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2 O COLAPSO DA ESFERA PÚBLICA NO NOVO CAPITALISMO: DESAFIOS

4.2 A ESCOLA: ESPAÇO PÚBLICO E DE RESPONSABILIDADE PELO MUNDO

4.2.2 O Professor, o Agir Pedagógico e a Responsabilidade pelo Mundo

Em Arendt (2013) é importante distinguir a autoridade do educador com a qualificação do professor. Na educação, a:

Responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade. A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. [...] A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém, uma autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo à criança: isso é o nosso mundo (ARENDT, 2013, p. 239).

O professor como ator ou como agente da educação, em sua ação pedagógica, tem a responsabilidade de oportunizar a aprendizagem e o conhecimento do mundo63 para os alunos.

63É o conhecimento do mundo que constitui e confere autoridade do professor. “São eles os representantes do mundo pelo qual são responsáveis, mesmo se não o construíram e, ainda que, secreta ou arbitrariamente, desejem que fosse diferente. Essa responsabilidade não é imposta arbitrariamente aos educadores, ela é implícita, uma vez que os jovens são introduzidos pelos adultos em um mundo em perpétua modificação. Quem se recusa a assumir essa responsabilidade pelo mundo não deveria nem ter filhos nem ter o direito de educá-los, afirma peremptoriamente Arendt” (COUTRINE-DENAMY, 2004, p. 173).

“Seu papel de mediador lhe exige uma responsabilidade dupla64. Como professor ele é responsável pela educação de seus alunos, mas também faz parte de seu papel assumir, diante deles, a responsabilidade pelo mundo” (ALMEIDA, 2011, p. 39). Responsabilidade que não é somente vista individualmente, mas em conjunto com os demais professores e a instituição escolar. Mesmo com suas fragilidades humanas, enquanto adultos, entre iguais como expressaria Arendt, esta ação é um espaço político enquanto postura educacional frente aos alunos, cuja relação dimensiona-se entre os desiguais. Melhor dizendo, na concepção de Arendt, a ação política se realiza entre iguais. O lugar da ação é no mundo plural, mundo enquanto publicidade. O que o adulto deve fazer é proteger a criança que está no mundo pré- político. E a relação entre professor e aluno é uma relação entre desiguais. Segundo Hermenau (2005, p. 373), “o educador entra em cena como agente, considerando-se que ele basicamente só permanece entre desiguais, somente na condição de um aparecimento público deficitário”. Por isso, é tarefa do professor exercer o que lhe é específico em sua atividade docente.

A instituição escolar é considerada por Arendt como esfera do campo pré-político65. Porém, o educador, como adulto, ocupa um lugar de autoridade pedagógica com responsabilidade pela formação das crianças. O empoderamento do professor está na responsabilidade do que está fazendo, o ensino na sala de aula e sua prática pedagógica na escola como um todo. Não no sentido de substituir o “aprender pelo fazer” (FRY, 2010, p. 108), mas no esforço e atitude de preparar a criança para o mundo dos adultos. Os educadores como colegiado educacional, em determinada escola, possuem essa responsabilidade educativa e também “representam” o mundo. Hermenau (2005, p. 374) compreende:

64“A criança, objeto da educação, possui para o educador um duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação; é um novo ser humano e é um ser humano em formação. Esse duplo aspecto não é de maneira alguma evidente por si mesmo, e não se aplica às formas de vida animais; corresponde a um duplo relacionamento, o relacionamento do mundo, por um lado, e com a vida, de outro” (TEIXEIRA, 2018, p. 4).

65“O âmbito da educação, portanto, é pré-político. A educação escolar transmite conhecimentos e cultiva princípios e capacidades que favorecem a futura participação dos alunos na esfera pública. Entretanto, no espaço pedagógico e nas relações que neles se estabelecem, os princípios que regem o espaço público e a atividade política não são válidos da mesma forma. Assim, enquanto no âmbito público estamos entre iguais, a relação pedagógica se caracteriza por uma desigualdade entre alunos e professores baseada não somente nos conhecimentos desiguais, mas também, como vimos antes, na responsabilidade desigual, seja frente ao processo educativo, seja em relação ao mundo” (ALMEIDA, 2011, p. 38). O papel do professor, da escola não é uma relação apolítica. Exigem sim um posicionamento político enquanto compromisso com a educação pública. Junto com o “compromisso público da educação de introduzir os recém-chegados no mundo comum – há decisões – entre elas, o conteúdo do currículo (que aspectos do mundo apresentamos às crianças?), o acesso e a qualidade da educação – que devem ser preocupações públicas” (ALMEIDA, 2011, p. 38).

Onde, no espaço político, homens se reúnem para mudar a res publica (a coisa pública) – para melhorá-la ou para mantê-la –, eles se movimentam entre as questões do mundo, mas não as representam. Em relação às crianças, porém, eles representam forçosamente o mundo, queiram ou não queiram. E nisso consiste também a forma especial da autoridade pedagógica, sem a qual, segundo Arendt, a educação não é possível em sentido pleno.

Nem a instituição escolar, nem o Estado e nem o professor podem delegar essa responsabilidade para as crianças pela sua formação educativa e conhecimento do mundo. Seria infantilismo pedagógico praticar essa ação. No entanto, como adultos, embora com certa ambiguidade por não representarem a comunidade como um todo, professores e escola, no espaço pedagógico possuem a responsabilidade de oportunizar a aprendizagem e o conhecimento do mundo para a geração atual e as novas gerações. Nas últimas décadas, tanto a escola como os que nela atuam estão numa encruzilhada histórica pelo desmonte e desvalorização da escola pública, dos profissionais da educação em sua ação pedagógica e pela confusão da intromissão de profissionais liberais na educação. Tal problemática exige posicionamento político por parte do poder público, bem como, da autoridade pedagógica que responde pela educação pública em sua responsabilidade pelo mundo na formação das novas gerações. Embora se saiba da responsabilidade política do Estado, questiona-se sobre o sentido da escola, o lugar da educação no ensino escolar e superior no Brasil hoje. As mudanças que estão ocorrendo na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o projeto escola sem partido, o Enem, as possíveis mudanças que são visualizadas agora no início de 2019, inclusive o posicionamento do poder público Federal, parece colocar em tempos sombrios o papel da escola e da universidade. Sabemos da importância da escola para a formação das crianças, dos jovens e da Universidade para a formação de profissionais de todas as áreas, mas o movimento na atualidade nos desafia a buscar perspectivas que criem novo sentido e lugar para a educação pública. Formação essa que, gradativamente, auxilie na perspectiva de conscientizar cada indivíduo para exercer a cidadania no espaço público. Isso significa proporcionar um processo formativo que dimensione uma responsabilidade ética e política, marcada por uma consciência histórica, que se fundamenta na pesquisa e no estudo da realidade do Brasil e do Mundo. A formação precisa fomentar o espírito científico, artístico e filosófico e, desenvolver a capacidade de investigar e pensar sobre os destinos da humanidade, da esfera pública, da democracia, dos trabalhadores, das diferentes etnias e culturas, das nações, bem como, da natureza e do Planeta, desdobrando interpretações que possibilitem a realização de ações responsáveis no mundo (BACH, 2018), a partir dos desafios colocados pelo cenário da cultura do novo capitalismo.