• Nenhum resultado encontrado

1.3 O PROFESSOR E A INTERNET

1.3.2 O Professor de Hoje

Neste novo contexto e nesta nova exigência por um cidadão crítico, entendemos que é mister, para tanto, um novo conceito pedagógico e, principalmente, um novo professor, que não se limite a transmitir informações prontas e acabadas. As nossas escolas e os nossos educadores precisam se adaptar ao novo contexto social exigido atualmente e mesmo porque, no mundo em

que vivemos, com a velocidade e facilidade de aquisição de informações, não existe mais lugar para o professor que só sabe transmiti-las. Para os alunos, segundo KENSKI (1996, p. 133):

[...] o professor não é mais a única, nem a principal fonte do saber. Eles aprendem, e aprendem sempre, em muitas e variadas situações. Já chegam à escola sabendo muitas coisas, ouvidas no rádio, vistas na televisão, em apelos de outdoors e informes de mercados e shopping centers que visitam desde bem pequenos. Conhecem relógios digitais, calculadoras eletrônicas, videogames, discos a laser, gravadores e muitos outros aparelhos que a tecnologia vem colocando a disposição para serem usados na vida cotidiana.

Assim, acreditamos que o professor precisa assumir o papel central como intermediador do processo de aquisição de informações e elaboração de conhecimentos. A tarefa de passar informações pode ser deixada aos bancos de dados, livros, vídeos, programas em CD, Internet.

Portanto, nesta nova realidade, pensamos que o aluno precisa aprender a pesquisar, a conhecer e a selecionar as informações mais relevantes. E cabe ao professor a tarefa de estimular a curiosidade deste aluno, coordenar o trabalho com as informações coletadas, questionar esses dados e contextualizá-los dentro da realidade dos alunos, e não mais ser o transmissor de informação. Conforme comenta GIRAFFA (1993, p. 3), é importante “Ter cuidado para o professor não fazer as coisas pelos alunos, ser o orientador e não o realizador das tarefas, pois, procedendo assim, o aluno não vivencia a experiência e nem aproveita de maneira devida, o recurso não constrói o conhecimento.”

Tendo em vista que, atualmente, os alunos têm acesso às mesmas informações, bancos de dados, etc. que o professor, entendemos que o papel deste se estende além do ato de coletar a informação, ele também precisa escolhê-la e trabalhá-la com os alunos, confrontando visões, metodologias e resultados. Hoje, as novas exigências educacionais pedem um novo professor capaz de ajustar sua didática às novas realidades da sociedade, do conhecimento, do aluno, das novas tecnologias da comunicação e informação. LIBÂNEO (1998, p. 29) comenta de maneira adequada o papel deste novo professor, agora como mediador do processo de ensino- aprendizagem:

O ensino exclusivamente verbalista, a mera transmissão de informações, a aprendizagem entendida somente como acumulação de conhecimentos, não subsistem mais. Isso não quer dizer abandono dos conhecimentos sistematizados da disciplina nem da exposição de um assunto. O que se afirma é que o professor medeia a relação ativa do aluno com a matéria, inclusive com os conteúdos próprios de sua disciplina, mas considerando os conhecimentos, a experiência e os significados que os alunos trazem à sala de aula, seu potencial cognitivo, suas capacidades e interesses, seus procedimentos de pensar, seu modo de trabalhar. Ao mesmo tempo, o professor ajuda no questionamento dessas experiências e

significados, provê condições e meios cognitivos para sua modificação por parte dos alunos e orienta-os, intencionalmente, para objetivos educativos. Está embutida aí a ajuda do professor para o desenvolvimento das competências do pensar, em função do que coloca problemas, pergunta, dialoga, ouve os alunos, ensina-os a argumentar, abre espaço para expressarem seus pensamentos, sentimentos, desejos, de modo que tragam para a aula sua realidade vivida. É nisso que consiste a ajuda pedagógica ou mediação pedagógica.

Sendo assim, vemos como necessário que os professores modifiquem suas atitudes pedagógicas diante destas novas tecnologias da comunicação e informação, as quais podem ser aliadas muito importantes nesta sua nova função, colocando o aluno num papel mais ativo diante do seu processo de aprendizagem. Foi assim com o rádio, a televisão, o vídeo cassete, a mídia impressa, etc. e, agora, com o computador, os softwares educacionais e, mais recentemente, com a Internet, que vêm acrescentando, no processo educacional, novas dimensões que não estariam normalmente presentes em uma sala de aula tradicional. Para VALENTE (1998b, p. 49):

[...] o computador deve ser utilizado como um catalisador de uma mudança do paradigma educacional. Um novo paradigma que promove a aprendizagem ao invés do ensino, que coloca o controle do processo de aprendizagem nas mãos do aprendiz, e que auxilia o professor a entender que a educação não é somente a transferência de conhecimento, mas um processo de construção do conhecimento pelo aluno, como produto do seu próprio engajamento intelectual ou do aluno como um todo.

Porém, como vimos, a mera introdução destas tecnologias pode ter resultado oposto ao desejado e acabar por reforçar a “escola linha de montagem”, enquanto cria a ilusão de modernidade, ou sermos levados ao que LIBÂNEO (1998, p. 66) se refere como “ilusão tecno- informacional”, em que acredita-se que o computador pode substituir a relação pedagógica convencional, sendo possível a aprendizagem completa apenas com a presença do aluno diante dos equipamentos informáticos: “[...] descaracterizar o sentido da aprendizagem escolar em decorrência da presença das inovações tecnológicas é obviamente um equívoco. O valor da aprendizagem escolar está, precisamente, em introduzir os alunos nos significados da cultura e da ciência por meio de mediações cognitivas e interacionais que supõe a relação docente.” (LIBÂNEO, 1998, p. 67)

Para complementar esta idéia, LION (1997, p. 23-24) apresenta alguns mitos que surgem, então, a respeito da tecnologia educacional:

• a supremacia do valor dos produtos acima dos processos (mito que se cristaliza com a modernidade e que se plasma na separação entre tecnologia e técnica);

• a idéia de que somente por incorporar novos meios, produções, ferramentas e instrumentos nas escolas criamos inovações pedagógicas;

• a ilusão da tecnologia como panacéia ou o reducionismo de vê-la apenas como um mecanismo de controle social. A imagem de uma sociedade em comunicação via satélite, sem fronteiras.

Neste sentido, GIRAFFA (1993, p. 5) afirma que: “A questão fundamental é refletir e fazer um bom uso do computador dentro do processo educacional, enriquecendo a prática do professor e a aprendizagem do aluno.” E complementa:

O problema de como o docente deve introduzir o computador no ensino é bem complexo e deve-se ter cuidado ao abordá-lo, pois se tratando de um recurso rico e poderoso, cuja capacidade e qualidade de exploração a ser feita realmente decidirão sua vida útil no contexto escolar, temos que evitar, justamente, tratar do assunto como se fosse somente uma tecnologia nova e torná-lo um outro mero modismo. (GIRAFFA, 1993, p. 8)

Não podemos esquecer que nem o computador, nem os softwares educacionais e nem mesmo a Internet ou qualquer outra tecnologia da informação tenham o poder de mudar a relação pedagógica, bem como não salvam um projeto pedagógico nem um professor distante da nova realidade. Estes recursos podem facilitar a participação do aluno, mas não a criam automaticamente, pois isto, entendemos, depende do projeto de homem e sociedade que o professor e a escola possuem. Se por um lado uma atividade com os alunos utilizando a Internet, mediada por um professor com visão conservadora e individualista, poderá reforçar ainda mais o seu controle sobre os alunos, por outro lado, um professor mais comprometido com a educação, juntamente com a instituição escolar, poderão encontrar neste recurso um meio de ampliar a interação, a curiosidade e o desenvolvimento do aluno.

Ante a estas questões, podemos concluir que a simples possibilidade de acesso à Internet na escola, bem como atividades preparadas para que os alunos a utilizem em busca de informações e intercâmbios, não asseguram uma melhoria do processo de aprendizagem, pois o fundamental é como elas serão utilizadas por professores e alunos e com que objetivos. E, para que esta utilização se mostre eficaz, o educador ainda precisa analisar e se adaptar à realidade do educando.

Constantemente podemos obter informações através de diferentes fontes, através dos múltiplos apelos da sociedade tecnológica, especialmente da Internet, tanto dentro como fora das escolas, informações estas que vêm de forma global e sem conexão. Entendemos que cabe ao professor concentrá-las e organizá-las, orientar discussões, elucidando o que não foi aprendido pelos seus alunos. Ou seja, aproveitar esta riqueza de informações externas, já trazidas à escola

pelos próprios educandos, mas não apenas para reproduzi-las em sala de aula, fazendo dos estudantes agentes passivos da aprendizagem, e sim como aqueles que conseguem pesquisar,

selecionar e interagir com as informações ativamente. Segundo BRUNER13 e HANNAFIN

(1992), citados por MERCHÁN, MARCOS e PERALES (1998, p. 167): "En lo que concierne a los alumnos, la Internet puede otorgarles un mayor protagonismo y hacerles asumir un papel más activo en el proceso de adquisición de conocimientos. La Internet constituye una invitación abierta a la enseñanza activa donde los estudiantes son a la vez recipientes y generadores de saber"14.

Não podemos ver a Internet como um estoque passivo de informações, mas como uma ferramenta interativa onde o usuário pode buscar, criar, transformar a informação. Ainda segundo MERCHÁN, MARCOS e PERALES (1998, p. 150), “Internet y la World Wide Web están lejos de ser un almacén de información pasivo (como las más modernas bibliotecas). Es además un entorno interactivo en el cual uno sólo busca información, sino que la crea también. Es esta característica interactiva de Internet la que la hace mucho más poderosa que cualquier otro medio de los que hasta hoy inventó la humanidad.”15

Portanto, nesta escola e nesta sociedade repletas de tecnologias de comunicação informação a serviço de seus cidadãos, entendemos que o professor deve se colocar no papel de mediador entre o aluno e a informação, de modo a ser, realmente, um agente facilitador do processo de (re)construção do conhecimento do aluno, transformando uma educação centrada no ensino para aquela centrada na aprendizagem e colocando o aluno num papel ativo neste processo.

13 BRUNNER, J. Actual minds, possible worlds. Cambrige, Harvard University Press, 1986.

14 No que se refere aos alunos, a Internet pode outorgar-lhes um maior protagonismo e fazê-los assumir

um papel mais ativo no processo de aquisição de conhecimentos. A Internet constitui um convite aberto ao ensino ativo onde os estudantes são de uma só vez receptores e geradores de saber

15 A Internet e a World Wide Web estão longe de ser um armazém de informação passivo (como as mais

modernas bibliotecas). É mais um recurso interativo no qual o usuário não só busca informação, mas a cria também. É esta característica interativa da Internet que a faz mais poderosa que qualquer outro meio dos que até hoje inventou a humanidade.