O AGROALT tinha como objetivo inicial divulgar os produtos agrícolas da região por meio de um selo de origem. Isso se devia ao fato de que o caqui, o cogumelo e as hortaliças tinham um valor agregado por serem reconhecidos da região. No caso das flores, da nêspera e dos ovos de codornas, não existia essa percepção do mercado. Era a construção de um projeto essencialmente agrícola, mas com conotação no desenvolvimento de um território onde todos se identificavam nele.
O AGROALT iniciava como uma idéia que transpassava as cadeias locais, integrando-as por meio de uma percepção de região. Mas como isso deveria ser trabalhado? Quem seriam os atores líderes desse processo? Como conectar os diversos interesses
Ao término do curso AGROIDEAL, os projetos deveriam ser apresentados à comunidade local. O AGROALT era originalmente um projeto que deveria atender à premissa de levar a identidade regional aos produtos agrícolas produzidos na região do Alto Tietê. Esse grupo que participava do AGROIDEAL resolveu eleger um corpo técnico para elaborar uma proposta técnica de projeto. O corpo técnico foi composto pelos agrônomos que já participavam das ações. Assim, foram estabelecidas as premissas do projeto e aprovados pelos participantes, conforme Figura 8.
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AGRONEGÓCIOS:
• Cursos, palestras, consultorias • Levantamentos da Cadeia Produtiva,
Seminário
• Capacitação Rural. Qualidade Total Rural
Ações da CENTRAL (AGROALT) nas Instituições e Setores da Cadeia Produtiva: • Padronizar informações;
• Estabelecer objetivos comuns; • Racionalizar custos e investimentos; • Estabelecer padrões e normas de
classificação e embalagens;
• Desenvolvimento de novas tecnologias •
Figura 8: Esquema básico da estratégia inicial do AGROALT Fonte: elaboração própria.
A proposta inicial tinha dois focos: a ação no ambiente institucional e a ação setorial. O grande diferencial em relação às atividades anteriores era que, além do desenvolvimento das cadeias produtivas e dos seus respectivos ambientes setoriais, a preocupação em criar um ambiente regional pensando o agronegócio como um sistema interligado começava a avançar.
Esse ambiente novo que começava a ser construído necessitava de uma postura diferenciada dos atores tradicionais e abriam espaço para o aparecimento de novos atores e, também, de novas convenções, possibilitando a construção de novas redes.
O primeiro passo dado pelo comitê de trabalho foi o desenvolvimento da instalação do Escritório de Comercialização Agrícola (ECA), que teria como atividade principal desenvolver e promover ações junto às cadeias produtivas para ampliar mercados. Essas ações seriam estruturadas em ações de logística, vendas, tecnologia e marketing. Haveria necessidade de ampliar o corpo técnico para dar sustentação às atividades do ECA. Para a viabilização da implantação estaria previsto um convênio entre o SEBRAE-SP e o Sindicato Rural para contratação de um corpo técnico operacional (Anexo 2).
Também se iniciaram os trabalhos para a criação de uma identidade visual. Partindo da estratégia estabelecida para o projeto, foram convidadas as universidades locais para participarem da organização de um concurso de logomarca, que seria promovido junto aos alunos universitários. Aproximadamente 50 trabalhos foram inscritos e no final do ano foi escolhida a logomarca AGROALT (Anexo 3).
As ações nas cadeias continuavam, principalmente com os grupos de frutas, cogumelos e ovos de codornas. As iniciativas caminhavam para ações de marketing, divulgando os produtos de maneira coletiva. Foram realizados os primeiros pilotos para campanhas de divulgação e lançamentos de safras. As primeiras coletas de informação junto ao consumidor ajudavam a quebrar alguns paradigmas (Anexo 4).
O primeiro teste foi realizado pelo grupo da AFRUT, com a mudança na embalagem da nêspera. Com apoio institucional do Programa AGROALT, os produtores migraram uma parte da produção da embalagem de madeira para embalagem em papelão. Essa embalagem continha a descrição: “Produzido em Mogi das Cruzes”. O resultado foi positivo, com uma agregação de 40% no valor final do produto e a diminuição das perdas no transporte. Também houve início da coleta sistemática de informações de preços realizado pelo SEBRAE, pela UNESP e pelo Sindicato Rural, com início da série histórica de preços da nêspera. Essa coleta de informações era um piloto para ampliar futuramente às
Para o caqui, foi realizado levantamento numa campanha de degustação e os produtores puderam perceber que o consumidor desconhecia os diferentes tipos de caqui: duro e mole. Com isso, compravam o caqui duro e esperavam que ficasse mole. Quando iam comer, o caqui estava estragado. A campanha-teste teve um resultado animador. O consumo de caqui duro (de maior valor agregado) aumentou em mais de 40% nos locais realizados. Em parceria com a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP), foi realizada uma campanha junto aos atacadistas, para que pudessem ser multiplicadores da informação. Nesse mesmo ano teve início o Programa Integrado de Fruticultura do caqui, realizado pela CATI, e a CEAGESP iniciou um trabalho para normatização e padronização na classificação da fruta, estimulado pelos resultados da campanha (Anexo 6).
Para a cadeia dos ovos de codorna a APAC realizava o II Encontro de Cotornicultores, aproximando produtores da região metropolitana de São Paulo e do Alto Tietê para ações em conjunto. Foi elaborada a proposta para a vigilância sanitária para regularização dos abatedouros de codornas. A legislação vigente na época só contemplava abatedouros para frango de corte e era inadequada para codornas. Isso fazia com que os produtores não conseguissem o Sistema de Inspeção Federal (SIF), e, portanto, restringia o mercado de carne de codorna.
No final desse ano foi realizado o evento de lançamento do selo AGROALT e a apresentação dos resultados alcançados até aquele momento. Também era apresentada a estratégia do programa e as ações previstas para o biênio 2000-2001.
Nessa primeira fase, o programa estabeleceu alguns pontos relevantes na sua atuação: a necessidade de fortalecer as cadeias produtivas, com forte foco setorial; o desenvolvimento de uma identidade do território; inovações em processos e produtos.
A necessidade de atuar fortemente nas cadeias produtivas, com foco setorial, fica evidenciada na Figura 1, com a criação da Central de Apoio aos Agronegócios, na qual, mais do que a soma de diversas operações, há uma dinâmica estabelecida na cadeia de produção (BELIK, 1992; BATALHA, 1997). Também, a criação de uma rede que envolve
atores regionais e setoriais, para sustentar as ações previstas em cada cadeia, fortalecendo as relações de confiança (PUTNAN, 1996; VALE, 2007).
O desenvolvimento de uma marca regional visava fortalecer o vínculo dos produtores em seu território (PUTNAN, 1996), incorporando um bem intangível e social (o reconhecimento da região como excelente produtora de hortícolas, caqui e cogumelo) num bem tangível (marca regional), que ultrapassa as fronteiras de uma cadeia setorial (MIOR, 2003).
Portanto, como Mendez (2001) destaca, o substrato territorial, marcado pela homogeneidade interna, cria um espaço para que atores se identifiquem por meio de projetos comuns, buscando uma lógica de interação e de aprendizado. O processo de aprendizado pela interação, conforme proposto por Kwasnicka e Chang Jr. (2006), aconteceu nas ações de divulgação dos produtos e lançamentos de safra. As informações coletadas traziam um novo conhecimento, que implicava quebras de paradigmas e busca de novas soluções, como a mudança da embalagem da nêspera, por exemplo.
Esse aprendizado coletivo reforçava as relações de confiança entre os atores e criava um espaço de compartilhamento coletivo, construindo uma posição mais competitiva e o conjunto das atividades sendo reconhecido como um “saber fazer” do território (SOUZA, MIGLINO, BETTINI, 2005; MARCO, 2003).
Essa contínua interação, com o crescente aumento da confiança entre os atores, permitiu o estabelecimento de um processo de governança, aumentando o capital social desse território. O desafio da segunda fase era ampliar essa ação, o que implicaria tornar a rede maior e mais complexa e fortalecer a cultura da cooperação.