CAPÍTULO 3 PROSUMER, O CONSUMIDOR DOS NOVOS TEMPOS
3.3 O Prosumer e as Redes
Este novo consumidor teve seu trabalho facilitado pelo desenvolvimento das redes. Zuboff e Maxmin (2002) centram sua análise, exatamente no desafio de entender este novo indivíduo funcionando em networks - uma nova sociedade de pessoas conectadas. Para os autores, o sistema capitalista passa por uma mudança de era, ou de paradigma, sustentada pela tecnologia de informação com migração de uma abordagem de consumo de massa para a do consumo individual. O argumento central é de que os indivíduos vivem em um mundo complexo e estressante e desejam maior controle sobre suas vidas.
Não se deve esquecer que os autores se referem àqueles indivíduos, principalmente das classes com renda e poder de compra, incluídos na fruição da sociedade de consumo e da abundância. Eles são educados, bem informados, viajados, trabalham com seus cérebros e não com os seus corpos. “As pesquisas mostraram que pessoas jovens querem controle sobre suas vidas; eles querem encontros, querem tempo livre, querem ter benefícios imediatos por serem contratados” (ZUBOFF; MAXMIN, 2002, p. 72).
Tais indivíduos desejam que suas necessidades específicas sejam entendidas e satisfeitas, e que as empresas compreendam que suas vidas se tornaram mais complexas, com menos tempo disponível e mais oportunidades de escolha. Nós os chamamos indivíduos. O novo indivíduo procura significados, não só conforto material e segurança.
Para complementar o argumento acima, pode-se recorrer a Castells (2000), para quem, o futuro imediato dos mercados está se configurando em redes federadas de várias indústrias e fornecedores de serviços, em síntese: cadeias de negócios. “Redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência de poder e cultura” (CASTELLS, 2000, p. 497).
Esta nova lógica de redes determina uma forma de dinâmica social, na medida em que a sociedade em rede é fortemente marcada pela inclusão, ou não dos indivíduos em seu fluxo. Esses elos são formados, geralmente, por redes de fornecedores, produtores, clientes, coalizões, ou parcerias para negócios
específicos, nos quais se partilham interesses convergentes e redes de cooperação tecnológica, dentro do mesmo espírito de interesse. Para Zuboff e Maxmin (2002), as redes federadas configurariam um tipo de capitalismo distributivo focado no interesse individual. O indivíduo é visto como um potencial cliente em todos os níveis de atividade de sua vida.
Ramos (1983, p. 138-141) já antevia os problemas e as oportunidades causados pela tecnologia e alertava para o atraso das organizações em acompanhar o ritmo da mudança. Como os autores americanos vinte anos depois, ele já invocava a necessidade de se rever a lógica de darwinismo social que tradicionalmente tem validado a teoria e prática da Administração, como também, uma Revolução Copérnica nas organizações, que estavam, já na década de 1970, atingindo seu momento de verdade.
De qualquer forma, com uma diferença de vinte anos, Ramos (1983) e Zuboff e Maxmin (2002) estão falando da necessidade de se conciliar agendas empresariais e individuais. E, mais do que isso, eles estão se referindo a um mundo de relações e ritmos assimétricos, uma sociedade dos indivíduos e de homens parentéticos que convivem com uma sociedade de famintos e de homens patéticos, espectadores desse espetáculo de progresso, à espreita de uma oportunidade.
Pacheco (2001) levanta a questão da sociedade em rede como a conexão que porta em si a capacidade de modificar formas de convivência humana (p. 56). Para a autora, as redes oferecem a possibilidade de novos modos sociais e culturais de produção. Na medida em que os indivíduos possuem extensões de si mesmo estando conectados em redes sociais, por exemplo, o relacionamento pessoal e social tende a sofrer novos impulsos e tomar o caminho de uma grande rede conectada, talvez em modelo 24/7, ou seja, 24 horas por dia nos 7 dias da semana.
Para Castells (2003) este novo padrão de sociabilidade está baseado no individualismo e, de fato, a rede é a conexão dos indivíduos, mas que se torna um padrão social, ou seja, é mais do que a soma de indivíduos isolados. Trata-se da criação de padrões sociais por meio de redes como o twiter pela qual as pessoas podem ser acompanhadas dia-a-dia, ou do Orkut ou MySpace pelas quais se podem agrupar indivíduos com os mesmo interesses, por mais excêntricos que possam parecer.
As consequências são enormes, não só para as comunicações interpessoais, mas também, e principalmente, para o fato de permitir às organizações, proprietárias
dos meios de acesso, e tráfego, exercerem um controle sem precedentes sobre o modo como os seres humanos se comunicam. A mudança dos mercados geográficos para o ciberespaço, possibilitada pela revolução das comunicações digitais, abre novas formas de organizar as relações humanas (RIFKIN, 2001 p. 179).
Predomina hoje o marketspace ou cibermarket, em detrimento do
marketplace, o mercado físico tradicional, uma questão de enorme importância para
as relações econômicas entre produtores e consumidores e a estrutura dos mercados, sua organização e dinâmica. No sistema do marketplace, as relações são as tradicionais, como contatos pessoais e um lugar físico onde a compra se processa. A maior parte da transação é baseada na presença física. Porém, no
cibermarket, da escolha do produto ao pagamento, todo o processo é virtual, na
velocidade da luz, um click and brick.
Uma nova organização do mercado está se desenhando a partir das oportunidades surgidas com a intangibilização das atividades humanas e comerciais. Deve-se entender esta situação como um estreitamento de relacionamentos como nunca se viu antes na história da humanidade. O espaço, anteriormente definido pelas distâncias físicas e resolvido pelo acesso remoto em rede, é agora pautado pelas relações entre indivíduos.
As redes, inicialmente restritas aos sistemas de comunicação, terminaram por influenciar a própria arquitetura dos mercados. Geradores de novas possibilidades para os negócios, as estruturas em rede transformaram a economia industrial em uma economia virtual. No mundo das redes, os princípios funcionais começam a diferir daqueles que validaram a sociedade industrial. As questões da autoridade central, dogmas, ou mesmo a ética, receberão estímulos oriundos de uma práxis dedicada à convergência e ao acesso.