípios reflete na implementação do Trabalho Digno, um dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). A base, conforme a

60 “É possível trabalho decente em plataformas digitais?” Disponível em:

https://pp.nexojornal.com.br/ponto-de-vista/2021/%C3%89-poss%C3%ADvel-trabalho-decente-em-plataformas-digitais. Acesso em: 02 de novembro de 2021.

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entrevista, fundamental da agenda «para o futuro do trabalho é o deslocamento de um foco excessivo no desemprego e das indagações sobre se os robôs tomarão nosso lugar», visando questões sobre «a deterioração da qualidade do trabalho» e, também, as dinâmicas e estratégias atuais do «subemprego», as quais «nem sempre são captadas pelas estatísticas».

O avanço da flexibilidade e da uberização acarretam a necessidade de mecanismos de regulamentação e promoção de dignidade. O avanço de trabalhos por plataformas digitais em todos os setores (educação, serviços, saúde, etc.) é um fato aguçado e complexificado com a pandemia. Pensar na regulamentação e em alternativas que garantam dignidade e que colaborem com a visibilidade do subemprego e da precariedade do trabalho é importante para mudanças.

Em sua generalidade, portanto, o trabalho pode ser definido como um «conjunto de atividades dotadas de conteúdos específicos», as quais visam um fim específico a partir da mobilização de «determinados meios, instrumentos, conhecimentos e competências». Este pode ser um «ofício, profissão ou ocupação» e ocorre da interação de uma pessoa com ferramentas, objetos; os quais podem ser «coisas materiais, objetos físicos, como ideias, conceitos ou símbolos, isto é, objetos imateriais, intelectuais, ou ainda pessoas e relações humanas» (Gorz, 2005 apud Vargas, 2016:315).

O trabalho é, também, um direito social. É uma política pública regulada por estatutos e leis que visam promover o respeito do empregador e, também, o cumprimento de regras que são independentes às negociações contratuais e de oferta e procura. Essas políticas públicas de regulamentação são, ou pelo menos deveriam ser, a garantia deste direito social (Felgueiras, 2021:109). Contudo, reformas dos direitos laborais e flexibilizações desses parâmetros regulatórios são uma constante nas sociedades atuais; principalmente em momentos de crise.

1.2. CLASSE E TRABALHO PRECARIZADO