O processo de concentração do capital tem-se radicalizado nos últimos vinte anos. A crise do “Estado do Bem Estar Social” constituído no pós-guerra e o fim da União Soviética abriram passagem para as teorias de
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FREUD, S. “Proyecto de Psicología”. Obras Completas. Vol I (1895) Trad. José L. Echeverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1985.
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LIBERMAN, D. et al. Del cuerpo al simbolo: sobreadaptación y enfermedad psicosomática. Buenos Aires:
Hayek12, segundo as quais a crise do sistema capitalista acontece em função da força de trabalho organizada, obrigando o estado aos gastos sociais. De acordo com sua visão, a desigualdade é um fator necessário para o desenvolvimento. Com isso, propõe a retirada de qualquer regulação externa ao mercado. Este passa a ser absolutamente livre, em que, evidentemente, o grande capital sempre é hegemônico, ditando a vida em todas as modalidades no atual processo de globalização, comandado pelos países centrais, por meio de políticas econômicas de estado e de organismos internacionais, tais como: FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), etc. Segundo Octávio Ianni13, os estados nacionais vão, cada vez mais, perdendo sua independência e as relações internacionais são realizadas, diretamente, pela força do capital transnacional. As decisões passam muito mais pelos escritórios dos grandes conglomerados empresariais do que pelos governos. Há, portanto, um forte declínio dos estados nacionais e a constituição de uma cultura e consumo uniformes nos setores de alto valor agregado dos mercados locais. Isso constitui uma fatia de território globalizado. Assim, sempre é possível reconhecer-se nessa fatia em qualquer cidade do mundo, em um shopping center ou em um Mc Donald’s. São os mesmos pratos, os mesmos gostos, a mesma arquitetura.
Quanto a esse processo, é muito interessante o trabalho desenvolvido por Isleide Fontenelle14. Ela mostra-nos, a partir de um estudo muito detalhado da história e estrutura da empresa Mc Donald’s, como o Capitalismo, neste momento histórico, deu um passo à frente no processo de dominação e concentração. Utilizando-se da análise marxista, da Escola de
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SADER,E.; GENTILI, P. (Orgs). Pós-Neoliberalismo. As Políticas Sociais e o Estado Democrático. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1995.
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IANNI, O. Teorias da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1996.
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FONTENELLE, A. I. O Nome da Marca. McDonald’s, Fetichismo e Cultura Descartável. São Paulo:
Frankfurt, Freud, Lacan e Zizzek, a autora mostra-nos como o fetichismo da mercadoria absorve cada vez uma quantidade maior de trabalho vivo, de substância humana, deixando o homem, contemporâneo e globalizado, esvaziado e com a insegurança do desconhecimento de si. Isso ocorre na medida em que o importante para o Capitalismo não é a real satisfação das necessidades e desejos humanos, e sim o lucro e a captura do sujeito na falsa necessidade, por conseguinte, na falsa satisfação. A marca, no caso o Mc Donalds, funciona como um aparente preenchimento desse vazio e uma realização de desejo ilusória, assim como um falso reconhecimento por parte do outro. Ela passa a ocupar a mesma função psíquica que a droga: um alívio imediato que não transforma e gera dependência.
O sujeito esvaziado busca reconhecer-se no outro e pelo outro no consumo de uma única marca, sempre igual, em um espaço arquitetônico igual, com o mesmo atendimento, o mesmo sorriso. Ele reconhece-se em qualquer lugar do mundo ao consumir um hambúrguer. Isso lhe dá uma identidade, um pertencer a um mundo. Assim, consumir um hambúrguer passa a ser a busca da realização de um desejo, a fuga do vazio, a busca do reconhecimento enquanto ser humano.
Portanto, no mundo globalizado, encontramos um salto qualitativo no avanço do Capitalismo. Sua hegemonia agora vai além do processo produtivo. A venda da marca é o consumo de um produto que faz o sujeito falsamente reconhecer-se como humano e como incluído no mundo. Uma visão ingênua pode pensar que, quando um adolescente mata para roubar um tênis Nike, é simplesmente a banalização da violência. Não é. Trata-se da busca do reconhecimento enquanto sujeito social no imaginário da marca.
Outro autor que traz uma importante contribuição à compreensão do processo de globalização é o geógrafo Milton Santos. Ele contrapõe uma
ordem global a uma ordem local. A ordem global é o neoliberalismo, a concentração financeira, da dominação por uma verticalidade que se origina de pontos em rede, ligados às regiões centrais da economia do planeta e que desterritorializa o cotidiano. Essa ordem global prima pela informação, pela velocidade, pela fluidez com que penetra e transforma a ordem local, gerando uma imensa massa de excluídos. Sua principal característica é a fragmentação do território, ocorrendo, também, pela velocidade da informação que não pode ser processada.15
Em contraposição à ordem global, há a ordem local. Esta se caracteriza pela horizontalidade, pela territorialidade, pela contigüidade, é o espaço banal, cotidiano. É onde se dá a intimidade, a solidariedade, a cooperação, a emoção, a afetividade, a comunicação. Para Milton Santos, cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente.
Essa inserção do capital internacional no território local dos países dependentes acontece por meio das políticas de juros altos, da hegemonia do sistema bancário sobre o setor produtivo, do pagamento de divisas pela dívida externa e, também, da perda nas trocas internacionais ocasionadas pela abertura indiscriminada do mercado aos produtos estrangeiros. Ainda como fatores desse processo econômico, agregam-se as políticas de desregulamentação do trabalho.
Nesse processo, há uma aparente plenitude democrática. Mas, na verdade, ele altera todos os vínculos e institui um autoritarismo e uma fragmentação mais fortes, mais velada, não menos pior que a que tínhamos na ditadura militar. O cidadão fica à mercê da economia mais pura de mercado,
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SANTOS, M. “O Retorno do Território”. In: Território – Globalização e Fragmentação. Orgs. Milton
cuja ética é a ausência de lei e da supremacia absoluta e impune do mais forte. Assim, o poder que o superior hierárquico adquire sobre o seu subordinado é extraordinário, mais ainda o patrão. A perda do emprego trará um impacto enorme sobre a vida do sujeito e da família. Há que se submeter.
Todo esse processo econômico cria a descapacitação profissional pela introdução da alta tecnologia, a perda direta do emprego e a exclusão do mercado de trabalho para aqueles de mais de 40 anos, hoje considerados velhos. O mesmo ocorre com o jovem que está obrigado ao trabalho infantil e está impedido, tanto pela ausência direta de emprego, como pela exigência de alta capacitação, de penetrar no mercado de trabalho. A exclusão se dá então nas duas pontas geracionais da família.
O desemprego faz com que seja quase impossível uma família não se fragmentar quando o pai perde o trabalho e os filhos adolescentes não têm como entrar no mercado profissional. Em um grande numero de casos agora é a mulher que sustenta a família. As crianças e jovens são empurrados para a violência e para o tráfico de drogas como única possibilidade de sobrevivência. Os pais, ao perderem o emprego, vão para o abismo do mercado informal, sem nenhuma garantia. Quando a mãe sai de casa pra trabalhar as crianças ficam abandonadas no bairro ou presas dentro de casa pois não há uma estrutura social de cuidado à criança como creches, escolas adequadas, que permita à mãe trabalhar.
O processo econômico produz, também, um forte impacto quando o sujeito percebe, aos 40 ou 50 anos de idade, que seu trabalho não vale mais no mercado globalizado. Há que se perguntar, entre outras tantas coisas, como fica essa figura paterna empurrada à submissão e à decadência dentro do âmbito da família. A que lei se submete o filho se esse homem agora é tão fraco? E a relação matrimonial? Enfim, todos esses temores e fantasias afetam
agora diretamente as relações de trabalho e as relações familiares. A fantasia da ruptura iminente permeia ambos os vínculos.
Como se vê, é muito difícil a compreensão do sujeito e de sua subjetividade sem uma análise das relações sociais nas quais ele está imerso e é emergente e porta-voz. Diante desse quadro, o trabalho psicanalítico perde a consistência quando não aborda um mundo concreto, construído por relações de produção constituintes do inconsciente e da subjetividade, na medida em que formam a vida humana.