A distribuição dos recursos económicos no contexto das sociedades capitalistas e a sua relação com a estrutura social é uma temática que acompanha a teoria social e económica desde o século XVIII até à contemporaneidade. A um nível mais abstracto, a problemática de fundo em que se fundamenta esta tematização prende-se com a lógica de estruturação das “desigualdades categoriais” (Tilly, 2005), quer do ponto de vista da enunciação das categorias constitutivas das desigualdades económicas, quer dos processos sociais, económicos e políticos que as fundamentam.
Adam Smith (2010 [1776]) e David Ricardo (2004 [1848]) defenderam que a distribuição dos recursos económicos nas sociedades capitalista dos séculos XVIII e XIX, respectivamente, obedecia à divisão da estrutura social em três classes socioeconómicas fundamentais: os trabalhadores, que viviam dos seus salários; os capitalistas, cujos recursos económicos consistiam em lucros; e os proprietários de terras, cuja parte do processo produtivo que lhes cabia era o proporcionado pelas rendas. A lógica de distribuição dos recursos económicos obedecia, portanto, à parcela ou porção relativa que cada classe ou factor produtivo garantia para si, sob a forma de um tipo de recurso económico particular.
Segundo Adam Smith, à medida que o capital se foi acumulando, os empregadores, os que acumularam capital, começaram a pagar aos trabalhadores e a procurar fazer lucro com o valor desse trabalho ou com o que o trabalho acrescenta ao valor dos materiais. Enquanto nas sociedades pré-industriais cada indivíduo tendia a ser um agente económico auto-suficiente, com a divisão do trabalho e a intensificação do comércio o indivíduo passou a produzir apenas uma pequena parte do cabaz de produtos que consome. A quantidade de trabalho necessária para a produção de um dado bem é a medida real do valor dos bens comerciais. Nesse sentido, a situação de riqueza ou
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pobreza de cada um define-se em função da quantidade de trabalho que se comanda ou a que se tem capacidade para comprar aquando da aquisição de um dado produto.
Para Ricardo a determinação das leis que regulam a distribuição dos rendimentos entre os factores de produção é o objectivo central da economia política. Tal como Adam Smith, defende que o preço dos bens é relativo e decorre em última instância da quantidade de trabalho necessário para produzir cada um. O volume produtivo não define a variação da parcela do rendimento obtido por cada classe, pois a distribuição relativa do rendimento num caso de duplicação da produção seria a mesma se cada uma das classes mantivesse a mesma percentagem do lucro, das rendas e dos salários anteriores. Sendo a quantidade de trabalho necessária para a produção de um dado produto a medida real na determinação do seu preço, a variação da porção do rendimento obtido por cada classe no processo produtivo depende, em grande medida, do preço do trabalho. O preço natural do trabalho, segundo o autor, é o necessário para garantir a “subsistência e perpectuação da raça, sem aumentos nem diminuições” (idem: 52). O preço de mercado do trabalho tende a conformar-se ao seu preço natural e depende de dois elementos fundamentais: a oferta e a procura de trabalho; o preço dos bens nos quais os salários são gastos. Atentando apenas naquele primeiro elemento, Ricardo previu que os salários tenderiam a baixar, pois o nível de oferta de mão-de-obra não se iria alterar, enquanto a procura conheceria uma ligeira diminuição. Contudo, ao contemplar na análise esta segunda componente da formação do preço do trabalho, o autor acaba por considerar que o preço dos salários conheceria um aumento. Essa tendência dever-se-ia ao aumento da população e da procura agregada, que faria aumentar o preço dos produtos a uma taxa superior à obtida pelo factor trabalho. Tal como as rendas da terra aumentariam devido à “crescente dificuldade de se fornecer uma quantidade de comida adicional com a mesma proporção na quantidade de trabalho” (idem: 58), também os salários apreciar-se-iam devido a essa causa. Mas enquanto os rendeiros beneficiariam não só do aumento das rendas pagas pelas terras, como do próprio preço dos alimentos – que trocariam por outros bens cujo preço não aumentaria ou não aumentaria tanto –, os trabalhadores seriam confrontados com uma diminuição do seu rendimento real. Neste sentido, Ricardo previu que o crescimento das rendas aumentaria acima do valor da apreciação do valor de mercado do milho e os salários evoluiriam abaixo desse patamar, o que significa que a porção do rendimento dos rendeiros iria aumentar em relação à detida pelo factor trabalho. O facto de os
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salários subirem implicava, de acordo com a sua previsão, que a porção do rendimento detido pelo capital tenderia a diminuir. O facto de a produção de uma mesma quantidade de um bem implicar uma quantidade maior de trabalho, devido às capacidades limitadas da terra, significa que a porção do lucro gerado no processo produtivo diminuiria face à detida pelo factor trabalho. Embora a quantidade do lucro possa aumentar em termos agregados, a sua parcela relativa diminui face à porção dos salários. O autor previu, assim, que os únicos “vencedores reais” do processo de distribuição do rendimento pelos factores de produção iriam ser os proprietários das terras (idem: 75).
Esta perspectiva tem como universo empírico de referência uma sociedade ainda predominantemente agrária e atribui à produção agrícola um papel central da definição das trocas comerciais, dos preços e na fundamentação das causas subjacentes à distribuição do rendimento pelos três factores de produção. Tanto David Ricardo como Adam Smith entendem esse processo distributivo como sendo “exterior” às forças e aos interesses de cada uma das classes nele envolvidas. A distribuição do rendimento depende de processos intrinsecamente económicos, sem que as classes que deles beneficiam, ou não, tenham uma influência “activa” na sua determinação.
Karl Marx enquadrou a análise da distribuição do rendimento entre classes sociais no processo mais vasto de industrialização das economias europeias mais desenvolvidas, e conceptualizou essas mesmas classes sociais como protagonistas colectivos na definição, através do conflito interclassista, da distribuição do rendimento. A oposição entre os capitalistas, detentores dos meios de produção, e os trabalhadores, detentores apenas da sua força de trabalho, decorria da distribuição desigual do rendimento gerado pelo processo produtivo entre esses dois factores. Mais concretamente, tinha na sua origem a exploração económica por parte da classe capitalista da mais-valia do trabalho assalariado. Ou seja, uma parte do rendimento que devia ser paga aos trabalhadores através dos seus salários era indevida e injustamente apropriada pelo capital sob a forma de lucros. Apesar de na sua vasta obra surgirem referências a uma estrutura de classes formada por várias fracções de classe e de sublinhar o cariz distinto do perfil socioeconómico da pequena burguesia e dos pequenos proprietários (detinham propriedade, mas não exploravam a mão de obra proletária nem eram explorados pelos capitalistas) face à burguesia e ao proletariado, o autor defendeu que essa polarização
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era a característica fundamental da estrutura social das sociedades industrializadas e que com o seu avanço as camadas intermédias dessa estrutura tenderiam a proletarizar-se.
Esta visão dual da estrutura social e das oposições sociais, económicas e políticas a ela associadas é o contributo seminal do autor para a emergência da sociologia das classes e da estratificação social. A distribuição dos recursos entre os membros de uma sociedade fundamenta-se em relações sociais de exploração económica e dominação simbólica, que dão lugar a desigualdades de rendimento e de condições de existência entre os indivíduos de acordo com o lugar que desempenham no processo produtivo. A acumulação dos recursos económicos por parte da burguesia e a precarização das condições de existência do proletariado são as duas faces da mesma moeda. A desigualdade assume-se como um fenómeno relacional, que opõe no plano material e simbólico (a consciência de classe) categorias de indivíduos cujo traço distintivo fundamental é a relação com a propriedade, mais concretamente, com os meios de produção. Era esse o fundamento da estratificação social e a exploração de uma classe pela outra assumia-se como a sua consequência necessária.
Ricardo e Marx produziram uma visão “apocalíptica” (Piketty, 2013: 21) sobre as sociedades em que viveram, a qual se baseava no facto de defenderem que as elites económicas tenderiam a apropriar-se inevitavelmente de uma porção cada vez maior da riqueza produzida e do rendimento. O primeiro entendia que essa elite era formada pelos rendeiros, os proprietários das terras. O princípio estruturante da desigualdade económica crescente era a raridade de terras e o necessário aumento das rendas que o crescimento da população implicava. Para o segundo, que nasceu e escreveu algumas décadas mais tarde, os beneficiários desse processo eram os capitalistas industriais. Ao contrário da terra, os instrumentos de produção nas sociedades industriais (máquinas e outros equipamentos) não eram finitos, o que significava que a acumulação crescente do rendimento e riqueza por parte da burguesia não teria limites materiais. Na previsão de Marx, o problema da acumulação “infinita” no sistema capitalista prendia-se com os limites sociais da distribuição crescentemente desigual do rendimento, pois o enriquecimento de um grupo social implicava o consequente empobrecimento de outro(s) grupo(s): se essa acumulação conduzisse à redução das taxas de lucro então existiriam confrontos no interior da própria burguesia; se o aumento da parte dos ganhos de capital significasse a diminuição dos rendimentos do trabalho, então o conflito seria entre os proprietários dos meios de produção e o operariado – ou seja, o capitalismo e o
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sistema de desigualdades que o sustentava iriam “criar inevitavelmente os seus próprios coveiros” (Hobsbawm, 2001: 247). De qualquer forma, “nenhum equilíbrio socioeconómico ou político estável é possível” de acordo com o modelo de análise marxista (Piketty, 2013: 28).
Neste sentido, ao contrário de Adam Smith, que confiava que a mão invisível dos mercados era uma garantia de equilíbrio do modo de funcionamento das sociedades capitalistas, Ricardo e Marx entendiam que as contradições desse sistema conduziriam necessariamente a uma falência do mesmo.
Estes dois autores conceberam, portanto, o aumento das desigualdades económicas como uma tendência inelutável associada à acumulação desproporcionada da riqueza produzida por parte de um dos factores de produção. No início da segunda metade do século XX, a problemática das desigualdades económicas e sua evolução no longo prazo é reequacionada por Simon Kuznets. De acordo com o autor, a evolução das desigualdades económicas nas sociedades desenvolvidas conheceu três fases distintas. Num primeiro momento, no qual a agricultura era a principal actividade económica e as populações vivam essencialmente no espaço rural, o nível de desigualdade económica entre a população era comparativamente baixo. Com o processo de industrialização e urbanização, dá-se um aumento da desigualdade económica. Tal deveu-se, na perspectiva de Kuznets, não só às desigualdades de rendimento per capita entre os trabalhadores rurais e os que se empregaram na cidade, mas também às elevadas desigualdades económicas verificadas entre a população das cidades: a pauperização das condições de existência dos mais pobres era acompanhada pela criação de novas fortunas, o que significava um aumento da concentração do rendimento nos grupos mais ricos da população. Numa terceira fase, marcada pela consolidação dos processos de industrialização e urbanização, as desigualdades tenderam a diminuir, devido essencialmente ao aumento do rendimento dos grupos da base da distribuição. Este fenómeno terá decorrido de várias causas. Por um lado, as populações urbanas “nativas”, isto é, nascidas na cidade, conseguiram tirar maior partido das possibilidades oferecidas pela vida urbana face ao verificado entre as primeiras vagas de migrantes rurais e estrangeiros. Por outro, o aumento do poder político detido pelos grupos de rendimento mais baixo nas sociedades democráticas favoreceu a produção de legislação que instituiu mecanismos de apoio e protecção social – o que contribuiu para o aumento da proporção do rendimento detido por esses grupos (Kuznets, 1955).
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Os intervalos históricos que marcam cada uma destas fases é variável entre os três países analisados por Kuznets (Inglaterra, Alemanha e EUA), mas o sentido da evolução é comum. Embora o autor reconheça que apenas 5% do artigo em que desenvolve esta tese seja baseado em “informação empírica” e 95% consista em “especulação” (idem: 26), esta é uma teoria que marcou o pensamento económico contemporâneo, em particular ao nível da análise dos efeitos distributivos do crescimento económico. Nas sociedades capitalistas avançadas, marcadas por processos de industrialização e urbanização amadurecidos, o crescimento económico tenderia a favorecer níveis de igualdade económica superiores ao verificado nas fases iniciais desse advento histórico. Esta é uma teoria “happy ends” (Piketty, 2013: 30), no sentido em que defende que o amadurecimento do sistema capitalista conduz à produção de uma estrutura de distribuição dos rendimentos mais igualitária.
Ao definir e explicar a lógica da evolução das desigualdades económicas nas sociedades mais desenvolvidas, a teoria de Kuznets contribuiu para a legitimação do modelo de desenvolvimento seguido nesses países. No final, de acordo com o modelo do U invertido, o crescimento económico conduziria à redução das desigualdades. O autor defendeu esta tese em meados da década de 1950, um período marcado por níveis de desigualdade relativamente baixos em vários países ocidentais, em resultado da II Guerra, mas também da implementação de políticas redistributivas eficazes ou da forte influência exercida pelos sindicatos na regulação das relações laborais que aconteceu em alguns países. Variáveis que, portanto, nada têm a ver com a questão da mobilidade intersectorial usada por Kuznets para explicar a lógica evolutiva autossustentada do crescimento económico. De facto, como mais à frente se demonstrará, a realidade encarregou-se de desmentir, ou pelo menos de complexificar, o olhar mecanicista, linear de Kuznets acerca da evolução das desigualdades económicas no interior dos países.