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6.2 A HEGEMONIA DO QUADRO PROGRESSO CIENTÍFICO

6.2.1 O progresso científico enquanto quadro autônomo

Os quadros geralmente não se apresentam isoladamente nas reportagens. O mais comum é que haja concorrência de quadros para a definição dos sentidos hegemônicos em um material jornalístico. Quando não há controvérsia, apenas os resultados positivos dos experimentos científicos ganham visibilidade. Geralmente inexistem ocorrências sobre outros elementos da prática científica: sobre pretensões e interesses dos agentes envolvidos; sobre as redes estabelecidas nos planos da economia e/ou da política. Os resultados dos experimentos dominam a pauta midiática, ajustados ao que Cascais (2003) denominou de “Mitologia dos resultados”, e reforçando o modelo de déficit de conhecimento, pois enrijece o foco entre os especialistas e o público.

Como a presente amostra desta tese foi extraída de revistas semanais, a expectativa era de que o quadro de progresso fosse hegemônico, apesar da ocorrência de outros quadros, o que é relativamente comum em reportagens de revistas. Entretanto, identificou-se a presença exclusiva do quadro progresso em 12 materiais, ou seja, em 15% das notícias, reportagens e artigos da amostra apenas havia referência à ciência enquanto geradora de benefícios para a humanidade, conforme quadro abaixo.

Quadro 2 – Notícias em que o quadro de progresso científico obteve ocorrência exclusiva

Ano Revista Data Título da notícia Linha de apoio

2005

Isto É

24 de agosto Coringas para o fígado

Pesquisadores baianos querem testar a eficácia das células-tronco contra doenças

hepáticas 21 de

setembro Agora na pele...

Médicos estudam a produção de colágeno a partir

de células-tronco 28 de

dezembro Mais perto do coração Artigo

Carta

Capital 6 de julho Ossos sintéticos

Entre os novos materiais em desenvolvimento, um produto criado no Brasil promete

grandes benefícios para quem precisa para quem precisa repor

e regenerar tecido ósseo

2006

Época 10 de abril Careca nunca mais

Novos implantes com células-tronco prometem cumprir a promessa de eliminar

a calvície. Será? Isto É setembro 6 de esperança com a Uma nova

célula-tronco

Elas poderão induzir o corpo do diabético a fabricar

insulina Carta

Capital novembro 22 de

Cura para a paralisia

Duas terapias, ainda em fase de teste, mostram-se

promissoras 2007 Isto É 19 de setembro Fábrica de cartilagem Cientistas americanos conseguem criar tecido cartilaginoso a partir do uso de

células-tronco 17 de

outubro Novas veias sanguíneos em laboratório Cientistas criam vasos Carta

Capital novembro 7 de Boas novas para o coração

Ainda experimental, o uso de células-tronco no tratamento

do infarto tem resultados promissores

2008 Veja

30 de abril As embrionárias é que curam

Pesquisa na área da cardiologia mostra a

superioridade

das células de embriões sobre as adultas

8 de outubro A célula da esperança

Cientistas criam as primeiras células-tronco embrionárias do Brasil, quatro meses depois de liberadas pelo

Estes materiais guardam algo em particular: ambos têm como foco de cobertura o anúncio de novidades provenientes de experimentos bem sucedidos da área de pesquisa médica. Desta forma, tanto títulos, quanto linhas de apoio já indicam que há uma expectativa positiva, uma esperança em relação às propaladas novidades. Assim, palavras com esperança, novos, cura, criação, produção formatam um contexto de que existe naquela área da pesquisa uma sucessão de acontecimentos que aproxima a humanidade da solução de diversos problemas. Os exemplos abaixo são elucidativos deste padrão.

Usar célula-tronco para mudar a textura do cabelo ou o formato do rosto ainda não é possível. Mas utilizar essas versáteis estruturas para dar

uma melhorada na pele já é uma façanha bem mais próxima de ser realizada. No Rio de Janeiro, o médico Gerson Cotta-Pereira, professor da

Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o cirurgião plástico Ricardo Cavalcanti estão conduzindo uma pesquisa para fabricação de colágeno humano a partir de células-tronco. O estudo é pioneiro no País e, se for bem-sucedido, representará um avanço na área da beleza. CÔRTES,Celina. Agora na pele... N° Edição: 1875, 21(.set. 5, grifo nosso). Pode estar nas células-tronco, as estruturas capazes de se transformar em vários tipos de tecido, mais uma esperança contra a diabete tipo 1. A doença é caracterizada pela incapacidade de o corpo produzir a insulina, o hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose. Se isso não ocorre, sobra açúcar no sangue. Isso gera consequências nocivas, como problemas circulatórios e visuais. Mas uma experiência feita na

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo mostrou que as células-tronco podem ser induzidas a fabricar o hormônio

(RODRIGUES, Greice. Uma nova esperança com a célula-tronco. N° Edição: 1924, 6.Set. 2006, grifo nosso).

Se existe algo que assusta os homens é a possibilidade de ficar careca. Metade da população masculina terá algum grau de calvície até os 50 anos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Pois essa realidade pode mudar graças ao resultado de pesquisas com a vedete científica do momento: as células-tronco. Estudos mundiais vêm provando - acredite - que o fim da calvície é viável e, em breve, essas técnicas estarão em uso. (FRUTUOSO, Suzane. Careca nunca mais. Época. Edição 412, 10 abr. 2006).

Sem a polêmica relativa aos embriões, o quadro progresso preservou a mesma lógica já identificada em outros estudos, ou seja, exaltação das novidades (MALONE ET AL, 2000). Neste tipo de enquadramento da ciência, o jornalista tende a assumir completamente a exposição do quadro, numa narrativa que se inicia com o anuncio festivo da novidade. Sem a exposição de controvérsia de qualquer natureza, o texto segue com a exposição de alguns procedimentos utilizados pelos pesquisadores para obtenção dos resultados. Somente fontes consideradas científicas são utilizadas. A estas fontes cabe proferir explicações técnicas que são convertidas em discurso indireto pelos jornalistas. As falas com aspas, o que significa, pelas normas

jornalísticas, a transcrição fiel do discurso da fonte, reforçam o quadro progresso acrescentando-lhes detalhes técnicos dos experimentos e/ou dando prazos para efetivação das promessas. Os trechos abaixo indicam a posição dos pesquisadores neste tipo de texto noticioso.

“O produto deverá durar um ano, um ano e meio. Mas, como faremos

um banco de colágeno personalizado para cada cliente, poderão ser feitas várias reaplicações”, diz Cavalcanti (CÔRTES,Celina. Agora na

pele... N° Edição: 1875, 21 set. 2005, grifo nosso).

“Nossa esperança é que, ao serem implantadas em diabéticos, essas

células produzam insulina”, afirma Adriana. Tomara (RODRIGUES,

Greice. Uma nova esperança com a célula-tronco. N° Edição: 1924, 06.Set.06, grifo nosso).

“O estágio é inicial, mas esperamos oferecer o tratamento em cinco anos', afirma a química da Intercytex Susan Aldridge . (FRUTUOSO,

Suzane. Careca nunca mais. Época. Edição 412, 10 abr. 2006)

Não cabe aqui uma avaliação sobre as possibilidades de concretização destas promessas. Ao trabalho interessa evidenciar que um modelo de apresentação de notícias e reportagens, mesmo em uma situação de controvérsia pública, mantém-se forte na cobertura jornalística da ciência. Este modelo vigora em situações, que alguns autores classificaram de quadro episódico (IYENGAR, 1991; ROTHBERG, 2010), aquele em que o foco está no anúncio de algo pontual. Neste trabalho não adotou-se este quadro por considerá-lo inadequado numa análise de cobertura de controvérsia. Todavia, pode-se estabelecer uma relação entre a unicidade de exposição do quadro progresso científico com o quadro episódico. Aplicado à cobertura da ciência, o quadro episódico caracterizar-se-ia pelo anuncio de eventos particulares, isolados das demais dimensões que definem a ação dos cientistas.

O uso exclusivo do quadro progresso científico, mesmo quando aplicado a fatos publicamente controversos, torna mais fechada a possibilidade de compreensão do que está em jogo na estabilização dos fatos científicos. No entanto, demonstra o quadro progresso está inserido na cultura, sendo considerado, de certa forma, naturalizado na e pelas interpretações sobre a ciência, servido como uma porta de entrada na experiência antecipada dos indivíduos, nesta caso, os jornalistas.

Da amostra analisada, foi identificado um exemplo que, mesmo em meio à polêmica jurídica e ética no Brasil, em abril de 2008, apresenta as células-tronco embrionárias exclusivamente pelo quadro progresso científico. Com o título, “As embrionárias é que curam”, a reportagem indiretamente propôs um fim à

controvérsia pública e buscou a partir da divulgação de novos experimentos em in vitro, decidir a questão, estabilizando antecipadamente os fatos.

Uma equipe de pesquisadores do Canadá, dos Estados Unidos e da Inglaterra acaba de dar um passo decisivo para que as pesquisas com células-tronco embrionárias se convertam em tratamentos efetivos nas

clínicas e nos hospitais. Pela primeira vez, eles conseguiram induzir uma

célula-tronco embrionária humana a se transformar em três tipos específicos de tecidos cardíacos, todos importantes para o funcionamento do coração. O estudo é um avanço rumo aos transplantes de tecidos

desenvolvidos em laboratório. Há muito tempo a comunidade científica sabe que as células-tronco embrionárias são capazes de se converter em

qualquer um dos 216 tipos de célula do corpo humano. Isso faz delas, hoje,

a principal esperança para tratar problemas tão distintos como diabetes e doença de Parkinson, ou para devolver os movimentos a

pessoas paraplégicas ou tetraplégicas. Apesar disso, as pesquisas com células-tronco embrionárias continuam proibidas em muitos países, entre eles o Brasil. A alternativa que se oferece são os estudos com células- tronco adultas, com potencial infinitamente mais limitado no tratamento

de doenças (VIEIRA, Vanessa. As embrionárias é que curam. Veja. Edição

2058, 30 abr. 2008, grifo nosso).

A reportagem expõe, mesmo em relação às células-tronco embrionárias, certezas, que como será exposto mais adiante, geralmente os pesquisadores entrevistados tentam evitar. O pequeno trecho acima, por exemplo, oferece todos os “ingredientes” do quadro progresso científico: esperança de curas, confiança no avanço da ciência, certezas provisórias tomadas como certezas ad in finito. Nesta reportagem em particular, também é a própria jornalista que enuncia os diversos elementos do quadro, não os atribuindo aos cientistas, o que confirma a tese de Stocking (2005) de que os jornalistas tendem a apontar mais certezas sobre a ciência nas reportagens do que os cientistas em seus artigos.

A fonte citada na matéria, a geneticista Mayana Zatz, que teve ação importante na busca da dissolução desta controvérsia pública no Brasil, também impõe este quadro, conforme descrito na fala destacadas no texto, acrescentando uma recomendação de tratamento.

Para a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, o sucesso no desenvolvimento e no transplante de células cardíacas obtidas a partir de embriões mostra que a pesquisa com células-tronco adultas não substitui os estudos com células-tronco embrionárias, apenas os complementa. "As

células-tronco embrionárias ainda têm muito a nos ensinar", ela diz. "Disso depende o futuro da medicina." (VIEIRA, Vanessa. As

embrionárias é que curam. Veja. Edição 2058, 30 abr. 2008, grifo nosso).

A fala da pesquisadora também é indicativa de tensões da produção da ciência, que ficam mais evidentes em tempo de controvérsia pública. Ao mesmo

tempo em que Zatz destaca e promove as certezas, traz elementos para a cena elementos incertos, modelados pela via da esperança no progresso da ciência.