Strawson e Russell *
5. O problema da referência
A partir de 1950, a questão da referência tornou-se recorrente no âmbito filosófico anglo-saxão, e Quine também interveio na diatribe após a publicação de Introduction to Logical Theory. Quine
reconhece que a linguagem ordinária permite a existência de lacunas nos valores de verdade (truth value gap), que para a lógica formal
são inadmissíveis e devem, portanto, ser evitadas; portanto, problemas como o da função referencial das expressões surgem na linguagem ordinária, mas não encontram espaço na lógica formal. Como resultado, a crítica dirigida a Russell não tem valor pela simples razão de que a teoria das descrições definidas não pretendia representar o uso ordinário da linguagem (Quine, 1953).8
Mais tarde, em 1971, uma coletânea de ensaios sobre o problema de referência e comentários diretos ou indiretos sobre os artigos de Strawson e Russell foi publicada por Leonard Linsky (1971). Linsky, que já havia lidado com o assunto em um volume anterior, tenta compatibilizar as teses dos dois contendores, observando que Strawson não teria compreendido a diferença entre proposição e afirmação e, por conseguinte, teria criticado
8 Strawson (1971b, p. 75-95) retoma o conceito de truth value gap em Identifying Reference and
Truth-Values de 1964. Sobre o confronto entre Strawson, Russell e Quine também interveio Haight
Russell como se tivesse tratado de afirmações, ao passo que ele se referia exclusivamente a proposições ou enunciados. “A teoria de Russell está interessada na análise de certa classe de proposições, enquanto a abordagem de Strawson é uma teoria sobre afirmações. Strawson não discute a diferença entre afirmações e proposições” (Linsky, 1967, p. 90).9 De fato, de acordo com Linsky,
uma proposição é uma unidade de significado que é verdadeira ou falsa, como aliás Wittgenstein afirmou no Tractatus, enquanto
uma afirmação pode ser desprovida de valor de verdade. Deve-se notar, no entanto, que Strawson pretende negar que existem proposições factuais que sempre e em qualquer caso têm um valor de verdade, independentemente do contexto em que são usadas, na verdade ele afirma inequivocamente que “dar o significado de uma frase é dar instruções gerais para seu uso ao fazer afirmações
verdadeiras ou falsas” (Strawson, 1971a, p. 9). De acordo com Strawson, a proposição como tal não tem nenhum valor de verdade, mas apenas um significado.
Linsky argumenta contra a análise oferecida em On Referring, comparando a lógica formal com a geometria euclidiana;
de fato, ninguém considera a geometria falsa porque os ângulos do triângulo desenhado no quadro negro, se medidos com um instrumento preciso, somam mais de 180°. Da mesma forma, “a lógica não é refutada pela descoberta de que há afirmações que não chamaríamos de verdadeiras ou falsas, mas (digamos) exageradas, vagas ou imprecisas. Mas isso é exatamente o que Strawson faz quando ele critica a lógica Russelliana” (Linsky, 1967, p. 9). É curioso notar que a mesma metáfora foi usada por Strawson em
Introduction to Logical Theory, quando descreveu a lógica formal
como um apaixonado geômetra, com a intenção de desenhar um mapa de um território com limites irregulares e mutáveis, construindo mapas que correspondem apenas aproximadamente ao original. Para Strawson (1952), no entanto, ao contrário de
Linsky, a linguagem ordinária é o original, do qual deriva a lógica formal que só pode ser uma aproximação destinada a esclarecer apenas algumas características, as mais salientes. Para Linsky, por outro lado, a linguagem ordinária nunca pode invalidar, com sua imprecisão, as leis do cálculo formal que representa a perfeição e o modelo a ser desenvolvido.
Linsky, portanto, não esconde sua simpatia por Russell, sustentando que os argumentos com os quais Strawson critica Russell são em parte incorretos e em parte compatíveis com a teoria das descrições. Em particular, Linsky julga errada a tese segundo a qual um enunciado como “O atual rei da França é sábio” não tem um valor de verdade porque o sintagma denotativo “o atual rei da França” não pode se referir a nada e, portanto, na falta da referência, falta a condição necessária para atribuir um valor de verdade ao próprio enunciado. Linsky (1967) responde que, mesmo que a pressuposição existencial não fosse satisfeita, ainda seria possível referir-se a algo, por exemplo, no caso de alguém dizer a uma solteirona que seu marido é gentil com ela, referindo- se a alguém que ele acredita ser o marido da mulher, mesmo que realmente ele não o seja.
Keith Donnellan, embora se declarando de acordo com Linsky, observa que ele não faz distinção entre uso atributivo e uso referencial de uma descrição. No primeiro caso, o falante pretende afirmar algo sobre qualquer pessoa ou coisa que satisfaça a descrição; enquanto que quando a descrição é usada de forma referencial, ela tem apenas a tarefa de chamar a atenção para uma pessoa ou coisa. “No uso atributivo, o atributo de ser tal e tal é extremamente importante, ao passo que não o é no uso referencial” (Donnellan, 1966, p. 285).10 Para esclarecer sua
posição, Donnellan dá um exemplo: Smith, a quem conhecemos como uma pessoa excelente, foi brutalmente assassinado e nós
10 Sobre a diferença entre uso referencial e uso atributivo, ver Ramachandran (2008, p. 241-256), no
qual ele defende a abordagem de Strawson. Para um recente balanço sobre o debate a respeito da análise das descrições definidas, ver Orlando (2009, p. 43-158).
ignoramos quem o matou. Se alguém dissesse: “O assassino de Smith é um louco” faria um uso atributivo da descrição, e então, no caso em que a condição existencial não fosse satisfeita, não haveria ninguém a quem atribuir o predicado “é um louco”, e então Strawson teria razão de considerar esta afirmação destituída de um valor de verdade. Suponhamos, em vez disso, que o homicídio de Smith tenha sido imputado a Jones, e que ele, por causa de seu comportamento estranho, induz a alguém a dizer que “o assassino de Smith é louco”; nesse caso, mesmo que Jones não fosse o assassino de Smith, o enunciado certamente seria verdadeiro ou falso, já que alguém fez realmente referência a Jones, embora através de uma descrição errada. Donnellan (1966, p. 297), portanto, conclui que
nem a teoria de Russell nem a de Strawson representa uma abordagem correta do uso das descrições definidas – a de Russell porque ignora completamente o uso referencial, a de Strawson porque não consegue fazer a distinção entre o uso referencial e o atributivo e mistura as verdades sobre cada um dos usos (junto com algumas coisas que são falsas).
Em minha opinião, além dos aspectos individuais da controvérsia, o cerne da divergência entre o famoso lógico e o jovem, então desconhecido, Strawson, está na atenção aos “problemas do uso” da linguagem, que para Strawson, na esteira do que Wittgenstein argumentou nas Investigações filosóficas,
estão no centro da reflexão filosófica, ao passo que são intencionalmente ignorados por Russell, que, como se sabe, não gostou do retorno de Wittgenstein à linguagem ordinária. De fato, desde a primeira produção de Strawson, emerge o interesse por um problema que Russell não levou em consideração, a saber, o problema das relações entre os sistemas lógico-formais e as características lógicas do discurso ordinário. Não é por acaso que Strawson dedica o volume de 1952 precisamente “para ressaltar alguns pontos de contraste e de contato entre o comportamento
das palavras no discurso ordinário e o comportamento dos símbolos em um sistema lógico” (Strawson, 1952, prefácio).