2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 O Programa Soja Plus
No Brasil, o agronegócio da soja parece ingressar em uma nova fase, sobretudo, pela pressão de mercado consumidor que exige uma agricultura sustentável. As organizações internacionais, instituições governamentais, associações de classe, empresas, o terceiro setor e o próprio consumidor apontam novas agendas de interesse relacionadas ao modelo de governança da cadeia produtiva alicerçada em critérios de sustentabilidade.
A cobrança por esses critérios implicou mudanças no setor, bem como maior regulação no comércio internacional. Temas como, proteção da biodiversidade, segurança alimentar, justiça social e trabalhista, questões éticas e a revalorização do espaço rural foram apresentadas e vinculadas às ações do setor, em detrimento à antiga prática que destacava apenas aspectos como produção, produtividade e geração de excedentes exportáveis. A conjugação de interesses de atores, nem sempre conciliáveis, tornou ainda mais complexa a pauta de discussão em torno da responsabilidade socioambiental do setor (LIMA, 2008).
Diante deste cenário, em junho de 2006, as principais agroindústrias da soja anunciaram um acordo inédito para o setor agrícola brasileiro: elas se comprometeram a não comercializar uma safra produzida em novas áreas desmatadas da floresta amazônica. Esse acordo ficou conhecido como a Moratória da Soja na Amazônia e deu origem a um sistema de governança multistakeholder para o controle da produção na região (CARDOSO, 2008).
De certa forma, a Moratória da Soja foi uma resposta a um arranjo transnacional conhecido por RTRS (Round Table for Responsible Soy), ou Mesa Redonda da Soja Responsável, criado em 2005 como um fórum internacional de discussão sobre a sustentabilidade da soja, que tinha como desafio reunir diversos stakeholders para a elaboração e desenvolvimento de um padrão de princípios e critérios para que a produção da soja, seu processamento e comercialização (grão, óleo e farelo), seja economicamente viável, ambientalmente correta, e socialmente justa. Segundo a Abiove (2014), o padrão RTRS contempla 98 indicadores contemplados em de cinco grupos: (i) conformidade legal e boas práticas de negócio; (ii) condições de trabalho responsável; (iii) relação responsável com as comunidades; (iv) responsabilidade ambiental; e (v) Boas Práticas Agrícolas.
O objetivo da RTRS é promover a produção de soja responsável através da cooperação e do diálogo aberto com os setores envolvidos para obter uma produção economicamente viável, socialmente benéfica e ambientalmente apropriada. Além de facilitar a conversação entre os diferentes atores envolvidos, procura atuar como um fórum internacionalmente
reconhecido para o monitoramento da soja, desenvolvendo e incentivando a produção, o processamento e a comercialização em termos da sustentabilidade (RTRS, 2014).
Entretanto, duas importantes instituições brasileiras representantes do setor, a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) retiraram-se da RTRS por divergências quanto às regras decisórias e de representação, por discordarem das diretrizes do tema ambiental e, principalmente, pelos custos que a adesão às regras imporia aos produtores de soja brasileiros.
Outro motivo abordado por Schouten e Verena (2015), que contribui e impacta diretamente na decisão, é o destino das exportações e a forma como o Brasil se insere no mercado global da commodity. Holanda e China são os grandes consumidores da soja brasileira, mas apresentam diferenças quanto às regras ambientais e sociais no processo de produção que exigem adequação por parte dos produtores. A Holanda cobra por práticas trabalhistas e ambientais sustentáveis, mesmo que isto incorra em maiores custos, já a China com a justificativa do abastecimento do mercado de alimentos em seu país, não demanda padrões socioambientais, mas exigem preços menores em razão da escala de produção.
Schouten e Glasbergen (2012) afirmam que são três explicações básicas para não aderir à proposta de governança da RTRS: (i) a soja é uma matéria-prima, não um produto final, por isso, sua certificação não impacta o consumidor no varejo por não perceber o valor agregado no produto final; (ii) a certificação não é atrativa para produtores de soja do Brasil e de outros países, pois os consumidores relutam em pagar prêmios que remunerem os custos envolvidos e, portanto, o processo certificador não oferece sustentabilidade econômica; e (iii) a certificação só atende a um nicho de mercado, como alguns poucos países da Europa.
A saída destas importantes entidades de representação dos produtores e das indústrias prejudicou um pouco, a legitimidade da RTRS no Brasil. Além disso, a grande demanda asiática, que pouco se preocupa com a sustentabilidade na produção de soja, e a falta de um prêmio pago pela produção certificada pelo RTRS não estimulam a adesão de novos produtores rurais a este instrumento.
Foi nesta circunstância que a Abiove e a Aprosoja, criaram um programa propondo um modelo próprio de sustentabilidade para a produção da soja, denominado Soja Plus, em que não há uma certificação e custo para o produtor. Foi instituído entre 2011 e 2013, para os produtores de soja dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e em 2014 foi implantado nos estados da Bahia e Minas Gerais.
Seus objetivos se limitam a três: (i) desenvolver um programa de gestão transparente e participativo da propriedade rural de soja, em âmbito nacional, para atender às demandas de mercado por produtos sustentáveis; (ii) atingir a melhoria contínua gradativa dos aspectos ambientais, sociais e econômicos da propriedade rural; e (iii) realizar verificação voluntária de critérios e indicadores. A ideia é promover e implementar ações em parceria com produtores rurais, governos estaduais e municipais, sociedade civil, indústria, comércio, instituições de pesquisa, ensino e extensão (SOJA PLUS, 2014; COSTA et all., 2015).
Segundo Costa et all. (2015), o ciclo metodológico consiste em: (i) diagnosticar os desafios e oportunidades da propriedade; (ii) promover ações de apoio e fomento; (iii) monitorar os indicadores de desempenho; e (iv) reconhecer os avanços obtidos. O programa está embasado em cinco categorias de gestão aplicadas à propriedade, compreendida nas respectivas linhas de ação, como consta no Quadro 7.
Quadro 7 - Linhas de ação do programa Soja Plus
Categoria Linhas temáticas de ação Ações
Qualidade de vida no trabalho
Saúde Ocupacional
-Procedimentos de garantia de acesso à água potável; alimentação adequada e instalações em boas condições sanitárias para trabalhadores.
-Procedimentos de primeiros socorros, assistência médica e pronto atendimento em casos de acidentes.
Segurança Ocupacional
- Prevenção de Riscos Ambientais.
-Procedimento para orientação e uso de Equipamentos de Proteção Individual
Relações Trabalhistas
-Plano de controle de exigências legais e jornada de trabalho.
-Procedimentos de orientação aos funcionários com relação às atividades desenvolvidas que apresentem riscos para a integridade física.
Melhores práticas de produção
agrícola
Gestão das práticas de produção
- Monitoramento da fertilidade dos solos.
- Monitoramento da qualidade dos recursos hídricos. -Monitoramento das emissões de gases de efeito estufa. - Plano de redução, reutilização e reciclagem.
-Procedimentos de uso de técnicas conservacionistas. - Plano de uso responsável de químicos.
Gestão de impactos sobre recursos naturais
-Mapeamento dos recursos hídricos, das áreas de preservação permanente e da reserva legal.
- Adequação ao novo Código Florestal.
-Procedimentos para mitigação dos impactos ambientais. Viabilidade
Financeira e Econômica
- Planejamento financeiro. - Controle de custos.
- Mecanismos de gestão de risco. Qualidade
do produto
-Plano de avaliação dos perigos e pontos críticos de controle. -Monitoramento do uso de potenciais contaminantes.
-Procedimentos para produção, transporte, armazenamento e beneficiamento.
-Logística e infraestrutura de transporte, armazenamento e beneficiamento
Responsabilidade Social
-Procedimentos para interação com as comunidades locais e resolução de conflitos de interesse.
-Desenvolvimento de projetos sociais individuais e coletivos.
Fonte: Soja Plus (2014)
Para diagnosticar os desafios e oportunidades, o primeiro passo estabelece a aplicação de um check-list para a constituição de referenciais auditáveis, o processo norteará as boas
práticas agrícolas e sociais adotadas pelos empreendimentos. Após o diagnóstico, é planejada uma estratégia de promoção de ações de apoio e fomento através de cursos e assistência técnica. Todos os cursos, dias de campo, materiais técnicos e assistência técnica fornecidos às propriedades são desenvolvidos e baseados nas cinco categorias de gestão rural, e seguem as respectivas linhas temáticas.
Após um ano de assistência técnica e extensão nas propriedades, é feito um diagnóstico completo do cumprimento das normas ambientais e sociais, com o intuito de receber um reconhecimento diferenciado e incentivar um processo de melhoria contínua dos aspectos ambientais e sociais do empreendimento, o atestado Soja Plus é dividido em duas categorias conforme o grau de atendimento. Caso o produtor atenda com 80% de todos os requisitos, ele será certificado com o selo Soja Plus Prata, e no caso de cumprimento de no mínimo 90% de todos os requisitos, ele será atestado com o selo Soja Plus Ouro. O sistema de avaliação define diferentes tipos de não conformidades que podem ser encontradas durante o monitoramento de campo: (i) não conformidade crítica; (ii) não conformidade maior; ou (iii) não conformidade menor.
Para a avaliação final o programa aplica um questionário que conta com quatro (4) princípios, vinte e um (21) critérios, cinquenta e um (51) indicadores e cento e dezenove (119) verificadores. Este documento objetiva orientar os técnicos rurais quanto aos procedimentos de verificação dos princípios, dos critérios e dos indicadores estabelecidos.
Esse sistema de avaliação possibilita uma oportunidade de melhoria contínua da gestão ambiental e social da propriedade. Ao final do processo, será apresentado ao produtor rural um relatório sobre o status social e ambiental da propriedade rural auditada.
A soja é a commodity que melhor ilustra a possibilidade de padrões trabalhistas e ambientais tornarem-se barreiras não tarifárias cujos riscos são: os comerciais como a perda de acesso a mercados, principalmente o europeu; os econômicos, pois os instrumentos de certificação impactam os custos; os institucionais, que incidem na reputação de empresas e produtos, e abalada nos mercados internacionais; e os sociais, que impactam na retração do emprego e da renda nas regiões produtoras (SCHOUTEN E VERENA, 2015).