4 COMPREENDENDO O GÊNERO RESENHA CRÍTICA
4.4 O processo de intertextualidade no gênero resenha
Antes de falarmos sobre intertextualidade, vamos abordar um pouco o conceito de texto. Para isso, recorreremos à Linguística Textual. A apresentação da conceituação de texto servirá como um norte para as discussões acerca da intertextualidade.
Segundo Cavalcante e Custódio Filho (2010, p. 58, grifo nosso), ambos consideram “que o texto emerge de um evento no qual os sujeitos são vistos como agentes sociais que levam em consideração o contexto sociocomunicativo, histórico e cultural para a construção de sentidos.”. O texto, aqui, vem à tona de uma situação comunicativa implicada em um contexto de produção. Sendo que, nas palavras de Marcuschi (2008, p.94, grifo nosso), o texto é o próprio evento: "[...] uma realização linguística, a que chamamos de evento comunicativo, e que preenche condições não meramente formais.".
Ainda nessa ideia de texto como evento comunicativo, Cavalcante e Custódio-Filho (2010, p.60), após uma ampla discussão sobre as concepções correntes de texto, corroborando o que Marcuschi (2008) enunciara sobre a noção de texto, concluíram que
[...] a perspectiva assumida na atualidade investe no entendimento do texto como um artefato dinâmico, daí ser possível tratá-lo como um evento (altamente complexo, como já sugerimos). Essa natureza dinâmica possibilitou uma rediscussão sobre os aspectos envolvidos na dinâmica textual.
Para ajudar a concatenar essa ideia da dinamicidade textual, e até mesmo compreender o texto como um evento comunicativo, este, enquanto unidade comunicativa, deve obedecer a um conjunto de critérios de textualização, já que ele não é um conjunto aleatório de frases, nem uma sequência em qualquer ordem, além de que o sujeito, no ato de enunciação, recorre a um intertexto para organizar sua produção (MARCUSCH, 2008).
Dessa forma, devemos levar em consideração a afirmação de Barthes (1974, apud KOCH, 2012, p.59), de que
O texto redistribui a língua. Uma das vias dessa reconstrução é a de permutar textos, fragmentos de textos, que existiram ou existem ao redor do texto considerado, e, por fim, dentro dele mesmo; todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis.
O sujeito, portanto, recorre a um “universo” intangível para poder articular sua produção. Segundo Beaugrande (1997, apud MARCUSCHI, 2008, p. 95), são três os aspectos articulados para a produção de um texto: “1. aspectos linguísticos (o ato de fala verbalmente produzido); 2. aspectos sociais (a situação sociohistórica [sic] ...); 3. aspectos cognitivos (conhecimentos investidos).”.
Em resumo, produzir um texto mobiliza muitas habilidades, aparentemente imperceptíveis para o sujeito produtor de textos. Segundo Koch e Elias (2010, p. 54),
Produzir textos (e também títulos para esses textos) pressupõe conhecimento textual, além de muitos outros, é claro. E muito desse conhecimento advém das leituras que realizamos com objetivos distintos. Então, se lemos para passar o tempo, manter-nos informados, realizar tarefas escolares ou dominar um tema para reunião, não importa, o que interessa mesmo é que a leitura é indispensável e os textos que lemos compõem um rico repertório que possibilita variadas combinações textuais, estejamos conscientes ou não disso.
No ato de produção, temos acesso a esse repertório adquirido pela leitura, mesmo aquela para passar o tempo. Por isso, nas atividades propostas por nós, utilizamos a leitura sempre como pontapé inicial para o desenvolvimento posterior das atividades, até mesmo da produção escrita. A formação desse repertório é imprescindível para a escrita do gênero resenha, já que, necessariamente, o aluno precisará ter contato com outro gênero (um filme, um romance, uma obra de arte, dentre outros). Logo, "produzir e entender textos não é uma simples atividade de codificação e decodificação, mas um complexo processo de produção de sentido mediante atividades inferenciais." (MARCUSCH, 2008, p. 99).
Após esta breve discussão sobre o conceito de texto, partimos agora para discutir efetivamente a intertextualidade. Primeiramente, queremos defender o motivo de a apresentarmos aqui: nos textos em que predomina a argumentação e/ou a defesa do ponto de vista, "[...] a intertextualidade funciona como recurso de autoridade, pois o que está em jogo na argumentação pretendida é não apenas o dito, mas principalmente o responsável pelo dizer, a credibilidade das fontes selecionadas." (KOCH; ELIAS, 2010, p.43). Em síntese, a intertextualidade, principalmente em sentido amplo, é um processo inerente à escrita, em que o sujeito recorre a um repertório disponível no seu intertexto.
Dando prosseguimento, é importante compreendermos o que é a intertextualidade. Segundo o Dicionário de Análise do Discurso (2004, p. 288), “[...] a intertextualidade é uma propriedade constitutiva de qualquer texto e o conjunto das
relações explícitas que um texto ou um grupo de textos determinado mantém com outros textos”. Sendo assim, a intertextualidade é um fator importante para o entendimento da organização dos tipos de texto e para a identificação dos gêneros discursivos, na medida em que os relaciona e os distingue. Em resumo, a relação com outros textos é primordial no processo de produção textual.
Marcuschi (2008, p. 130) sintetiza a distinção entre intertextualidade e intertexto, o que seria intertextualidade no sentido amplo e no sentido estrito. A saber:
Maingueneau (1984, p.83) distingue entre intertextualidade e intertexto dizendo que o intertexto seriam os fragmentos discursivos que aparecem e a intertextualidade seria o princípio geral que rege as formas de isso ocorrer, isto é, as regras do intertexto se manifestar, que podem ser diversas na literatura, na ciência, na religião, etc. Além disso, o autor distingue entre uma intertextualidade interna (entre discursos do mesmo campo discursivo) e uma intertextualidade externa (entre discursos de campos discursivos diversos, por exemplo, entre o campo discursivo da teologia e da ciência).
Neste sentido, seria como Authier-Revuz (1982, apud MARCUSCHI, 2008) costuma chamar a intertextualidade: heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva. A heterogeneidade mostrada seria a presença de um discurso em outro discurso, de modo localizável e identificável, podendo aparecer na forma não marcada (discurso indireto, indireto livre, paráfrase, pastiche etc), ou na forma marcada (discurso direto, com aspas ou alusão identificada etc.). Já a heterogeneidade constitutiva ocorreria quando o discurso fosse dominado pelo interdiscurso. Trata-se, então, do surgimento de um diálogo interno, que, não necessariamente, vem do exterior. Tal relação confirma a tese defendida por Fiorin (2017), já tratada anteriormente, sobre o dialogismo bakhtiniano.
Para a execução da nossa pesquisa, interessa-nos, apenas, a intertextualidade no sentido estrito, assim como a heterogeneidade mostrada, uma vez que podem ser percebidas no cotexto. Para a produção de um gênero como a resenha, o aluno terá acesso a um texto multimodal, ou multissemiótico. No caso específico da nossa pesquisa, por exemplo, o aluno precisou dialogar diretamente com dois filmes.
Verón (1980, apud KOCH, 2012, p. 61), apresenta o termo “sociossemiológico”, para designar gêneros discursivos multimodais. Nesse caso, o autor,
[...] examina a questão da produção do sentido sob um ângulo sociossemiológico. Para ele, a pesquisa semiológica deve considerar três
dimensões do princípio da intertextualidade: em primeiro lugar, as operações produtoras de sentido são sempre intertextuais no interior de um certo universo discursivo (por exemplo, o cinema); em segundo lugar, o princípio da intertextualidade é também válido entre universos discursivos diferentes (por exemplo, cinema e televisão); em terceiro lugar, no processo de produção de um discurso, há uma relação intertextual com outros discursos relativamente autônomos que, embora funcionando como momentos ou etapas de produção em si, como também sobre o processo de leitura, no nível da recepção. Trata-se segundo Verón, de uma intertextualidade 'profunda', por se tratar de textos que, participando do processo de produção de outros textos, não atingem nunca (ou muito raramente) a consumação social dos discursos.
Para escrever a resenha, o aluno precisa, necessariamente, ter contato com outro texto. Em nosso caso, com os filmes exibidos, para, a partir de então, produzir seu próprio texto. Esse contato, portanto, é uma condição social para a atribuição de valor do gênero. Afinal de contas, como comentar sobre algo a que não se teve acesso? Essa relação anterior ao filme é, enfim, uma condição necessária, porque o gênero resenha apresenta a função primordial de comentar outro texto [multimodal ou não]. Finalmente, podemos concluir, seguramente, que a natureza desse gênero é dialógica, polifônica e intertextual. Neste momento, faz-se necessário diferenciar esses três termos:
Toda intertextualidade supõe o caráter dialógico de todo discurso e o atravessamento de vozes que representam diferentes lugares sociais que se estabilizam e se desestabilizam durantes as interações. Mas a recíproca não é verdadeira: nem tudo o que é dialógico e heterogêneo constitui, necessariamente, um intertexto com suas marcas, reconhecíveis para uns, e nem sempre para outros. (CAVALCANTE; BRITO, 2011, p.260-261).
Já afirmamos e expusemos, no tópico sobre o dialogismo, que este se faz da interação com o discurso do outro, configurando-se como o princípio constitutivo de qualquer discurso. Reforçamos, com este excerto de Cavalcante e Brito (2011, p. 262), que
Vale frisar que nem na primeira acepção o dialogismo se reduz ao diálogo face a face, pois o que Bakhtin propõe é uma teoria da dialogização interna do discurso. Na concepção do autor, a comunicação é muito mais que a transmissão de mensagens. O discurso não é nunca individual, pois, durante a interação, não importa de que tipo seja, em cada enunciado, em cada palavra, ressoam duas vozes, a do eu e a do outro.
No que diz respeito à intertextualidade e à polifonia, vale destacar que, na primeira, a alteridade é necessariamente atestada pela presença de um intertexto: ou a fonte é explicitamente mencionada no texto que o incorpora, ou seu produtor está presente, em situações de comunicação oral, ou, ainda, tratam-se de textos
anteriormente produzidos, que fazem parte de um repertório compartilhado por uma comunidade. Já na segunda [a polifonia], basta que a alteridade seja encenada, isto é: incorporam-se, ao texto, vozes de enunciadores reais ou virtuais, que representam perspectivas, pontos de vista diversos, ou põem em jogo 'topoi' diferentes, com os quais o locutor se identifica, ou não (KOCH, 2012).
Koch (2012, p.73), sobre isso, conclui que “o conceito de polifonia recobre o de intertextualidade, isto é, todo caso de intertextualidade é um caso de polifonia, não sendo, porém, verdadeira a recíproca: há casos de polifonia que não podem ser vistos como manifestações de intertextualidade.”. Por fim, encerramos este tópico com a seguinte afirmação esclarecedora da autora:
[...] confirma-se que, do ponto de vista da construção dos sentidos, todo texto é perpassado por vozes de diferentes enunciadores, ora concordantes, ora dissonantes, o que faz com que se caracteriza o fenômeno da linguagem humana, como bem mostrou Bakhtin (1929), como essencialmente dialógico e, portanto, polifônico (KOCH, 2012, p. 74).
Logo, cabe ao aluno, portanto, harmonizar estas vozes, além de colocá-las para dialogar, com o objetivo de cumprir o propósito comunicativo intentado na sua resenha.
Na seção a seguir, apresentaremos a metodologia utilizada pelo nosso trabalho, para o recolhimento do corpus para análise, assim como a descrição detalhada das nossas atividades.