• Nenhum resultado encontrado

2.5 Análise da Atividade Exploratória

2.5.1. O que é a escrita?

V.H. participante da pesquisa associava a escrita à ideia de que é algo que alguém ensina, como mostra sua resposta

VH: Eu acho que eu sei o que é. A escrita pra mim é a mãe que ensina a

escrever o /b/ e eu adivinho a próxima letra que é o /a/. (22/05/2013)

VH já percebeu que a escrita precisa de instrução para ser aprendida, diferentemente da fala. Para ele, aprender a escrever é aprender as letras, pois é dessa forma que ele deve estar sendo alfabetizado pela mãe. Influenciado pelas tarefas com a escrita que lhe foram colocadas, inicialmente no ambiente familiar e, mais tarde, em continuidade, na escola, sua apreensão da escrita se resume a uma habilidade técnica de utilização de sinais gráficos, as letras. Isso significa que VH já internalizou que a escrita é o código alfabético.

A ideia de que a escrita se resume à apreensão do código alfabético fica mais evidenciada ainda na fala de CA, quando este diz:

A escrita é igual o que a gente faz lá na sala, na folha e no caderno.

Os experimentos realizados por Luria (1994, p. 100) mostram que, uma vez a criança tendo aprendido a escrita cultural simbólica, ela perde ou descarta as anteriores, que constituíam formas mais primitivas, e mergulha por inteiro nesta nova técnica cultural. Ocorre que, como afirma Luria (1994), quando uma criança entra na escola, ela não é uma tabula

rasa, que possa ser moldada de acordo com a vontade do professor. Cada criança traz em si as

marcas das técnicas que utilizou para lidar com os complexos problemas de seu ambiente. No entanto, certamente, as técnicas da escrita que possui são primitivas, carecem de ser aperfeiçoadas por meio da apropriação cultural mediada pelo professor e estruturada de maneira a conduzi-la a um ascendente desenvolvimento cultural. Entretanto, a escola de educação infantil continua no mesmo nível primitivo de tratamento da escrita nas atividades desenvolvidas, ao restringir toda sua complexidade à apreensão do código alfabético.

Nessa perspectiva, compreendemos que o processo que envolve o desenvolvimento das habilidades da escrita, enquanto objeto cultural, abrange uma série de estágios dentro dos quais uma técnica é continuamente suplantada por outra e, somente após ter experimentado situações que propiciem a apreensão dos sistemas culturais que evoluíram ao longo dos séculos, é que a criança atinge o estágio de desenvolvimento característico do homem civilizado.

Outro dado a ser analisado refere-se à fala de CE:

A escrita é o desenho! (22/05/2013)

Embora CE estivesse aprendendo na escola de educação infantil que escrever é registrar o código alfabético, sua fala indica que, provavelmente, ela se encontra na fase de escrita pictográfica, no desenvolvimento de sua pré-história da linguagem escrita, como etapa que antecede a escrita. Vigotski (2000) afirma ser o desenho uma etapa que precede a escrita, ao dizer que se trata de uma linguagem gráfica por sua função psicológica, uma espécie de relato gráfico, um tipo de linguagem escrita, mais linguagem que representação. Poderíamos afirmar que CE representa o mundo por meio do desenho, como uma linguagem que será aos poucos substituída pela escrita.

Outro dado apresentado refere-se à fala de AM:

A fala de AM denota sua percepção da escrita como um objeto presente em seu contexto social, que possui alguma funcionalidade, mesmo que ela não tenha ainda consciência de que a escrita serve para registrar uma ideia, nomear, identificar, entre outras; sua fala já aponta a relação entre mundo e escrita, ela percebe a escrita como parte do mundo em que vive.

Nossa investigação experimental demonstrou que a pergunta a ser respondida pelas crianças, ―o que é a escrita?‖, demandava que elas tivessem desenvolvido um conceito de escrita que elas ainda não possuíam, na fase de desenvolvimento em que se encontravam, dado o caráter abstrato e complexo do objeto escrita. Contudo, é importante ressaltar que as crianças não possuem respostas definidas para o que é a escrita pelo fato de esta lhe ser apresentada de maneira alienada e restrita à apropriação da técnica em contraposição à funcionalidade.

Ao investigar a formação de conceitos na infância, Vigotski aborda o pensamento por complexos assinalando que ―o atributo mesmo [...] ao unir associativamente os distintos elementos concretos e complexos resulta difuso, indeterminado, vago‖. Para o autor, ―o paralelo do complexo difuso na vida real [...] são as generalizações que a criança cria precisamente nas esferas do pensamento não verificável na prática, em outras palavras, nas esferas do pensamento não visual e não prático‖. Assim, as crianças fazem nessa fase generalizações elegendo atributos que são ―escorregadios‖ e ―mutáveis‖, em configurações imprecisas e complexos ilimitados, ―às vezes assombrosos pela universalidade das conexões que incluem‖ (VIGOTSKI, 2001, p. 145).

Nesta perspectiva, as respostas dadas por BY e LU sugerem que poderiam ter caracterizado suas ideias sobre a escrita por meio de generalizações com essas características, buscando em objetos concretos e situações da vida real atributos que pudessem associar com o objeto escrita, como ―prato de comida‖, ―cuidar dos animais‖, por meio de atributos vagos e indeterminados.

BY: A escrita é um prato de comida. (22/05/2013)

LU: Pra mim a escrita é pra cuidar dos animais, sozinho. (22/05/2013)

Já a fala de LO indica que o uso das palavras ―bonita‖, ―feia‖, ―idiota‖, ―coisa de bandido‖ para expressar suas ideias sobre a escrita pode estar associada às regras de comportamento de fala que teria aprendido com os adultos.

LO: A escrita é bonita, tem umas palavras que é bonita. Tem umas que é

feia: idiota, só coisa de bandido, feio, não pode falar pro pai e a mãe. Isto que é a escrita... (22/05/2013)

Apenas em torno dos sete anos, a criança atinge um nível de desenvolvimento que lhe permite compreender e elaborar processos mentais como os do adulto; até atingir essa idade ela utiliza equivalentes de nossos conceitos para compartilhar com os adultos suas ideias em formação, pois, de acordo com Vigotski:

[...] o verdadeiro amadurecimento escolar só é atingido no final do sétimo ano de vida. [...] Uznadze conseguiu demonstrar que nos casos de aparente predomínio do pensamento lógico somente existiam equivalentes de nossos conceitos que admitiam o intercâmbio de ideias, mas não a aplicação adequada das operações correspondentes (2006, p. 85-86).

Para concluir, no processo de planejamento das atividades de pesquisa, a pergunta ―o que é a escrita‖ foi formulada de forma inadequada às crianças em razão de seu caráter abstrato. Crianças de 4 e 5 anos de idade não têm ideias formadas sobre a escrita, ainda que lhe tenham atribuído algum sentido, até mesmo tentando incorporá-las ao conjunto de outros objetos com os quais pudessem encontrar atributos em comum. Essa tentativa de expressar o que pensam sobre a escrita por meio de pensamento em complexos difusos nos pareceu uma solução que encontraram para responder à pergunta da pesquisadora. Como resultado dessa situação, percebemos que, em pesquisas com crianças, entrevistas e desenhos demandam uma metodologia específica que deve levar em consideração a questão sobre como se formam os conceitos na infância, qual é o papel da linguagem nesse processo e como metodologicamente esse tipo de pesquisa pode ser viabilizado.