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Uso referencial e uso atributivo da linguagem

No documento P. F. Strawson e a tradição filosófica (páginas 153-156)

Strawson e Russell *

4. Uso referencial e uso atributivo da linguagem

No que diz respeito ao segundo acento crítico, Strawson observa que Russell assimila enunciados contendo uma expressão univocamente referencial e enunciados univocamente existenciais. O filósofo de Cambridge, como Leibniz de outra maneira, tentou tratar no âmbito da lógica em sentido estrito tanto da implicação da unicidade quanto a da existência (Strawson, 1971a, p. 20). Seu erro deriva de dois mal-entendidos: por um lado, a falta de distinção entre o enunciado ou expressão referencial e seu uso e, por outro, o não reconhecimento do uso univocamente referencial da expressão, distinto do uso predicativo ou atributivo.

Como a linguagem é usada para muitos propósitos diferentes, incluindo o de “declarar fatos sobre coisas, pessoas e eventos”, precisamos evitar tanto a pergunta “O que (de quem, de que) você está falando?” como a pergunta “O você está dizendo sobre ele (ele, ela)?” (Strawson, 1971a, p. 17). Evitar a primeira

7 Segundo Baumgartner (2010, p. 32-33), na base do desacordo entre Strawson e Russell há uma

espécie de paradoxo, na verdade “o formalismo lógico só pode ser utilizado para identificar os argumentos válidos se as formalizações concernentes tiverem sido firmemente justificadas e tais justificativas só puderem ser feitas se a validade dos argumentos concernentes tiver sido determinada antes de formalizá-los. O paradoxo da justificação não afeta apenas argumentos com descrições definidas. Encontra-se no centro de toda a interação problemática entre as línguas formais e naturais”.

pergunta equivale a referir-se a algo ou identificar alguma coisa; evitar a segunda pergunta equivale a atribuir algo ao que está sendo falado. É preciso distinguir, portanto, o uso referencial da linguagem do uso atributivo ou descritivo ou atributivo, que serve antes para classificar; por conseguinte, deve-se reconhecer que os requisitos convencionais para o uso referencial correto das expressões são diferentes das convenções que regulam o uso correto das mesmas expressões.

O requisito exigido pela aplicação correta de uma expressão em seu uso atributivo é simplesmente que a coisa à qual a expressão se refere tenha certas características; o requisito exigido pela correta aplicação de uma expressão em seu uso referencial diz respeito à relação entre a coisa referida e o falante, bem como o contexto em que ocorre o proferimento (utterance). Para o uso

referencial de uma expressão, o ouvinte ou leitor deve ser capaz de identificar aquilo de que se está falando.

Ao assegurar este resultado, o contexto de proferimento é de uma importância que é quase impossível exagerar; e por ‘contexto’ quero dizer, pelo menos, o tempo, o lugar, a identidade do falante, os assuntos que formam o foco imediato de interesse, e as histórias pessoais tanto do falante quanto daqueles a quem ele está se dirigindo. Além do contexto, há, é claro, a convenção; a convenção linguística (Strawson, 1971a, p. 19).

Portanto, o valor de verdade do enunciado não pode ser independente do contexto de proferimento.

Em 1957, Russell respondeu ao colega mais jovem, rejeitando duramente seus ataques e acusando-o de ter confundido dois problemas que ele sempre considerou distintos: o problema das descrições e o problema do egocentrismo, ou seja, aquela propriedade que compete a algumas palavras de serem em si mesmas indeterminadas e poderem ser determinadas apenas em relação ao sujeito que as usa e à sua experiência subjetiva. Um desses termos é justamente aquele do qual a controvérsia se

origina, de fato, ‘atual’ determina seu significado apenas em relação a quem o usa e quando é usado. Russell (1957, p. 385) observa, no entanto, que em uma linguagem técnica, indispensável para fins técnicos, devemos reduzir ao mínimo os elementos egocêntricos, então seria suficiente substituir o termo “atual” por um termo mais preciso, por exemplo, “em 1905”, para tornar completamente vã a polêmica de Strawson.

Parece-me, ao invés, apesar de adotar a substituição sugerida por Russell, que o problema permanece intacto, pois mesmo o sujeito do enunciado “em 1905 o rei da França era careca” seria sem referência e, portanto, de acordo com a análise de Strawson, o enunciado seria usado para fazer uma afirmação nem verdadeira nem falsa. Provavelmente, no entanto, o verdadeiro objeto da controvérsia é outro, como Strawson sugere quando ele observa que os lógicos negligenciaram ou entenderam mal as convenções relativas à referência; essa lacuna deve-se, por um lado, à preocupação com as definições e, por outro, à preocupação com os sistemas formais. Quanto ao primeiro ponto, uma definição normalmente diz respeito à identificação das condições para o correto uso classificatório ou descritivo de uma expressão. Portanto, se a busca do significado é identificada com a busca de uma definição, é inevitável não levar em consideração convenções diferentes das atributivas: “os lógicos não perceberam que os problemas do uso são mais amplos do que os problemas da análise e do significado” (Strawson, 1971a, p. 20).

No caso da teoria das descrições, no entanto, a segunda preocupação que vem da lógica formal e da matemática parece mais relevante. De fato, quem se dedica aos cálculos – e não tem interesse nas afirmações factuais – aborda a lógica aplicada com o preconceito para quem as convenções que são adequadas no campo que lhe é familiar, isto é, o da lógica pura, também devem sê-lo em campo diferente, isto é, no das afirmações factuais.

Em conclusão, Strawson acredita que Russell tenha sido vítima de três mal-entendidos que o induziram ao erro. Em

primeiro lugar, o autor de On Denoting pressupõe que um

enunciado só é dotado de significado quando há algo a que o sujeito lógico se refere; além disso, ele não parece compreender a distinção entre um enunciado e o uso de um enunciado, entre uma expressão e o uso de uma expressão, com a consequente confusão entre significado e referência; finalmente, um último mal- entendido diz respeito à assimilação da classe dos enunciados univocamente referenciais àquela dos enunciados univocamente existenciais, devido à falta de reconhecimento do uso referencial, e não apenas predicativo, das expressões.

No documento P. F. Strawson e a tradição filosófica (páginas 153-156)