CAPÍTULO 3 – SITUANDO O OBJETO
3.1 O processo de implantação da Visat no Amazonas
A Fundação da Vigilância em Saúde do Amazonas- FVS/AM, instituída pela Lei nº 2.895 de 3 de junho de 2004, vinculada à Susam, foi criada com a finalidade institucional de promoção e proteção à saúde mediante ações de vigilância epidemiológica, sanitária, ambiental e controle de doenças, incluindo educação, capacitação e pesquisa, para a melhoria da qualidade de vida da população amazonense. Em 2005, iniciou suas atividades, com os recursos remanescentes do Departamento de Vigilância Sanitária, composto pelas Gerências de Vigilância Sanitária, Vigilância Epidemiológica, Vigilância Ambiental e do Laboratório Central. A FVS/AM deu sequência a todas as atividades de vigilância em saúde no âmbito do estado, inclusive as atividades de controle das endemias, no entanto, não incorporou a vigilância em saúde do trabalhador.
Em novembro de 2006, o Cerest estadual se mudou para sede própria, porém, na estruturação da Susam continuou como um programa do Departamento de Políticas Estratégicas, à época já transformado em Departamento de Atenção Básica e Políticas Estratégicas, onde constava uma Coordenação Estadual em Saúde do Trabalhador que dá apoio ao Cerest estadual. Essa organização facilitou a interlocução com a rede de atenção básica das secretarias municipais de saúde. No entanto, afastada da estrutura organizacional responsável pelo serviço de vigilância em saúde, dificultou a articulação intersetorial com esse segmento de fundamental importância para Visat.
Já na sede própria, a equipe do Cerest investiu na sua qualificação, iniciando pela realização de uma série de oficinas, com caráter de educação permanente, em que cada categoria profissional apresentou e discutiu com a equipe qual o seu papel no Cerest, refletindo e construindo de forma participativa um novo olhar para a recondução de suas atuações frente às atribuições do Cerest para a proteção da saúde dos trabalhadores, por meio das ações de vigilância. Embora as oficinas tenham sido um momento de grande integração entre a equipe e de efervescência de ideias, as mesmas não se consolidaram na prática.
Simultaneamente investiu-se também na capacitação da rede sentinela em saúde do trabalhador e em treinamentos da rede básica de atenção à saúde. A pequena equipe se dividia e se multiplicava fazendo treinamentos na capital e no interior. Na atenção básica da capital as capacitações eram organizadas pelo Cerest regional de Manaus, que contava com a participação dos técnicos do Cerest estadual para ministrar parte dos treinamentos. Na região do médio Solimões os treinamentos foram assumidos pelo Cerest regional de Tefé, após ser capacitado pelo Cerest estadual. Nos demais municípios, o Cerest estadual realizava com sua equipe dois treinamentos sequenciais, o primeiro para implantação do Nusat e o segundo para
atenção básica. O esforço empreendido resultou na implantação de dezenove Nusat e no aumento das notificações compulsórias de agravos à saúde do trabalhador, embora, ainda não seja possível classificar como satisfatório o desempenho desses serviços.
Em 2010, a Universidade do Estado do Amazonas, em convênio com o Cerest estadual, ofereceu duas turmas do curso de Especialização em Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente. A primeira priorizou, como alunos, os técnicos do Cerest estadual e regionais e a segunda, em 2011, priorizou os técnicos da rede sentinela em saúde do trabalhador. Dessa forma, a partir de 2012, todos os técnicos teriam qualificação como especialistas, superando um problema crônico e crucial para o desenvolvimento das atividades de Visat no Amazonas.
Atualmente, dos vinte e três técnicos de nível superior que compõem o quadro de recursos humanos dos três Cerest do Amazonas, dezessete têm pós-graduação, sendo dez específicas em saúde do trabalhador, cinco em medicina do trabalho e dois em outras áreas afins (Apêndice C).
Em princípio o curso de especialização em saúde do trabalhador deveria ser proveniente de um convênio com a Fiocruz, no entanto a administração pública da Susam não conseguiu superar seus entraves burocráticos e proceder ao contrato com a fundação de apoio da Fiocruz para repasse de recursos financeiros, inviabilizando a realização do curso por essa instituição. Essa situação se repetiu com o curso do controle social em saúde do trabalhador para capacitação de conselheiros de saúde.
O curso de especialização oferecido pela Universidade Estadual tinha como objetivo qualificar os técnicos para o desenvolvimento das ações de Visat, no entanto, a avaliação da primeira turma demonstrou a necessidade de uma abordagem mais prática, que subsidiasse uma formação voltada para as atividades de inspeção nos ambientes de trabalho. Assim, houve uma adequação no conteúdo do curso para a segunda turma, com uma carga horária maior na disciplina de Visat e segundo uma abordagem metodológica baseada na problematização, proposta por Vasconcellos (2009)102, que inclusive ministrou essa disciplina e assumiu a realização de mais dois cursos no âmbito do Cerest, que incluía os alunos da primeira turma do curso de especialização e demais técnicos do Cerest, da vigilância sanitária, ambiental e epidemiológica tanto da gestão municipal quanto estadual.
A partir dessa sequência de cursos iniciou-se, de forma sistemática, um conjunto de ações de inspeção nos ambientes de trabalho, principalmente nos setores da construção civil e da saúde, em decorrência de demanda dos sindicatos e na sequência, do Ministério Público do Trabalho – MPT –, proveniente de denúncias de trabalhadores.
A realização do curso também possibilitou uma maior aproximação entre os servidores da vigilância em saúde do trabalhador e demais vigilâncias, principalmente a sanitária municipal que passou a ter um olhar crítico em relação às condições de trabalho no seu cotidiano, assim como passou a responder as demandas dos Cerest para as inspeções conjuntas quando solicitado, sem impor exigências que dificultassem o processo de organização dos serviços.
Outro setor cuja aproximação com a equipe do Cerest tem gerado bons resultados é a vigilância ambiental que tem coordenado uma ação conjunta com vários órgãos do setor da saúde e agropecuário para o desenvolvimento do plano estadual de atenção integral às populações expostas a agrotóxicos, em cuja execução consta a realização de dois projetos pilotos, um em Manaus e outro em Itacoatiara, que privilegia uma ação intra e intersetorial com valorização da participação dos trabalhadores em todas as suas etapas.
Além das atividades de rotina desenvolvidas nos Cerest, destacam-se os projetos de intervenção direcionados a algumas categorias profissionais tais como estudo sobre estresse em profissionais da rede pública de saúde do município de Manaus, disfonia e condições de trabalho em professores da rede pública de ensino, investigação dos acidentes de trabalho fatais registrados no SIM, melhoria da qualidade da informação no Sinan e SIM, condições de trabalho dos artesãos dos bois-bumbás no município de Parintins e o trabalho das mulheres agricultoras da plantação de abacaxi em Itacoatiara.
Os projetos específicos ou inspeções específicas ainda embora com caráter de iniciativas pontuais, comprometendo a sistematização e o caráter permamente da Visat, inquestionavelmente, demonstram avanços no sentido de desenvolvimento de ações de proteção à saúde nos ambientes e processos de trabalho naquele território pela busca de apropriação de imputar um caráter mais amplo às atividades de Visat uqe até então tinham um cunho mais de análises epidemiológicas e de educação para a saúde.