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O PROTEJO TERAPÊUTICO SINGULAR E O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

TÓPICO 3 - PLANO DE INTERVENÇÃO NO ACOMPANHAMENTO

2.1 O PROTEJO TERAPÊUTICO SINGULAR E O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

Após compreendermos a definição do Projeto Terapêutico Singular, bem como as etapas de construção de um PTS, vamos analisar a seguinte assertiva:

A função que um acompanhante terapêutico desempenhará no decorrer de um acompanhamento muito dificilmente – e com frequência, inclusive, de forma inconveniente – será definida a priori de forma completa, com base em um lineamento geral, como algo estereotipado e universalizável independente de sua "ocasional"

articulação com o enquadramento ou a orientação do trabalho clínico com paciente em particular. Ao contrário, temos a convicção de que o lugar do acompanhante só poderá ser definido em função da estratégia usada em determinado momento do tratamento de um sujeito, somente com base em cuja singularidade será possível ir esboçando, com alguma precisão, aquilo que substancialmente permitirá organizar as intervenções do acompanhante, tanto quanto as dos outros integrantes do dispositivo (PULICE, 2012, p. 60-61).

O que queremos chamar atenção com este enunciado é que, embora, seja traçado um planejamento de intervenção no início do processo, muitas vezes, tal planejamento não será seguido à risca, pois ações de acompanhamento terapêutico deverão estar alinhadas à necessidade do acompanhado, que pode mudar de acordo com a intervenção, ou pela ocorrência de outros fatores externos ou internos. Há que ser flexível no desempenho da função de acompanhamento terapêutico.

Uma questão interessante se impõe nesse ponto: o planejamento é executado antes de uma ação, ele implica em um saber prévio por parte do terapeuta acerca da direção que um tratamento deve seguir.

Ora, não chegamos à conclusão, no Tópico 1 da presente unidade, que o trabalho do acompanhante terapêutico deve partir de uma postura humana e menos técnica?

Como conciliar exigências que parecem contraditórias? Como incluir no tratamento a subjetividade do paciente que, embora sempre esteja presente, nunca é inteligível a priori?

Caso você esteja esperando uma resposta para esta questão, infelizmente teremos que te desapontar! Pois, justamente, trata-se de uma questão aberta à discussão, da qual você, aluno e futuro acompanhante terapêutico, precisará se haver.

Não existe resposta fácil, tão pouco certa. Podemos, por outro lado, apontar um caminho. Se é imprescindível o estabelecimento de um plano de ação, é capital não se apegar demasiadamente a ele, e sempre que necessário ir reformulando, cada vez que a lógica do caso assim exigir.

Quem determinará o rumo do tratamento em última instância é o paciente.

Isso não significa dizer que será o paciente quem vai definir o momento em que determinada intervenção vá ocorrer, ou mesmo deliberar sobre sua “alta”, outrossim, que o acompanhamento terapêutico transcorrerá com base naquilo que o paciente necessita clinicamente.

Ou seja, não será interessante cumprir à risca um planejamento em que diga, por exemplo, que, no sexto encontro, haverá uma intervenção para auxiliar o paciente a retomar (ou aprender) sua autonomia, com a consecução de uma atividade de compras no supermercado, se nesse dia o paciente tiver apresentado uma crise com sintomas paranoides, no qual acredita estar sendo perseguido por uma legião de espiões interplanetários.

O planejamento existe e assim deve ser, as ações não são impensadas ou não planejadas, todas elas devem fazer parte do objetivo maior que se almeja para aquele paciente, lembrando que nem sempre esse objetivo é a cura, ou remissão total dos sintomas.

No entanto o profissional de AT deve ter a sensibilidade em avaliar se a ação proposta no PTS será bem aproveitada naquele momento do processo. Muitas vezes, o que o paciente necessita não é aquilo que, inicialmente, estamos dispostos a lhe ofertar, sendo necessário, portanto, muita sensibilidade por parte do acompanhante para reavaliação das propostas e técnicas a serem utilizadas.

Uma outra reflexão importante é a participação ativa do paciente em todas as etapas do processo, com as evidentes ressalvas, pois, normalmente, o paciente que chega ao acompanhamento terapêutico está em uma crise, sem muitas condições de se implicar no planejamento das ações.

Pulice (2012) destaca a importância de o paciente participar ativamente das etapas de seu tratamento, pois este movimento de implicação, poderá vir a ser um fator decisivo para sua recuperação, alterando a posição do sujeito de paciente assujeitado, para sujeito ativo que arbitra sobre a própria vida.

3 DEMANDAS DE ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Coelho (2017) defende que a instituição terapêutica não deve ser o único local de acolhida do sofrimento psíquico de seus internos. De tal forma que, os espaços tidos como não terapêuticos (ou seja, locais que não tem a finalidade de cura e tratamento do transtorno mental), possam ser tomados como locais possíveis de acolhimento do sofrimento de crianças portadoras de sofrimento psíquico grave.

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Mais recentemente, o acompanhamento terapêutico tem sido pensado como recurso auxiliar no processo educacional e terapêutico de crianças acometidas com graves transtornos psíquicos.

Os espaços cotidianos oferecem à criança um novo lugar social. Em um sho-pping, por exemplo, a criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não leva o estigma que vem juntamente com seu diagnóstico, trata-se de uma criança no shopping, ninguém naquele espaço está interessado em “tratar” o autismo da crian-ça, caso a criança se jogue no chão, ou comece com comportamentos estereotipados, certamente chamará alguns olhares para si, podendo causar algum incômodo para a criança, mas é justamente este incômodo que pode vir a ser benéfico do ponto de vista terapêutico, pois a sua inserção na sociedade pode levá-la a um outro patamar de en-tendimento sobre os papéis e as relações sociais.

Dentro de uma instituição, onde todos são autistas ou pais de autistas ou profissionais que tratam o autismo, não haverá possibilidade de regulação social para esse sujeito que encontra a estereotipia como algo comum e cotidiano na instituição, como apenas um sintoma.

Não por coincidência, a busca por espaços do cotidiano como uma via alternativa ao processo de institucionalização venha ser a grande meta do acompanhamento terapêutico. Grande parte do conhecimento que é produzido atualmente pela prática do acompanhamento terapêutico destaca a necessidade que há de retirar o portador de sofrimento psíquico grave do confinamento institucional, para levá-lo a circular por diferentes espaços do cotidiano para que possa se beneficiar dos novos vínculos que essas experiências podem proporcionar (COELHO, 2017, p. 54).

O trabalho de acompanhamento terapêutico destinado à criança e ao adolescente que sofrem transtornos psíquicos graves realizado na atualidade, produz a continuidade das ideias de inclusão social defendidas pela antipsiquiatria, cuja experiência de Mannoni, em Bonneuil, pôde servir de modelo para a prática de AT com o público infanto-juvenil na atualidade.

O acompanhamento terapêutico para crianças e adolescentes, na concepção de Engel, Ghazzy e Silva (2014), é uma prática que oferece diferentes recursos de atuação, além de auxiliar na transformação de situações de crise, estando aberta a descobrir potencialidades das crianças e suas famílias, uma vez que intervém justamente na dinâmica familiar e social. “O AT é, então, um ponto de referência estável a essa família que se encontra desorganizada e sem saber lidar com o problema de seu filho, junto ao laço social em que ela se encontra inserida” (ENGEL; GHAZZY, SILVA, 2014, p. 1053).

Assim como na prática com adultos, o acompanhamento terapêutico de criança de adolescentes implica na capacidade do profissional oferecer afeto e continência.

Esse aspecto terapêutico é fundamental, haja vista ser a mola mestra para o encontro entre dois indivíduos, situação que é constituinte para qualquer sujeito. O encontro pelo sentimento remete a possibilidade de exercer uma postura maternalizante para crianças portadoras de sofrimento psíquico grave, o que é fundamental para a constituição psíquica de qualquer criança. Esse agir maternalizante parece dizer respeito, também, a capacidade de suportar a maneira patológica como certas crianças se expressam. Muitas vezes, o agir patológico da criança desperta no acompanhante uma sensação de desarvoramento difícil de ser vivida. Suportar a sensação é, por si só, terapêutico para crianças, já que dá a ela a confiança de que o acompanhante poderá sobreviver as suas reações. Assim sendo, o trabalho de AT com crianças, uma postura materna é mais que desejável, é fundamental (COELHO, 2017, p. 112-113).

Se a característica de ser continente e afetuoso é um aspecto que é concordante no acompanhamento terapêutico tanto de adultos, quanto de crianças, há também direções em que o AT de crianças diverge do AT de adultos. De acordo com Fraguas e Berlinck (2001), no acompanhamento terapêutico de adultos, a proposta coincide com a reinserção social do paciente, buscando recuperar aspectos perdidos de sua personalidade, já no acompanhamento terapêutico de crianças, o objetivo é criar condições para a estruturação da personalidade do infante.

No primeiro caso, busca-se recuperar algo que o paciente já conquistou, mas que, em determinado momento, perdeu, na criança, ao contrário, há um caminho a ser construído, é necessário desenvolver algo novo para a criança, algo que ela nunca teve acesso. Pareceu um pouco abstrato? Com um exemplo podemos esclarecer melhor essa questão.

Por exemplo, uma criança que não aprendeu a estruturar frases ou usar o pronome “eu”. Com o avançar do trabalho de acompanhamento terapêutico ela poderá adquirir essas funções que nunca estiveram presentes para ela. Ao contrário de um paciente adulto que, após um surto psicótico apresenta como sintoma o mutismo.

Com o paciente adulto, a fala existia antes do episódio de surto, o trabalho de AT busca recuperar esse elemento que havia sido perdido pela condição de fragilidade psicológica do paciente.

O acompanhamento terapêutico com crianças, segundo Fraguas e Berlinck (2001), para fins didáticos, implica na aplicação de técnicas terapêuticas, propriamente, e técnicas pedagógicas. A conduta terapêutica consiste em toda ação que visa a modificação do funcionamento mental do paciente, já a conduta pedagógica é aquela cujo objetivo é concretizar a adaptação do acompanhado ao contexto social.

Tal separação é didática, justamente porque em muitos momentos se mostram indissociáveis. Ressalta-se, por fim, que o trabalho de acompanhamento terapêutico com crianças se estende ao auxílio de outras pessoas envolvidas no trabalho de inclusão social da criança acometida por sofrimento psíquico grave. É papel do acompanhante fornecer amparo técnico e afetivo para consecução da inclusão social da criança, seja à família ou demais atores da vida social da criança, como professores, por exemplo.

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