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5 O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO SUBSISTEMA JURÍDICO

5.3 O princípio constitucional do desenvolvimento sustentável

Idêntico tratamento reclama o princípio em questão, porém, antes far-se-á sua contextualização.

Poder-se-ía determinar a origem-símbolo do princípio constitucional do desenvolvimento sustentável nos termos do Relatório “Nosso futuro comum” ou Relatório Brundtland, 59 como restaram conhecidas as conclusões da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas.

Conforme tal conceito, o desenvolvimento sustentável é “[...] aquele que satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades”. (SANTILLI, 2005, p. 30).

A constitucionalização brasileira do ambiente e da atividade econômica operou-se nessa linha, permeando também as leis ordinárias (GAVIÃO, 2005, p. 21), havendo, a partir de então, disposições de direito ao desenvolvimento sustentável.

Várias interrogações podem surgir e envolver sua programação legislativa constitucional.

Talvez a mais pertinente seja a que diz respeito ao princípio fundamental constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Nesses termos, este necessitaria do ideal do desenvolvimento sustentável para sua efetivação? Seria, por assim dizer, a própria base do ambiente ecologicamente equilibrado?

A cautela cerca qualquer resposta.

A humanidade, a não ser coagida por fatores alheios à sua vontade de grandíssimo vulto, não apresenta quaisquer sinais de que simplesmente abdicaria por completo de seu modo de vida atual, atrelado ao oferecimento de bens e serviços vinculados a outro tipo de processo de elaboração e prestação.

O simples retorno à natureza, voluntário, nem é cogitado – até porque não estar-se-ia mais tratando de desenvolvimento –, e outro modelo real de processo constitui, por ora, mera quimera ou promessa.

59 Então primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland coordenou os trabalhos da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas à época das suas conclusões. Apenas por curiosidade, a Noruega integra a pequena lista de apenas quatro Estados europeus os quais mais intensamente se comprometeram com a redução da desigualdade internacional, aplicando a determinação de repasse de 0,7% do seu PIB anual para o desenvolvimento dos países periféricos. Enquanto tal percentual se reduz para 0,25% nos demais países desenvolvidos, cai para 0,1% nos Estados Unidos. (KLIKSBERG, 2003, p. 155).

Por outro lado, qualquer resposta passa pela observação dos próprios elementos constitucionais, estes sinalizando de forma parcialmente positiva.

Os princípios e objetivos fundamentais, trazidos nos arts. 1º e 2º, combinados principalmente com os direitos sociais do art. 6º, apontam o desenvolvimento sustentável com ênfase no art. 170, VI, como meio de assegurar o ambiente equilibrado sem deixar de observar a pessoa, suas necessidades básicas e as de padrão moderno. Ainda mais pelo assegurado no inciso V, do § 1º, do próprio art. 225 da Constituição Federal.

No entanto, qualquer entendimento favorável não logra embasar a ideia de designação do desenvolvimento sustentável, como único meio de realização do meio ambiente equilibrado, a citar o princípio da cooperação entre os povos, como exemplo disso, também disposto constitucionalmente no art. 4º, IX, já que as agressões ao meio ambiente não se limitam a fronteiras territoriais.

Tal sentença em nada abala a vital importância do ideal de desenvolvimento sustentável para a proclamada programação constitucional, e a expectativa social em torno, sendo notória e imperativa a imediata consecução do disposto na Constituição Federal, referente ao tema com os devidos sopesamentos, implicando seu aperfeiçoamento e melhor concretude nas diversas frentes e palcos.

No que se refere ao alcance e sentido para fins de aplicação do princípio, valem algumas observações.

Pela definição da expressão alienígena desenvolvimento sustentável, então recepcionada pelo sistema jurídico pátrio, o fator desenvolvimento econômico deve estar atrelado aos aspectos sociais e ambientais em regime de compatibilização positiva, levando, em simples e recortado exemplo, a um não comprometimento irreversível dos recursos naturais.

Seguindo no exemplo em questão, deve-se dizer que o processo de elaboração e prestação de bens e serviços, em vigência, compromete qualidade e quantidade dos recursos naturais existentes, então fundamentais para o equilíbrio do ambiente, seja natural, seja artificial.

A instalação de filtros em chaminés de fábricas, a correta disposição dos resíduos, entre outras atividades em idênticos patamares, não ultrapassam a superficialidade das ações necessárias atreladas às metas do desenvolvimento sustentável.

Insuficiente, portanto, é respaldar o próprio princípio do desenvolvimento sustentável somente no artigo constitucional 170, VI, ou no 225, § 1º, V, ou em seu conjunto. O adequado é associar ditas normas ao caput do art. 225 da Constituição Federal – como salientado antes,

direito fundamental do homem –, que dispõe sobre um meio ambiente ecologicamente equilibrado, destinado a todos, inclusive a gerações de pessoas que nem foram concebidas, com um alcance e sentido constitucional muito maior, portanto.

Em suma, qualquer reconstrução do direito em si mesma deve considerar o princípio constitucional do desenvolvimento sustentável, enclausurado com o princípio fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, prestando uma formatação de leitura interpretativa mais apropriada.

Na sequência, e considerando referido entrelaçamento, pode-se dar tratamento àquele como a envolver obrigações de cunho objetivo aos Poderes Públicos, esta de rubrica dos direitos a prestações. (SARLET, 2008, p. 13).

Tanto à coletividade como ao Estado brasileiro recaiu o dever de preservação e defesa do direito fundamental a meio ambiente equilibrado, acrescido este último de várias tarefas assecuratórias em prol da efetividade, transformadas em objetivos estatais, com funções preventivas, restauradoras e de ascensão ambiental, consistinda uma delas no nomeado desenvolvimento sustentável.

Em outros dizeres, o desenvolvimento sustentável como objetivo estatal revela seu elemento de realização quando atrelado, complementado e fortalecido no direito fundamental a meio ambiente equilibrado.

Condição, no entanto, reveladora de polêmica, tanto em sentido amplo como estrito. A exemplificar: o indivíduo, amparado nos dizeres acima, poderia obter do Estado a realização das medidas de particulares ou do Estado, caso detivesse recursos financeiros suficientes?

Para esse questionamento alguns casos jurisprudências brasileiros vem repelir a vinculação direta do Poder Judiciário, restringindo a matéria aos demais Poderes.

A isso se acresce uma visão de restrição aos direitos de segunda e terceira dimensão, ou seja, não configurariam estes pretensões jurídicas concretas como os de primeira geração, restando apenas a estrutura de mandamento constitucional, a conferir atenção à disponibilidade orçamentária, trazendo à tona o custo dos direitos. Seria a própria imprecisão dos normativos a limitá-los insuficiente à especificação prévia das ações a serem realizadas. (GAVIÃO FILHO, 2005, p. 151).

A fim de afastar tais fatores implicativos, Gavião Filho (2005, p.152), valendo-se da decomposição analítica, socorre-se da teoria dos princípios, a afastar o “tudo ou nada” pelo sopesamento, ferramenta adequada quando se tratar de colisão de princípios. Na teoria sistêmica autopoiética, o procedimento é semelhante, e, muito embora já enfrentado em tópico

antes, vale o reforço ao indicar os princípios constitucionais desprovidos de hierarquia, a serem regulados pela proporcionalidade quando da decisão a contemplá-los.