• Nenhum resultado encontrado

Capítulo II – Beat Street: a construção de um sentido

2.1. Anos 80: a constituição da cidade do hip hop

2.1.1. O primeiro contato e a ocupação do centro …

No início dos anos 80, a indústria cinematográfica norte-americana realizou uma série de filmes que abordou de forma espetacular o hip hop. Naquele país, isso significava um início de comercialização e difusão daquela cultura, antes restritas aos guetos, para diversos países do mundo. Dentre os vários produzidos, o filme Breakdance39 foi responsável por transformar a dança em um verdadeiro “modismo” na cidade de Belo Horizonte. Ele serviu como um importante meio de informação e aperfeiçoamento

39 Lançado em 1984, com direção de Joel Silberg, o filme Breakin’ chegou ao Brasil com seu título europeu: Breakdance: The Movie. O filme narra os encontros e desencontros de uma jovem pobre que é garçonete de dia e que à noite dança break. Dando continuação ao sucesso do filme, no mesmo ano foi filmado Breakin’ 2: Eletric Boogaloo. Para mais informações, ver: http://us.imdb.com/Title?0086998.

técnico para sujeitos que já praticavam o break antes de sua estréia. Todavia, o que lhe deu grande destaque foi a forma como os sujeitos se apropriaram das salas de cinema como verdadeiro espaço de sociabilidade. Ali, nos corredores e halls, grupos de jovens se reuniam para dançar nos intervalos de uma sessão a outra e tentar imitar os passos vistos ali – de técnica bem mais apurada do que a realizada na Praça da Liberdade e nos bailes da periferia. Dentinho vivenciou este momento e nos esclarece:

Passou um pouco essa fase da Feira veio o primeiro filme de break, “Breakdance”. Quando veio o filme, todo mundo meio que tomou um susto. “Pô, tá todo mundo equivocado”. Aí todo mundo começou a correr atrás do filme. Só tinha no cinema. Tinha dois cinemas que passvam. A estréia foi no Jacques, teve apresentação do Break Crazy lá fora no cinema. Depois que todo mundo viu o filme, todo mundo falou: “Esses caras não sabem dançar porra nenhuma”. (...) Foi para o Cine Brasil ficou um tempinho, um mês. (...) Depois foi para o Cine Odeon, na Floresta. O pessoal entrava duas da tarde, que era o primeiro horário, e saía de lá no último, que era dez da noite. (...) Dava intervalo do filme, saía todo mundo lá fora e ficava dançando nos corredores, na frente dos espelhos. Passou essa coisa do filme, todo mundo aprendeu a dançar.

O diálogo entre o cinema e a sociedade, através do qual esta última se apropria e recria sentidos expostos pelo primeiro, não é algo novo. Neste caso, este filme significou um estreitamento da ligação entre o hip hop belorizontino e suas origens norte-americanas. O que é fundamental observar é que foi justamente uma das redes internacionais (no caso, uma distribuidora de filmes) a responsável por difundir formas simbólicas que, uma vez apropriadas e ressignificadas no local, traduzem algo que vai além da simples diversão e “alienação”. “Hoje essas redes não são unicamente o espaço no qual circulam o capital, as finanças, mas também um “lugar de encontro” de multidões de minorias e comunidades marginalizadas ou de coletividades de pesquisa e trabalho educativo ou artístico. Nas grandes cidades, o uso das redes eletrônicas tem permitido a criação de grupos que, virtuais em sua origem, acabam territorializando-se, passando da conexão ao encontro e do encontro a ação” (BARBERO, 2003, p.59). Mesmo narrando a experiência da internet, podemos nos apropriar desta fala de Barbero para pensarmos a forma dialógica que marca a relação entre mídia e vida social. De maneira intensa, todo aquele “estilo de vida” foi conformado e experimentado através da comunicação, iniciando um movimento cultural de b-boys locais que não se resumia aos jovens da

periferia, aos herdeiros do funk e do soul, mas, ao contrário, uma grande parcela da juventude passou a se expressar através da dança.

Aos poucos, essa forma de lazer e diversão foi se transformando em ferramenta de reivindicação de determinado grupo social e, assim como originalmente observado em Nova Iorque, a reconstrução de um espaço e tempo próprios para a identidade. O que antes era apenas mais um fenômeno midiático, passou da “conexão ao encontro e do encontro à ação”. Paulo Coisa, hoje proprietário de uma das principais “lojas de hip hop” de Belo Horizonte, na época iniciante no break, nos conta como essa apropriação ocorria: “No filme Breakdance, a gente viu os rachas entre outros grupos. Aí a gente começou a idealizar: a gente pode ser um contra o outro mas todo mundo amigo (...). Mas na hora de dançar, um malhava o outro, querendo que o outro falasse com a gente: “Ah! Não, vocês ganharam...” (apud Dayrell, 2001, p.46).

A partir deste filme, atitudes de disputa começaram a fazer parte do dia a dia dos jovens dançarinos da capital, uma herança das gangues novaiorquinas passava a ditar a dinâmica do break na cidade. A partir de agora, todos se entendiam enquanto b-boys e, em parte, o que isso significava: fazer parte de um movimento (que, no entanto, ainda não se tinha certa clareza que se chamava hip hop).

Após o filme, a Praça da Liberdade voltou a ganhar força e vários sujeitos, provenientes de várias partes da cidade, eram vistos dançando lá ou em seus bairros. O modismo foi automaticamente reconhecido pela mídia local, que passou a abordar o assunto em suas páginas e noticiários. Ao mesmo tempo, revistas especializadas eram lançadas no país, abordando temas como a história, técnicas e principais dançarinos nacionais e internacionais. A primeira delas era chamada “Break”. Segundo Dentinho,

Na época da moda, foi lançada a revista Break, falando sobre Rio e São Paulo. O Break Crazy fez um protesto. Na época, encontrou todos os dançarinos ali na praça Afonso Arinos. Foi o primeiro encontro de break que surgiu. (...) Isso saiu até no Fantástico. A partir desse protesto surgiu o Pop Pastel. O pesoal viu: “Pô, Belo Horizonte tem um movimento”. (...) Por causa desse movimento surgiu o BH Canta e Dança, que foi idéia do Pelé. Muita gente do hip hop odiou o Pelé. Mas o Pelé tem seu mérito. Ele ajudou muito. Então, ele começou o BH Canta e Dança em 85. Quando caiu o hip hop em BH não aconteceu mais nada em BH, o único lugar que a

gente [nessa época, Dentinho fazia parte do grupo Break Crazy] apresentava era o BH Canta e Dança, a gente sabia que o break ali tinha seu espaço, por causa do Pelé.

A partir dos protestos na praça Afonos Arinos, o movimento de b-boys organizado pelo grupo Break Crazy migrou da Praça da Liberdade para o Pop Pastel. Ali, já num ambiente mais “profissional” (pois havia sonorização profissional alugada e espaço próprio) vários grupos podiam se apresentar livremente. O local, durante a moda, tornou-se referência para os b-boys da cidade. Era o principal espaço de encontro e de disputas, como nos pontua Dentinho:

Aí o Break Crazy organizou o primeiro encontro de break formal na rua, foi no Pop Pastel na Savassi, no meio de 84, mais ou menos nessa época. Bem no começo, eles dançavam em frente ao 5ª Avenida, eles eram patrocinados pela loja Nash. Começaram a fazer esse encontro no Pop Pastel e tinham patrocinadores e começaram a ter uma estrutura mesmo. Era democrático, botavam o som na rua, sempre foram um grupo democrático, eles foram o grupo que conseguiu patrocínio. (...) Começo do EKIPE 1, que dava sonorização aqui. Colocaram umas caixinhas de som lá em cima de uma Kombi – ligava no Pop Pastel. O Pop Pastel dava a energia e as lojas começaram a patrocinar e o som comia ali. (...) Abria a roda e BH inteira ia para a Savassi dançar todo domingo à tarde. Até então a coisa foi crescendo, mas estava muito nos parâmetros da moda. Mas a gente já sabia alguma coisa. Sabia que os caras que dançavam eram de bairros pobres, desenvolviam o grafite, que a música que acompanhava o dançarino era o rap, mas um rap muito mais “funkeado”, mais voltado para o funk, mas essas informações a gente já sabia. A gente não sabia como isso era tão junto assim, como isso era tão unido.

O Pop Pastel trouxe uma série de novos significados àqueles sujeitos. Foi ali que se iniciou a descoberta de que o break, na verdade, era parte de um movimento cultural mais amplo chamado de “hip hop”. A dança se consolidou em Belo Horizonte, fazendo da cidade uma referência nacional no apuro técnico e fez com que ela não se tornasse algo efêmero para os sujeitos que a praticavam (pois muitos vislumbraram, observando o próprio Break Crazy, uma chance de se profissionalizar e seguir carreira artística). Paralelamente ao Pop Pastel, esses jovens, que dançavam na Savassi durante os finais de semana à tarde, retornavam aos seus bairros e iam aos tradicionais bailes dos bairros com seus grupos para expor a “nova dança” que, aos poucos, tomava conta da cidade.

Assim, os antigos grupos de dançarinos de soul e funk passaram a conviver com os b-boys e, também, com um novo tipo de música que era tocada para que estes pudessem dançar. Belo Horizonte, portanto, passava a ter seu primeiro contato, dentro dos bailes, com os raps produzidos por Afrika Bambaataa e, principalmente, “Rappers Delight”, considerado o primeiro single de rap e que se tornou um grande hit na capital, no início dos anos 80. Aos poucos, esse ritmo “denso” e “rápido”, o breakbeat, passava a substituir seus antecessores no gosto da nova geração de dançarinos que surgia. Muitos deles, que viram seus irmãos mais velhos utilizando calça boca de sino e cabelo black power, entravam na adolescência ouvindo as músicas nas emissoras de rádio dos primeiros rappers mundiais. Dessa forma, o break passou a tomar conta dos bailes, tornando-se o principal ritmo dançado já em meados de 80.

Esse processo de consolidação do break nos bailes realizados nas periferias de Belo Horizonte é fundamental para entendermos a forma como o próprio hip hop se estruturou. Em função disso, prender-nos-emos a esse momento de transição.